era aviso

Veio uma avalanche aventureira

desgarre de fluxo natural

da gangorra cotidiana dos gestos

acidente causal dos efeitos dos sim,

na inversão negativa da ação.

 

O vento era forte na floresta dos olhos

o medo desenhando contrações de luz

cegava o silêncio

das palavras jogadas à esmo no ar

e o eco da pedra oca da perfeição.

 

Quem segurava a justa certeza?

De quem a verdade do acontecer?

Quem satisfazia melhor a sua dor?

Quanto valia um perdão?

Uma rara incerta aceitação?

 

O choro no fundo do ego

pura vontade de sobreviver

nem houve prazer na dor vital de morrer

meia volta em torno do fim

da sem esperança … sem fé.

 

O cartaz era aviso da morte

final dos dias e dos deuses

não há tempo que volte no fluxo do que não aconteceu

nem gestos sem retórica transmissão

na espiral do tempo de nos.

 

 

Águas da vida

Chovia muito lá fora.

Na cozinha, fervilhava água para fazer algum cozido.

Chuverava dentro do banheiro, e você, hijo, divertia-se sozinho com aquelas histórias que você inventa. Eu entrei no banheirinho esfumaçado para tirar você de lá. Peguei a toalha.

“Pai, eu gosto muito dessa minha vida” você disse. Lacrimejou meus olhos pela simples frase, teu sorriso. Eu te secava. Bateu silêncio na minha resposta: não havia palavras.

“Vai ter outra?” você expeliu sem dar fôlego a minha surpresa. Era essa – minha – sensação humana de uma dor sem fundo.

“Vai ter uma…” consegui te dizer “… bela e longa vida”.

“Só esta?” era tua certeza surpreendida, mas consciente, e plena, de que esta seria nossa vida, única vida a ser vivida.

Eu segurei meu pranto, que agora com você brincando no quarto, consegui sem dor, chorar a vontade.

“É, Benja…” eu triste, querendo te mentir, mas não podendo “temos que curtir muito”.

“Sabia pai? As crianças também morrem”.

“Sei Benja, eu sei” a tristeza não doía, machucava, matava. Daí eu falei aquele discurso de se cuidar muito, de se divertir muito, de ser feliz.

“Mas, porque você está me falando isso, hijo?” era eu procurando um caís, um pé no chão para aquela dor que eu não mais segurava.

“Ué, só estou te avisando” você me disse.

Chovia lá fora um mundo. A água no fogo evaporava. Eu estava triste sem motivos. Você caminhava abraçado à toalha, ciente da vida, dos fluxos das águas.

Sim e não: o equilibrio

Tantas vezes que já dissemos “sim” para os outros, estacando um “não” no nosso coração. Tantos “não” que negaram nossos desejos, sendo que era “sim” o que gostaríamos afirmar. Tanto o que de nós cortamos, tanto que deixamos de fazer por conveniência, por desamor, por não enfrentar.

Desde pequenos, assim é: aprender a conviver sem lutar. Aceitar, sem questionar. Calar, para não gritar. Ocultar, para não se expor. Fingir, para não ser.

Doe, não é? Arde no peito esse silêncio. Queima, furando o tecido ao redor do coração. Afoga o hálito, debilita, mata!

A negação de nós mesmos, de nossos desejos, de nossas buscas é a primeira morte que a gente experimenta. Só que este decesso é mais doloroso que a própria morte. É a dita, morte em vida.

Lá se vão muitos, zumbis de si próprios, acreditando em ideais que não creem. Sonhos comprados em liquidações de final de ano. Empregos que desgostam. Famílias que não se apreciam.  Verdades desvalidas de sentido. Aquelas liberdades carnavais. Amores que não se amam.

Eu digo não, e me reafirmo. Prefiro inventar-me sonhos por momentos e desistir deles se no próximo instante perderam sua validade. E pouco trabalhei na empregabilidade, sujeito a cansaço de um holerite. Amo só a imparcialidade de um abraço, dividido ao meio entre o cúmplice e o consenso de aceitar, quem quer que fosse e o que for que eu seja. Meu corpo não lhe pertence a qualquer autoridade, a nenhuma deidade, menos ainda, alguma dessas raras expectativas humanas.

E tudo isso é só, uma tentativa insana, interminável e desastrada: não estou procurando acertar.

Então não, maioria das vezes é um não mesmo. E se é um sim, que seja sim até que a verdadeira morte me apague.

A morte do Milton

“Milton, cadê você?” pergunto para mim no meu silêncio interior. E o meu silêncio responde…

A última vez que soube dele, alguma triste premonição me cercou. De fato, a vida ficou mais tensa, concreta, dificílima. Nessa correria toda, me esqueci de invoca-lo para sorrirmos juntos. Ele também não me procurou.

“Milton, Miiiiiilton…” nada, ninguém contesta.

O meu malvado favorito esqueceu que minha solidão é péssima companheira.

Esqueceu-se de mim. Esqueceu-se dele.

Eu não consegui escrever seus últimos suspiros. Minhas palavras que eram dele. Perdi seus gestos na nebulosa realidade. Não ouvi a voz de ele me chamar pelo nome num murmulho. Não senti o corpo nosso se roçar na minha pele.

“Cadê…?” era um pranto que fez eco e voltou para mim “… eu?” meu espelho interno devolvia-me um Milton intacto. Quase um eu mesmo, perdido e solitário.

Eu não sabia dele, e desconhecia de mim. Fiquei abismado diante da escandalosa fenda entre eu e eu mesmo. Um buraco fundo sem fim. Poucas palavras, e ainda menos gestos. Quase nenhum ato.

Estava morto, Milton e eu.

 

Funeral de famosa

Diariamente alguém famoso morre. Seja um cantor, um escritor, uma atriz pornô ou um ex-presidente. Diariamente assistimos nos noticiários funerais alheios. A morte virou dinheiro. A dor subiu no Ibope.

No dia que minha avó Dora morreu tinha no cemitério mais de duzentas pessoas (ya comencé a llorar). Ela não era artista, nem famosa, nem menos líder da Revolução Cubana.

Dora foi mãe de dez filhos, uma sequência de netos, e até conheceu quatro ou cinco bisnetos. Tinha morado quase toda sua vida no mesmo endereço que ela viveu. No bairro de Santos Suarez, num bairro calmo de La Habana.

Naquela noite, no velório, minha prima ou tia Elena, não lembro, veio me perguntar se eu seria capaz de ler a despedida dela que tinha escrito meu tio Esteban. Eu era dos poucos que não chorava, focado na dor que meu pai sentia, e que nunca antes eu tinha visto ele assim.

Aceitei pelo orgulho. Pela dor. Pela falta de lágrimas.

No dia seguinte, depois que o caixão desceu seus três metros, e já lacrado o túmulo, dei um pulo e subi-me naquele box de granito branco. Sob mim toda minha família, meu pai aos prantos, meus amigos do bairro, e nas minhas mãos um papel frio de sessenta e poucos anos de vida, resumida poeticamente por alguém que a amava muito, mas que escrevia desde as neves do Montreal.

Eu li segurando o hálito enquanto escutava gritos, choros, pancadas de todos aqueles que talvez sem aceitar a morte, morriam de dor naquele instante.

A vida era curta apesar dos sonhos. Eu tinha vivido com aquela vieja todos os anos da minha vida (até ela partir). A dor em mim era tão grande como a dor de todos aqueles que me escutavam, mas eu sem entender ou querer saber, preferi ler sem lágrimas para que o resto chorasse em paz.

Minha avó Dora era famosa por ter criado sozinha uma família imensa, conhecida nas ruas próximas como “los muchos”. Era simples. Jogava o jogo do bicho todo santo dia, com combinações de sonhos, datas de aniversário e número que pedia ao acaso a qualquer um. E como minha casa tinha muita gente, as melhores festas do bairro aconteciam sob a vigilância dela.

Minha avó morreu e não saiu na imprensa cubana (que dedica seus esforços em manter só a cara-pálida do governo Castro), não precisava. As ruas do Cemitério de Colón perto do panteão da família Esquenazi (quem doou um espaço no túmulo judeu deles) ficaram lotadas de velhos conhecidos, vizinhança, amigos, filhos, netos, bisnetos e eu, sobre o granito branco, lia uma carta de despedida.

Quando acabaram aquelas frases adocicadas e não houve para onde fugir os olhos, levantei a cabeça e vi aquele mar de gente aplaudindo ou sei lá o que, cai de joelhos literalmente e rasguei a chorar.

As pessoas me pediam para me acalmar e para não chorar. Eu não tinha chorado a noite toda, então chorei para valer.

Dora y yo

Dora y yo

A negação de Milton

“Isso não pode, Milton”

Dentro de mim abre-se o oco vazio buraco do medo. Como árvore cresce dentro e fora das minhas paredes.

Milton se fecha nele. Nada lhe causa tanta dor quanto a negação de um desejo. Mesmo tendo lutado por aquela vontade, quando aparece um elemento regulador que o detêm, murcha.

Milton é uma criança. Feliz, abre sua mão para pegar aquilo que…

Diante do não ensombrece, capenga, encosta, resvala e cai, tropeça e quebra, rasga, entorta e abre, afunda, entristece, mancha e sangra.

Dou-me um abraço.  Nesta solidão que vivemos, ele me têm e eu o tenho. A fórmula parece simples, mas dá vários nós. Enrosca-nos.

Mas são suas próprias negações que lhe atropelam, que lhe tiram o hálito e as esperanças.

Milton se ajoelha. Não sente a dor beliscando-o em toda extensão das suas pernas. Dentro dele escuta uma espécie de grito das suas vísceras, pinica e doe.

“Não, isso não vou fazer” me disse…

Eu vejo a morte. Nossa morte, Milton.

E não há maior morte que nossa anulação. O próprio e legítimo suicido de quem desiste e se negando, morre!.

Eu me curvo diante da sombra dele, efímera, e lhe abraço os olhos. Deles descem lágrimas sem mais…

Não dá para morrer toda hora.