Fidel: comandante ou ditador?

… toda memória merece uma lágrima e um sorriso

 

Eu nasci, e ele estava ali; provavelmente presidindo um discurso da fé patriótica versus o medo do ataque inimigo. Era o ano de 1980. Anos depois, nos primeiros agostos da minha infância, lembro-me vagamente de uma imagem colada, em cores gastos de chuva, na porta de casa; um adesivo do líder verde-oliva, perto do olho mágico que brilhava na calçada.

Hoje esquecido na larga memória, as primeiras vezes do nome dito, no clarão dos ensinos escolares, do herói militar, seguidor dos ideais do Apóstol – nome que se dá José Martí, principal pensador, poeta e intelectual cubano neocolonial – , contra à tirania militar nos anos 50, o salvador, triunfante, o quase agradecimento pátrio-paterno, por ter crescido no seio da minha – e de todas as outras – família, merecedores do processo libertador, emancipador de uma nação, da minha ilha, e por conseqüência histórica e geográfica, o também devir de um continente e de um processo político regional. Ele era essa rara espécie de deus que governa os dias e os destinos, como os Deuses já guiaram os romanos, os gregos e ora,  guiam tantos os todos humanos que sobre a Terra sobrevivem. O Deus nas paredes do meu país levava o nome de Fidel.

Na escola havia um retrato na direção e outra na secretária. No mural de informações sempre uma das frases das tantas proferidas. Murais de rua pintavam seu rosto barbado. Na televisão, era garantida a íntegra de seus discursos, a repercussão das decisões da Revolução que ele encabeçava, no âmbito de nossa ilha e no mundo afora.

Nas noticias e no governo, Fidel estava em todas as conquistas revolucionárias, como idealizador e condutor. Nas ruas, era também responsável por tudo quanto era de ruim na sociedade, numa clara isenção da responsabilidade pessoal dos indivíduos.

Nas casas, no recôndito do silêncio familiar, entre uma refeição e outra, entre um apagão e o próximo, entre as filas do bairro, entre as notícias da televisão estatal, nos ônibus escassos e muito baratos, nas comemorações, praças públicas, eventos políticos, nos bastidores da sociedade que aceitamos – as várias gerações de cubanos– havia uma sensação de gratidão e decepção pelo grande pai Castro.

Era dele, a responsabilidade pelos logros sociais e os dogmas ideológicos na educação. Pelas medalhas nas Olimpíadas e pelas deserções nos Pan. Dele eram os destinos dos médicos em países amigos e pela falta destes no posto do prédio onde eu morava. Eram dele, os que estudavam nos países do leste europeu, e os que morriam em balsa tentando chegar aos estados norte-americanos. Eram dele, os refugiados das ditaduras latino-americanas e dele, os cubanos exilados políticos em Miami.

Eram as crianças sem fome, os adolescentes sem sonhos, um povo assalariado, uma diáspora raivosa, alguns intelectuais do terrunho e outros tantos já emigrados, alguns poucos com tudo bem arrumado em terras e imóveis, a ausência de milícias ou paramilitares, os militares no comando, zero narcotráfico, uma imprensa do governo, um bloqueio dos norte-americanos, todos os países não-alinhados, sempre as ótimas alianças políticas, e ele, grande líder: El Comandante.

Desde pequenos ouvi falar do fim daquela dinastia – há palavras para tudo! –, e com isso brincávamos naquela adolescência tardia da crises dos noventa, entre conversas quase silenciosas nos fundos das casas, ninguém se acostumava com o desacerto do insosso futuro que nos esperava, éramos o povo-à-deriva, o real maravilhoso da invenção do que ainda não era e nem seria. Acho que por lá, muitos  desejavam aquele final do deus humano: “o que será de nós, o dia que Fidel morrer?” ou na aquela forma mais intuitivo e primitivo desejo da morte, em profundo medo da nossa própria morte? essa mediocridade quando se detém o poder das próprias e justas ações individuais, em detrimento do poder de um governo, e suas leis.

Todo ano que virava, a duvida vinha: “será este ano que el Fifo vai morrer? ” Era um desejo de ver a monotonia mudar de rotina, não por vontade própria, nem ação popular, não por proposta da força de um povo, o meu; ainda bem menos, ou pior; no comum da morte de um ser, neste caso o mesmo poder em pessoa, um rei, um herói, um soldado, um comandante, um ditador, um militar, um pensador, um manipulador, um estadista?

No ano 2000 ou pouco mais – no tempo da minha memória-vitral colorida e orquestrada– o Fidel, havia ido re-inaugurar uma escola na esquina de casa onde eu morava. Foi a vez que mais próximo estive daquele homem: o bairro estava mobilizado para a ocasião, carros policiais circundavam a região, a avenida foi fechada, a multidão fechava um círculo entorno a escola. Cheguei lá, lembro que por impulso da minha irmã ou mãe, não sei bem: lá estava descendo, vestido de verde, alto e imponente, cumprimentava e despedia-se acenando adeuses – a los dioses? Em mim, lembro da energia que vibrou ao meu redor e me contagiou, era um calafrio natural diante da presença humana de um deus.

<< Fidel Castro morreu >> simples assim. Pessoas morrem, não era deus nenhum. O mundo se manifestou, e depois obviamente se dividiu. Os cubanos, a maioria, se dividiram: COMANDANTE ou DITADOR?

Pensei em meus amigos que ainda moram lá – Cló, tú? Tan triste febril, tan festeira –  haveriam comemorado a morte, gritando trás janelas fechadas com medo de ser por alguém recriminado? Minha mãe, meu pai: haveriam chorado a paz de todos estes quase sessenta anos, os anos doados, os plantões cumpridos, o serviço militar, as horas voluntárias? Minha sobrinha, que hoje ainda na escola estuda que o Fidel fez a Revolução que garante ela estudar numa escola pública, a mesma escola onde eu vira de perto ao Fidel;  como seria para ela presenciar a morte de um deus de suas páginas. E minha mais nova sobrinha, menos de um mês de nascida, o que será que ela saberá deste dia, que lhe contarão nos livros de História, ou nos mesmos, a família.

Eu tive um dia desses na rua: sem celular, sem jornal, sem televisão. Não acompanhei os debates entre as hordas  nas redes sociais. Eu – neste minuto, três dias depois dessa morte – ainda não me escrevi uma palavra com minha família na ilha. Eu não senti nada especial naquele instante sobre a morte daquele ser. Não havia mágoas algumas. Também nenhuma gratidão. Pensei que talvez um dia, meu filho me perguntará como era aquele homem, ao final: “que o tempo passa, e tudo se esquece, ninguém ficará para memória ulterior”.

Obama, presidente de uma ilha-à-deriva

Barack Obama é o novo presidente de Cuba. Ou ao menos, isso aparentou nesses três dias que esteve passeando com sua família e comitiva pelas ruas habaneras. Além disso, fez discurso histórico no Gran Teatro de La Habana, no mesmo palco onde o Enrico Carusso, cantara lá pelos anos de 1920. Depois presidiu jogo de béisbol entre um time profissional de Miami e a seleção cubana. Ainda se reuniu com alguns opositores políticos do governo cubano.

A política de governo de Obama com relação a Cuba contrasta opostamente com tudo que tem acontecido desde os anos que Fidel Castro comandou sua toma de poder no ano 1959. De fato é tão contrastante que diante dos discursos proferidos em terras cubanas, Obama parece mais engajado com o porvir da sociedade cubana que de fato, seus vetustos comandantes.

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Air Force One antes de pousar no Aeroporto José Martí

O jogo de poder dos Castros – tenho muitas dúvidas sobre a existência ainda em vida do Fidel – é permitir essa injeção de capital que tanto se precisa para manter girando o rotor enferrujado da pseudo-política pseudo-comunista cubana. Depois de ter visto desgastadas as relações com Venezuela, e após o fracasso de tentar atrair investimentos brasileiros de mais peso, Castro preferiu se aliar aos americanos.

Estes acordos com os “yanquis”  permitem várias mudanças em questões de comercio e cooperação, mas que beneficiam diretamente somente as instituições cubanas, que dito seja, pertencem ao governo; enquanto discussões sobre direitos humanos como livre associação ou liberdade de imprensa continuam fora dos assuntos a serem tocados.

Na conferencia de prensa onde os dois mandatários estiveram, foi apenas Obama quem falou, pois Castro não teve nem sequer máscaras para esconder sua despreparação política, sua falta de carisma e compromisso com o povo o qual ele representa, e ainda por cima, tirar uma onda com a figura de Obama – porque aquele gesto que evidentemente caracteriza uma marionete passa longe de ter sido um acaso.

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

Para quem é cubano, sabemos, todo o que o presidente cubano-americano Barack Obama presenciou não passa de um teatro paraplégico com roteiro assinado pela Seguridade do Estado (G2) onde até cada pessoa que ele cumprimentou ou ouviu fazem parte do elenco. Talvez – eu tenho quase certeza – alguns dos opositores presentes na recém reinaugurada Embaixada dos Estados Unidos em Cuba fazem parte das hordas castristas de repressão. No estádio de béisbol onde os Tampa Bay derrotaram a seleção cubana todos os presentes eram quadros políticos ou até mesmo policiais à paisana.

Por outra parte, a postura do Castro é vergonhosa e patética, assim como as dos apoiadores do governo que nas falas que tem vazado nas redes sociais, tentando desmoralizar os discursos do Obama.

Longe está de haver mudanças significativas na sociedade cubana, isto porque os chefes, militares e gerentes das empresas estatais vivem bem demais como para querer por em cheque suas vantagens. O povo, silente e amedrontado, silenciado durante anos não consegue ver a realidade pra além dos noticiários estatais – onde diga-se não devem ter passado as íntegras as intervenções de Obama – continuará longe dos benefícios que os governantes usufruem, e continuarão a cegas, ameaçados pelo medo que tem, de ver as bombas norte-americanas caindo sobre suas casas.

Obama partiu – quase há dois anos ele dava o primeiro grande passo. Ele ganhou individualmente, por méritos, o posto do presidente norte-americano que decidiu descongelar as relações diplomáticas. Saiu no lucro, pois colocou no bolso uma nação que há cinqüenta anos estava pronta para morrer ou viver pela pátria, esperando que os norte-americanos nos bombardeassem, nesse jogo dos governos totalitários usam para manter o povo do seu lado.

ps. me antecipo a dizer, que esta minha íntima observação sobre recentes acontecimentos acontecidos em Cuba, com o presidente Obama e o povo cubano, não serve como régua para quaisquer interpretação sobre a política bipartidária que acontece hoje no Brasil. 

Aos meus amigos de vermelho

Estamos todos, num momento crucial nas eleições presidenciáveis no Brasil. Um momento tenso, onde está em risco a luta de uma sociedade à procura de erradicar a desigualdade social que historicamente vive-se neste país há quinhentos anos. Nesse contexto, na briga entre a Dilma e Aécio, tem se mencionado muito a relação do Governo com o meu país de origem: Cuba.

Sobre o programa Mais Médicos já comentei na época sobre os prós e contra do mesmo.

Nos últimos dias, os debates tocaram a favor ou contra sobre a presença brasileira no porto do Mariel. Obras que teriam sido financiadas pelo BNDES e executadas pelas maiores empresas brasileiras do ramo.

O porto do Mariel ficou famoso no ano de 1980 quando após a invasão da Embaixada do Perú por centenas de pessoas insatisfeitas com a situação na ilha, o governo cubano em acordo com o governo dos Estados Unidos, permitiu a saída de vários presos políticos. Nesse momento histórico da emigração cubana, o governo da ilha permitiu, ou exigira, a saída de reconhecidos detratores da ideologia castrista, de homossexuais, artistas e escritores de oposição.

Naqueles dias minha mãe me carregava na barriga, e foi ela, negando-se ao pedido do meu pai, que fez que eu nascesse em Cuba.

Sobre os fatos atuais, minha compreensão, para os amigos que defendem como eu a continuidade do governo da Dilma e usam os investimentos do BNDES no porto cubano, como ponto a favor nessa campanha.

O porto do Mariel pelas suas caraterísticas geográficas é muito importante para o acesso entre as Américas e Europa. Pela profundidade da Baía do Mariel permite a entrada de barcos de grande porte, que viriam ou iriam através do Canal de Panamá. Lá o governo cubano, com apoio brasileiro, está concluindo um dos maiores Polos industriais do Caribe, algo assim como o Polo industrial de Manaus. Grandes empresas multinacionais estariam radicando-se na ilha por ter boas condições de pagamento e baixíssimos custos de mãos de obra.

A mão de obra cubana contratada, seria mais ou menos nos mesmos moldes que o dos profissionais cubanos que atuam no Mais Médicos. Uma empresa estatal faz o meio campo entre as empresas no Porto e os professionais. Nesse meio termo, a empresa estatal fica com a maior fatia do contrato, e repassa aos trabalhadores apenas uma porcentagem.

Tanto neste caso, como nos médicos que estão no Brasil, eu não tenho a menor dúvida, que os professionais cubanos ainda ficam contentes, porque o salário nestes contratos internacionais ainda é bem superior ao que eles receberiam se trabalhassem dentro das normativas cubanas comuns.

A questão principal nestas transações é que a fatia que fica com as empresas estatais termina financiando o governo do meu país, que – agora berrem aos prantos, vermelhos – deixou a muito tempo de ser um governo de esquerda com interesses sociais como prioridade.

Hoje em dia, e há muito tempo, Cuba é um país comandado por militares e famílias de políticos que por anos, ficaram à frente dos ministérios, parlamento, bancos, terras, hotéis e forças armadas com a caraterística fundamental de não ter nenhum diálogo com a classe trabalhadora.

Para os extremistas de esquerda, não estou abdicando nem negando as reformas politicas e sociais dos idos anos dourados do governo cubano, e das quais, conheço aqui no Brasil, vários fiéis seguidores. Porém, há muito tempo estas propostas estão longe de ser palpáveis para o povo cubano.

Ainda, o governo de Cuba, durante todas estes anos tem sido intransigente com questões de diversidade ideológica, não permitindo nenhuma oposição ao seu modelo de gestão. Perseguindo, encarcerando e até matando opositores para manter a hegemonia partidária e ideológica na ilha.

Então, nesta reta final dos debates a eleição, e defendendo a democracia que todos queremos para o Brasil, eu não aceito que um ponto a favor seja a vantagem de ter cooperado no Porto do Mariel, e que desta maneira aceitar que o governo brasileiro, apoie sim, um processo político muito mais complexo que a simples margem de lucro entre empresas no Polo industrial do Mariel e seus assalariados cubanos.

Não, aquela ilha no Caribe, não é mais o berço de ouro das igualdades latino-americanas. Deixou de sê-lo, para não arriscar e dizer que nunca fosse, pois se é para todos, tem que se ouvir os que discordam. Não é, e não será enquanto a família cubana esteja dividida nos cinco continentes, seja pela simples vontade de angariar e ter posse de coisas e valores, como o resto do mundo deseja, e tem; e obrigados a viver distantes porque existem leis que proíbem cubanos de voltar na sua terra. Não é, nem será enquanto quem dirige o barquinho-à-deriva sejam os mesmos de sempre, caudilhos cinquentenários que apelam a pátria e os costumes revolucionários mas que banham suas contas e poderes se distanciando sempre de quem não tem nem pode.

Aos meus amigos de vermelho, eu sou o mesmo que conhecem, eu mesmo, mas um povo sofre na distância isolada do Caribe, o silêncio de não enfrentar esse marasmo politico, dita ditadura, com o qual o atual governo brasileiro compactua.

Havia uma vez na academia (militar)

Quando era pequeno meu pai contava sempre de seus tempos de militar. Ele também esteve três anos de serviço obrigatório na Base Aérea de San Antonio de los Baños.

Na época dele, eram três anos, e como ele era fascinado por aviões fez um curso de técnico em manutenção de fuselagem. Assim ele garantiu que aqueles anos, ele estaria fazendo o que mais gostava.

Minha irmã e eu ouvimos muitas das anedotas dele, com muito interesse. Das vezes que ele fugiu para ver a mãe dele, ou para encontrar uma namoradinha. De como faziam para inventar uma febre com pasta dental. Dos colegas que se deram tiros no pé para ficar de licença temporal. Dos que morreram tentando fazer isso. De como eram filhos-da-puta os oficiais. Dos plantões frios cuidando estrelas e grilos. De como, alguns amigos viajaram para Angola a cumprir missões de combate, alguns voltaram e outros não. De como no helicóptero, antes do primeiro salto em paraquedas, um amigo dele morrera e suspenderam o salto dele.

Minha irmã e eu sempre que ele começava dizíamos “Era uma vez na academia…” e já rachamos de rir. Ouvimos muito dos sofrimentos dele e da solidão. A pesar disso, sempre falava com carinho daqueles tempos pertos dos aviões, sua maior paixão, e que da alguma forma não foi concretizada, já que não deixaram ele continuar a carreira.

A pior história, e que sempre me deixava triste, foi quando na última semana antes da liberação do serviço, um oficial que estava de olho nele, o pegara dormindo no plantão da pista de decolagem. Era um delito grave para os tempos da Revolução, a principal pista de defesa aérea de La Habana estava descuidada e os aviões e munições em perigo.

Ele foi punido em corte civil-militar, e preso por um ano mais, de cumprimento de serviço.

Em pé!

DE PIE! era um grito. A luz acende. DE PIEEEEE! É o sargento de plantão noturno.

São as quinze para as cinco da manhã de cada dia no bairro de Las Guásimas há mais de 50 kilómetros do centro de La Habana.

Acordo com os gritos. Às vezes sou eu quem grita, sendo o sargento de plantão noturno. Tenho, eu e os outros soldados do meu batalhão, quinze minutos para arrumar a cama, e me vestir para os exercícios matutinos.

Vestir-me, ou deveria dizer quase vestir-me.

Passado esse tempo, o sargento grita FIRME e o oficial de plantão entra para conferir a organização dos beliches, a arrumação geral do quartel, e a semi-vestimenta dos soldados e sargentos.

À voz de formação, do fundo do quartel à saída principal, saímos todos de bota e meião com ligas, calça verde-oliva ajustada firme com cinto e sem camisa sem importar qual fosse a temperatura fora.

Naquela região do interior habanero o clima é muito úmido e frio no fim da madrugada. De fato, pouco antes de o sol aparecer, é o momento mais gelado do dia.

Enfileiradas, todas as companhias do batalhão, todos a meio vestir e com frio, com sono, o oficial verifica a presença dos soldados com o sargento de plantão. Qualquer falta de um de nós, incorre em punição para o sargento.

Verificação feita, o oficial puxa um aquecimento de exercícios e de movimentos básicos da formação militar. Tudo regulamentado e coordenado. Qualquer diferença, ou erro de algum de nós, incorre na repetição exaustiva e repetitiva do exercício, até acertar os gestos justos de toda a companhia.

As vezes, o oficial põem o sargento para puxar o treino. Os sargentos costumavam ser mais rígidos que os próprios oficiais, tentando ir bem ou simplesmente exacerbando todo o poder e erguendo-se até impor todo o ego.

Tem um momento para treinar corrida de curta distancia. E depois uma corrida de três quilômetros até o centro do povoado de Las Guásimas. Uma vez por semana, a corrida é de oito quilómetros sendo a metade deles, por estradas de barro e mato.

Na chegada, sem muito protocolo quem chega pode ir para o banheiro, terminar de arrumar a cama, fazer a barba, arrumar o armário, lustrar as botas. Exaustos, uma hora mais tarde será o café da manhã: um pedaço de pão, algo de leite pura, talvez uma fruta ou até um ovo mexido.

(Quase) todo santo dia… entre 1999 e 2001.

DE PIEEEEE! 

A vez que a policia me chamou para depor

Intimações policiais são comuns em Cuba, do tipo político-censor, repressor.

Uma vez conheci um grupo de norte-americanos, estudantes de uma faculdade que estavam de visita em Cuba. Tinham se dividido por temas de pesquisa. O rapaz que conheci, teria que pesquisar sobre a saúde em Cuba, as experiências de missões médicas, ou a Escola de Medicina Latino-americana, com sede em La Habana.

Durante uns dias levei ele conhecer amigos que trabalham ou estudavam medicina. Levei-o em um hospital. Depois conhecer o consultório médico do prédio onde eu morava.

Ele fez suas conclusões e voou para Boston.

Dias depois, um oficial esteve na minha casa e entregou uma citação para os dias próximos, na estação policial do meu município.

Rolou aquela tensão em casa de eu ter feito algo errado, mil hipóteses. Fui lá.

Numa daquelas salas clássicas de cinema americano policial, ou de qualquer ditadura militar, um policial à paisana, tipo inspetor, fez-me várias perguntas. Respondi sem muito medo, e deduz que aquilo tinha relação com meu tour com o garoto norte-americano.

Naquele ponto, já eu achei aquilo tudo uma palhaçada. Alguém, entre as mesmas pessoas que tínhamos entrevistado, teria advertido daquela projeto dele, a policia.

No final, o cara fez-me a proposta: quer trabalhar para nós? No meio artístico, tem muitos intelectuais, dizia, que não são a favor da Revolução. Sabiam que eu era do bem, dizia, que seria muito valioso para a defensa das Conquistas, dizia, do Socialismo.

Falei que não cooperaria com nada. Que eu já tinha vida para cuidar, projetos, enfim.

Anos depois, amigos meus, próximos alguns, contavam dessas experiências. Tinham sido abordados, chantageados, incriminados, perseguidos. Na real, nunca saberíamos ao todo, quem desses próximos trabalhavam de fato para os esquemas de segurança política do governo cubano.

A brincadeira era: que de cada quatro cubanos, um era informante do governo. Mas de fato, isso não era uma brincadeira, pois a policia trabalha com esse tipo de abordagem, repressor e chantagista.

Muitos dos meus amigos daqueles anos, os que ainda vivem na ilha, tem sofrido durante anos, citações, sequestros e intimações por parte da policia, o braço militar opressor do governo cubano. Escudados sempre no discurso de que estão cuidando o patrimônio revolucionário cubano em detrimento da falta de liberdades individuais.

Intimação policial feita á blogger cubana Lia Villares

Intimacão policial feita a blogger cubana Lia Villares

Não há diálogos. E de fato, acontecem sequestros, pedidos de apresentações em delegacias policiais, escutas telefónicas, pressão nos centros laborais ou meio artístico, censura na mídia e outras práticas comuns de ditaduras militares ou ideológicas.

Tem uma luta legítima, popular, cívica que pede entrar no diálogo com o governo que omite, a través do argumento de que estás pessoas são comandadas e patrocinadas pelos americanos, em discutir sobre os rumos de uma nação. O governo não só omite, senão reprime, coage e ameaça qualquer tentativa de mudança ideológica ou politica.

 

FACTOR COMÚN: A História Real

Amanhã ia ser um dia especial. Tudo porque com ajuda de vários amigos íamos projetar pela primeira vez em Cuba, a web-serie animada Factor Común que eu idealizei e escrevi durante o ano 2011 e que foi produzido para internet. Factor Común é a historia de três jovens cubanos que juntam seus esforços para criar um projeto sociocultural comunitário, enfrentando-se aos desafios de se organizar numa realidade institucional burocrática e com um governo totalitário como o cubano, e que o único que possuem é a vontade de fazer seu projeto acontecer.

factor comun

A energia não poderia ser mais bonita. O lugar escolhido para a Premier Real – já que a serie jamais foi vista em Cuba por causa da censura a internet – seria em La Oficina, um projeto independente que trabalha com audiovisuais e fotografia que nascera há pouco tempo no Vedado, no bairro mais movimentado de La Habana.

O principal objetivo era mostrar os muñequitos para os amigos, e com umas copias mais assegurar que Factor Común começasse a circular pelos computadores cubanos. Fizemos uns flyers– mó bonitinhos – para repartir em outros eventos e ativamos uma corrente de sms para avisar mais pessoas.

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Estava tudo pronto, mas hoje cedo, o Joan quem lidera o projeto de La Oficina me ligou para dizer que a projeção não poderia acontecer. Disse-me que os vizinhos – o projeto fica numa casinha num conjunto com várias outras casinhas que aqui chamam de solar – teriam começado a reclamar dos eventos que vem acontecendo lá.

No primeiro momento, aquele cancelamento me ferindo a alegria pessoal e o projeto de ver aquele trabalho sobre a realidade cubana ser projetado, era um acaso fortuito. Mas eu, sendo cubano, e vivendo o acaso com a perspicácia e desconfiança que por aqui temos, isto  era, simplesmente um dos fatos da realidade cubana que a própria série denuncia durante seus oito capítulos: a impossibilidade de fazer por ação individual ou de um grupo, qualquer evento independente paralelo às políticas ou instituições cubanas.

Na serie, os personagens lutam contra a rigidez dos burocratas, a má vontade e falta de diálogo dos militares e policiais, das pessoas frente às instituições, a presença de indivíduos em todas as capas sociais  que trabalham para informar o governo e instituições policiais sobre o trabalho de grupos independentes. Assim mesmo, os personagens debatem-se com as diferenças comuns entre indivíduos e os conflitos naturais de quem precisa se organizar para fazer algo acontecer.

Factor Común se fez real nesta manhã. Era a ação evidente de pessoas mal intencionadas, da ação de pessoas próximas de mim, que informaram do evento a pessoas responsáveis por censurar e limitar a ação de pessoas, grupos independentes, artistas, intelectuais que de uma forma ou outra, manifestem e denunciem as arbitrariedades de um governo totalitário como o deste país.

Mas na série, o desejo de triunfar dos três protagonistas e da comunidade onde o projeto atua se faz valer, e mesmo contra todo prognóstico e contra as adversas situações da sociedade e os dirigentes das instituições, logram manter Factor Común funcionando.

factor 2

Então hoje – o momento que vocês estarão lendo isto – será um dia especial. A pesar do que não se espera, meus amigos e eu – e até algum desses Juan e Pedro que trabalham encobertos favorecendo o controle governamental sobre a liberdade dos cidadãos cubanos – faremos a Premier Real de Factor Común, e como nos tempos de guerrilha urbana, transferiremos a projeção para outro sitio. O objetivo de mostrar para os amigos uma história que deixa uma semente de luz e possibilidade dentro de uma sociedade catatônica e medrosa, sobre os sonhos de uma geração que nunca deixou de lutar pela liberdade real deste país, que nos pertence por herança histórica e que o poder dos homens insiste em nos tirar, será realidade.

Factor Común existe! Factor Común es real!

Assista a série em http://www.youtube.com/playlist?list=PLiY0yLBAjk8H6erGe1EXxN-Bah8OD1eOU 

Roupa de Mulher

Ontem testamos ao absurdo. A mecanicidade do aparato social humano. Olho no olho não bastam para explicarmos as razões do que sentimos e somos. Fomos diretos e incisivos no alarde, felizes com os sorrisos. Fomos contra o macho e a submissão feminina. Desta vez,
apesar de não passar as barreiras – nem assistir o filme – ganhamos.

Depois que me proibiram entrar no Cine Charles Chaplin vestido de homem, trombei uns amigos que, também indignados, sugeriram um contra-ataque: iriamos vestidos, os homens como mulheres e as mulheres de homem.

No fundo no fundo sinto que não nenhuma diferença entre homens e mulheres, não ser aquelas que cada individuo queira para sí mesmo assumir e permitir-se. Diante das leis, nossas instituições e espaços públicos, a sociedade deveria exigir e ter os mesmos direitos de gênero, raça, condição social, e é obrigação de cada um lutar por estes direitos.

Durante quase uma semana fomos avisando a todos os amigos que no sábado iriamos assistir o filme na sessão das 17h30 no Cine Charles Chaplin. Imprimi uns quatrocentos flyers, frente e verso, sem muita manha para o desenho, nem recursos.

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Aquilo não era uma questão pessoal, e isto tinha que ficar esclarecido. Eu me sentia magoado pela situação ocorrida mas era o fato de que aqueles funcionários do cinema, e até a própria organização do Festival de Cinema, não dialogassem nem entendesse esta situação discriminátoria, de caráter violátorio dos direitos elementares do humano.

Na noite de 6ª, descobri que o filme que passaria na sessão escolhida seria “Flores raras”, uma produção brasileira, que agora está em cartaz em São Paulo, segundo soube (é só pesquisar a sinopse para ver que até o Cineclube das Sete Cores, com a experiência que tenho vivido nos últimos meses no Centro de Referência da Diversidade, também conspirava). Aquilo seria perfeito.

Ontem sai depois do almoço com Alain, meu melhor amigo e quem esteve o tempo todo, encorajando-me e ainda mais, nos divertindo muito. Pegamos ônibus, caminhamos pelo Centro da cidade, conversamos com as pessoas que nos abordavam, parávamos para fazer fotos ou para que fizessem fotos de nós, e íamos entregando os flyers sobretudo à aquelas pessoas que pareciam não aprovar nossa vestimenta.

Em geral, as pessoas pegavam como brincadeira nossa atitude, tiravam onda ou faziam careta. A discriminação de gênero, o machismo e suas atitudes, moram nas pessoas e nas relações interpessoais cotidianas. Em Cuba, além do idiossincrático, as instituições reafirmavam estas situações. blog2

No cinema, além de outros amigos que não se vestiram como sugerimos, estava minha mãe, e coisas de filho, isto me deixou feliz pois durante a semana havíamos conversado muito sobre o ocorrido. Sei que ela estava preocupada, mas ao mesmo tempo, era uma forma de mostrar seu apoio.blog

Eu, e acho que outros, não tínhamos muitas expectativas, mas o desejo e aquela felicidade contagiante e trasvestida me convenciam de que poderíamos assistir ao filme. A euforia se traduzia nas nossas conversas, na minha respiração, na companhia de minha mãe e dos amigos, em total contrapartida e paradoxo, da presência de muitos policiais.

Ao princípio, poderia-se pensar que eles estavam ali só por segurança, mas quem vive em Cuba ou esteve aqui, sabe ou imagina como funcionam os mecanismos de repressão. Hipóteses surgem, algumas delas, nenhuma pode ser descartada: escutas de conversas telefônicas, amigos avisados do evento e que trabalhem para a Seguridade do Estado, alguém que pegou um flyer e que ativara a resposta policial. Quem acha isto exagero, simplesmente descarte este mero detalhe real da presença dos uniformizados.

Vou realmente poupar as conversas na tentativa de entrar ao cinema. Elas são muito similares ao que acontecera na terça feira no mesmo cinema com as funcionárias do Chaplin. Desta vez a diferença é que não apareceram as tals compañeras e sim três homens, que não eram do cinema. Eles não deram explicação alguma, apenas responderam com negações sucessivas, sem entender nem querer entender. Desta vez, não era só eu quem dava meus argumentos e sim um grupo ciente de que aquilo era uma arbitrariedade, uma burrice, uma estupidez.

Os policias ficaram sempre calmos, observando. Em algum momento se aproximaram das vidraças, quando estivemos todos no saguão do cinema. Intentei conversar com eles, mas eles não respondiam, também não aceitaram os flyers que eu pedia que lessem para entender nosso apelo. Apenas um me chamou em separado e foi receptivo. Conversamos durante alguns minutos, mas ele não aceitou nossas reivindicações. Entendia não ser este o local para expressar nossas demandas, apesar de que entrelinhas lhe entendi, não estava de acordo que nós proibissem entrar ao cinema.

Então, decidimos irmos. Desta vez, felizes e trasvestidos.

PS. Se alguém tiver uma copia do filme Flores Raras, assim que estiver em Sampa, me passa para eu ver. Ok?

Roupa de Homem

La Habana, dez da manhã, trinta e poucos graus de calor, mais de setenta por cento de umidade no ar. Visto bermuda, regata e chinelos daqueles que todo o mundo usa. Levo na bolsa meu caderno de notas, caneta, câmera, uma garrafa de água, celular e uma garrafinha de rum. Minha carteira com algo de dinheiro, a foto de meu filho e o passaporte do Festival de Cinema. O Festival do Novo Cinema Latino-americano é de meus maiores presentes para esta viagem, começou no dia 5 de dezembro. Estes dias com esse passaporte faço uma fila, bem provável que nesse instante já encontrei alguém conhecido com quem converso dos filmes ou da vida.

Ontem ia a caminho do Cinema Charles Chaplin na Rua 23. Esta rua é a que mais se aproxima da Avenida Paulista. Mas não há nem tanta gente, nem bancos, nem trânsito. O sol racha qualquer intento de imaginação e restam poucas chances de sair da ilha.

Fiquei sabendo de outro filme brasileiro e como bom filho da mátria brasilis, lá fui eu, tentar me conectar com aquilo que me faz homem, pai e escritor. Na entrada de grandes vidraças, atravesso suado e ao entregar meu passaporte do Festival, “Senhor, não pode entrar ao cinema de regatas”. Bloqueio. “Moça, você viu o calor que está lá fora?” “São as regras, não pode”. Esquento. “Oi moça, entenda, está calor”, “Senhor não escutou? assim de regatas e chinelos de tomar banho não vai entrar, pode sair”,“Gente, olha o calor. E outra chinelos de tomar banho? Eu tomo banho descalço” “Faça-me o favor de se retirar”, “Mas, por favor, que coisa é esta?”

Suspiro fundo, sei são intransigentes as pessoas que trabalham em instituições cubanas. É provável que não haja argumentos que os façam mudar de ideia.

Uma menina com regatas lhe rasgam o passaporte e a deixam passar. O quê? “Moça, e essa mocinha ai que você deixou passar?” “Ela pode, é uma blusa de mulher” “Como? Roupa de mulher? Como assim?” “Senhor, não adianta homens não podem entrar em regatas” “Senhora, é o mesmo, é uma roupa, está um baita calor” “Não pode, não vai entrar” “Isso é uma violação do meu direito, é um crime de discriminação de gênero”. Ela fecha o rosto, não responde.

Outra mulher se aproxima, diz ser a administradora. Tem o rosto tenso, não quer conversa nem entendimento. Isto é incrível. Chama-me com a intenção de sair da entrada do cinema e de chamar menos a atenção. Dirige-se a uma porta, abre e pede para entrar. Não fala, nem pensa. Repete: “Assim de regatas, e bermudas e chancletas não podes entrar”.

Essa altura convenço-me que não me deixaram entrar alegando ao tipo de roupas, mas eu avanço pelo lado que me chama atenção e do qual eu acho, tenho razão. “Senhora, explique-me, como é que mulheres podem usar saia curta, blusa com decote ou regatas e sandalinhas, e homens não?” “é a regra, já disse você não vai entrar assim vestido ao meu cinema”.

Não acredito. Ofusco. Fecho-me. Sobe a raiva.

Já havia sentido fortemente a grande diferença em questões de direitos entre as pessoas em meus dois países. Mas em Cuba, depois de tanto tempo, e depois dos meus aprendizados e experiências no Cineclube das Sete Cores e no Centro de Referência da Diversidade em São Paulo, isto era simplesmente um absurdo.

“Escute, não há diferença entre homens e mulheres, temos todos os mesmos direitos, isso ao menos em principio é um crime, uma violação dos meus direitos, entende?” “Não me interessa, você não vai assistir esse filme hoje, assim vestido” “Vou acusar vocês com o Festival, com o Cenesex, com os Direitos Humanos” “Faça-o, vai lá fazer, vai” ela convicta do seu pequeno reino não corre risco e que sua vontade conservadora, direitista e retrógrada lhe asseguram a razão neste episódio.

Não, não entende. Então saio da sala e volto à entrada do cinema. Sarcástico, vendo que minha prioridade que era assistir o filme estava já perdida, investi em tentar que aquele bando de velhas percebesse o ridículo que faziam. Assinalei: Meninas com saias mais curtas que minha bermuda, mulheres de regatas suadas do calor de trina e cinco graus, senhoras com sandálias ou chinelos. Foram perdendo o controle, se aproximaram dizendo que eu gritava. Um homem de braços cruzados se aproximou. Era tensa a situação.

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“Senhor saia daqui” era um grito repetido por várias daquelas mulheres. Ninguém dali achou aquilo um absurdo. Incluso uma senhora com blusa curta que ia assistir ao filme, aproximou-se gritando que a roupa dela era de mulher e a minha de homem, não poderia entrar. “Ai, ai que loucura, gente”.

O homem de braços cruzados sai fora em direção de policiais do Ministério do Interior, algo como a Policia Federal, e conversa com eles. As mulheres se aproximam de mim, já não as escuto, pois gritam os mesmos argumentos vazios. Estou nervoso, então dou dois passos fora das vidraças, um território que considero não podem mais gritar. O homem sai de perto dos policias e entra ao cinema. De imediato, os uniformizados me chamam para conversar. “Eu não tenho que falar nada com vocês” um deles assombrasse “Oh, vem aca” Alço a voz olhando nos olhos, não há medo “Se você quer falar vem aqui onde eu estou, eu não tenho nada que falar contigo”. Ele cala, tem raiva nos olhos, nos músculos do pescoço e o rosto “Quero é rachar tua cabeça” mal escuto isso “o quê? Como é que é?” ele não responde, não há medo, agora é raiva porque tudo aquilo é marca do poder mal administrado da Ditadura, que reparte sem leis ao que cada um interpreta de situações e necessidades. As mulheres com cara de vitória pedem licença e fecham a porta de vidro. Caminho em direção dos policias e passo justo entre eles, em desafio. Eles não se mexem.

Suspiro fundo a derrota dos meus direitos e minhas convicções. A derrota dos homens e mulheres pelo pequeno poder da burocracia. A perda do ser humano pela sociedade. Estou triste. Raivoso.

Dirijo-me sem pensar a um lugar que sei que fica perto, mas não lembro. O CENESEX é um lugar que ganhou conotação depois que Mariela Castro, a filha do atual Presidente da ilha, e defensora dos direitos GLBT tomasse frente nessa luta neste país tão machista, e em matéria de direitos civis e humanos, tão atrasado como a administradora do Cine Charles Chaplin.

Pergunto ao segurança como agir e ele me sugere procurar o advogado. Tenho que esperar ele voltar do almoço. Como conheço o tempo cubano, arrisco-me a falar com a primeira menina com crachá que passa na minha frente. Ela trabalha com comunicação, mas se dispõem conversar.

Explico tudo. Sei que não sendo de nenhuma das minorias normalmente violentadas pelas desigualdades sociais, procuro meu direito.

Ela não dá asas e me aconselha não usar a regata para ir ao cinema. Reconhece que é um absurdo, mas as leis, leis que desconheço, sustentam essa interpretação por parte da administradora do cinema e da sua turma. Explica-me como agir com relação ao advogado, mas adianta que é um processo que demora muito “e em Cuba, você sabe, pode não levar a nada”. Último, surpreende-me, diz-me “Você deveria agradecer que não tenham encrencado com meus dreads”.

Eu fecho os olhos e saio andando. Injustiçado.

O ACASO HABANERO E O ACOSO POLICIAL.

Conheci Victor andando no Centro de La Habana. Ele era um preto de dreads que estava visivelmente meio bêbado.

Aproximou-se de Nathália e de mim achando que eu era estrangeiro. Isso tem sido das coisas mais absurdamente chatas que vem me acontecendo.

Veio na paz, fazendo conversa. Normalmente – como já tinha me acontecido nestes dias solar– eu teria me afastado do sujeito, sobretudo pelo absurdo, pela quase vergonha de me fazerem sentir brasileiro na minha terra cubana, mas o olhar ingênuo, o preto nos dreads e o convite a conhecer a casa dele no solar (uma construção popular típica de tempos da colônia com pequenos kitnets e banheiro comunitário e pequeno pátio central cimentado) e a possibilidade de me adentrar numa Cuba que há anos não vejo, não vivo e já não mais sofro; aceitei ir.

A casa dele tinha quase nenhum móvel. Mostrou-me parte das artes que ele faz em madeira para sobreviver e que nem intentou me vender.

Aquele vazio todo não me assustou, mas resultou-me um raro espelho daquilo que eu sou, e da minha vida em terras paulistanas no meu intento por sobreviver.

Perguntei-lhe pela mãe e chorou. Ainda viva andaria pelas calles habaneras também tentando se virar para não morrer de fome. Voltaria depois, me disse, não conseguiria viver sem ela, continuou. Então pediu que o convidasse um drinque, a amizade tem esses detalhes etílicos necessários para existir. Lá fomos nos à beber.

Em Cuba, tem gente que se fez profissional do turismo, alternativamente. Tinham se acostumado abordar gringos, e no bem ou mal, tirar vantagem da necessidade dos estrangeiros de querer conhecer a Ilha.

Victor é um desses, que por viver no centro histórico, vive do contato com os estrangeiros. Vende suas peças de cabeças de animais. Se lhe dão trégua, pega as loirinhas e passa a semana sendo feliz. Disse-nos que tem quatro filhos espalhados pelo mundo.

 Zanqueros

E desandamos ruas conhecidas, pintadas de sol e cheias de pessoas suadas. Dançamos detrás dos pernas-de-pau. Bebemos rum barato. Rimos da sorte do encontro.

E ainda sendo felizes, um policial o abordou. Tanto ele como eu, tínhamos vivido esse momento infeliz várias vezes. O agente pediu pelos documentos e chamou pelo rádio.

Pedi para Nathália se afastar de nós, aquele sotaque não passaria por cubana em lugar nenhum. Poderia complicar as coisas.

Por quinze minutos, ambos tentamos convencer o fardado do absurdo daquele victorprocedimento. Aleguei racismo. Aleguei injustiça. Aleguei burrice. Ainda lhe comentei, coisas como estas que definem uma ditadura. Não adiantou.

Dei o número do telefone de casa para se o Victor, depois da prisão temporária e depois daquele grau de álcool, quisesse me ligar de volta.

Victor foi-se caminhado acompanhado pelo guarda e perdeu-se dentre aquele montão de pessoas suadas e ruas conhecidas.