Entre Pasárgada e Orión

Na minha viagem entre Pasárgada e Orión, o enfeite dos olhos era o vinho, um sangue remoto do humano, metade homem metade faisão, que me entregavam em frascos minúsculos, quase utópicos do real. Eu engolia com sede, com a ânsia fatal de quem em vida, apenas aguarda morrer, e a vida enfim era este raro efeito entre o submisso e o fingir. Daquele gole quase fantástico, eu me elevava naquelas assas que falavam as médiuns no alvará de canonização: eu era o filho do grande senhor, primogênito da única mãe de todos os cervos bípedes que estão a existir. Eu me merecia, do dedo gordo do pé ao último instante do único cabelo branco. Sim, eu perecia. O tempo esgotava sua poesia, que o verbo é apenas infinito sob as águas, sob as unhas corroídas do infame Poseidón, aquela última tartaruga que o mar demitiu. Eh lhe disse: “Tempo, você não escolheu me viver”e de súbito meus olhos fecharam-se. Sim, eu temia, que a casa da estrela real era falsa, nem havia cômodos divinos para atestar este efêmero existir, não haveria livros de histórias, nem penhores, alianças, testamentos, apenas este instante pueril, quase agônico, que eu sorria para a única imagem que tenho de mim. Sim, eu me adorava. Um silêncio cru que emanava do vil, do mesquinho, do trair. Eu usei minha mão… e confiei.

Anuncios