O menino e o balão

Nos trilhos de esta cotidiana vida

o menino resistia ser presa da fome

da qual miséria já era o abrigo

e o sorriso, estrela única de sua noite,

o bilhete pedia esmolas

um pai teria já morto

a mãe apenas resistia

as moedas eram propósito

desse pregão dos vagões

e o seu comparsa era a força de quem

não queria morrer naquele mesmo dia

(mas quem seria dele o alicerce

daquele papelzinho sobre minha coxa?)

daqui ou dali tirava algum troco

e de mim, pelo meu filho, raras moedas eu resistia;

ai em diante, ele vira nos meus olhos

o olhar distante perdido

ele enxergou meu pedido

de uma proximidade mais cuta

do que aquela simples ajuda

peguei rápido na boca

o ar exato de um balão em plena festa

e na frente de tantos outros olhares

enchi de ímpeto aquele roxo

enquanto ele, menino, mais tímido

sentava do meu lado, apenas dele o sorriso

“Você foi hoje na escola?”

e mais experto que onça

“Fui sim, senhor”

então com pouquíssimo traços

fiz daquele balão um rosto

menos feliz que o menino

e com as mãos vazias

dei-lhe o sorriso roxo,

mesmo na pressa daquela fome ambulante

ele se afastou feliz,

na corrida para trocar de vagão

deixou cair as moedas que já tinha

e o balão de fino sorriso também lhe escorregou

mas como a onça é ligeira

e de miséria não morre

lançou como se fosse fera

no chão pegar os metais

e o sorriso que eu lhe dera

ficou pingando no trem,

eu me assustei pelas perdas

pelo rosto do balão

mas mesmo naqueles instantes

de luta pela recuperação

eu perplexo dos acasos

que o meu presente causou

puxei meus últimos cruzados

o menino voltava pelo corredor

correndo trás o balão

eu um pouco contente

brindei-lhe aqueles centavos

e ele em agradecimento

ainda mais feliz que o rosto desenhado

deixou-me ver

apenas em gestos intuídos

que a fome daqueles dias

agora de ar guardado num balão

de rosto único

havia-se colorido de roxa sutil esperança

(talvez mais minha do que a dele)

 

 

 

 

 

 

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Solilóquio escrito no trem, entre a Luz e Guainazes rumo a Mogi das Cruzes

a arte de escrever é traduzir sensações em palavras,
sempre antes de que estas,
percam a esperança!

 

As palavras não tem mais fluidez que o reflexo; no vidro obtuso, procuro respostas que é, bem provável, não HÁ! As vezes enquanto aparece a questão, aparece uma parede de tijolos se colora, uma vida afundada sob os trilhos, uma rua aquietada, avenidas sem faróis nem pessoas; já viu crianças um dia comum corriqueiro? não né! os adultos as encerram para não lembrarmos de uma vez fomos crianças; FULMINOU o sol esse pensamento, um prédio novo, dois, vários edifícios de uma cidade que não acaba; nos meus opostos: um senhor de óculos lê um livro e um homem de fone fixa seu além num android; logo um muro interminável de grafias de um silêncio que é – e será – infinito: para que essa assinatura citadina, inteligível, inacabada? é a mania de existir que nos acaba, de brindar em vão nossas palavras: blasfemo, não me oculto; o dEUs que me cabe é vadio e me come dia e noite e madrugadas; silhuetes no viaduto, atravessamos à contra-luz aquelas sombras, um circo de lona desligado, de manhãs os palhaços folgam, pois quem de olhos vê o amanhecer não deve ser são as tardes que adormece – há uma pausa/pensar, a saliva acalma, tenho fome, esse corpo meu no fundo é meu inimigo; qual o sinal dessas nuvens que aconchegam o brilho natural dos acordes matinais, uma praça, tantos chorões pingando folhas e sonhos: a semente: uma nova paixão que me extravasa; acho que não há nada mais belo que ver sorrir por amar – aliás amor é fazer sorrir, nada mais -; suprema equação: este instantes de olhos transbordando, mente inquieta, queria atravessar-lhe suas pernas molhadas; toda insegurança é como o trem do retorno, do outro lado, vem da  volta o terror da sinceridade; queria mentir, ser melhor nos desacertos e nas ambições, me conformo: pecado sem religiões; o tempo despenca, eu lhe aceito, aceite-me também: azeite-me….

A cidade do Milton

Milton ia no vagão do trem. Sentado, observava a cidade passar através da janela. Ele, e eu frente a ele. Sozinhos.

Afora, o frio estreava um inverno longe dos outros. A brisa dava sensação do despir de um abraço, que se apagava num adeus definitivo. Tudo impregnava melancolia.

“As pessoas todas… “ disse Milton e eu olhei, vi centos, pisquei vi outras duzentas, “cada uma delas… “ a cidade avançava na janela, milhares ou milhões de pessoas “… sabe exatamente aonde está indo”.

Era o existir dos outros. Ele e eu éramos apenas testemunhas daqueles rascunhos de gente no vidro empoeirado.  A miúda verdade de que cada um tem em si, o poder de escolher.

“E nós?” ele olhava nos meus olhos, os meus nos dele, de nós “… sabemos aonde é que vamos?” O clarão do olho dele, avermelhou. O meu, de puro reflexo, cintilou.

A certeza dele, era também a minha certeza? O caminho? As nossas verdades divididas? As utopias? Procedimentos? As palavras? Eram nossos sentimentos igualmente perceptíveis? E os sonhos?

O trem deteve-se numa estação não muito distante. A porta abriu-se. Ninguém entrou. Nenhum de nós, desceu.

Os trilhos levavam a um só destino, apesar das escolhas, dos amanheceres, das despedidas, havia somente um caminho, para nós.

Milton vagou pelo vagão vazio. O barulho do trem nos ferros silenciou nosso afastamento. Tudo era ínfimo do outro lado do vidro: o mundo, os encontros, a poesia.

O poente avançava sobre a cidade laranja. A próxima seria a última estação daquela viagem.

Milton pôs a cabeça para fora, e gritou “descemos?” o trem ia nos seus trilhos, “ … ou voltamos?”