Olhares de sempre

Era meio da tarde. Sob o asfalto, nos túneis do metrô, o ar aclimatado deixava num raro conforto o ambiente, apesar do sol que atravessava os vidros da estação Butantã.

As pessoas esvaziaram os vagões, e enfileiravam-se  em torno a escada rodante, que ia em direção à superfície.

Do outro lado do tumulto, uma menina olhou-me. Eu, deste lado, a olhei. Por uns instantes prendemos, fixado, o olhar de um no outro.

Éramos desconhecidos, e no olhar, de sempre e agora, nos fizemos presentes.

Nos olhos, as almas conectam. A essência se projeta em forma de luz invisível que somente é captada no olhar, até então alheio, do outro.

Ela acha que me conhece. Eu tenho certeza que não. Ela duvida, tem quase certeza. Eu brinco que a conheço de outra vida, há quinhentos anos atrás.

Perceba uma criança qualquer, na rua. Olhe aos olhos da criança. Se o olhar coincidir com dela, muito provavelmente, enquanto ela caminha se afastando, ela tornará várias vezes, tentando conectar novamente com você.

Ela agora coincide que antes não me havia visto. Diz que eu lhe lembro alguém. Um primo. A gente sorri, nessa alegria de sê reconhecer no outro.

No olhar de fora, a gente se reconhece. Vê-se o dentro de nós, num simples brilho: é a alma, ou eu. Às vezes, pode-se confundir com amor passional, aquele amor-a-primeira vista. As vezes, recebe-se o grito de um ódio, lá dentro de nós, e sem mais, você despreza uma pessoa comum, qualquer, sem saber porque.

Ela segue escada arriba. Eu me despeço até o próximo encontro – se houver. Mas ela fica em mim, vibrando a freqüência dela, comum cotidiana, neste instante conectado com o sempre. Eu fico, na dela.

E assim que vamos todos…. conectados. Conectando-se!

Olhe aos Olhos.

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Olhe Aos Olhos

assim como  o rio arredonda as pedras contra as pedras,
nos arredondamos nosso ser com o ser alheio.
haja rio. haja coração

 

Olhe aos olhos

Não a roupa que vestem os gestos

Olhe aos olhos

Não à palavra que alma o ego

Olhe aos olhos

Não às escolhas que fizemos em vida

Olhe aos olhos

Não ao consenso que juramos convívio

Olhe aos olhos

Nem as diferenças que politicam os dias

Olhe aos olhos

Não à fumaça do sucesso

Olhe aos olhos

Nem a fantasia de bastas lideranças

Olhe aos olhos

E olhe as crianças, as árvores e aos horizontes

Olhe aos olhos

De uma noite sem lua estrelada

Olhe aos olhos

Não ao salivar da boca

Olhe aos olhos

Não ao piscar de um medo apaixonado

Olhe aos olhos

De um orgasmo de dois ventres

Olhe aos olhos

Do fantasma de você no espelho

Olhe aos olhos

De fronte às palavras que sossegam seu próprio desterro

Olhe aos olhos

De um estranho e descubra o sem-fim da existência

Olhe aos olhos

De um prolongado silêncio

Olhe aos olhos

Da sua sombra, ela é a única que não mente

Olhe aos olhos

De uma solidão sem mágoas

Olhe aos olhos

Olhe

Olhe aos olhos

Olhe

Aos

Olhos.

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#OlheAosOlhos na Av Faria Lima com #Manoelando

Os belos olhos das crianças

Que belos os olhos das crianças

quando brilham

no despertar das palavras

que abrem o peito;

belo o sorriso após a verdade revelada,

apenas no existir

da experiência do alheio

que vem do senhor de barbas brancas

(o tempo);

belos os gestos mágicos

de suas mãos geladas

no abraço instintivo

de este encontro marcado;

bela é a poesia

de esses gestos silenciados

pela timidez de sórdida esperança

de quem está a viver a vida inteira

de galho em galho

de uma árvore imensa

na pradeira aberta

riachos cortando o mundo

dentre cidades moribundas

em ilhas isoladas

de montes verdes

cume de montanhas

grandes e magníficas cirandas

de outras tantas crianças

com seus belos olhos,

sorrisos belos

os mais incríveis gestos

das mais exóticas palavras

e outras tantas, belas poesias.

Zóios do bem (pelo mal)

o silêncio são das relações, o que as palavras são da solidão!

 

 

Tão belos seus olhos que me enxergavam

Um brilho de luzes sem motivos

Tal o sorriso do encantamento

e tal o maravilhamento

que desconfiei da minha vileza.

 

Senti o breu de um rápido piscar

no véu de um súbito adeus

e sem tempo de me orgulhar

do meu surpreso reflexo

escolhi o silêncio para te sorrir.

 

Nunca arrisquei a flor-timidez

pétalas dessas não abdiquei jamais

uma estranheza de ser o que sou

(e apenas o que de mim consigo)

mas que raramente consigo despir.

 

Mas seus olhos de fino respirar

persistiam em me ver feliz

eu sem poder-lhe mentir

do seu tento preferi me afastar

assumindo apenas o que de mim, sou.

 

Assim dos zóios do bem

por presságio do ego falar

descobri que eu odiava por mal

num afoito do deus interior

que não esconde a raiva ao não viver nosso amor.