cenas para um roteiro em branco

CENA 1 _ EXT / DIA / PRAIA
na onda verdeazulada, o vento modula as formas do mar e dos corpos, ela surge sorrindo, o sol se encanta com o brilho, que se opaca traz uma nuvem de adeus e destino.

CENA 2 _EXT / RUA VAZIA – NOITE

um gato transita sem sombra. ninguém percebe o movimento da noite. somente a mariposa que apaga suas cores de luz neste beijo.

.                                        DESCONHECIDO (voz em off)

.                                              Você tem fogo?

CENA 3 _ INT / BANHEIRO / DIA

não há agua, nem luz, nem pessoas. somente um silêncio transita os azulejos e as torneiras, restos de umidade escorregam os vidros, semen no tapete, sorrisos no espelho.

.                            OUTRO DESCONHECIDO (fuera da cena)

.                                         Tem alguém no banheiro?.

 

Olhos de dentre

Ontem sonhei um sonho sem lua, onde o que iluminava era o escuro de uns olhos que eu havia esquecido, e desse preto da desmemoria, eu lembrei das lembranças de uma outra vida que eu havia vivido antes de todos meus sonhos com lua.

Daqueles olhos de dentro, olhando o que era minha vida, olvidei-me de tudo de antes e do resto que ainda me seria; no entanto de tanta confiança de este segundo que escrevo, me lembrei que tive tantos outros sonhos mesmo antes de té-los vividos.

Assim, de meu escuro de dentre, olhei-me bem por perto – silente – e vi que o que eu havia visto, era tudo que eu já havia morrido.

Olhe Aos Olhos

assim como  o rio arredonda as pedras contra as pedras,
nos arredondamos nosso ser com o ser alheio.
haja rio. haja coração

 

Olhe aos olhos

Não a roupa que vestem os gestos

Olhe aos olhos

Não à palavra que alma o ego

Olhe aos olhos

Não às escolhas que fizemos em vida

Olhe aos olhos

Não ao consenso que juramos convívio

Olhe aos olhos

Nem as diferenças que politicam os dias

Olhe aos olhos

Não à fumaça do sucesso

Olhe aos olhos

Nem a fantasia de bastas lideranças

Olhe aos olhos

E olhe as crianças, as árvores e aos horizontes

Olhe aos olhos

De uma noite sem lua estrelada

Olhe aos olhos

Não ao salivar da boca

Olhe aos olhos

Não ao piscar de um medo apaixonado

Olhe aos olhos

De um orgasmo de dois ventres

Olhe aos olhos

Do fantasma de você no espelho

Olhe aos olhos

De fronte às palavras que sossegam seu próprio desterro

Olhe aos olhos

De um estranho e descubra o sem-fim da existência

Olhe aos olhos

De um prolongado silêncio

Olhe aos olhos

Da sua sombra, ela é a única que não mente

Olhe aos olhos

De uma solidão sem mágoas

Olhe aos olhos

Olhe

Olhe aos olhos

Olhe

Aos

Olhos.

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#OlheAosOlhos na Av Faria Lima com #Manoelando

espirais

Existe uma espiral no peito

destino próprio de si

no caminho crucial dos sentidos

avalanche comum do existir

de palavras que sucumbem na névoa

da singela voz interior

perguntas cotidianas

anseios do imenso

mascaradas do ego-sonhador

fantástica sapiência dos céus

evocados naquele dEUs infeliz

vingativo de rude substância

incapaz de assumir seu devir

a ilusória verdade dos além

d´um futuro sempre mais promissor

de infindáveis luxurias do corpo

nos outros corpos

(cada vez mais belos corpos)

no desejo do alheio

da esperança perdida

d´outros cantos

da mesma velha sereia

que abanica sua cauda infantil

na profunda galaxia

nos confins

do amar.

 

 

 

 

 

faça frio, venha calor

estou afiando a faca para sepultar a morte,

o destino da ponta é meu peito,

o dos gumes nosso inverno. >>  <<

 

a mariposa não pousa na sua mão porque você a persegue. somente, num vento andaluz no instante seguinte ao sol se apagar no seu anseio, com os olhos fechados num beijo – de nos – , é que ela se entrega.

no vazio do trem, as pessoas. no interior do ser, o silêncio. no oco da voz, as memórias. no profundo de um sonho, maresias. na ventania do tempo, os preságios e os remorsos. na esperança do eu, nos e outros. no abraço a solitude, a esperança, ciclo de sete cavernas do escuro eterno.

nunca é azar o acontecer dos acasos, nem tem destino o respiro dos encontros, nem horizonte final o oceano de um sonho, não é o dia o amanhecer dessas noites, nem o inverno consegue esfriar nossa febre, não há palavras para escrever sentimentos, nem silêncio para calar a existência

Réquiem para um Abril

 

no frio aqueça-me,
no calor derrete-me,

na chuva abrace-me,
na noite esqueça-me.

entrei NOS TRILHOS da vida
num trem que partindo
não saberia o retorno.

nem eu sabia o conforto
que essa loucura traria
nas estações do outono.

o balanço desse rolé
é embaçado demais
para quem imagina

que o trem que parte, retorna
e descobrir num puta de um transe
que a vida que vai, se foi!

 

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nas paredes, o branco do cinza
se instaura
nos rostos, silêncios do fundo de si
nos abraços, se acalmam os afoites
natureza perdida de nos
nos olhares, afeições se fundem
a palavra se nega ao amor
ela sonha em vestir um para sempre
nosso agora é réu do sentir
na mordaça, gemidos se aplacam
impossíveis enfeites do veraz
teimam nos tornar infeliz
seja sã do seu ser e seus olhos
natureza é firme no co-existir.

 

 

cinco flashes entre silêncio e esquecer

tengo brazos en varias latitudes,

memorias allende este presente que vivo,

recuerdos de otros instantes con personas que (quizá no) existen,

atemporal en el recuerdo y el olvido,

soy yo, ahí donde también existes!

 

 

sete ondas tem o mar que eu pulo num só impulso, aparecem frestas dos fundos, maresias do meu ser, andorinhas litorâneas, peixinhas escorregadias de olhos sem fim, onde é que some o horizonte? onde acaba esta utopia?

 

 

no sozinho do que sou, sendo, 
no silêncio de entender, histeria, 
no percurso de fluir, epicentros,
nos avanços de ter, desacertos, 
na entrega do amar, manifesto
na vileza de existir, amanheço! 

 

 

as palavras que não foram testemunhas silenciam a partida/
carimbam o desdem abrupto do que não é /
compreendo a desempatia /
o agreste lunar no grama dos dias /
apenas o esquecimento salvará a utopia /
de saber /
ou imaginar /
de inventar /
as sem-saídas /
este estágio anestesia o revés /
vai restar pouco nos registros /
a dor não reconhece memórias /
apenas apago /
ou sobrevivo.

no furo da terra
o fundo de um sonho
emana o abraço
o tamanho do mundo
sorriso do espelho
amor que te amava
no escuro do beijo
no outro destino
de línguas possíveis
te amei no silêncio
talvez tão miúdo
que parece outro sonho
morada ilusória
do tempo passado
no furo do peito
cacimba da águas.

profundas superfícies

A realidade é pouca nas sinapses dos poetas, inventar mundos é a única saída decorosa…

 

…gastar palavras e gestos,

inundar o instante e o ócio,

pretender máscaras e roteiros,

aborrecer a negligência e os afetos,

morrer de agrestes e alegrias,

fundar a raiva e a melancolia,

forçar adeuses e perdões,

desistir o que foi e o que não seria.

 

a alegria é contagiosa e popular,

ações de prevenção de pragas e vírus, 

devem ser aplicadas invariavelmente.

 

 

o silêncio são das relações, o que as palavras são da solidão!

 

descobri no meu silêncio as respostas de outras vozes, que confirmaram por sua vez, o sentido do meu “sem-palavras” e neles o grande sentido do meu recolhimento.

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