anarco amor (o amor de tod_s)

quis amar de amor, inteiro

silencioso e inquieto

sumário e infinito

querer sem medo

de boca aberta

.                                   olhos fechados

à sombra do meu sentimento

.                                                         ou da minha guerra raivosa

(de mim) avessos meus

ventanias do ego

ao amparo de mil ladainhas

confissão de reais mentiras

sim… eu mentia!

se eu dissesse

se gritasse

se escrevesse isto que escrevo

no espelho

no bafo de um gozo gemido

as coxas raspando o couro

a pele tambor da minha agonia

minhas coxas devotas

rara especie de cuíca umedecendo meu choro

de pernas remotas

uma perto da outra

entreabertas

frente uma da outra

as gotinhas

sanguinolentas

pingavam o chão

no fértil do instante

lua rota

era… somente… esta noite

minha

brasa insana

verdade da sua liberdade

a flor das minhas flores

de um jardim tamanho dos céus

meu bafo no teto

certas estrelas pendiam de longos cabelos

(que eu prendia) com abraços temidos

eu mesmo os prendia

era o vento dos tempos

um passado violento

um futuro nefasto

um presente sincero

e a rima dos ventres

um tapete de grama… e?

quem puxava as raízes?

quem raspava minha barba no concreto?

de quem o desejo de brindar nosso amor aos amores?

num bazar de livres vontades?

num mercado de breves instantes?

de quem era a sede dos bastos oceanos?

aquela ilha flutuante à deriva

onde sobrevivia o último dos ancestres de um amor verdadeiro

abriu-se este raro espelhismo

“você sobre os chifres da Besta”

um humano invejoso, salivante, incrivelmente formoso

ciumento,

.                      possessivo,

.                                              angariante

eu era a sombra,

derrapado na lua da noite

e eu queria um morte sofrida

um desgarre

um desvende

ou um ultraje final como prova

que o amor era agua do mundo

parte sangue

parte sonho

feito areia

fato certeiro

ignominias desta incógnita

dos versos

ou das noites

ou do sexo

dos adEUses

ou desta sinfonia que desconhecíamos

mas que – sem querer – cantávamos

feitos um

sós

juntas todas

essas feras coloridas

que entre a relva

como formiguinhas

nos amávamos

consumindo-nos.

 

 

 

 

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Milton, O Alter-ego do poeta que nunca existiu.

Milton acorda. Uff, estou vivo. Aqui estão  as mãos, as pernas, enxergo bem, respiro, aqui o meu pau rosa, minha pinta oculta. Está vivo, confere? VIVO!

Milton acordou pensando em poesia. A orgia no sonho o deixou inspirado. Mas sonhos não se contam, nem para terapeutas nem para leitores. Sonho é meu, somente, eu.

Milton é como eu mesmo. Nasceu no dia que aquela bruxa disfarçada de escritora jogou no lixo minhas poesias, quase literalmente. Nem eu nem Milton ficamos bravos, estávamos suficientemente entretidos em olhar pela fresta entre a saia curta e as pernas da bruxa A bruxa nunca me quis e o Milton se vingou dela. Gracias Milton por ser tão valente, negar-se a uma mulher é um dom concedido só aos alter-ego. Homens não poderiam fazer isso, vá contra as leis que ditam o fluxo do humano.

Então Milton espreguiça o corpo e sente a mulher perto dele. Milton gosta de dormir acompanhado, mesmo que o espaço no colchão fique pouco para dois corpos lado-a-lado. A pele dela é lençol de seda, crispa no tato quente do Milton. Eu fico na inveja e assopro no ouvido dele o desejo contido do meu ventre. Quero mais, Milton, você tem que querer sempre mais. Mas alter-ego não tem essa de querer mais, só quer aquilo mesmo: fémea, movimento avulso do corpo, suor, algo de raiva e gozo, muito gozo.

Milton não serve para escrever. Ele vive somente com sonhos e é feliz assim.

Passa a mão na menina que respira delicadamente sobre o rosto dele. Um tesão do caralho. Um tsunami ventando nas janelas. A fome dos dez desertos do celibato. Não aguenta, e entorta o corpo à procura de todos os cheiros.Para Milton – e para mim – não há vida sem cheiro. O que não cheira, não vida!

E assim fica, ele cheirando aquela vida toda dentro da menina, dormida e cúmplice, e eu, poeta morto escrevendo a vida que ele vive.