rascunhos à beira-mar

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

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anarco amor (o amor de tod_s)

quis amar de amor, inteiro

silencioso e inquieto

sumário e infinito

querer sem medo

de boca aberta

.                                   olhos fechados

à sombra do meu sentimento

.                                                         ou da minha guerra raivosa

(de mim) avessos meus

ventanias do ego

ao amparo de mil ladainhas

confissão de reais mentiras

sim… eu mentia!

se eu dissesse

se gritasse

se escrevesse isto que escrevo

no espelho

no bafo de um gozo gemido

as coxas raspando o couro

a pele tambor da minha agonia

minhas coxas devotas

rara especie de cuíca umedecendo meu choro

de pernas remotas

uma perto da outra

entreabertas

frente uma da outra

as gotinhas

sanguinolentas

pingavam o chão

no fértil do instante

lua rota

era… somente… esta noite

minha

brasa insana

verdade da sua liberdade

a flor das minhas flores

de um jardim tamanho dos céus

meu bafo no teto

certas estrelas pendiam de longos cabelos

(que eu prendia) com abraços temidos

eu mesmo os prendia

era o vento dos tempos

um passado violento

um futuro nefasto

um presente sincero

e a rima dos ventres

um tapete de grama… e?

quem puxava as raízes?

quem raspava minha barba no concreto?

de quem o desejo de brindar nosso amor aos amores?

num bazar de livres vontades?

num mercado de breves instantes?

de quem era a sede dos bastos oceanos?

aquela ilha flutuante à deriva

onde sobrevivia o último dos ancestres de um amor verdadeiro

abriu-se este raro espelhismo

“você sobre os chifres da Besta”

um humano invejoso, salivante, incrivelmente formoso

ciumento,

.                      possessivo,

.                                              angariante

eu era a sombra,

derrapado na lua da noite

e eu queria um morte sofrida

um desgarre

um desvende

ou um ultraje final como prova

que o amor era agua do mundo

parte sangue

parte sonho

feito areia

fato certeiro

ignominias desta incógnita

dos versos

ou das noites

ou do sexo

dos adEUses

ou desta sinfonia que desconhecíamos

mas que – sem querer – cantávamos

feitos um

sós

juntas todas

essas feras coloridas

que entre a relva

como formiguinhas

nos amávamos

consumindo-nos.

 

 

 

 

o amor na caixinha

o amor entrou na caixinha:

o presente era luz de raros amanheceres /  floresceu raízes nos seus fundos breus / ramificou abraços imensos /sombrios meus / desbotou sangue / fluidos coloridos de tesão tardia / não cabia com a tampa / não houve frete combinado / os preços não coincidiam / os reclamos eram de uma incrível simpatia / que não cabiam na caixinha do amor / com ou sem a colorida tampa / o amor não se vendia / fez raízes no meus fundos credos / numa deliciosa ceia de corpos / e bebidas de deleite goze / não arrependido do ocaso fim / peguei somente a caixinha / que o amor faz frutos do sol da manhã / e desta garoa repentina.

textículo da linha do tempo

eu gosto mesmo é de flor de outono/

 ela é discreta e abre sem chusma no lilás dourado da sua calada/

 faz cheirar minha surpresa, /

e eu obsceno, para mim a pego.

 

 

rascunhei silêncios exigidos,

no teor de um beijo que não veio,

o anseio fez-se em dobro,

parecia-me a armação de para ganhar de um adivinho

onde quem acertava, perdia

e quem ganharia, era desde antes, merecido;

eu que nunca tive sorte, não desisti do silêncio,

estou aguardando minha sorte

para além e aquém do destino escrito.

 

… há sempre um detalhe de instante para o depois de “este” instante, as rugas na pele não deixam dúvidas do remorso do sorriso, atente, para o silêncio que cobre as manhãs de “segunda”, nem sempre há esperanças para o desastre do “só” – disse o adivinho, sorrindo.

Desconversei do púlpito alheio, na misturança é fácil melindre achar sutil o abraço, no sem-sabor da noite almofada, na conseqüência da sórdida solidão é que conheço a serie de monstros que aninham no ser, é ali que se aprende o amar, o almar da palavra conseqüente, eu quase não mais credito no amor ulterior, da lambada os ritmos dos corpos de dois, ou três ou do além, o amor não é certeza do leal, do atrito real das pedras faísca o sensível verdadeiro, manifestação do sozinho é sorrir feito um louco sem medo de ninguém rir de você: isso eu disse para mim, mas quem ouviu foi o adivinho.

 

pixaram teu nome nas minhas quatro paredes,

no teto,

no chão,

nos azulejos do banheiro.

riscaram teu sorriso no meus olhos vesgos.

 tatuaram-me teu silêncio nas palavras,

na pele seca,

e na ossada.

queriam que não esquecera teu semblante de olhos úmidos,

o sorriso acuado,

o futuro promissor de altas aventuras notívagas.

Gritei-lhes que não precisava,

eras de mim,

dias de outras vidas,

sonhos de tantas madrugadas,

poesia ainda por escrever nesta longa caminhada!

Mas pixaram-me

riscaram-me,

me tatuaram!

 

... e era aquela ilusão o escancarar da razão, feita migalhas de um pão que somente nos dois comíamos, um cortava e com a mão ao outro oferecia, na boca o pão aguava em salivas de um desejo que não nos pertencia, era a fome o que importava, era aquela dor no baixio do ventre, as vezes era tanta o ardor, que nas manhãs, a miséria a trocávamos pelo tesão.

 

espirais

Existe uma espiral no peito

destino próprio de si

no caminho crucial dos sentidos

avalanche comum do existir

de palavras que sucumbem na névoa

da singela voz interior

perguntas cotidianas

anseios do imenso

mascaradas do ego-sonhador

fantástica sapiência dos céus

evocados naquele dEUs infeliz

vingativo de rude substância

incapaz de assumir seu devir

a ilusória verdade dos além

d´um futuro sempre mais promissor

de infindáveis luxurias do corpo

nos outros corpos

(cada vez mais belos corpos)

no desejo do alheio

da esperança perdida

d´outros cantos

da mesma velha sereia

que abanica sua cauda infantil

na profunda galaxia

nos confins

do amar.

 

 

 

 

 

Versos da (in)natureza humana

 

Senso comum não é o mesmo

 que o vôo transcontinental

das andorinhas.

As memórias são raízes

de uma árvore encriptada

na nossa alma.

O anéis marcam as pessoas

como número

no couro do bezerro

As palavras do amor

no substituem

o acasalamento dos flamengos.

O filho não veio

ao mundo lhe garantir

sua esperança.

O tempo não se detém

nem nas memórias

nem estas últimas pétalas das palavras.

Esse ar de juventude

é também máscara

que foge de uma bala de caça.

Essas lágrimas não

são do orvalho

sentença de uma bela manhã.

Nem suspiro é maresia

nem velhice, chagas

nem nascer dá assas.

fragmentos del acaso

“para Alé Galasso’

salís por esa puerta, y la vida te cambia (o viceversa)
en semáforo tintinea luzes monogámicas
nosotros
dos 
acasos
abrazamos el andar
uno cerca del otro
dos,
distintos, 

las paredes pintorretean grafitis apalabrados
no entiendo
un maestro pinta azules
en forma de ocios espirales
ofrecemos simpatías
y el espejo,
del reflejo oscuro,
se quiebra en mi mano
y sangra el rojo feliz de estar vivo
la noche no perdona estos silencios
en el parque los del circo,
nos sonríen
nada es acaso en la tierra del tiempo
de regreso el retorno de un encuentro
sea más que volátil este instante
reconozco el caos precisando de algun puerto
y quien dice que había isla en medio del océano
nada tiene sentido, ni 
estar cierto.

fim dos mares

presos aos sonhos
iam os homens – e as mulheres – ao redor da terra
traz as sombras daquele sonho fugaz
de trino incessante a sereia do amor
e timões levados à esmo
ou desdem
perseguindo aquela caudal mortal
no eixo interno
da espiral da dor
iam se fardados do sorriso da emoção
a irreal empatia do amar
a ilusa confusa vontade de se aproximar
o abraço nas noites
os corpos consequentes
era somente sorrir
um bocejo ao acordar
e depois, olvidar.

som infalível

Minientrada

escorrega em mim
eco da dor
no oco do ego vazio sem fim
esvazia os afins
os avessos reflexos do amor
na distantes pradeiras da fé
a conjura do etéreo
as migalhas do tempo
manifesto assinado da solidão
amanhece tertúlias e danças
festa sem convite e a mais pura aceitação
a semente sorriso de uma larga sombra no centro do Sol
sobrevive a calma
a astúcia do rio atravessando montanhas
o furo na pedra da Terra
a ínfima parte do bicho
a luz nas trevas do mar
um som infalível de respiração
sobrevivente!

certeza

para Alain 

… no hay esquinas al doblar, presentíamos, como no hay charcas sin lluvia, y como no hallaríamos sillas para sentarnos como verdades, no había amor suficiente que nos amarrase el alma, ni poesía definitiva en el abrazo de este allende, no habría olvidos para lo sobrevivido, ni segundos sabotando los cronómetros… no conocería al duende que se encuentra tras la orilla, lo sabíamos, pues el duende era la sombra de este río, por el cual llegaríamos a este desierto de momentos, este desconocer de la distancia, los encuentros siempre fueron nuestro principal peligro, aquellos donde el cuerpo definitivamente no abrazó las esperanzas… y las palabras, este acertijo de verdades, son el último aliento antes del encuentro.