vida podre

era o fedor da vida o que interessava

o cheiro podre do que viria morrer

o ralo

os lixão nas esquinas do bairro

o suor melado nas coxas da fêmea no cio

o pelo úmido do meu suvaco na crispa do dia

a batata moribunda na geladeira

o sorvete derretido e as moscas

a mão traíra dos traidores

no instante do contrato justiceiro da escravatura

eu era o hímem

a abertura do mundo

de um lado ou do outro

o podre dos dias

da vida

do humano

que por angariar,

apodrecia

a vida dos outros

na esquina do bairro

do estoque na geladeira

em mão inimiga

o sexo podre

eu era de mim, afã desta cura

mas por humano

também podre

que era o podre o que mais gosto tinha

as coxas duras

a batata mole

o contrato traíra

o perigo na esquina

a dor continua de uma vida

mais crua – ou nua,

ou então desejada

escondida

sem cerne

nem proibida

apenas ao tato

e ao cheiro, percibida

vida podre

que eu bem queria.