Milton e Demian, e um café-da-manhã para três

Poucos antes de acordar ouço os gritos sem eco do Milton “é serio que comeram as bolachas amanteigadas…” era ele longe e dentro de mim ” a goiaba madura e o último pãozinho francês?”. Era dureza essa fome dominical no acalanto do lar de nos três. 

Eram o excedente da festança da nossa solidão: tudo exato, frugal, necessário. Eu comia por ele, só as vezes. Quase sempre Milton que se alimentava de mim. Eu teimava de acreditar naquela fina justeza. Tudo nosso: para nos.

Milton pressentiu uma rara injustiça “alguém vai ter que repôr…” ele vociferava sem ter com quem implicar “… cadê aquele baixinho, é papá?“, procurava nos cantos ocultos, as sombras esconderijas, “eu vou te achar, nené” as pegadas sorrisos ou as mãozinhas delatoras daquele pequeno infrator.

“Foi você, eh malandrinho” Milton descobrira nosso filho sob a cama, preparando o maior banquete: especiais pães na chapa, frutas várias cortadas, leite quente no justo café ou no achocolatado, suco fresco de tangerinas. Eu no mesmo impulso, também vi tudo aquilo. E a ele. Do sorriso dele, escondido sob o grande colchão, um minucioso convite para nossa satisfação.

Demian servia café nas três xícaras. Uma para Milton, sem açúcar. Para mim, somente um pingo de leite. Para ele, basto chocolate no leite sem café.

Em silêncio o domingo avançou sob a nossa cama. Brincamos de comer sem desistir, destino tríplice de sermos feliz.

“E aí papae…” Milton respondeu com o silêncio do seu mastigar “… você gostou do lanchinho que eu fiz para você?” Eu sorria olhando pro Demian, num acerto de perfeito reflexo. Pai e filho: Nos três.

Dei-lhe um beijo e o opaco do Milton também nos beijou.

Pai é filho.

Demian era o sol do domingo, razão de nos: Ser.

 

Milton e seus discípulos

Milton apaga a lousa como quem apaga meu rosto de um espelho, a poesia não tem tempo… no fundo aparece um verde fosco, e ainda os restos mórbidos de outras palavras que ele esboçara com uma certeza vácua … esse é o inimigo maior do poeta.

Do lado oposto da sala, dez ou mais discípulos, se surpreendem com o método. Alguns versos jorrados através das janelas. O grito de outros poetas ecoados na voz dele. Um pulo na parede. Um deitar no chão. Um rasgar de folhas rabiscadas.

“Nada me interessa da poesia alheia…” somente eu não me surpreendo com seus gestos, as mãos avoando, o farelo de papel fantasiado de purpurina branca “… cada um que cuide de sua insólita loucura”.

Os discípulos mascaravam elogios, o orgulho de presenciar tamanha tertúlia do ego em retórica poética do maldito. Eu era o principal refém daquele giz que transmutava sensações em palavras, como se fosse também meu, todo aquele universo egocêntrico que ele praticava.

Mas eu não o negava, essa mesma vaidade agasalhava-me nas geadas das noites solitárias, no exercício cotidiano do ser diante dos outros, no percurso singular daquele nosso existir.

Ali diante daquelas palavras que insistiam em se reescrever e se apagar na esverdeada lousa, eu sentia uma solenidade estupefata, razão do sentir de nossas ambas mãos desenhando as emoções de um fantasma.

“Vocês ai…” Milton gritara no seu afã  de discurso, “ninguém aprenderá nada com suas palavras…”  eu certificava tudo aquilo no gesto frio de um diretor de orquestra de câmera “… e ninguém se importará jamais com o que vocês falam” era triste e sublime o ensinamento no rosto apático dos discípulos, aqueles dez o mais escritores de poucas façanhas.

Eu, que diariamente penava o poeta, confirmava com o giz branco na mão dele, “o que vocês escrevam… “ e na outra mão nossa, aquele gesto altruísta e necessário “… como a mesma dedicação o apagam”.

Do nada, Milton

A pesar das insistências do diário cotidiano, Milton não se abalava em sentir as pressões dos seus afazeres e necessidades. “Eu vivo à margem de mim…” e apanhava do ar uma poesia gutural e incompreensível “… e nada sei do que é, ou deve ser feito”.

Eu preparava uma marmita para o almoço no serviço. Pegava um livro qualquer para ler no transporte. Planejava as horas vagas da noite, e até imaginava algum sonho para percorrer na madrugada.

“Dar corda livre à sociedade…” Milton escrevia com o gesto no vidro da janela mofada “é jogar fora tudo o que se é de naturalmente único”.

Ele falava leve, sem questionar ou pesar naquele solilóquio. Eu, daquela tristonha alegria, conhecia apenas os perrengues, as fomes, as dívidas e as noites solitárias. Era como aceitar que para sermos, teriamos que ficar na sombra das felicidades alheias.

Milton preferia ver o sol nascer depois da imensidão da última insônia, e aproveitar para berrar nos nossos cadernos de (des)encontros e (des)tiempos; depois se entregava às vulgares conversas das pessoas nas ruas sem o intuito de entender ou julgar; depois interpretava o vôo das andorinhas na esquizofrenia do entardecer; e na noite, sem qualquer explicação ou objetivo, ficava vendo aparecer as estrelas da noite.

Era uma existência inócua, quase pueril, um tanto inútil.

“E quem disse que a vida faz sentido…” Milton gritava para mim, do outro lado do vidro mofado, como se ele mesmo não acreditasse naquilo.

Eu vi a dor nos olhos secos do seu grito, e do lado oposto do vidro, escrevi no orvalho úmido do nosso encontro “… é viver que faz sentido”.

Milton às avessas

Nunca dá para conhecer quem é o verdadeiro Milton. Inconstante em seus argumentos, ele muda sempre o lado dos seus posicionamentos.

“Paradoxo de cú é rola…” disse de ponta cabeça, as mãos no chão, os pés esticados, abertos, contra a parede branca de casa.

Fica com frio, abre a janela. Sente vontade de andar, e se fecha sob os lençóis.

Eu, do outro lado do nosso ser, restou-me o oposto de seus inversos. Nem parece complexo.

Quando está amando, sofre a solidão do abraço. Sorri a partida do amor balançando uma ereção clandestina entre as mãos. Depois, no reencontro saudoso, afasta-se do abraço num tranco violento.

“Eu não me entendo…” diz Milton, eu suspiro vendo o redemoinho de folhas que gira entorno de um invisível vento silente na clari-sombra da rua “… e nem quero” eu completo.

Nem mesmo eu, do outro lado de mim, o compreendo. Dele só sei os silêncios, calado é que ele fala o verdadeiro.

Eu rabisco estas ideias. Milton lê-me com o pensamento, sorrindo, sai de perto e de costas, distante, me solta “ei la ai, ta ai você, mentindo até para você mesmo”.

Eu não o enxergo. “Milton?”

 

O gol do Milton

Milton liga a televisão na procura de algo que o tire do tédio. Zapeia canais como quem mastiga um chiclete. Evita os jornais. Os programas sensacionalistas. Não quer saber do clima. Nem do trânsito…

Goooool … ele ouve e se detém no futebol.

Milton torce por time nenhum. Nem de clubes nem de seleção. Procura sempre entender as formações. Perceber a posse da bola. Os erros de marcação.

“Porra, chuta direito…” ouço do lado dele, enquanto bebo mais um gole.

Futebol é dessas raras vezes que Milton perde o controle de sim. “Caralho, seu filho da puta…” ele xinga de ambos os lados. Não quer que ganhe alguém específico, “é pelo jogo bonito”.

Quando o comentarista enche muito o saco dele, Milton aperta o mute e espera a jogada passar. Em silêncio, ele aguarda, bufando, puto.

Durante o jogo, Milton torce pelo jogo ficar melhor. Se um time faz um gol, imediatamente torce pelo outro, querendo o empate ou até, o time virar. O vencedor tem que ser a nossa diversão.

Com o apito final, Milton pega uma bola murcha de um canto de casa. Faz umas embaixadinhas. Dribla a mesa, as cadeiras. Levanta-a do chão e chuta contra a tevê. “Golaçooo…” se contenta.

Depois pega cuidadosamente os cacos de vidro. Fim do partido, lá em casa.

Milton XXX

“Você senta ae quietinho, e não fala nada” me diz o Milton “faz de conta que você não existe” eu fico atónito, sem pensamento, só escutando-o “como se fosse invisível” aguento a respiração, a raiva. Silêncio.

Batem a porta. Milton abre e uma morena muito gostosa entra. Tem uma tatuagem que reconheço, estrela esverdeada, solitária, no ombro esquerdo: Mônica Mattos?

Milton me pisca o olho, e ela atravessa os cómodos com uma naturalidade de gata feroz. Vou atrás dela, e dele, na moita, tentando ficar invisível.

Milton encosta a porta e ficam ambos falando baixo. Eu observo pela fresta o primeiro beijo, as caricias sobre as tatoos, os corpos nus se aproximando, esfregando-se suados, corpo com corpo, o dela, Mônica e o dele, Milton e eu, invisível, na fresta, só olhando.

Milton me olhava, distante. Ele gabava-se do sexo da nossa fêmea, do corpo dela, dele, e na mente, minha.

“Eu sei que você não tá sozinho…” Mônica que falava, eu escuto, o Milton escutara. O resto é obvio, Milton não gosta de coisas obvias.

É só uma cena…

A obra do Milton

Milton saiu cedinho de manhã. Não disse nada. Não levou nada. Apenas tomou um café e fez um sanduiche. Comeu uma banana.

Passaram-se umas dez horas, e ele voltou de noite. Tomou uma chuveirada. Não disse nada.

Assim foi-se uma, duas semanas. Ele saia cedo sem dizer nada, e sem dizer nada, voltava de noite.

No domingo respondeu “estou trampando na obra” e ficou em silêncio o resto do domingo.

Nosso corpo vibrava. Músculos, articulações e gestos se faziam presente como nunca antes. Eu não entendia o que me passava.

Eu revistei seus bolsos e as calças. Do nada achei um parafuso e duas porcas, um pedaço de lixa, arame, barbante, uma lista de compras de tintas, e algum troco. Tinha um cartão de visita de uma serralheria, e dobrados um desenho de um jogo de cadeiras e mesa.

“Era para ser uma surpresa…” desanimou, e pegou da minha mão os rabiscos.

Segunda feira de manhã saiu sem fazer barulho, a semana seria pegada no serviço. No domingo depois, quando acordei não me reconheci no café-da-manhã. Detrás de mim ouvi a voz do Milton martelando “eu que fiz essa mesinha”.

O Carnaval do Milton

Na quarta feira de cinzas, Milton se fantasia de Marla. No Carnaval, a nossa barba combina perfeitamente com as unhas pintadas, o batom rouge e os brilhos exagerados perto dos olhos. “Tá uma diva essa moça…” solta ela olhando para mim nas vidraças da lojinha de espelhos.

Caminhando na multidão com uma cerveja na mão, Marla procura pelo começo do bloco, perto da singela bateria de amigos bonitões. “É aqui que chegam as meninas mais expertas, saca?”.

Quando começa a batucada, Marla joga pro alto, confetes, gritos e o sutiã. Dois babacas lhe apertam a bunda e a bochecha. Eu não revido “isto é carnaval, fio” me diz ela, com um sorriso orgulhoso.

Marla pula. Acompanha as marchinhas. Dá um help empurrando o carrinho do som. Uma coroa nos rouba um beijo. Ela cumprimenta gente que conhece, mas que não nos reconhece.

Na dispersão, bastante bêbados e com os pés doloridos, Marla se senta na sarjeta. Ela estende o copo na espera de uma doação salvadora “como ficou a minha maquiagem?” me pergunta se fazendo de tonta.

Eu não respondo, apenas consigo enxergar.

“Carnaval é muita hipocrisia…” ela joga o copo longe, ficamos de pé, tremendo   “… todo mundo finge que é outra pessoa para melhor se divertir”, e empurra alguém que passa perto de nos.

Afastamos-nos do bloco, e Marla ruma para a estação do metrô “fiquei com saudades do Milton”. Deixa ela falar.

Aos ANÓNIMOS com amor, do Milton

“Queridos leitoras e leitores…” era Milton quem ditava enquanto bebia de um copo americano “… eu escrevo por desejo e vontade…” eu quem digitava no ritmo daqueles goles “… por vocação.”

Milton estava muito puto com alguns comentários virtuais que tinham deixado sobre a vida comum que compartimos. Coisa de interpretações e subjetivação das experiências. Texto sem contexto. Aquela frieza literária que permeia a e-Xistência e as redes sociais.

Eu estava sem o que dizer.

“Minha vida é um livro aberto,…” eu estava achando ele brega, mas Milton fica assim quando se sente inseguro “… um monastério de minhas próprias ideias”.

Milton esvaziou outro copo.  Eu enchi duas páginas. Daí ele gritou no meu rosto “SÃO COVARDES OS ANÓNIMOS”.

Milton cospe no chão “seus filho da puta, vem e fala isso aqui na minha cara” olho para ele e lhe pergunto se é para escrever aquilo. Diz que não precisava.

Quase no fim do texto, ele põe a mão no meu ombro e me diz “você escreve bem” e da uma palmadinha. Eu boto o ponto final.

Milton se aproxima da tela do notebook e diz sorrindo “quero ver se o recalcado sabe escrever seu nome”.

Ceia de Domingo com a Família de Milton

A mesa está servida com sete pratos e seus talheres, vários vidros com comida crioula, guardanapos de algodão, uma jarra de água, cervejas e refrigerante nacional.

Milton senta-se na cabeceira da mesa, um gesto de nosso pai que não se incomoda com o ceder a tal cadeira principal. Eu sento-me do lado oposto. Nas laterais nosso pai, minha mãe, nossa irmã e sobrinha.

Sinto falta do meu filho, penso olhando para a cadeira vazia, e “logo mais ele chega” me sussurra Milton.

Minha mãe serve-nos primeiro, e a nossa irmã aproxima as sobrancelhas com um ciúme que eu acho justo. Nosso pai serve seu prato sem exageros, e alarga a mão para pegar um pedaço de pão.  A sobrinha chama a atenção com pedidos que não acabam, e faz com que os adultos percam por instantes a paciência.

Milton devora um prato bem feito. Um segundo menos caprichado. Ainda, se serve com um terceiro apenas com feijão e arroz. “Sua mãe cozinha para caralho” se orgulha Milton, e nosso pai acrescenta que foi ele quem temperou a carne, quem acertou o sal do arroz, quem escolheu aqueles abacates maravilhosos. Minha mãe sorri discreta.

Nossa irmã come pouco, “deixarei um espaço para o sorvete” e Milton que não confia em intenções do futuro, come mais uma mandioca com molho de alho.

Eu me afundo na cerveja e acompanho os comentários do nosso pai sobre a inflação dos alimentos, o comércio ilegal de frutos-do-mar, o restaurante que abriu um colega com as novas medidas do Governo.

“Saúde família” propõe nossa pequena mocinha e os adultos aproximam os copos numa felicidade de domingo.

Nossa irmã come um sorvetinho e a pequena abandona a mesa à procura de uma televisão. Mãe recolhe as coisas enquanto nosso pai resiste-se aceitar uma proposta de mudanças familiares feita pelo Milton.

Eu solto meu olhar pela janela aberta até o centro da cidade. Cidade triste que nos viu nascer, crescer e começar a escrever. Que me viu amar e morrer de amor.

“Cadê meu filho, vida minha?” sussurro, e ninguém me escuta.

Milton está pensativo, não me lembro dele assim.