ode final para um amor

o amor passional é uma ilusão. o oásis espelhismo do nosso deserto interior. a febre dos olhos. o falso serviço do ser na resistência à solidão.

um pulo confiante de si diante do nada provável de alguém. na fome insaciável da alma a busca pelo alimento final, satisfação divina do eu.

a conjura em promessas do eterno, a sutil esperança de um abraço fugaz que nos salve do morrer. o feliz do encontro, numa certa infalível verdade.

o amor é a mais cruel das mentiras que ansiamos viver, pois o deserto é agreste demais, solitário demais, sem águas demais; e a solidão tem tão poucas palavras, tão poucas ressalvas, tamanha imensidão.

e o salto no abismo é de um oco infindável, sem beiras nem estradas para percorrer, nem a alma – tem calma – sossega ao chegar no silêncio do eu.

e o eterno é tão somente tão pouco, tão vácuo e distante que o fim se finge de cálido amigo, amor ilusório, única maneira de sobreviver, e ainda sorrir.

Espelho de giz na calçada

Fui de uma calçada à outra da Avenida Paulista, subitamente. Olhando de perto, o que do outro lado parecia distante; e agora no longe o que me parecia tão meu. Troquei somente de calçada sem nenhum motivo qualquer. Aliás, aqui entre-nos, faço isso sem pensar, nem predeterminar muitas vezes quando estou nos fluxos pela cidade.

Isso além de ser somente uma escolha fútil, na maioria das vezes não dá em nada especial, apenas o fato de eu mudar de calçada.

Hoje, porém, a calçada estava tomada por fileiras de palavras escritas com gesso. Estas avançavam vindo do asfalto em direção do muro, bem na frente da última casa antiga da avenida, ali na altura do 1909.

De chinelos, de joelhos, de toca até as orelhas, aparentemente bem agasalhado, com a pedra de cal na mão: um homem escrevia. Não me interessei pelo homem: apenas naquelas palavras dele.

Parei para ler desde a primeira linha, e para ler, era necessário ir se deslocando no compasso dos rascunhos brancos, à direita – isso poderia parecer óbvio – por ao menos cinco metros e em algumas frases, um pouco mais.

Eram passagens da vida dele, através do seu filtro filosófico, algumas cenas de violência, sua intuição literária, a experiência lingüística dos seus traços, unido à força da suas mãos, a tristeza eminente de seu passado, as mágoas e os perdões, palavras de ordem e amor, de desapego e altruísmo, de magia e conjuras de outrem, vários desejos devaneios fugazes percursos de o seu acontecer e existir.

O homem permanecia em si, escrevendo, e não se importava comigo, apenas com as palavras dele. Os transeuntes evitavam caminhar sobre os escritos, e menos, não se importavam com nos: um homem escrevia, outro que lia no compasso das letras de gesso.

Eu me vi no espelho de giz no asfalto: as escolhas determinantes, os acasos ocasos do horizonte, minha própria outra calçada, escura e cintilante, com minha pedra de gesso, as minhas palavras dos gestos, eu escrevia de joelhos, outro homem em pé quem me lia.

Chorei paz no silêncio da cidade, dentro do meu abraço e meus pensamentos.

No fim do texto, o homem não estava mais lá. Seu nome assinava o manifesto na calçada, espécie de tag do efêmero sob pisadas e futuras garoas. O enxerguei lá, do outro lado, onde começava o texto – sorte de metáfora da outra calçada – e desta vez por impulso do etéreo, por sede do encontro, e agradecido pelo momento fui até lá.

Apresentamo-nos, de voz e de mãos. Perguntei se ele aceitaria um casaco de lã – algum presente de há anos –, já abrindo a primeira jaqueta que eu levava por cima. Ele a aceitou, e aceitou um caderno de notas novo, e uma caneta preta – havia outra vermelha.

“O caderno eu estava muito precisando” agradeceu e o hálito esfumaçou a voz. Eu lhe agradeci pelas palavras de gesso, uma outra calçada na avenida de mim, e me despedi.

Copiei seu pseudônimo de artes no fim das palavras, outra vez do outro lado deste começo: SANTOLIVE ZIRANCHINHO.

Sobreviventes!

 

La Habana aos Meus Pés

Caminho por Habana. Cidade montada e remontada sobre antigos e novos pesares. Revestida de ilusões e magias. Cidade de poucos caminhos, tantas veredas e tantas e tantas verdades.

Em La Habana não existe soledad.

Nestes dois meses de diáspora voltei à ruas conhecidas, esquinas onde bebi e amei, lugares que lembro com o único perigo de querer ficar.

Muitas das pessoas que antes conhecia hoje vivem em outros países: como yo. Tivemos a sorte de cruzar os mares e ver amanheceres e pôr-do-sol num outro lugar. Nem sei se todos acharam a felicidade. Por exemplo, eu tive um filho e aprendi o português. Para alguém que escreve a vida, não há nada melhor que aprender outra língua, outro jeito de transcrever a solidão interior.

Em dezembro, muitos dos que foram embora voltam a nosso país. Fazer as contas do aluguel, deixar pago o celular, abastecer com cereais e leite para o dia que voltarmos. Alguns podem não ter visto este céu há muito tempo, e eu tardei quase três anos em voltar aqui.

Eu fechei minhas coisinhas em caixas, lacrei-as com palavras que me lembrassem do que  iria encontrar ali três meses depois. Acabou o contrato da casinha no Morro (sim, aquela festinha cubana não será mais por lá). Conversei possíveis retornos aos projetos nos quais trabalhava em Sampa. Troquei tudo que tinha na conta por dólares num dia de péssima cotação. Dei um abraço no meu filho, um beijo no meu amor e me despedi.

Eu nem imagino as peripécias de cada um dos que voltaram, só conheço a minha própria loucura e as escolhas que fiz. Como é a emoção de reencontrar com a família? Como é descobrir que agora tem filhos os amigos que antes brincavam de esconde-esconde?

Que aquela mocinha que uma vez me apaixonei hoje está longe de ser a mulher que desejo. Que não era tão delicioso o sorvete que tomávamos na adolescência. Que certa distância hoje é bem mais curta do que antes imaginava seria. Que as pessoas e até os amigos, por causa do capitalismo que renasce em Cuba, dão mais importância ao dinheiro e ao trabalho que aos encontros e à amizade. Que hoje quem tem, tem e outros que não tem, então não tem.

Nestes dias de intensa revisitação interior, reencontrei muitos amigos que tiveram que decidir ir-se a outro país. Todos eles estavam muito felizes, e yo. Havia nestes encontros uma euforia por reviver o abraço partido pela distância, as novas experiências e as solidões. Mas tenho a certeza: toda felicidade convive com muita tristeza para poder existir. Só cada um de nós, separada e internamente, sabe o que havia de ter vivido ao deixar esta ilha. Para viver como emigrante há que se deixar morrer a pessoa que nasceu naquele outro país, e não há morte que não leve lágrimas e lembranças, cinzas e saudades.

Por enquanto, estou de férias da vida real e o rum continua sendo o mesmo rum. As esquinas não mudaram de lugar. Alguns que foram estão de volta e os posso rever, e quem não pôde ou não quis ir ainda continua por aqui.

Logo menos está viagem acaba… É viver para escrever!