(Pequena serenata diurna)[para falar da dor exaustiva da] Solidão Interior

A cada instante algum sorriso me devolve o sol do meu olhar: um brilho meu do qual  desconfio a cada instante, de mim.

Em nós persiste a vontade comum de estarmos no lugar exato de existir; e nele, por todas sermos feliz, incluso quando não é possível, quando não queremos, quando não conseguimos.

Assim se vão dias inteiros de alguma breve satisfação, de alguma efêmera realização, de algum ínfimo amor fora de nós.

Estamos felizes?

Assim que emana o escuro da retina interior, o soluço do silêncio, a paz infinita da morte ou a imensa gratidão do amor próprio de si surge o vazio de vida que vivemos por pretender, por agradar, por euforias, por sutis belezas, por palavras de agrado.

Eu escuto um silêncio nas vozes: é o grito da dor da solidão, que apenas dilui-se no abraço de um sonho inédito, no olhar próprio no espelho (prenda a respiração, conte em silêncio hasta cem, se conseguir chegue até os mil), na morte que espero, sem saber, sem querer, sem temer.

Eu tenho saudades de morrer… dentre de mim.

Pretinhosidade

Eu não sé muito de mim, por isso não me questionei a minha voz dentre tua canção. Você é quem bem sabe! Assim, sem você, perdi o fluxo dos meus passos na pretinhosidade do Éden ou o Calvário.

Sim, você sabe de mim
Quando eu não to afim
Quando eu só quero brincar
Não, sim, mesmo que eu diga não

 

Diante do reflexo do meu sorriso, mesmo diante da minha negação, os instantes se foram num pingado café à beira-mar. Molhei os pezinhos numa maré de alto-rio. Depois sumi na correnteza do mais puro amor. Avistei as areias da felicidade. Não havia o perigo de nelas sucumbir – isso achei. Ainda, com dor, ainda acho.

 

Entretanto não vá

Não vá me abandonar

 

Uma aranha curvou suas pernas pro céu num fantástico bocejo de nudez. O escuro da noite vetou a felicidade de um “sempre feliz”. Todos te olhavam. Eu te amava assim convertida na bichinha dos meus pastos sem luz, na besta da minha imaginação, nos seus olhos de paz olhando o sem-fim de uma paixão interior.

 

Como em teus bosques. bebo nos teus rios.

Entre teus montes, vales escondidos.

Faço fogueiras, choro, canto e danço.

 

Éramos abismo para cair. O eco da queda sem medo. Soneto dos corpos discretos, um dentre do outro, deliciosamente nossos. A beira-mar nosso rio. A pele pretinha luzindo os brios, e os breus. A voz do nosso som parecia infinito. Todos escutavam. Eu também assim o escutava.

 

Agora é só eu e você
Juntos na mesma estrada
Atravessando a madrugada
Pra ver o sol nascer

 

Eras começo. Eras meu fim!

 

Prá você é o fim da estrada

Ainda és!

 

Obs: Músicas de Mart´nalia e Paulinho Moska, todas interpreadas pela Mart´nalia. 

Desabafo

Eu deveria escrever saudades… mas me aflige a dor. Bem fininha, esconderija no peito, matou.

Tudo torna, retorna. Nem você, meu filho, me abraçando, não consegues. Você pôs seus olhos nos meus, juntos. Disse pouco e me abraçou. No fundo, no fundo, o abraço abafou tudo que havia de dor. Só que não…

As ausências todas, não tinham acabado. Ao contrário, na vida, as ausências só aumentam.

Era só mais um dia, comum, de teu retorno. Eu queria chorar todos os momentos que perdi da tua caminhada. Queria chorar, nesse instante, todos os momentos do teu futuro, já crescido, caminhando solitário.

Era de mim de quem eu chorava. De uma tristeza fatal que não me larga apesar dessa alegria que teu abraço me regalava.

Nada tinha mudado. Talvez sim, a voz. O jeito de contar com palavras o que sucedeu. Eu estava perplexo, silenciosamente, do orgulhoso que sou, sendo eu, pai seu.

Eu talvez não compreenda tudo isto… estou desabafando mesmo.

Funeral de famosa

Diariamente alguém famoso morre. Seja um cantor, um escritor, uma atriz pornô ou um ex-presidente. Diariamente assistimos nos noticiários funerais alheios. A morte virou dinheiro. A dor subiu no Ibope.

No dia que minha avó Dora morreu tinha no cemitério mais de duzentas pessoas (ya comencé a llorar). Ela não era artista, nem famosa, nem menos líder da Revolução Cubana.

Dora foi mãe de dez filhos, uma sequência de netos, e até conheceu quatro ou cinco bisnetos. Tinha morado quase toda sua vida no mesmo endereço que ela viveu. No bairro de Santos Suarez, num bairro calmo de La Habana.

Naquela noite, no velório, minha prima ou tia Elena, não lembro, veio me perguntar se eu seria capaz de ler a despedida dela que tinha escrito meu tio Esteban. Eu era dos poucos que não chorava, focado na dor que meu pai sentia, e que nunca antes eu tinha visto ele assim.

Aceitei pelo orgulho. Pela dor. Pela falta de lágrimas.

No dia seguinte, depois que o caixão desceu seus três metros, e já lacrado o túmulo, dei um pulo e subi-me naquele box de granito branco. Sob mim toda minha família, meu pai aos prantos, meus amigos do bairro, e nas minhas mãos um papel frio de sessenta e poucos anos de vida, resumida poeticamente por alguém que a amava muito, mas que escrevia desde as neves do Montreal.

Eu li segurando o hálito enquanto escutava gritos, choros, pancadas de todos aqueles que talvez sem aceitar a morte, morriam de dor naquele instante.

A vida era curta apesar dos sonhos. Eu tinha vivido com aquela vieja todos os anos da minha vida (até ela partir). A dor em mim era tão grande como a dor de todos aqueles que me escutavam, mas eu sem entender ou querer saber, preferi ler sem lágrimas para que o resto chorasse em paz.

Minha avó Dora era famosa por ter criado sozinha uma família imensa, conhecida nas ruas próximas como “los muchos”. Era simples. Jogava o jogo do bicho todo santo dia, com combinações de sonhos, datas de aniversário e número que pedia ao acaso a qualquer um. E como minha casa tinha muita gente, as melhores festas do bairro aconteciam sob a vigilância dela.

Minha avó morreu e não saiu na imprensa cubana (que dedica seus esforços em manter só a cara-pálida do governo Castro), não precisava. As ruas do Cemitério de Colón perto do panteão da família Esquenazi (quem doou um espaço no túmulo judeu deles) ficaram lotadas de velhos conhecidos, vizinhança, amigos, filhos, netos, bisnetos e eu, sobre o granito branco, lia uma carta de despedida.

Quando acabaram aquelas frases adocicadas e não houve para onde fugir os olhos, levantei a cabeça e vi aquele mar de gente aplaudindo ou sei lá o que, cai de joelhos literalmente e rasguei a chorar.

As pessoas me pediam para me acalmar e para não chorar. Eu não tinha chorado a noite toda, então chorei para valer.

Dora y yo

Dora y yo

SAUDADE, Essa estranha palavra

“Benja, papai vai ficar com muita saudade”, isso eu falei para o meu filho segurando o pranto, ainda naquela casinha distante do Morro do Querosene. Era meu último dia do ano de 2013 em terras brasileiras, e o meu último dia junto com ele antes de eu viajar a La Habana, esta minha distante terra cubana.

Era a maior tristeza de uma despedida jamais vivida, agarrado da maior felicidade que jamais esperava.

Meu peito era, simplesmente, insuficiente… quase impossível sentir tantas emoções em tão poucos instantes.

Entre@Linguas

                                                    

“Eu não vou ficar com saudades” disparou ele frio, com toda a certeza de um homem de três anos, eu não segurei o choro nem a felicidade. Era ele o filho que eu necessitava para aquele momento, e era ele, meu grande Benjamín num abraço que eu juro, senti todo seu infindável peso, como nunca antes tinha sentido num abraço. 

“Eu sei Benja” foi o único que eu lhe disse depois, e assim me salvava.

E quase um mês se passara neste lado flutuante da minha vida. Tantos encontros e abraços, tantas histórias rememoradas, tantas esquinas revividas, e aquele abraço infinito dele, ainda me abraça. Como a vida que se vive, ou a morte que nos acaba.

Te vi meu filho na rua, correndo; não naquela ilusão desmedida da loucura, e sim no sorriso imaginado do teu rosto feliz. Te vi nos carros antigos que alguns só conhecem por fotos, mas que aqui cheiram a diesel e existem por mil. Te vi brincando na praia verde-azul onde pulei sete ondas antes do ano acabar. Te vi dormindo comigo, dentre as mesmas paredes onde eu também cresci. Te vi junto com a minha família, entre os mesmos dilemas e alegrias que eu vivi.

Te vi no futuro real do presente que ambos viveremos, e que não vejo a hora comece a acontecer.

Te vi… eu simplesmente te vi.