Esquece, Milton

Milton caminha na minha frente, um abismo de dois passos. O olhar dependurado na paisagem entre ruas e fios elétricos. As pessoas vivendo suas vidas de passos simultâneos. Um rosto e duas sombras.

“Vê se esquece daquilo” – Milton solta e assinala a torre mais alta.

Aquilo representa o destino de certa verdade. Não há probabilidade. Carece de estatística. Olvidar é reaprender o caminho.

Milton avança agora mais leve, na malandragem acha um atalho ao tumulto. Dois pulos num muro. Uma barra de ferro. Uma corridinha de impulso e com um pique consegue correr entre dois guardas.

Ele era o ápice dos meus opostos. Uma insana corrida entre escadas de mármore, em círculo ascendente. Um cume.

Eu era a calma da espera, no meio do nada e o asfalto. Ele no ponto da haste mais alto.

“Se perdoa Milton” suspiro desse sorriso que ele me manda dos céus. Braços abertos no vento. E vejo que os guardas o prendem e o fazem descer.

Em breve ele aparece e se entrega ao meu abraço. Nos dois abraçamos no meio de todos os outros.

“Você achava que…” Milton sorri no meu ouvido. A haste balança-se detrás de seus ombros, lá na torre mais alta “… não há desejo que valha esta morte”.

Então ele me mostra o revólver. E vejo sua sombra começar a corrida, dois passos à frente. Um abismo. Eu mesmo, duas sombras.

O melhor emprego do Milton

Milton perambula à noite pelo lobby da hospedagem. Faz uns meses ele fugiu da grande cidade para viver cerca do mar. Eu tive que vir.

“Aqui eu consigo respirar” disse ele e puxa num bocejo um pedaço da madrugada caiçara.

As estrelas estavam tímidas pela luz da lua. Umas nuvens dançavam no horizonte.

Milton arrumou um desses empregos que precisa ficar sorrindo. Recebe turistas em dezesseis línguas. Carrega as malas daqueles que sente pena, e não aceita gorjeta.

Sempre no entardecer, vai até a beira-mar, e em silêncio faz uma preze por mim. Eu que sou agradecido, lhe ofereço um cigarro do verde. E juntos vemos o sol se pôr.

Toda madrugada percorre as habitações à procura de uma que não esteja alugada. Vasculha os odores de quem por aqui ficou. Interpreta as dobraduras dos lençóis. O que restou no frigobar. O desenho das pegadas na poeira do chão. Os pingos de agua perto do chuveiro.

“É assim que você conhece uma pessoa” sentencia Milton, enquanto cheira uma fronha listrada. Daí ele alarga a mão e me passa o tecido.

Depois Milton me leva até a porta, me despede, e fecha por dentro.

Eu fico ali, ouvindo-o mordiscar uma melodia. Do lado de fora, eu aguardo ele desligar as luzes. Nem sempre consigo esperar, e durmo sentado numa escada ou deitado no jardim.

No outro dia, ele está de novo feliz e convicto de si.  Diz-me “Vai ser difícil irmos daqui” e se vá com pressa, receber um turista alemão “Enchuldigung, ich Bin Milton“ inspira profundo e sorri, depois pisca um olho para mim “wie gehts mein Freund?“.

Milton e a solidão

“O que será que eles sentem…?” Milton me pergunta, e entendo porque eu fico também na dúvida “os outros, digo”.

Eu olho as pessoas caminhar pelas calçadas, feitas nuvens avulsas, decompostas, sozinhas em si, e o silêncio delas.

“Você, ao menos, me tem…” ouço o possessivo e fico arrepiado. Éramos tão próximos, tão um… tão só.

A vida em sociedade afastou os homens da sua existência, a própria e única: a solidão. “E a família…” Milton pausava “os amigos, os namoros…” eu o ouvia dentro de mim “então como faremos?”

A questão era de vida ou morte para Milton. Para nós dois.

Nas calçadas, subitamente, as pessoas ficaram estáticas. “É o silêncio”, diz Milton e fica feito nuvem avulsa, decomposto, sozinho em mim.

Todo mundo tem um Milton.

Milton e a Saudade

No meio de cada despedida, sem o menor alarde, Milton faz silêncio. Diz que não há poesia na dor da ausência, como não há dor atrás da morte, nem amor que morra nas despedidas.

Odeio ter que concordar com ele.

Eu aperto mais um abraço-adeus, e ele sorri da nuvem opaca no exato momento em que as sombras iriam se fingir eternas.

Há quem pense que Milton não é mais que um escroto insensível profanador de palavras e sentimentos sem justa causa. Eu juro que tem vezes que eu mesmo esgoto instantes e perdões, tentando não julgar o que me parece absurdo. É difícil.

Nesta madrugada, Milton e eu até que enfim achamos conforto nessa rara sensação que há nas palavras. Dormíamos lado a lado, justapostos, sendo quase o mesmo ser. Sonhávamos, sentindo em sonhos, o raro prazer de sermos um.

Ele disse com um tom áspero “saudade é o abraço infinito de um encontro…” claro que eu escreveria de outro jeito “e na ausência, tanto doe como acende…” obvio que eu sinto do seu modo “e é, o mesmo impulso que nos aproxima ao reencontro”.

Eu vejo Milton partir de mim mais uma vez. Desses últimos abraços que me deu, escrevi as mais profundas crônicas sobre mim. Para ele nunca li. Vá que encana de me chamar de romântico ou poeta ou cidadão infeliz ou raro animal de emoções paradoxais. Vá que concorda comigo, e na minha razão, me descubro absurdo e sem perdão, profano de palavras e sentimentos.

“Saudades, nossas” digo-lhe pensando em nos, e em todos os amores que já foram e os que virão. Despeço-me.

Milton faz silêncio.

Despir-nos, mais uma vez.

Milton e Meus Amigos

Milton caminha por ruas avulsas de La Habana à procura da solidão que eu não lhe dou. Ele transita entre vendedores ambulantes e pessoas que se cansaram de esperar o ônibus. Muda de rumo cada vez que prefere: numa esquina vira cento oitenta graus e retorna pela mesma rua que chegou ou troca de calçada num piscar de sol.

“Neste país qualquer caminho chega ao mar”, essa filosofia de ilha à deriva ele aprendeu tirar bom proveito.

Então, quando menos ele espera, aparece alguém que conheço ou me reconhece e começamos a conversar. Falamos dos retos do exílio. Das mudanças que importaram junto com o capital e as inversões. Dos amigos comuns que recém viajaram para outras terras. De como me vá e como lhe vai ao amigo. Sobre Milton não falamos nada. Ele não gosta de falar de si mesmo.

Despedimo-nos e na próxima esquina encontramos a outra velha amiga. Milton ajeita o abraço de tal modo que parece que minha amiga ele continuam abraçados mesmo após o abraço. Enquanto eu falo sobre minha paternidade, ele cutuca o cabelo dela, cheira ela perto da orelha, comenta algo que não ouço e ela sorri.

“Sabes como voltar a casa?” eu odeio o sarcasmo descarado, ainda mais vindo dele.

Por detrás, alguém me cobre os olhos e pede para adivinhar quem é. Eu arrisco e erro. Sorrio, falo outro nome e erro. Outro, nada. Outro. Outros.

“Não há ninguém que não tenhas conhecido” ainda escuto a voz do Milton, agora um pouco mais distante e uns passos de mulher que se afastam. “Quem você nunca ouviu ou viu não é mais que um figurante nesta vida de papel” fala a voz detrás de mim e eu me dou a volta procurando saber quem e para minha surpresa, vejo que não há ninguém.

Distantes, de mãos dadas, Milton e minha amiga flertam com passos de quem não vão se apaixonar. Na próxima esquina viram à esquerda onde não posso mais vê-los.

Ele sabe como voltar para casa…