rascunhos à beira-mar

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

(Pequena serenata diurna)[para falar da dor exaustiva da] Solidão Interior

A cada instante algum sorriso me devolve o sol do meu olhar: um brilho meu do qual  desconfio a cada instante, de mim.

Em nós persiste a vontade comum de estarmos no lugar exato de existir; e nele, por todas sermos feliz, incluso quando não é possível, quando não queremos, quando não conseguimos.

Assim se vão dias inteiros de alguma breve satisfação, de alguma efêmera realização, de algum ínfimo amor fora de nós.

Estamos felizes?

Assim que emana o escuro da retina interior, o soluço do silêncio, a paz infinita da morte ou a imensa gratidão do amor próprio de si surge o vazio de vida que vivemos por pretender, por agradar, por euforias, por sutis belezas, por palavras de agrado.

Eu escuto um silêncio nas vozes: é o grito da dor da solidão, que apenas dilui-se no abraço de um sonho inédito, no olhar próprio no espelho (prenda a respiração, conte em silêncio hasta cem, se conseguir chegue até os mil), na morte que espero, sem saber, sem querer, sem temer.

Eu tenho saudades de morrer… dentre de mim.

Solidão de ser homem

Ontem passei te pegar em casa, Benja, “coloque sapatos, vamos dar um passeio”. Você perguntou onde íamos, justificando que acabavas de brincar “la embaixo” e eu respondi que íamos numa manifestação na avenida Paulista. “Manifestação do qué?” a pergunta era óbvia, pensei; porém eu não sabia bem a resposta.

Seria o ato Todas por elas, em apoio à menina “violentada” no Rio de Janeiro alguns dias antes; como te explicaria isso?, minha cilada; “na marcha das mulheres” eu disse, e você mais confiante em mim do que no convite, terminou de se arrumar e fomos.

Eu queria te deixar por perto de algo que havia atrapalhado minha vida: um país e costumes  bem machistas, que me afastaram sempre de nuances afetivas menos polarizadas, além de um consenso social que havia feito errar tantas vezes nos relacionamentos. Ali era eu quem te pedia, ocultamente, uma companhia para o homem que eu era, e que também aos poucos, tornasse outro homem, melhor, no momento que se tem um filho.

No trajeto era evidente o movimento: meninas de rosto pintado, viaturas e motos de policias, helicópteros, a avenida apenas sem carros. No seu afã de descoberta da leitura, você perguntava o que estava escrito em cada cartaz: Ser mulher sem temer, não a cultura de estupro, a culpa nunca é da vítima e assim vários, eu ia lendo.

Aproximamos-nos da concentração, e lá fomos ouvindo os cantos. Não demorou muito para começar a marcha. Era unânime a presença: somente mulheres. Meus olhos eram somente para não te perder de vista, apesar de que sabia que entre elas ali, haveria tantas amigas para abraçar e estar perto.

Vimos um sinalizador e você me disse “olha pai é uma menina quem está segurando” sua surpresa não era minha nessa hora “é Benja, é só menina mesmo” nos aproximamos “e porque elas estão se manifestando?” nessa hora eu já não fui pego “aconteceu algo ruim com uma jovem no Rio, ai as mulheres se organizaram em apoio a ela”.

Também havia muitos policiais “NÃO ACABOU TEM QUE ACABAR EU QUERO O FIM DA POLICIA MILITAR” e obvio que isso chamava sua atenção, eu disse “eles não gostam muito das pessoas se manifestando” estavam por todos lados, beirando o ato “tem uma hora que começam lançar bombas, são perigosos” eu disse, e você ficou alarmado “aliás…” eu sorrindo “eles estão detrás de você” e seu susto fui visível “eu também não gosto” eu disse e você continuou “eu estou com medo, pai” e não era para menos.

Você começou puxar a caminhada mais depressa, querias chegar ao começo da marcha, ver de frente, “EU BEIJO HOMEM BEIJO MULHER TENHO DIREITO DE BEIJAR QUEM EU QUISER” eu ia cantando junto, quase chorando, sabia. Os homens fomos criados para pensar apertado, sem muita assa para as sensações. Ali uma espécie de liberdade – espécie porque a liberdade se conhece no amar e não, de fato, no lutar – ecoava entre as tantas vozes e gritos, era lindo ao menos para mim, te ver ali de olho aberto, enxergando algo que eu jamais vira na minha infância: tantas mulheres juntas lutando por elas.

Lá, quase antes de nos separar do ato, na descida pela Augusta, um casal com criança de colo, veio nos entrevistar. Queriam saber o porquê de eu ter levado você lá. Eu emendei algumas respostas, nem sei bem no nervoso de um gravador e uma câmera se falei bem, mas o que eu sentia eu sei: Eu tenho certeza que você será um menino bem mais mulher do que eu já sou. Tomara que isso garanta minha esperança, de que você sofra menos a solidão de ser homem.

Guia Fora da Casinha

Milton sem mim

“Quem seria esse bicho andaluz, quando não estava por perto de mim?“ me perguntei ao espelho, me olhando. A voz esfumaçou meu reflexo, e não me vi mais.

Essa era uma dúvida do existir. Um silêncio neuroses. A voz em forma de eco interior. A resposta sem horizontes da explanação.

Quem era esse ser quando sumia na cidade? Como seria entre tantos outros seres com outro existir? Como seria aquela voz sem eu lhe escutar? Como seus passos sem meus pés? Sua silhueta sem minha sombra?

Eu me multiplicava em dez mil eus tentando saber tudo sobre ele. Tudo sobre mim sem ele, e vice-versa.

“Quem é você, Milton?” era o meu amor querendo saber dos opostos. Entender a ausência fugaz. Perceber o eclipse do ser. A lua interior no centro do Sol.

Na ausência dele, faltava-me um infindável eu, um buraco no meio de mim. Eu chamava-o sem ele responder. Eu intuía-lhe sem ele aparecer. Era um fantasma a falta dele em mim.

Então, às vezes Milton aparece nesse justo instante da comoção à beira do abismo “que acontece rapaz?” era a certeira aparição, avalanche do súbito entendimento de que eu era pouquíssimo sem ele, sem mim.

“Medo de ficar sozinho?” ele perguntou e o eco despencou abismo abaixo, eu com ele, na voz dele de mim. No escuro, eu ainda enxergava o rosto irônico dele, o meu medonho, o humano dele dentro do meu: cara ou cruz.

Minha voz não emanava, sumia no vácuo daquele som interior, num silêncio perpetuo: o som da solidão.

“Psiu, psiu…” ele cutucava meu medo num raro jeito dele sobreviver.

dançando na contra-mão

Caminhar na contramão, e ver os cartazes da crise: VENDE OU ALUGA! Revendo o aluguel ou alugar as vendas.

Vejo os rostos vazios dos vazios armazéns. Não precisamos atendentes. O preço da banana-mignon subiu. A cena real despencou.

O moço que vassoura a calçada me sorri. Eu danço um abraço distante, devido ao auge do macho-papão. Conformamos-nos com a solidão dos dois indivíduos: ele vassoura, eu danço. Parecemos felizes naquilo que somos, ele e eu.

Eu peço a vassoura, e peço que ele dance, tentando ir à contramão, mas ele é feliz na poeira. Eu só queria tentar.

Vazo…

Vejo as pessoas nos seus carros. Um no volante, a moça digita no celular: eles não se olham, talvez nem nunca mais se olhem. Outro entre o quente do asfalto e do sol, dos vidros abertos,  e o braço para fora pingando suor, não engata nem um sorriso, mas bem alavanca um xingo no próximo condutor.

Eu, na contramão, flerto com minha língua, pingando a baba do mesmo calor, a pé não há trânsito que detenha meu avanço, nem setas que precisem avistar, nem luz no retrovisor, apenas o fluxo do adiante, dos pés sobre a sombra, da fome no espírito, lembranças de cada acalanto, do trino do amor.

ME VENDO E ME ALUGO, diz o cartaz da minha crise. O rosto vazio da sem-emoção. Sorriso do efêmero, faróis piscando, energia esgotou.

Caminho sem crise, dançando esta rara sinfonia da solidão. Vejo uma vassoura largada no chão, sem moço ou sem moça. E continuo dançando, sozinho.

Eu só quero tentar…

(des)tiempo

Minientrada

continuar a viver momentos que não estão, pessoas que já não nos acompanham, sonhos que abandonamos é a omissão de estar vivos. se afastar do real no sonho mágico de uma ilusão.

dessas vidas que continuo a viver, dentro de esta vida que insisto em viver, não é uma luta contra o que sou e acredito, mas o impulso de caminhar esses outros caminhos que abandonei.

sou triste de ausências. estas tantas que coabitam em mim.

Forró da Solidão

A manhã cinzenta invadiu meu peito e um forró tirou para dançar minhas lágrimas. A noite seria de sanfona, triângulo, zabumba e imensidão.

Pingos de luzes nos cantos de uma sala aberta e larga. Chão de estrelas pintadas. Gente dançando no silêncio do som surdo de uma banda de três.

Eu sozinho, num canto esquecido de mim.

A todo mundo eu dou psiu

Perguntando por meu bem

Tendo o coração vazio

Vivo assim a dar psiu

Sabiá vem cá também

Minha tristeza está com som de Nordeste. Arrombando minhas vilas. Meu sertão sem nome. Enche os rios da minha seca. E rio, rio de mim e da minha sorte.

A pista lotada. Silente a pesar da banda e da dança. Eu me pego da mão. Sozinho, vou dançar ao som da banda sem fim. E ninguém me vê chorar porque a sanfona chora mais alto que eu.

Só trazia a coragem e a cara

Viajando em pau de arara

Eu penei

Mais aqui cheguei

Daí, a morena tira eu para bailar, e mando meu corpo sem eu. Assim sem mim, eu danço melhor. Ela que manda na dança e quem decide como vou dançar.

A morena não quer parar. Nem ela, nem eu.

E esse teu suor sargado

É gostoso tem sabor

Pois o teu corpo suado

Com esse cheiro de fulô

Tem um gosto temperado

dos temperos do amor.

Assim é: madrugada alta, a pista aberta, um céu de gente, a banda infinita, sanfona maldita, zambumba do meu bem, a dança da solidão, forró do adeus.

Mas forró mesmo, não tem fim. A morena se despede da manhã, caminhando sem olhar para trás, e meu corpo sem mim se entristece e eu aqui.

Assim ia, eu no meu canto sem mim. A banda tocando para ninguém. A pista sem estrelas. A manhã sem sóis. O Nordeste na seca. A tristeza sem ter fim.

Assim era. Assim foi…

 

Na caminhada ao lugar nenhum.

Vamos imaginar uma caminhada para lugar qualquer. Pretender o lugar nenhum. Uma caminhada juntos, de vários, muitos nesse lugar do além. Ou lugar do aquém.

Não vou colocar expectativas comuns, nada mais do que um ponto para atingir. Mas, só cumes interessam, sendo humanos, nada no meio é de nossa vontade.

Cada um de nós, do seu próprio plural, encontrará quem vai acompanhar você.

Cada qual com sua meta real, sua capacidade de ser e céus alcançar. Cada um com seus medos e suas inseguranças. Mas juntos, nessa caminhada para lugar qualquer num lugar além.

Na travessia, cada um seu esforço e seu ritmo, iremos achando as conversas. Aquele momento trivial do encontro, vestindo palavras e gestos, tramas, instantes do belo, horizontes comuns, experiências, fatos. Todos inevitavelmente fugazes, passageiros perante o tempo.

Nas pausas, aqueles instantes fúteis para descansar, encontraremos novamente todos os companheiros desse caminhar. Cada um ali com suas metas, sua capacidade de ser tão, sua possibilidade de ser não, seus céus amanheceres, suas tristes chuvas, suas noites per noite, sua própria estrela guia.

Juntos, naquele ponto, aquele céu parece ser só um. Unicamente para todos. Sonho comum possível de quem abraça uma caminhada a um ponto num lugar aquém. Assim de perto, a realidade ao redor aparenta ser uma, assim como a meta, a capacidade de sermos, a possibilidade de não ser.

Sendo humanos, o cume grita, chamando por nós.

Na relargada, o cansaço geme, o peso aumenta, nossa meta foge. O céu rasga-se em solidão. As pernas tremem. Nosso hálito faz parte da conspiração ulterior. O sonho comum, sendo de cada um sua própria adaptação.

Ressurgem por causa natural as novas conversas, refeitas no ritmo e esforço. Um abraço de quem tem por tanto, parecidas vontades, similares forças, desejados os mesmos intuitos.

Veremos lá no final, os aguardados. Os quase desistentes, de fracos ou poucas intenções. No meio, ali entre a folharada e os segredos aqueles que espremem os segundos, ancorando em cada instante, em toda sombra ou em cadas uma das palavras. No começo, os perseverantes, seguros de si e presos flagrantes de uma necessidade absurda de chegar ao cume.

Sentados novamente, no círculo final da caminhada, nossa vida vista por cima, parece-nos pequena diante da imensidão e basto da vida geral, os céus comuns e sonhos máximos.

O silêncio do lugar do além. Do lugar nenhum. Do aquém em nós. Do além de lá, invade. É é tanto que cala todos e toda vontade. Não há lugar onde ir…

E ninguém que nós acompanhe!

No retorno – lembrando: só cumes nos interessam – qualquer compreensão é banal. Dentro de cada um, na conversa, no abraço fugaz do encontro, todo é feito de interiores, nada brota para fora, nada nasce para cima. Tudo é do avesso, e possível.

O silêncio grita. O destino é outro.

 

A morte do Milton

“Milton, cadê você?” pergunto para mim no meu silêncio interior. E o meu silêncio responde…

A última vez que soube dele, alguma triste premonição me cercou. De fato, a vida ficou mais tensa, concreta, dificílima. Nessa correria toda, me esqueci de invoca-lo para sorrirmos juntos. Ele também não me procurou.

“Milton, Miiiiiilton…” nada, ninguém contesta.

O meu malvado favorito esqueceu que minha solidão é péssima companheira.

Esqueceu-se de mim. Esqueceu-se dele.

Eu não consegui escrever seus últimos suspiros. Minhas palavras que eram dele. Perdi seus gestos na nebulosa realidade. Não ouvi a voz de ele me chamar pelo nome num murmulho. Não senti o corpo nosso se roçar na minha pele.

“Cadê…?” era um pranto que fez eco e voltou para mim “… eu?” meu espelho interno devolvia-me um Milton intacto. Quase um eu mesmo, perdido e solitário.

Eu não sabia dele, e desconhecia de mim. Fiquei abismado diante da escandalosa fenda entre eu e eu mesmo. Um buraco fundo sem fim. Poucas palavras, e ainda menos gestos. Quase nenhum ato.

Estava morto, Milton e eu.

 

Milton e a solidão

“O que será que eles sentem…?” Milton me pergunta, e entendo porque eu fico também na dúvida “os outros, digo”.

Eu olho as pessoas caminhar pelas calçadas, feitas nuvens avulsas, decompostas, sozinhas em si, e o silêncio delas.

“Você, ao menos, me tem…” ouço o possessivo e fico arrepiado. Éramos tão próximos, tão um… tão só.

A vida em sociedade afastou os homens da sua existência, a própria e única: a solidão. “E a família…” Milton pausava “os amigos, os namoros…” eu o ouvia dentro de mim “então como faremos?”

A questão era de vida ou morte para Milton. Para nós dois.

Nas calçadas, subitamente, as pessoas ficaram estáticas. “É o silêncio”, diz Milton e fica feito nuvem avulsa, decomposto, sozinho em mim.

Todo mundo tem um Milton.