Instante mais, instante menos

Soa a maquinita do tempo. Cada batida é um instante a mais. E um instante menos. Durmindo acordo.

A maquinita de meu peito bate forte no sonho. Sonhei que caia do abismo mais alto, sem retorno da vida. No sonho beijava a mulher errada e não gostei do beijo. Errar é humano, mas não há desculpa que nos salve do gesto. Doía-me o fôlego entrando e saindo do corpo. Sonhei com pessoas que não teriam morrido, mas que no avesso da vida se afastavam para sempre e eu nunca mais as conhecia.

DESPIERTO…

A maquinita-relógio toca o alarme. Combinado não sai caro. Barulho chato do caralho.

É o começo diário inevitável de maquinitas humanas: maquinitas de fazer café, de esfriar o leite, de aquecer ou comprar o pão. Em poucos instantes: maquinitas de tomar banho quente no inverno e banho frio no verão.

No pequeno zoológico de mim mesmo, quase religiosamente, compulsivo e doente, agito o corpo, e ligo minha pequena maquinita de escrever a vida. MI VIDA.

Humanae-makinitas-ad.eternum essa é nossa espécie condenada e preguiçosa à vida-maquinaria.

CAMINO…

O sol é do leste e bate no rosto. A cidade baixa ascende todas e cada uma de suas maquinitas. Grandes e custosas maquinitas de engolir vidas. Têm quem sobrevive a essas rotinas, a esse descaso de sentido. Têm quem consegue botar sentido, e vive a pesar das rotinas, sendo engolido na sua própria maquinita.

Não há saída simples. Não há, não seja a felicidade. Encontrar o sentido de cada uma de nossas maquinitas, o porquê, o tanto, o fundo e o pranto.

SUBO O MORRO

Estou de emprestado pegando outras maquinitas para ver se tem sentido tudo isto ao que me amarro. Desgarro paredes. Aliso madeiras, metais, vidros. Seguro o calor ou frio, e o pó entrando no meu olho – minha maquinita de enxergar o humano. Construímos as últimas pequenas esperanças do perdido.

SUSPIRO…

De frente a uma árvore, lendo um livro, diante do mar calmo, da noite crua sem estrelas citadinas, na mesma noite de cigarras e grilos, dentro de um abraço, entrando no sexo amado, em pé sem correr da solidão, na eterna viagem bêbada das drogas, viajando no sono exausto do fim da jornada, no gole de álcool, na mais humilde verdade, em qualquer e cada uma das despedidas a maquinita do tempo acelera e para. É o impulso necessário, e o único que sei fazer nesta empreitada.

E a sua maquinita…?

Subindo o Morro… descendo a montanha.

Subi o Morro há seis meses num dia de chuva e ainda sem abrir as minhas caixas fiquei sabendo de um show da Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, na minha mesma rua, na Padre Justino. Mal sabia eu, que a cada final de semana, encontraria aqui no Querosene algum bom rolé para curtir.

Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, Festa do Boi 2012

Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, Festa do Boi 2012

O Cine Querosene, todo último domingo do mês, monta na rua frente ao Ateliê     D´Ollynda uma telona, com cadeiras que trazem os vizinhos, pipoca e geleias e aguardientes locais. A criançada invade geral e os amigos do Morro ficamos aí, sob as estrelas ou a garoa, curtindo nosso  cinema de bairro.

Cine Querosene

Cine Querosene

Aqui as casas abrem seus portões e às vezes rola festinha de bairro com artesanato, brechó, cachaças artesanais, forró e tambores.

Tambor de Criola

Tambor de Criola

IMG_0073

Três vezes por ano a Festa do Boi é a principal e mais famosa manifestação cultural de nosso bairro. Nascimento, Batizado e Morte do Boi, a festa Bumba meu Boi, que é tradição no Maranhão e que Tião Carvalho lidera aqui com os tambores de criola. Também aos domingos de manhã, na praça central, aquela onde tem um árvore, acontecem as oficinas para quem quer se aproximar deste evento.

Olha o Boi, Festa do Boi no Morro do Querosene

Aquecendo os tambores

??????????????????????

Os botecos do bairro são às antigas, espécies de armazém com cervejas geladas e bem mais baratas que por aí, e gente do bairro sentados sem camisa e de chinelos.

Na saideira do bairro, também fizemos nossa festa com os amigos. Show ao vivo do Nayangolo e o rock dos Godofredos, música cubana, rifa e sanduba de atúm e cerveza bien fría. 

No quintal de casa, de Brasil para Cuba.

No quintal de casa, de Brasil para Cuba.

Eu vou ficar com muitas saudades… e Benjamín também.

Capoeira: A própria língua do corpo

“os nomes não me prendem”

Mestre Pinguim

Capoeira é a língua do corpo. As palavras que gestam braços, virilhas, e pernas. Conversas em apoios, torções, e giros. Perguntam-me com chutes, socos, rasteiras. Respondem-se nas esquivas, cocorinhas, e rastejos.

Cada pessoa e os corpos tem um jeito inigualável, exato exclusivo. Como a voz que me sussurra sentidos, todas e todos, diferentes. Como os olhos que vem o horizonte, e perseguem com fome de herói, cada um com o seu espirito.

Cada pessoa tem sua capoeira. Seu jeito especial de gingar e seu modo de sonreir al espejo.

 Aonde vá está mão que pende? Até onde consigo levantar essa minha perna? Qual é o espaço exato que se esticam meus dedos? Onde está a minha sombra, existe?

Abaixa, vem aí uma pernada destruindo poesia. O pensamento te eleva do centro, perdido em devaneios, lá foi o presente, esquecido virou esquecimento.

Abre o olho. Abro-o.

Tudo quanto existe está alí frente, acima, abaixo, em volta; tornado visível, aquilo se faz forma, e sentido, e entonces vivido.

É, nas palabras do gesto, que não é possível mentir. Fala-se em silêncio, fala-se num beijo. Explica-se no abrazo. Se faz arte no sexo.

Não há nada que o corpo, este conjunto ósseo musculoso travesso, não consiga dizer para o outro.

Somos um, diferentes, todos. E neste espaço-vida onde o encontro sua, roce e pele, hálitos que perfumam as palavras. Cada um que baile do seu jeito.

Capoeira… Capoeira… Capoeira.

Iê!

dos más seis igual susto

Hace menos de una semana, habíamos estado pintando en hojas blancas con tintas coloridas, con crayones y goma de pegar con colores. Benjamín se divertía mezclando los colores, y superponiendo uno sobre otro sin ningún escrúpulo cromático – si es que eso existe.

Al final de la diversión, aceptó bañarse y cuando lo estaba cambiando para que se fuera a la ducha, mientras sacaba el pie se le enredó en el pantalón y, de mis manos, lo vi irse de quijada contra el inodoro. Al principio el susto, el llanto, mi reacción y la sangre saliendo sin mucha fuerza de la herida fueron un único instante. El susto se convirtió, en un histérico choro meu que yo no había sentido jamás. Un pranto indisoluble en los próximos minutos, y un dolor que duró casi una semana hasta que el domingo le quitaron los puntos.

Yo le dije “Benja, yo nunca me puse puntos, hasta en eso llevas la delantera”.

Él me había preguntado “pai, porque você está chorando”  y yo que no sabía la respuesta, seguí llorando y le dije simplemente “papá está muy triste”.

Fueron dos puntos internos, que le dicen, y otros seis puntos por fuera. Imaginen ahora el episodio completo, nuevamente, desde mi punto de vista. ¡Susto!

A chuva, minha felicidade.

Dia longo, na chuva molhada ininterrupta deste inverno, que nasce no peito e morre no sono. Dia um só, feito de estilhaços, pequenos minutos, instantes infinitos da vida que vivo – e escrevo. Dia que vivo, e na noite é que escrevo do dia vivido.

O sinal macio do despertador, a fresta clara através da janela, a hora marcada, a longa preguiça que desce o bocejo feroz da manhã, no frio que espanto com meu próprio abraço.

A solidão dos sonhos relembra: a vida é uma só, sozinha, e o tempo contado na pulseira de um dEUs malcriado, pueril, instigante.

Sob o chuveiro quente, minhas mãos se esfumaçam, e o corpo retorna daquele outro corpo que em sonhos brincava.

Sou apenas um homem, este moço sem pés nem destinos, que de frente ao espelho me pergunto aquelas coisas que nunca me atrevo,

SILÊNCIO.

Meu filho que acorda, sorri. É a primeira palavra que escuto neste dia de inverno chuvoso. Sua terna alegria me lembra:  “a humanidade está próxima com suas queixas e deixas” e pelo ritmo marcado, pautado dos dias, é que o relógio ainda existe pulsando segundos.

Mas quem, alguma vês disse, que a felicidade se veste de eTernos? Felicidade meu filho, é o instante constante de se sentir vivo. Não é o chocolate que nos lembra do fim dos estigmas…  é o gesto da mão que oferece, ou aquela envoltura de enfeites rasgando o silêncio. Ninguém assegura que o sabor, aquele gostinho delicia, nos fará menos tristes.

Sob a chuva, eu vi hoje, milhares de homens e mulheres se renderem, ao opaco rosto de quem não percebe que a chuva, como o sol, como as árvores, como o rio e o mar, como as nuvens suaves que pendem dos céus, só tem um sentido, um único e divino sentido, de nos fazer, lembrados para não ser esquecidos: ESTAMOS VIVOS.

E ainda, eu que sob a chuva, de mão agarrada a mão do meu filho, sorriso agarrado ao sorriso no meu filho, lembrado e nunca esquecido: ESTOU, ESTAMOS VIVOS.

Do resto do dia, ainda com chuva, e frio, e vivo, me reservo o silêncio. É bom ficar quieto, filho.

De como llegar en casa en tierras ajenas: una perspectiva del presente.

Una nueva casa, un nuevo hogar. Parece juego de niveles. Yo personaje de este proyecto loquísimo que es la vida. Como si fuera un héroe y su fiel compañero, el Benja me acompaña, valientemente.

Hace un mes que estamos en el Morro del Querosene – quien se imagina que aquí hay mucho fuego, ni lo dude, este barrio es también maravilloso. Y quizá sean mis ojos que ven muchos árboles y cantos de pájaros. Quizá sea yo, quien en mi interna serenidad descubre calles cubanas subiendo laderas paulistas. Aquí, podría encontrarme sin dudas cualquier de los amigos de antes, de aquellos que la vida y la geografía enviaron lejos.

Nuestra casita azul es pequeña. Apenas dos cuartos, un bañito, una sala-cocina-comedor. Benjamín me pregunta – ¿aquí é a sala? – y sí pues, a veces es sala, algunas veces es comedor, casi siempre es cocina.

Alexandre, el sociólogo de casa, es adepto al cine y ya sé le encanta la isla. Si todo sale bien, pronto él estará por allá y conocerá en carne y hueso aquello que tanto hemos hablado en casa sobre Cuba. Esta ilha tão difícil de se entender na distancia Esa isla difícil de entenderse a distancia y mucho más difícil de vivirse desde dentro.

Las casas vecinas son de varios colores: azul, verde, naranja, vermelhas. Una estrecha escalera las divide, por donde circulan los 5 o 6 gatos de la villa. La mayoría de los mininos son de Camila, una artista plástica – creo yo – que se preocupa tanto con los felinos como yo con mi hijo. El otro gato es de Sara, la nueva amiguita del Benjamín. Ella tiene tres añitos también y bueno ya se hicieron los “mejores” amiguitos. Sus padres, Verónica y Fabio, son también buenos queridos míos. A Fabio ya lo conocía de la capoeira y fue una feliz alegría encontrármelo por aquí.

El barrio es de calles soleadas y casas con jardines y perros. Pocos carros suben y bajan sus laderas curvas. Es el mismo de la Festa do BoiPor veces vi mi infancia, de la mano de mi abuela, por aquellas calles soleadas de Santos Suarez, allá en La Habana.

Los ojos de niño brillan por cada grieta, cada nuevo sonido, cada rascuño de paredes pintadas. Una frase diferente, leída al paso del nuevo caminante. Benjamín de mi lado, descubre también esas nuevas texturas, esos aromas de vida diferente.

Regresando a casa, por sobre los tejados anaranjados sobresale un bosque de altos gajos, pinos, araucarias, quizá alguna casuarina, alguna ceiba escondida. Es una imagen de finos contornos de verde como si la ciudad, esta grande ciudad, falsamente, terminase después de nossa casa.

Es bueno sentirse en casa.

La fiesta de la muerte… (Festa do Boi – A morte)

Domingo es día de fiesta. Hay para quien familia es fiesta. Hay para quien ni hay familia, ni fiesta, ni domingo.

Mi familia, mi fiesta, mi domingo es Benjamín, y para él fiesta es Festa do Boi. Yo imaginándome ser ese niño que todavía me creo, y que reconozco, se abraza, vive en Benjamín, me divierto, sonrío, quiero todo para mí.

La noche anterior le dije “Benja, mañana vamos a la fiesta del Boi”. Abrió los ojos, él ya sabía, recordando otra fiesta anterior, yo imagino, la felicidad de ver tanta gente, niños, perros bailar, beber, sonreír al ritmo de tambores, cantos y gritos. Cuando despertó, era domingo de sol, se levantó súbito apoyándose en las manos y sentando, sonriéndome, me dice, “Papai vamos para festa do boi”. Benjamín fala português pero entiende todo en español, y cuando lo quiere demostrar me dice con una certeza de que todo le es posible y que todo es posible existir, y que el mundo a sus pies espera abrírsele: “VENTANA”. Esa palabra es su manera de abrirse a otra realidad, – en ese otro idioma distante y cercano – es su dominio, su fuerza, su intensidad.

Abre ventana, ábrete para él…

– 

Esa festividad es una tradición de origen maranhense que se sucede tres veces por año en el Morro do Querosene, un barrio de casas y calles curvadas, con gente simple, artistas, bons vivants. El nacimiento, bautizado y muerte do Boi son las tres celebraciones, en fechas distintas. Ese año por primera vez fui, fuimos los dos, al nacimiento.

Y domingo pasado, iría ser la muerte.

– Descansa en paz meu boi.

Y esa extraña puntualidad me mordió nuevamente. El barrio de rosas en los jardines, perros ladrando al caminar, los pocos carros bajando en punto muerto la ladera, los pájaros trinando, el olor a humedad, las señoras, las moças bonitas con hijos. Nosotros dos, extranjeros de allí, extraños el resto a nosotros dos subiendo, viviendo todo aquello, y la fiesta distante de comenzar, porque todavía estaban montando los quioscos, poniendo las banderitas, encendiendo el fuego que calentará el cuero de los tambores, preparando los disfrazes.

Nos encontramos con Cris. Un detalle importante es que de las personas que conozco, fue la última que abrazó a mis padres, mi hermana, mi familia allá en Cuba. Ese abrazo valía el abrazo de todos ellos juntos, viniendo en un viento de memorias, un agradecimiento inmenso, una sonrisa compartida bajo el sol cortante de la metrópoli. Benjamín no hizo mucho caso, ya estaba intentado colarse en el maletero del carro de ella. Me pidió para cerrarlo en un abrazo metálico y caluroso junto con sus juguetes y su deseo.

– Tus deseos son órdenes, mi hijo… cuando tu felicidad no te pone demasiado en peligro, y algunas otras reglas comunes, sociales, es difícil a veces definirme eso, te dejo hacer, simplemente ser. Te encierro y muy feliz, me despides.

Como una fiesta del C.D.R. – cubanos saben de lo que estoy hablando – las calles, la gente junta, se ajunta. Todo por la muerte del Boi; por la felicidad de ver que los edificios todavía no acabaron con todos los árboles, allí en medio a la placita, uno solitario se levanta; por constatar que ni todo lo que vivimos, sentimos, nos hace feliz, sale de una cajita plástica llena de cables y chips y que por ironía de la naturaleza llaman plasma. Si hay algo que nos hace feliz, a mí, a ciertos humanos, es compartir la alegría por la alegría, la vibración del cuerpo por simple vivir, por existir.

Benjamín estaba feliz.

Los tambores, en las manos de quien les darían vida, para después tocar la muerte, se acercaron del fuego. Alrededor, mujeres casi todas, con vestidos de plumas, muchos tejidos coloridos y sombreros, sonreían y sus miradas, cómplices de toda aquella excitación, me envolvían inconscientemente en una delicada pasión.

Ama quien sorprende en los ojos de otro o amor.

Benjamín llamó la atención de la galera que iría a danzar. No porque ellos estaban interesados en él, sino porque él quiso, quería, y fue tras aquello que quería para él. Corrió delante de ellos, emprestó sus globos, le regalaron una mano de peluche, se calló, pidió de comer, le preguntaron el nombre, él respondió, se emparentó con otro de su edad, mamá soltera creo, también lo aceptó, perdió con el otro un carrito, lloró, compartió, corrimos, bailamos, comimos, se cansó.

Cerca del fuego, los hombres tocan los tambores fuertemente, especie de pandeiros grandes y también cantan músicas que muchos saben. Una rueda de colores danza entorno del Boi. El Boi sabe que irá a morir.  De hecho todos allí irán a morir, es duro aceptarlo, pero esa es la intuición suprema del vivir. El Boi se agita huyendo del machete, del lazo, del amor. Por veces se escapa por las calles y antes de llegar a la próxima esquina lo capturan y lo traen. El sol cae recto sobre las sombras danzantes. A cada vez la música para, recalientan los tambores, el Boi cambia de “ser”, la rueda descansa, el resto va hasta una sombra, se seca el sudor bajo las ropas, bebe agua y espera el cántigo comenzar.

Nos incorporamos a la rueda, los dos. Es difícil ser uno sólo cuando estamos los dos. Somos dos en uno, pero todavía dos.

El Boi va a morir. El Boi muere todo año y todo año vuelve a nacer.

El cortejo partiendo de la placita atravesando el Morro para después regresar a ese mismo lugar. La procesión avanza trayendo a todos a las ventanas, a las puertas, a levantarse de las mesas de los bares. Nosotros bajamos por la acera, entre las figuras danzantes y los músicos, un poco antes del camión del sonido.

Nosotros también moriremos un día.

Pero hoy es domingo, hoy es día de ser feliz. 😉