Zóios do bem (pelo mal)

o silêncio são das relações, o que as palavras são da solidão!

 

 

Tão belos seus olhos que me enxergavam

Um brilho de luzes sem motivos

Tal o sorriso do encantamento

e tal o maravilhamento

que desconfiei da minha vileza.

 

Senti o breu de um rápido piscar

no véu de um súbito adeus

e sem tempo de me orgulhar

do meu surpreso reflexo

escolhi o silêncio para te sorrir.

 

Nunca arrisquei a flor-timidez

pétalas dessas não abdiquei jamais

uma estranheza de ser o que sou

(e apenas o que de mim consigo)

mas que raramente consigo despir.

 

Mas seus olhos de fino respirar

persistiam em me ver feliz

eu sem poder-lhe mentir

do seu tento preferi me afastar

assumindo apenas o que de mim, sou.

 

Assim dos zóios do bem

por presságio do ego falar

descobri que eu odiava por mal

num afoito do deus interior

que não esconde a raiva ao não viver nosso amor.

Anuncios

Réquiem para um Abril

 

no frio aqueça-me,
no calor derrete-me,

na chuva abrace-me,
na noite esqueça-me.

entrei NOS TRILHOS da vida
num trem que partindo
não saberia o retorno.

nem eu sabia o conforto
que essa loucura traria
nas estações do outono.

o balanço desse rolé
é embaçado demais
para quem imagina

que o trem que parte, retorna
e descobrir num puta de um transe
que a vida que vai, se foi!

 

<<<<<<<<<<<<<<<<<<    >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

nas paredes, o branco do cinza
se instaura
nos rostos, silêncios do fundo de si
nos abraços, se acalmam os afoites
natureza perdida de nos
nos olhares, afeições se fundem
a palavra se nega ao amor
ela sonha em vestir um para sempre
nosso agora é réu do sentir
na mordaça, gemidos se aplacam
impossíveis enfeites do veraz
teimam nos tornar infeliz
seja sã do seu ser e seus olhos
natureza é firme no co-existir.

 

 

Ru-gi

à beira-do-mar

os joelhos, ondas

somente

 

dançam três astros

na noite infinita

tesuda

 

última fé do abraço

os sorrisos sem máscaras

você (definida)

 

distância de nuvens

a viagem destino

crisálida

 

servente este universo

das tamanhas vontades

agradecer

 

os todos os meus eus

encontro dos reis

u rugir

 

avante o destino

as sempre fronteiras

u agora.

cinco flashes entre silêncio e esquecer

tengo brazos en varias latitudes,

memorias allende este presente que vivo,

recuerdos de otros instantes con personas que (quizá no) existen,

atemporal en el recuerdo y el olvido,

soy yo, ahí donde también existes!

 

 

sete ondas tem o mar que eu pulo num só impulso, aparecem frestas dos fundos, maresias do meu ser, andorinhas litorâneas, peixinhas escorregadias de olhos sem fim, onde é que some o horizonte? onde acaba esta utopia?

 

 

no sozinho do que sou, sendo, 
no silêncio de entender, histeria, 
no percurso de fluir, epicentros,
nos avanços de ter, desacertos, 
na entrega do amar, manifesto
na vileza de existir, amanheço! 

 

 

as palavras que não foram testemunhas silenciam a partida/
carimbam o desdem abrupto do que não é /
compreendo a desempatia /
o agreste lunar no grama dos dias /
apenas o esquecimento salvará a utopia /
de saber /
ou imaginar /
de inventar /
as sem-saídas /
este estágio anestesia o revés /
vai restar pouco nos registros /
a dor não reconhece memórias /
apenas apago /
ou sobrevivo.

no furo da terra
o fundo de um sonho
emana o abraço
o tamanho do mundo
sorriso do espelho
amor que te amava
no escuro do beijo
no outro destino
de línguas possíveis
te amei no silêncio
talvez tão miúdo
que parece outro sonho
morada ilusória
do tempo passado
no furo do peito
cacimba da águas.

versos do adeus (ou teimosia minha de querer sempre desaparecer)

Mais uma linha amarela

No fim de um caminho onde outro começa

No meio a uma dessas tristezas de se despedir

Do recomeçar

Do se separar no lapso de um tempo

Que não tem fim – a vida.

 

Mais um abraço do adeus

Que teima em nunca abortar

O infame destino do acontecer

Do amanhecer

Do por sempre que seja possível

De se reencontrar.

 

Mais um pedaço que sou

Avança seu jogo ao espaço

O amor que não fica termina por ir

Por prescindir

Por alguma secreta paixão

Que prefere viver.

 

Mais uma linha final

Do abismo de mim

O sonho que anseio do “meu fazer feliz”

Ou em silêncio

Essa voraz vontade de sempre

querer desaparecer

(toda vez).

Divago… desando… desatino…

El gris del cielo, la vida, mi reflejo. Tanto frío que me abraza y yo hirviendo. Tanta gente, sonriente feliz y yo consumiéndome.

Alguien mencionaría mis decisiones como saeta voraz hacia mi destino. Y no desvío, ni desvarío de mi camino. Sé exactamente donde entorté los pasos en dirección de mí mismo. De la triste soledad del día, mi única sombra y la única experiencia.

No sé explicar cómo llegar hasta el ínfimo sarcasmo, la pobre sonrisa de quien llora solitario, de sí mismo, y mirándome al espejo, los ojos, bofeteo a los críticos y a los fanáticos.

El guerrero vive y muere, no hay dudas ni pausas en esa apócrifa verdad divina.

Levanto el arma: palabras que de tanto repetir y escribir, adivino y acredito. Felicidad efímera en la mujer que me ama hasta el último suspiro. Muerte, a cada descalabro, a cada mentira, a cada sensación de no haber hecho lo que se quería.

Divago… desando…  desatino… no sé de mi reflejo al borde de este abismo. El mundo pintado de colores monetarios, de valores desvalidos, de relaciones desamadas, de amores desabridos, vidas despintadas e de abismos eludidos.

Tanto al frío que me abrazo y no me hielo el alma perforada, ni me alegro de personas consumiéndose, ni le encuentro razón a los caminos, ni destinos a mis palabras dislocadas.

Sé exactamente donde comencé mis pasos en dirección de la muerte. El guerrero vive  hasta que duerme. No hay verdades, ni seres divinos. Desconozco el arma, palabras que se llenan de abismos vacíos, porque el guerrero ha matado todos: futuros enemigos, amores destinos, amigos divinos.

La soledad en el espejo, gris la vida, el reflejo de mí mismo.

Divago…

Desando…

Desatino…

Milton conversa com o policial

“Nome completo, por favor?” – lhe pergunta o oficial. Eu olho para Milton, que como eu, não está assustado.

“Demis Menéndez” – ele só disse um sobrenome. Aqui no Brasil costumasse usar só o último para acompanhar o nome, ao contrário de lá, de onde nós viemos.

“Procedência?”

“A ilha dos Castros, ilha-à-deriva se prefere”.

“Pare com a palhaçada… qual país você nasceu?” vocifera o galante uniformado.

“Cuba… procure aí perto dos Estados Unidos”

“Não consta esse país no registro, como se escreve?”

“C.H.I.L.E.” – ele faz uma pausa seca – “Cuba, sacou?” e me pisca um olho.

“Uhum…” – digita automaticamente – “do MERCOSUL”.

“Isso ajuda em algo, camarada?”

SILÊNCIO.

O guarda sai da sala. Volta uns minutos depois.

“Me dê seus documentos”

“Serve este?” – ele passa um negocio tudo amassado.

“Uhum…” – o pega e transcreve alguns dados. E me devolve. “Senhor Menéndez o que  você estaria fazendo na madrugada do 17 de setembro perto desse viaduto?” – olhei de novo pro Milton, ele calmo, eu ofegante.

“Existia camarada, só isso, meu corpo bípede, consciente, trasladava-se de um ponto ao outro numa ansiedade circular, parecida com a do senhor, agora, mexendo nas mãos com essa caneta” – ele na brisa, eu sorrindo.

“O guardinha de lá, o seu Pedro Bonfiglioli, acha você suspeitoso.” – o homem larga a caneta.

“Poetas nunca foram confiáveis”.

“Suas gracinhas aqui podem ser trocadas por tapas, sabia?”

“Sabia, policias são menos confiáveis que poetas” – o soco me passou perto, mas o Milton tirou o rosto, ainda sorrindo.

“E isso aqui, é o que, fala aí?” – pergunta.

“Ah, isso é ganja, manja?”

“Não sei não” – eu achando que era um truque.

“Olha…” – Milton estica a mão e pega um envelopinho da mão do guarda – “… isso você solta ele até virar um pozinho verde, pega este papel fininho, chamada de seda, põem dentro, enrola, tá vendo, devagarinho, com arte, passa a língua e cola” – o policial estava estupefato.

“Huuum… é um cigarro?”

“É… tem um isqueiro ai?”

“Tenho sim, pera…” – ele procura na gaveta, pega um isqueiro e dá pro Milton.

“Assim oh…”

“Aqui não pode fumar, Senhor Menéndez!”

“Não podia…” – e o Milton ascende.

“Que porra é essa?”

“Marihuana, meu senhor”

“Era isso que o seu Bonfiglioli suspeitava”

“O suspeito, na real, é esse viejo aí. Eu vi ele, tirando várias caixas e colocando-as no carro dele” – eu me assustei naquela hora, eram pouco mais das duas da madrugada.

“O que que era?” – Milton aguenta a respiração e a fumaça.

“Sei não, não passo informação que não tenha certeza”.

“Poetas, não são confiáveis mesmo, não é não?”

“Somos, mas só quando estamos apaixonados…” – traga, segura um pouco, e solta no rosto dele. Eu tentei segurá-lo mais não tive a reação necessária.

“Por quê?”

“Porque não mentimos quando amamos”

“A verdade é muito perigosa nestes casos” – afirma o oficial.

“Por isso nos perseguem, e às vezes nos matam”

“Nessa noite ninguém vai morrer não” – o policial me devolve o documento.

Gracias, muchas gracias” – disse Milton.

“Deixe-me experimentar essa parada” – e lhe passo o cigarrinho.

“Puxa e segura…”

“Uma ilha você disse…?” – e solta a fumaça na minha cara – “Cuba?”