Olhe ao Céu

“Olhe ao céu enegrecido, a ausência de lua, o mar escuro estrelado. Lá distante, brilha um astro sobrevoando entre as tantas um caminho certeiro através do universo”. Essas poderiam ser as palavras do meu pai, na poética da memória, vinte anos depois daqueles dias em La Habana.

Depois que o muro de Berlim caiu e a União Soviética desapareceu dos mapas e de nossas despesas, os cubanos conhecemos uma das piores crises econômicas de nossa historia: falta total de comida, transporte público praticamente nulo, crises nas relações pessoais, empregos em falta, prostituição renascente, e longos períodos sem eletricidade.

Apagões de mais de doze horas alternavam com o mesmo período com luz elétrica. Cidades, povoados, regiões inteiras eram acessos ou desligados. Em La Habana, uma grade semanal dividia municípios entre os “encendidos” ou “apagados”. De noite, a escuridão tomava conta das ruas e esquinas, dos céus e dos sonhos.

“Olhe pro céu. O escuro da noite sem lua. O véu enfeitado de pequeníssimos pontos brilhantes. Olhe fixo, alguma coisa acontece, e se mexe. É uma estrela? Um planeta cintilante?” Éramos meu pai e eu, sentados na calçada olhando pras únicas luzes que nos restavam. Sorriamos daquela felicidade simplificada, ínfima como o brilho que o céu nos regalava.

As noites eram esticadas com as conversas dos vizinhos que puxavam cadeiras, sofás e travesseiros para a calçada. Fugiam do calor insuportável de dentro de casa. As crianças corriam na rua, jogando de esconde-esconde, ou simplesmente sentavam a ouvir as histórias dos adultos: histórias do mesmo que se contavam cada dois dias, alternando entre “apagados” o “encendidos”.

“Olhemos o céu. Aquilo que brilha e se mexe não é um astro. Uma estrela cadente? Um sol errante procurando galáxias sem luz? Um planeta viageiro a procura de nos? ” Assim, a cada dois noites, meu pai e eu anotávamos – na memória – a cada novo satélite que descobríamos  no céu habanero – você já viu satélites? aqueles pontinhos de luz que se mexem entre as estrelas?

Ali, a cada nova descoberta de um desses artefatos luminosos, a nuestra euforia iluminava aquele breu do bairro, entre gritos e sorrisos, entre nossos abraços – as vezes minha irmã – assim como é a mesma cumplicidade daquela amizade que até hoje, diante do escuro estrelado, nos acompanha sob o único céu que nos abraça.

Solidão de ser homem

Ontem passei te pegar em casa, Benja, “coloque sapatos, vamos dar um passeio”. Você perguntou onde íamos, justificando que acabavas de brincar “la embaixo” e eu respondi que íamos numa manifestação na avenida Paulista. “Manifestação do qué?” a pergunta era óbvia, pensei; porém eu não sabia bem a resposta.

Seria o ato Todas por elas, em apoio à menina “violentada” no Rio de Janeiro alguns dias antes; como te explicaria isso?, minha cilada; “na marcha das mulheres” eu disse, e você mais confiante em mim do que no convite, terminou de se arrumar e fomos.

Eu queria te deixar por perto de algo que havia atrapalhado minha vida: um país e costumes  bem machistas, que me afastaram sempre de nuances afetivas menos polarizadas, além de um consenso social que havia feito errar tantas vezes nos relacionamentos. Ali era eu quem te pedia, ocultamente, uma companhia para o homem que eu era, e que também aos poucos, tornasse outro homem, melhor, no momento que se tem um filho.

No trajeto era evidente o movimento: meninas de rosto pintado, viaturas e motos de policias, helicópteros, a avenida apenas sem carros. No seu afã de descoberta da leitura, você perguntava o que estava escrito em cada cartaz: Ser mulher sem temer, não a cultura de estupro, a culpa nunca é da vítima e assim vários, eu ia lendo.

Aproximamos-nos da concentração, e lá fomos ouvindo os cantos. Não demorou muito para começar a marcha. Era unânime a presença: somente mulheres. Meus olhos eram somente para não te perder de vista, apesar de que sabia que entre elas ali, haveria tantas amigas para abraçar e estar perto.

Vimos um sinalizador e você me disse “olha pai é uma menina quem está segurando” sua surpresa não era minha nessa hora “é Benja, é só menina mesmo” nos aproximamos “e porque elas estão se manifestando?” nessa hora eu já não fui pego “aconteceu algo ruim com uma jovem no Rio, ai as mulheres se organizaram em apoio a ela”.

Também havia muitos policiais “NÃO ACABOU TEM QUE ACABAR EU QUERO O FIM DA POLICIA MILITAR” e obvio que isso chamava sua atenção, eu disse “eles não gostam muito das pessoas se manifestando” estavam por todos lados, beirando o ato “tem uma hora que começam lançar bombas, são perigosos” eu disse, e você ficou alarmado “aliás…” eu sorrindo “eles estão detrás de você” e seu susto fui visível “eu também não gosto” eu disse e você continuou “eu estou com medo, pai” e não era para menos.

Você começou puxar a caminhada mais depressa, querias chegar ao começo da marcha, ver de frente, “EU BEIJO HOMEM BEIJO MULHER TENHO DIREITO DE BEIJAR QUEM EU QUISER” eu ia cantando junto, quase chorando, sabia. Os homens fomos criados para pensar apertado, sem muita assa para as sensações. Ali uma espécie de liberdade – espécie porque a liberdade se conhece no amar e não, de fato, no lutar – ecoava entre as tantas vozes e gritos, era lindo ao menos para mim, te ver ali de olho aberto, enxergando algo que eu jamais vira na minha infância: tantas mulheres juntas lutando por elas.

Lá, quase antes de nos separar do ato, na descida pela Augusta, um casal com criança de colo, veio nos entrevistar. Queriam saber o porquê de eu ter levado você lá. Eu emendei algumas respostas, nem sei bem no nervoso de um gravador e uma câmera se falei bem, mas o que eu sentia eu sei: Eu tenho certeza que você será um menino bem mais mulher do que eu já sou. Tomara que isso garanta minha esperança, de que você sofra menos a solidão de ser homem.

Guia Fora da Casinha

Nosso facho de azul

Estávamos na trilha na direção da cachoeira no Sertão do Cacau. Um sol rasgava em verdes mais claros um mato de escuro matiz, aquelas árvores mastros da vida, sombra de nosso acontecer. O som apedrejado do rio perto de nossa caminhada. Um facho de azul na testa e los cielos.  Éramos oito. Você e eu, Benja.

Você ia à frente, no ímpeto natural de liderar. Seus passos firmes, nas mãos o apoio, os olhos no aonde? e sua voz de narrar o que está acontecer. Eu ia detrás do seu andar, naquele cuidado  próximo, minha preocupação exigente, minha voz de urgentes comandos.

Num certo momento você quis ficar, não seguir adiante com los otros. Querias, e você disse. Eu topei, e ficamos. Só nós à beira do rio, naquelas poças.

barbapapa bIMG_9754 Nadamos nelas, depois do seu medo do escuro, do frio e da correnteza. Escalamos a parede rochosa do lado da queda, com os escorregadios dos sustos, as mãos firmando na rocha.  Fizemos uma, duas colunas de pedras, dessas que se fazem pensando na construção de um castelo. Castelos de nos à beira do rio. Uma conjura do alto da Torre Babel. Torre dos ensueños e do nosso encontro.

Naquele lugar eu nunca tinha ficado, sempre andando mais à frente no salto de água maior. Sentados na pedra lisa, dentro da água, eu falei “que bom que você quis ficar aqui”, querendo na verdade dizer bom mesmo havia sido aquela solidão a dois, aquelas falas e os sorrisos.

Você criança, me disse “eh, eles não vão saber o que se perderam”. O rio era o mesmo na trilha das águas, lá na alta cachoeira, e ali nos nossos umbigos. Nossas torres de pedras um dia sumiriam nessa mesma correnteza.

“Eu acho que eles estão bem lá onde eles estão” acho que foi assim que eu disse. O facho ainda era azul mas distinto sobre nossas testas e em nuestros cielos.

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“É, nesse momento eles estão separados de nossas vidas” seu olhar arregalou-se à distância, foi um meio sorrindo, um meio abismado. A percepção do instante. O presente na palma da mão. A sombra do eco da voz.

“O bom é estar aqui” eu te disse, e sorrimos com o rio, as Torres erguidas, nosso facho de azul e cielos.

Padre es hijo y viceversa…

De manos dadas, y el ojo firme en sus pasos camino agarrado a su andar. Padre es hijo: y viceversa.

Oh pai, eu quero quando eu for grande ter um barco e ir de pescaria”, sueño de marinero uno siempre abraza: el mar nos lleva a todas partes del mundo, a cada lugar de la vida, “eu te levo comigo para pescar”, y así me invitó a su sueño.  

Entre cada “porqué…?” la vida se reconstruye, renace, se resignifica.

“No hijo, papá no sabe todo en esta vida”, y de veras no quiero tener dominio de esas índoles, “tú darás tus propias respuestas a tus preguntas”, esa es la mejor manera de saber las cosas.

El mundo realmente es mucho más rectilíneo que aquel que yo imagino. Repleto de metáforas ininteligibles, me invento razones que no me importo en explicarle a vocês.

Nosotros dos

Nosotros dos

Entonces él salta sobre mi cuerpo, se lanza con toda la seguridad de quien no teme el dolor y de quien no conoce la muerte.

Yo, este niño con menos años que los que cuentan, me restriego en su sonrisa, y me entrego como pez, al mar de su alegría.

Ayer, tratando de hacerlo dormir le dije, “léeme una historia” y se fue a escoger un libro. Me cubrí y lo dejé comenzar su cuento. Me repetía varias veces “pai fecha os olhos, tem que durmir”.

Y pasó el día, resguardados en casa de la lluvia que nunca paró…

Benja, você é um fofo”, le digo un poco antes de llegar el sueño, mirándolo a los ojos, con esa confianza que solo padre e hijo pueden tener. Y él me responde, mirándome a los ojos poco antes de irse a dormir “ah pai, você é fofo também

Hijo es padre, y viceversa…

dos más seis igual susto

Hace menos de una semana, habíamos estado pintando en hojas blancas con tintas coloridas, con crayones y goma de pegar con colores. Benjamín se divertía mezclando los colores, y superponiendo uno sobre otro sin ningún escrúpulo cromático – si es que eso existe.

Al final de la diversión, aceptó bañarse y cuando lo estaba cambiando para que se fuera a la ducha, mientras sacaba el pie se le enredó en el pantalón y, de mis manos, lo vi irse de quijada contra el inodoro. Al principio el susto, el llanto, mi reacción y la sangre saliendo sin mucha fuerza de la herida fueron un único instante. El susto se convirtió, en un histérico choro meu que yo no había sentido jamás. Un pranto indisoluble en los próximos minutos, y un dolor que duró casi una semana hasta que el domingo le quitaron los puntos.

Yo le dije “Benja, yo nunca me puse puntos, hasta en eso llevas la delantera”.

Él me había preguntado “pai, porque você está chorando”  y yo que no sabía la respuesta, seguí llorando y le dije simplemente “papá está muy triste”.

Fueron dos puntos internos, que le dicen, y otros seis puntos por fuera. Imaginen ahora el episodio completo, nuevamente, desde mi punto de vista. ¡Susto!