Entre Pasárgada e Orión

Na minha viagem entre Pasárgada e Orión, o enfeite dos olhos era o vinho, um sangue remoto do humano, metade homem metade faisão, que me entregavam em frascos minúsculos, quase utópicos do real. Eu engolia com sede, com a ânsia fatal de quem em vida, apenas aguarda morrer, e a vida enfim era este raro efeito entre o submisso e o fingir. Daquele gole quase fantástico, eu me elevava naquelas assas que falavam as médiuns no alvará de canonização: eu era o filho do grande senhor, primogênito da única mãe de todos os cervos bípedes que estão a existir. Eu me merecia, do dedo gordo do pé ao último instante do único cabelo branco. Sim, eu perecia. O tempo esgotava sua poesia, que o verbo é apenas infinito sob as águas, sob as unhas corroídas do infame Poseidón, aquela última tartaruga que o mar demitiu. Eh lhe disse: “Tempo, você não escolheu me viver”e de súbito meus olhos fecharam-se. Sim, eu temia, que a casa da estrela real era falsa, nem havia cômodos divinos para atestar este efêmero existir, não haveria livros de histórias, nem penhores, alianças, testamentos, apenas este instante pueril, quase agônico, que eu sorria para a única imagem que tenho de mim. Sim, eu me adorava. Um silêncio cru que emanava do vil, do mesquinho, do trair. Eu usei minha mão… e confiei.

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as beiradas de uma paixão

…é muito raro tudo que acontece: o acaso dos olhares cruzados, certeiros: sua voz dançando na roda: apenas para mim: era o perigo de ser você e eu: nos: eu queria o mesmo que você: mas o quê que é que nos quer: sentir: esse beijo acuado de públicos: esse sorrir ulterior de tão raro âmbar…

… não é o caos que rege o acaso, mas as continuas e ínfimas decisões que operam o milagre do encontro. mas eu me lembro de ter visto nascer o sol pelo poente, minha sombra era do avesso e o fim do sem-começo estaria por vir….

… oh o frio aquecendo uma rara distância, o mistério da luz anil no fundo da noite. você poderia ser essa única estrelinha que persiste…

… construí um castelo: as paredes eram sua pele, o portão alto é trajado com sua forma, leve e concreta nas linhas duras do seu ventre, as janelas são de um mel derretido no calor da vontade – que não cede – tem as saídas, numerosas, para as loucuras que temos de inventar por sanidade, brilham seus fios dourados, excentricamente colocados para atrair o sol no fim das tardes, tudo é aberto: o vento brisa o tempo pára. eu ainda almejo toda poesia que demore o tempo definitivo da esperança: levanto a bandeira, aplasto o ego, passados, concordância. nada é do acaso, menos este desejo que me abraça…

… quero fragmentos d´um instante, a metade do piscar, ainda menos que o suspiro, anseio o pouco do que resta, raspas dos sucessos, quero o som antes de ser palavra, quero roce divino minúsculo antes do tato… antes quis tudo, já uma vez quis tudo!

… a maioria das vezes não sei, nunca se sabe onde tramitam os afetos; por isso a rareza do hedônico é tão incomum como um abraço sincero de peitos nus…

… a desconfiança habita no que se dá por certo: de certezas, humanos não conhecemos nem onde nos espera a morte…

… penduro esta pele úmida no varal e vejo minha silhuete esticada no asfalto; estico as palavras dessa altura até o chão: as palavras não tem sombra nem mesmo a beira do sol.

O AVESSO DO TEMPO É VIVER.

Instante mais, instante menos

Soa a maquinita do tempo. Cada batida é um instante a mais. E um instante menos. Durmindo acordo.

A maquinita de meu peito bate forte no sonho. Sonhei que caia do abismo mais alto, sem retorno da vida. No sonho beijava a mulher errada e não gostei do beijo. Errar é humano, mas não há desculpa que nos salve do gesto. Doía-me o fôlego entrando e saindo do corpo. Sonhei com pessoas que não teriam morrido, mas que no avesso da vida se afastavam para sempre e eu nunca mais as conhecia.

DESPIERTO…

A maquinita-relógio toca o alarme. Combinado não sai caro. Barulho chato do caralho.

É o começo diário inevitável de maquinitas humanas: maquinitas de fazer café, de esfriar o leite, de aquecer ou comprar o pão. Em poucos instantes: maquinitas de tomar banho quente no inverno e banho frio no verão.

No pequeno zoológico de mim mesmo, quase religiosamente, compulsivo e doente, agito o corpo, e ligo minha pequena maquinita de escrever a vida. MI VIDA.

Humanae-makinitas-ad.eternum essa é nossa espécie condenada e preguiçosa à vida-maquinaria.

CAMINO…

O sol é do leste e bate no rosto. A cidade baixa ascende todas e cada uma de suas maquinitas. Grandes e custosas maquinitas de engolir vidas. Têm quem sobrevive a essas rotinas, a esse descaso de sentido. Têm quem consegue botar sentido, e vive a pesar das rotinas, sendo engolido na sua própria maquinita.

Não há saída simples. Não há, não seja a felicidade. Encontrar o sentido de cada uma de nossas maquinitas, o porquê, o tanto, o fundo e o pranto.

SUBO O MORRO

Estou de emprestado pegando outras maquinitas para ver se tem sentido tudo isto ao que me amarro. Desgarro paredes. Aliso madeiras, metais, vidros. Seguro o calor ou frio, e o pó entrando no meu olho – minha maquinita de enxergar o humano. Construímos as últimas pequenas esperanças do perdido.

SUSPIRO…

De frente a uma árvore, lendo um livro, diante do mar calmo, da noite crua sem estrelas citadinas, na mesma noite de cigarras e grilos, dentro de um abraço, entrando no sexo amado, em pé sem correr da solidão, na eterna viagem bêbada das drogas, viajando no sono exausto do fim da jornada, no gole de álcool, na mais humilde verdade, em qualquer e cada uma das despedidas a maquinita do tempo acelera e para. É o impulso necessário, e o único que sei fazer nesta empreitada.

E a sua maquinita…?

Ilha à Deriva


BLOQUEO

 

O tempo não passa… para. O tempo é da gente, dentro… não passa. O tempo de ilha da gente, dentro, não passa… para. Não há tempo na gente que passa, da ilha sem tempo que para… e não passa. O tempo não espera a gente, a ilha que passa, o céu colorido de azul, tingido de sóis e pássaros pretos que cantam… o tempo.

Sentado no pé das memórias, tingindo de preto meu canto o azul, pássaros que passam sem tempo não aguardam… e dentro da ilha, o tempo não passa.

Para gentes, eu sou uma ilha sem pássaros e no azul sem sóis, canto o tempo que passa e não para… eu.

Cadê a ilha guardada no tempo e o azul tingido de pássaros? Cadê as memorias cantadas por gente sem tempo? Cadê o abraço de pé colorindo cantos que passam? Cadê aquele outro eu que antes passava, e agora não passa, nem aguarda? Cadê o tempo, os sóis, as gentes da ilha?

PARA!

Antes do choro, abdico da culpa. Não há tempo para arrependimentos na ilha que o tempo não passa. O tempo é de gente que passa, e não para, sem tempo de nada. E gente que não canta, nem enxerga os pássaros pretos nem sóis azuis nem ilhas que param o tempo que a vida não para, nem o tempo – se existe – não aguarda.

Eu – ilha-à-deriva – não paro… TEMPO ME PASSA!