O melhor emprego do Milton

Milton perambula à noite pelo lobby da hospedagem. Faz uns meses ele fugiu da grande cidade para viver cerca do mar. Eu tive que vir.

“Aqui eu consigo respirar” disse ele e puxa num bocejo um pedaço da madrugada caiçara.

As estrelas estavam tímidas pela luz da lua. Umas nuvens dançavam no horizonte.

Milton arrumou um desses empregos que precisa ficar sorrindo. Recebe turistas em dezesseis línguas. Carrega as malas daqueles que sente pena, e não aceita gorjeta.

Sempre no entardecer, vai até a beira-mar, e em silêncio faz uma preze por mim. Eu que sou agradecido, lhe ofereço um cigarro do verde. E juntos vemos o sol se pôr.

Toda madrugada percorre as habitações à procura de uma que não esteja alugada. Vasculha os odores de quem por aqui ficou. Interpreta as dobraduras dos lençóis. O que restou no frigobar. O desenho das pegadas na poeira do chão. Os pingos de agua perto do chuveiro.

“É assim que você conhece uma pessoa” sentencia Milton, enquanto cheira uma fronha listrada. Daí ele alarga a mão e me passa o tecido.

Depois Milton me leva até a porta, me despede, e fecha por dentro.

Eu fico ali, ouvindo-o mordiscar uma melodia. Do lado de fora, eu aguardo ele desligar as luzes. Nem sempre consigo esperar, e durmo sentado numa escada ou deitado no jardim.

No outro dia, ele está de novo feliz e convicto de si.  Diz-me “Vai ser difícil irmos daqui” e se vá com pressa, receber um turista alemão “Enchuldigung, ich Bin Milton“ inspira profundo e sorri, depois pisca um olho para mim “wie gehts mein Freund?“.

De pai para filho (ou de como venho para onde vou)

Há um par de dias atrás que meu pai, lá em Cuba, se aposentou do único emprego que teve nos últimos quarenta anos. Nos últimos anos ele era o chefe do grupo de manutenção – serviços gerais – do Consulado Britânico em Habana.

Um emprego que serviu de sustento a nossa família. Um bom sustento. Em american dollars ou no seu equivalente em Cuba, CUCs.

Durante toda minha infância, minha adolescência e existência toda, el viejo Ramón dedicou sua vida a trabalhar para sustentar minha família. Tudo tinha começado muitos anos antes, quando meu avó Franscisco abandonou minha avô Dora, deixando para trás uma família de diez hijos. Meu pai se prometera e cumprira sua própria promessa e afã pessoal.

Papá, ¿dónde tú trabajas?”, era eu querendo saber, precisando responder à professora, na escola.

Eu devia dizer que ele era “pintor”, daqueles que cuidam do branco das casas, dos verdes dos jardins e do azul das piscinas. Em caso nenhum eu devia dizer que trabalhava para estrangeiros, ainda menos ingleses, muito menos capitalistas. Eu poderia sofrer represálias do tipo ideológico.

O trabalho dele era rigoroso. Lembro perfeitamente porque de criança, aos sábados ele me deixava acompanha-lo. Eram os melhores dias, brincando entre móveis que só estrangeiro, inglês e capitalista usava naquela ilha. Visitando casas de muito luxo, carros importados e comidas que nunca teria experimentado antes. Toquei brinquedos que nenhum dos meus amigos de bairro ou da escola antes vira.

Naqueles finais de semana, eu via ele, dedicado ao seu trabalho, sempre brincalhão e esforçado. Los yumas – como chamávamos os estrangeiros em Cuba – exigiam muito mais do que era acostumado nos empregos, serviços e instituições cubanas.

Assim conheci e aprendi english. Assim, como poucos na ilha, tive festa de Natal, com presentes da mão do Papai Noel. Como poucos, tinha bebido Coca-Cola. Tinha entrado em LandRovers e Bentleys.

Na escola e entre os amigos, zoeiras da esquina e da bola, até ente meus primeiros flertes esse fato aparecia como aparência de certo status.

Daquilo eu nunca teve orgulho. Orgulho no sentido de ostentar.

Meu pai tinha me ensinado que o único necessário era a comida, comer bem, com fartura e gosto, com desejo. E compartir. Dar simplemente dar.  

Em casa, ele que fazia tudo: obvio. E seria obvio, quase um lugar comum, que eu não aprendesse dele, por preguiça, por pirraça por lambança.

Faz um tempo que voltei de Cuba. Lá conversei com meu pai sobre a decisão dele de se aposentar.  Momento de virada, novos rumos. O homem estava feliz.

Eu na minha volta nem sabia o que seria de mim aqui no Brasil. Saber sem pretensões, apenas saber que ia me jogar. Então escrevi o meu destino. Vida, escrita em passagens memoriosos, com tons de acaso, e dias reais. Comecei trabalhar exatamente com o que ele por anos trabalhara, e com ele eu me negara aprender.

No mesmo dia que ele se aposentava do seu emprego com os estrangeiros, os ingleses, os capitalistas, eu pintava de mão e pincel uma porta restaurada. Antes a tinha desmontado, lixado e ajustado novamente. Era o meu momento de virada, novo rumo. Eu estou feliz.

A obra do Milton

Milton saiu cedinho de manhã. Não disse nada. Não levou nada. Apenas tomou um café e fez um sanduiche. Comeu uma banana.

Passaram-se umas dez horas, e ele voltou de noite. Tomou uma chuveirada. Não disse nada.

Assim foi-se uma, duas semanas. Ele saia cedo sem dizer nada, e sem dizer nada, voltava de noite.

No domingo respondeu “estou trampando na obra” e ficou em silêncio o resto do domingo.

Nosso corpo vibrava. Músculos, articulações e gestos se faziam presente como nunca antes. Eu não entendia o que me passava.

Eu revistei seus bolsos e as calças. Do nada achei um parafuso e duas porcas, um pedaço de lixa, arame, barbante, uma lista de compras de tintas, e algum troco. Tinha um cartão de visita de uma serralheria, e dobrados um desenho de um jogo de cadeiras e mesa.

“Era para ser uma surpresa…” desanimou, e pegou da minha mão os rabiscos.

Segunda feira de manhã saiu sem fazer barulho, a semana seria pegada no serviço. No domingo depois, quando acordei não me reconheci no café-da-manhã. Detrás de mim ouvi a voz do Milton martelando “eu que fiz essa mesinha”.

Páginas Amarelas

A poesia não paga as contas, Baudelaire. Poesia é coisa leve, sem osso nem sustento. Ninguém que lê paga um centavo por palavra nenhuma. Agora que acabaram os tempos de Lautremont e as peles de Schiele, agora que cessaram as noites de Bukowski e as ninfas de Nabokov, o que fazer com este caminho apalavrado que me inventei de estrada.

Ponho do lado o copo. Jogo janela fora os meus livros empoeirados. Não teve nenhum ensinamento dos poetas de outras vidas: como viver de poesia? como sobrevive um poeta?

E agora Milton? Fazer o que com os projetos de romance, com o livrinho de 30+1 contos das nossas peripécias cubanas? Será que acaba assim, o destino de nossos verbos e o happy ending de nossos personagens? 

Não importa a fome. Nem o sobe-desce da espiral do cotidiano. Não me preocupa não ter como pagar os ônibus, as contas, as cervejas. Me ocupo: como fazer para viver escrevendo? o único sentido que tem esta existência.

Me diz algo Caieiro: não é que as vezes, o real és real em demasia?

Necessito um trabalho…