as beiradas de uma paixão

…é muito raro tudo que acontece: o acaso dos olhares cruzados, certeiros: sua voz dançando na roda: apenas para mim: era o perigo de ser você e eu: nos: eu queria o mesmo que você: mas o quê que é que nos quer: sentir: esse beijo acuado de públicos: esse sorrir ulterior de tão raro âmbar…

… não é o caos que rege o acaso, mas as continuas e ínfimas decisões que operam o milagre do encontro. mas eu me lembro de ter visto nascer o sol pelo poente, minha sombra era do avesso e o fim do sem-começo estaria por vir….

… oh o frio aquecendo uma rara distância, o mistério da luz anil no fundo da noite. você poderia ser essa única estrelinha que persiste…

… construí um castelo: as paredes eram sua pele, o portão alto é trajado com sua forma, leve e concreta nas linhas duras do seu ventre, as janelas são de um mel derretido no calor da vontade – que não cede – tem as saídas, numerosas, para as loucuras que temos de inventar por sanidade, brilham seus fios dourados, excentricamente colocados para atrair o sol no fim das tardes, tudo é aberto: o vento brisa o tempo pára. eu ainda almejo toda poesia que demore o tempo definitivo da esperança: levanto a bandeira, aplasto o ego, passados, concordância. nada é do acaso, menos este desejo que me abraça…

… quero fragmentos d´um instante, a metade do piscar, ainda menos que o suspiro, anseio o pouco do que resta, raspas dos sucessos, quero o som antes de ser palavra, quero roce divino minúsculo antes do tato… antes quis tudo, já uma vez quis tudo!

… a maioria das vezes não sei, nunca se sabe onde tramitam os afetos; por isso a rareza do hedônico é tão incomum como um abraço sincero de peitos nus…

… a desconfiança habita no que se dá por certo: de certezas, humanos não conhecemos nem onde nos espera a morte…

… penduro esta pele úmida no varal e vejo minha silhuete esticada no asfalto; estico as palavras dessa altura até o chão: as palavras não tem sombra nem mesmo a beira do sol.

O AVESSO DO TEMPO É VIVER.

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É a prece…

Tristeza mesmo, não tem fim. Como não tem fim, a alegria. O que tem fim mesmo é o que te faz feliz ou entristece. É, os gestos. É, os modos, trejeitos. É, as pessoas, nossas relações.

Tristeza fala da gente. Tristeza fala daquilo que gostamos, às avessas, daquilo que deixamos de gostar ou nos largou.

Tristeza tem jeito simples: procura aquilo que te faz melhor.

Tem tristeza que se curam só no mar. Mar profundo, azulejado, de céu com nuvens e solidão. Esta é a prece. Solidão numa conversa de bar com os amigos, mesmo que eles, iludidos, nem imaginem como você morre por dentro.

Minhas tristezas, aquelas mais fundas de mar, são as mais simples. Eu quando quero ficar triste – isto também é uma escolha – me entristeço com as coisas mais tolas. Bestas

Eu curto tristeza, confesso.

Tristeza me levou nos meus lugares menos conhecidos, aqueles que nem imaginava poderia chegar. Breus meus. Vulgares pedacinhos de mim que eu precisava conhecer. Sorte minha que entristeci.

E a tristeza do amor? Tristeza para lá de mar azulejo com nuvens e solidão. Tristeza que rói recifes e arrasta países. Às vezes é assim, não adianta correr atrás: não tem como fugir do mar.

Entristeço, é minha escolha: Solidão.

MEUS BREUS TEUS #ManoelAndo

MEUS BREUS TEUS #ManoelAndo