Olhos de dentre

Ontem sonhei um sonho sem lua, onde o que iluminava era o escuro de uns olhos que eu havia esquecido, e desse preto da desmemoria, eu lembrei das lembranças de uma outra vida que eu havia vivido antes de todos meus sonhos com lua.

Daqueles olhos de dentro, olhando o que era minha vida, olvidei-me de tudo de antes e do resto que ainda me seria; no entanto de tanta confiança de este segundo que escrevo, me lembrei que tive tantos outros sonhos mesmo antes de té-los vividos.

Assim, de meu escuro de dentre, olhei-me bem por perto – silente – e vi que o que eu havia visto, era tudo que eu já havia morrido.

Ser

O tempo de viver é presente. Em presente do infinitivo. Um presente do infinito.

O tempo de narrar é presente, mesmo que seja difícil ser, não há outra manifestação na história que o presente do eu.

Os fatos e feitos dessa conseqüência ficam sós na memória. Lembrar é a interpretação de um presente. O vestido do baile de máscaras.

Os sonhos são o estoque de frustrações e realizações. Sonhar é o juízo do presente. A guilhotina em praça pública.

Conjugar o ser é definir o presente. Vestir de memórias ou sonhar os juízos de uma morte iminente.

Os melhores presentes do presente são o silêncio e o encontro. No primeiro você se encontra com você. No outro você silencia seu ser como em um baile de máscaras.

Viver em tempo presente é ser. Ir sem vestido nem máscaras no baile em praça pública.

O resto é vitrine. Alucinação.

outro sonho

era um sonho, tipo real, sonhado. eu queria falar com ela, por amor, ou por ausência do amor. doia-me a dor. liguei, mas ninguém atendeu. reparei, tinha errado um dígito. dígitos em sonhos são detalhes, combinações de cor, algoritmos pulsantes que parecem número. digitei de novo. uma mulher atendeu, solícita, entregue, acho que gostou da minha voz. eu não, eu queria falar com ela, não com esta mulher que se jogava em mim, para mim, pela voz no telefone celular. desliguei. meu filho durmia num cómodo. não estava preocupado, só queria falar com ela, para minha vida continuar. ela não queria falar comigo, era obvio. senão, talvez, só talvez ela teria ligado para mim. a policia chegou. sonho muito com policiais se fazendo reais no meu sonho. psicológos dizem explicam, mas eu não ouço, nem acredito muito na explicação dos sonhos. sonho. cadê ela? liguei de novo, meu filho no quarto, a policia invadindo a casa querendo pegar alguém, sei lá quem. ela não atende. o número é o correto, minha mente lembra perfeitamente o número de la. ela não atende. não quer falar comigo….

Sonho da Lua

 

“eu já fui até a lua
pra tentar te convencer
e acabei
conquistando a lua
só não conquistei você”

Até a Lua / Tião Carvalho.

Dos sonhos de vida, quase não tenho, nem tive. Nunca fiz questão de perseguir unicórnios brancos na ilusão de abraçar aquele animal divino.

Alerta… Desperto!

Nessa caminhada sempre me pareceu que as estrelas guias dos outros, desenhadas no desejo alheio, eram mais brilhantes e certeiras. Não que emprestei minhas forças no vão de uma amizade, de um amor, de uma façanha, apenas que os outros tinham melhor colorido aquelas noites estreladas.

Talvez fosse esse o intuito: não prender-me aos fracassos, e menos, aos sucessos.

Nesse exercício continuo das noites emprestadas, o fiozinho equilibrado sobre o abismo, o perigo não está na queda. O ponto era perceber quando o sonho dos outros, sonho nosso, conjunto, terminava; e sem magoas nem expectativas, a estrela guia mudava de estação.

Pulo… em voos altos, concebidos livres. Minha ideia era, sem ser, sendo.

Desde meu sol, os sonhos eram da lua. Eram de dia-em-dia, crescentes infinitos. No meu querer não cabia tanto, mas eu ia assim, cotidiano, sonhando tudo que sonho, sem querer tê-lo. Dentro, era tanta estrela guia, que os sonhos alheios até se coloriam.

Na primavera, sonhos meus eram de lua redonda branca e fúlgida. Iluminava-me os avessos. Eu amanhecia pelo poente. A noite era meu alto meio-dia. Eu acordava…

… minguante, que o sol também tem sombras do lado de dentro. Dos escuros internos não há como esconder os breus. Sonho que não vive pesadelos se esquece no divã da vida. Chovia na tormenta, e me molhando entregue, inundo, os sonhos ficam úmidos fluxos.

Sem estrelas nem sóis o que ilumina é a essência alma. Era novo o único. Na solidão sem lua, sonho meu renovado, primeiro de todos os sonhos, tudo brilha: estes olhos.

Lucecitas…

Milton, pai de noite

Milton e Benjamín se dão muito bem. Aliás, os dias que eles ficam um tempinho juntos, percebo que o baixinho fica bem mais feliz…

É sempre dele, poeta disfarçado de feliz, a ideia de trocar nossos rumos. Perder-nos em novas decisões, aguardando outra combinação até nosso destino. Demais descobrir como diversos caminhos podem nós trazer ao mesmo lugar, e Milton, é o rei desses destinos.

Benja sorri e como quem sabe, parte para diversão.

Em tardes de chuva, é ele quem sob guarda-chuvas alheios, canta as músicas que mais gostamos, e pisando poças d´agua, pulamos os três: Milton, Benja e eu.

Em noites, largas noches, quando meu filho dorme, mesmo eu sumido naquela outra vida que mantenho em sonhos, Milton nos reserva o silêncio entre nossos corpos. E se o pequeno acorda, sabe exatamente cada gesto meu, que eu faria, aquilo necessário… e que continue o sonho.

Eu os escuto falando, e quando pergunto querendo entender, meu filho responde: “Oh pai, não é com você!”.

Já vi seus traços de loucura no giz na mão do menino, colorindo sem medo

Rabiscos do Benja e Milton.

Rabiscos do Benja e Milton.

páginas brancas penduradas nos céus. E aquela música que eu nunca soube, nos lábios rosa de mi pequeño, repetidas com aquele tom que me emociona, e choro. E quando correm, a sombra do poeta de mãos dadas com as mãos do meu filho, sorridentes e insaciáveis, num só corpo, e no meu único desejo puro.

No inverno – porque o frio aproxima os plebeus – jogamos à sorte, quem será que acobertará com a mantinha nuestro hijo.

“Par ou ímpar?” – espeta Milton.