O mundo aos pés

Abriu as pernas… e abriu-se o mundo.

O último continente afundou na lama.

A chuva era agridoce nos seus lábios sedentos

O olho fixou-me na estaca do tempo.

Ela sumiu nos seus dentres

espirais sinais

sinuosos contornos do esbelto

magnânimas coxas

pingentes, mamilos dourados

brilhantes mordiscos ao sul desta pele

cupim do meu ventre

larva do fim d´umbigo.

Ela emanava em seu grito

sinfônicas vozes

elo do orgasmo

secretas deidades que ela vivia…

Pediu pelo são herdeiro

daquele encontro

do abraço da mão-sobre-mão

das pernas-entre-as-pernas

o ser-dentro-fora-do-ser.

A boca aberta

gemente

o fogo na brasa do peito

pagã das palavras

feiticeira do beijo

artesã do barro molhado

modelando com os pés deste verso.

Ela curvada sob a sombra devota da Esfinge

Eu era o totem por trás do horizonte

do mar de seus gozos

e não havia fim destes cernes

morte do conhecimento

belo animal destas trevas

e estas selvas

livre e impávido

febril

destemida

bicha-sina de homens famintos

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Olhe Aos Olhos

assim como  o rio arredonda as pedras contra as pedras,
nos arredondamos nosso ser com o ser alheio.
haja rio. haja coração

 

Olhe aos olhos

Não a roupa que vestem os gestos

Olhe aos olhos

Não à palavra que alma o ego

Olhe aos olhos

Não às escolhas que fizemos em vida

Olhe aos olhos

Não ao consenso que juramos convívio

Olhe aos olhos

Nem as diferenças que politicam os dias

Olhe aos olhos

Não à fumaça do sucesso

Olhe aos olhos

Nem a fantasia de bastas lideranças

Olhe aos olhos

E olhe as crianças, as árvores e aos horizontes

Olhe aos olhos

De uma noite sem lua estrelada

Olhe aos olhos

Não ao salivar da boca

Olhe aos olhos

Não ao piscar de um medo apaixonado

Olhe aos olhos

De um orgasmo de dois ventres

Olhe aos olhos

Do fantasma de você no espelho

Olhe aos olhos

De fronte às palavras que sossegam seu próprio desterro

Olhe aos olhos

De um estranho e descubra o sem-fim da existência

Olhe aos olhos

De um prolongado silêncio

Olhe aos olhos

Da sua sombra, ela é a única que não mente

Olhe aos olhos

De uma solidão sem mágoas

Olhe aos olhos

Olhe

Olhe aos olhos

Olhe

Aos

Olhos.

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#OlheAosOlhos na Av Faria Lima com #Manoelando

poesia para um poder alheio

Podes-me desconhecer

Eu mesmo não me reconheço

Tanto que (de mim) esqueci

Fiz-me olvidar que te conheço.

 

Podes até  me distrair

Quase não saio do mesmo

Tanto que me afastei

Volvi-me azar do teu acaso.

 

Podes-me magoar

Eu mesmo já fiz isso comigo

Tantas vezes feriram em mim

Que nem mais me entristeço.

 

Podes não me escutar

Desprezo é algo que mereço

Foram tão poucas palavras

Que deu para escutar o silêncio

 

Podes incluso sumir

Eu mesmo me desapareço

Tantas vezes que eu fui

Nem sei mais quando estou presente.

 

Podes até assumir

Esses afetos não se dispensam

Tanto que eu quis saber (de ti)

Perdi noção do momento.

 

Podes mesmo ser feliz

Tristeza não te desejo

O próprio não quero para mim

Sou grato de sofrimento.

 

Podes rir de o meu sofrer

Eu mesmo não me interesso

Você lembrar-se de mim

É a alegria do meu esquecimento.

 

¿Cuál será mi última noche de esta isla?

¿Cuál será mi última noche de esta isla

De esta insignia de muerte y destierro

De este desgobierno de paz e ilusiones

De cláusulas sin testigos ni oponentes?

 

¿Qué será de esta isla a la deriva

De parques de estatuas moribundas

De sexo en parques de estatuas nauseabundas

De hijos futuros de parques de estatuas moribundas?

 

¿Cuál será el remedio del desastre

De habernos vivido como mártires

En consignas atonales y malditas

De otros héroes que se dicen inmortales?

 

¿Cuál será el agravio en las promesas

De un pueblo que olvidó sus compromisos

Como si el futuro fuera matrimonio

De lo que fue y lo que jamás sería…

 

… y haber dejado transcurrir el tiempo

Como si el espejo no creyera en las arrugas

O el mar desistiera de comerse al arrecife

O el invierno de rematar a los traidores?

 

Además, ¿quién se digna de coronarse

Desentendido, rufián o “malahoja”

Policía, harto comensal o marinero

Dictador, maricón o escritor de novelitas?

 

¿Cuál será mi última memoria de esta cubanía

Que reniego, porque soy del monte, del rio y la oceanía

Como el vuelo es del aire y de las alas

Y el sueño amante de la pesadilla?