(Três) Ingênuas roubadas

O que me roubaram não foram às memórias, e sim o momento sadio feito peçonha e raiva; com a deixa, uma sensação de vazio e de injusta exposição, um furo, sempre um abuso…

Eu tinha 6 anos, e cursava a primeira serie de uma escuela – Pre-Eide Alfredo Sosa – que tinha como intuito incentivar os esportes nas crianças e descobrir habilidades esportivas. Minha mãe tinha me colocado lá, indicado pelos médicos por causa da minha asma crônica. Na falta de aptidão para saltos ornamentais, única modalidade aquática que ainda restavam vagas, eu terminei matriculando no fútbol.

Nosso time treinava nos fundos do campo de baseball, que era ao contrário do que no Brasil, o esporte mais popular, reservando ao futebol o raríssimo posto de esporte alternativo, contracorrente até. No meu caso tudo a ver.

Num dia de treino comum, eu fui pegar algo na minha mochila, e um cara se aproximou em bicicleta, do outro lado da grade, que dava a uma avenida. Ele me chamou, e depois de algumas palavras, elogiou a mochila de um colega, e pediu para eu mostrar para ele. Lembro de ter jogado a mochila por cima da cerca de peerless, com a força de tamanha ingenuidade que até consegui que voasse certeira até ele. Ele pegou a mochila, e de bicicleta, sem olhar para mim, foi-se embora…

Eu havia ganhado uma bicicleta do meu pai. Era uma mountain-bike vermelha vinda do Canadá, para os tempos era certa ostentação, que eu cuidava muito, mas porque era muito confortável. Durou-me pouco…

Uma manhã, conversava eu com uma amiga, que havia encontrado bem na frente da minha casa, e aparece um obrero que vem saindo da casa de uma vizinha,e oferece uma ajuda de custo se eu ajudar ele trazer um vaso sanitário para instalar, “ali na Aida, estou fazendo uma reforma para ela…” e convida à amiga, para acompanhar o rolé, e “… com sua bicicleta a gente consegue trazer num carrinho, puxando, fica mais fácil.”

Então, eu no flerte com a amiga, meus adolescentes anos, aceito o bico, e descemos a ladeira de casa: o carinha andando na frente, a menina, a bicicleta e eu, detrás, na nossa.

Caminhamos vários quarteirões, zigzagueando  ruas avulsas, até que o homem avisa que chegaríamos nos próximos vinte metros, “tá vendo aquele carro?” e se aproxima, pede a bicicleta “ … deixa eu aproveitar essa descidinha, posso testar a bicicleta?” e minha ingenuidade solta da mão o guidão, abraça a menina, e vejo mi bicicleta roja ir-se embora, e eu ainda perplexo, duvidando, espero definitivamente ver o cara desaparecer na próxima esquina…

No aeroporto antes de embarcar, a última vez que estive em Cuba, com as malas entregues, os carimbos no meu passaporte, me informaram, que mi hijo por razão de dois dias estava ilegal em nuestro país e que eu devia pagar um novo visto de turismo, para ele poder deixar a ilha.

Sem alternativas, fui fazer os novos pagamentos, e na fileira para trocar dólares pela moeda conversível cubana, um estrangeiro, de sotaque europeu, jovem, simpático, me diz que não tinha como tirar dinheiro com seu cartão de crédito, confirma que ele embarcaria no mesmo vôo que eu, mostrando a na tabela de embarques, e que “…em Cidade de Panamá, assim que desembarcássemos ele me devolveria a grana”.

Minha ingenuidade segurava a mão de Benjamín, e a outra liberava as notas que pagavam mais um descuido. Atravessamos os controles de alfândega, e chegando na sala antes do embarque vejo o menino, sentado, calmamente mexendo no seu notebook, escuto a chamada do vôo, e eu apenas me preocupo pelo meu filho e nossa já difícil despedida daquele país.

Entramos no avião, e ainda esperançoso, aguardo com o olhar, todo mundo se sentar. Ainda, percebo à espera, por um erro, de não ter visto o ladra tomar assento, e mais duas horas sobre o Caribe, até chegar no Panamá…

Lá no aeroporto conexão com o Brasil, vejo partir aviões em direção da América toda, infinita… o cara não apareceu.

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Nosso leite derramado

O leite ferve e derrama-se, quase sempre. Parece uma condenação. É o barulho da efervescência, instantes antes da ebulição. E cai fora, apagando as chamas. Quase matemática.

Minha mãe não havia um santo dia que isso não lhe acontecia. Nos reclamávamos, mas de fato, quase sempre acontecia. Parecia uma condenação. Ela dizia que o leite só estava pronto para beber, se se desligava a fervura justo antes de se derramar.

Hoje, eu pai, quase sempre me acontece. Pareço condenado: a uma memória que está escrita nos meus dias, minha mãe fervendo o leite até o ponto mais crítico, quase sempre a fervura sobe e derrama-se.

Minha mãe ferve o leite: derrama-me. É o barulho da fervura, instantes antes do derrame. É uma condenação.

Eu fervo o leite, meu filho observa: derrama-se. Estou preso a memória inscrita na minha pele, nos pensamentos, nos meus atos.

Depois o leite está quente demais. Então para esfriar-lo mais depressa se passa de xícara em xícara, várias vezes, assoprando o leite que vai pulando de xícara-em-xícara. Esse gesto, barulho, essa cena: é uma memória. Tudo inscrito. Minha mãe fazia, meu pai. Eu faço.

Estamos presos à memória: derrame-nos.

Detenha a fervura justo antes de derramar o leite. Se muito quente, troquei o leite de xícara em xícara, assoprando entre dentes: isto é uma memória, tudo inscrito.

Derramo-me.

Sob o céu da minha infância

Sob o céu da minha infância em Moa, o patio era de terra avermelhada no centro. Ao redor deste, a casa grande, de tabuas e guano. A latrina um pouco afastada por causa do mau cheiro. O chiqueiro mais distante, mas visível, de onde se ouviam os barulhos dos porcos enjaulados. Um cercado de um mato espinhoso, alto e perigoso, impossível de atravessar ou pular. Uma sombra de árvore aqui, lá e por todos os lados, e o solzão no meio. O murmúrio do vento nos galhos. E a barulhinho do rio, há poucos metros, umedecendo a rochas.

Assim era a terra nos dias mais incríveis que me lembro de pequeno. Tudo verde e vermelho naquelas montanhas sem fim. Meus pais e irmã por perto. E meus primos e tios. Meu avô Mâximo. Minha avó Dulce.

É dela mesmo que brilha a lembrança, andando devagar de chinelos e vestido gastado. Era quase sempre calada no que eu lembro, e com a minha certeza, de que estava chateada por algo que eu desconhecia. Naquela minha idade eu não sabia o que significava o silêncio. De tanto respeito que eu sentia por ela, eu quase que tinha medo.

Ao fim da tarde, os adultos começavam preparar a janta: yuca que aqui chamam de mandioca, aipim ou macaxeira; malanga sendo aqui inhame; plátano macho cozido que se conhece como banana-da-terra; boniato que é a batata-doce, e calabaza o que é a abóbora; tudo isso plantado por perto pelo Maximiliano, meu vô e pelos meus tios. Costumava ter algum feijão, que podia ser de vários tipos dependendo da colheita: negro, gandul, caballero ou  judias que é o feijão branco. Também havia arroz, que podia não ter, já que era daquela comida, o único que não se plantava na finca.

Avó Dulce, no meio do pátio e com um balde cheio de milho seco e outros grãos, começava-os jogar “tiu, tiu…” e chamar as aves “… tiu, tiu”. . Eram centos de galinhas e seus pintinhos. Alguns galos. Outros frangos sem alcurnia, aqueles sem crista. Patos e gansos. Vinham alguns porcos que perambulavam soltos, pois só os grandes crescidos, que estavam para engordar e depois abate, eram os que ficavam no chiqueiro.

Quase simultaneamente, nós nos aproximávamos. Éramos muitos os netos que sentávamos perto dela. Minha irmã e eu, vindos da cidade naqueles dias de férias, virávamos os prediletos, só que naquela hora, seria a destreza e o justo que prevaleceria.

Aquele quintal a céu aberto ia enchendo em minutos dos bichos que respondiam ao chamado da avó e dos grãos caindo no chão. Entre eles estava o plato fuerte da nossa ceia, que em breves instantes, seriam escolhidos pelo olho, dedo e voz da avó Dulce. Dentre nós, estava quem conseguiria pegar os bichos que comeríamos naquela noite.

Vó Dulce assinalava “vocês veem aquela galinha ali…” nos a percebíamos dentre as outras “… é essa mesma”,  éramos nós quem tinha que ficar prontos “quem pegá-la, vai ser quem degole ela” era esse o prêmio pela caça.

Éramos apenas crianças, mas naquela cultura montanhesa, já incentivados à sobrevivência.

Então íamos aproximando-nos, encurralando-a, discretamente. A coitada não sabia seu destino, apenas lutava por encher seu bico, na sua sobrevivência no meio de todos os outros bichos. Desavisadas, as aves iam pegando seu sustento, em perigo iminente de morte, mas somente a “dourada” estava marcada para morrer.

Assim avançávamos, até que alguém de nós, depois de várias tentativas conseguia finalmente pega-la. O efeito era instantâneo, assim que prendia a bichinha, depois que todos nos contentávamos com a alegria de ter pegado “nossa” comida, depois da confirmação da avó Dulce María, e da aprovação dela mesma, quem tivesse pego a galinha, simplesmente a apertava pelo pescoço e a girava bruscamente, até parar de estar viva.

Assim era a vida, simples. Logo, a morte.

Os bichos se dispersavam, mas em seguida voltavam inconscientes de que entre aqueles milhos jogados e o começo da noite, alguma possibilidade de continuar vivendo existia.

Numa mesma tarde, e dependendo da quantidade de pessoas na janta, avó Dulce repetia a escolha de três ou quatro animais. Pertinho dela, nós acompanhávamos o próximo “juízo” e já estávamos prontos para caçar a próxima vítima.

Uma vez obtive meu prêmio. Havia pegado a galinha para a janta, e dei castigo mortal sob comando da avó Dulce “olha o meu neto…” ela disse orgulhosa.

Desmemoria

Na noite habanera, a escuridão só não podia com a lua cheia.Mas a lua é cheia em todos os cantos da Terra.

Eram as mesmas paragens: ruas retas coloniais, charcos de água podre no asfalto, lençóis brancos nos balcões, gente tristemente alegre. A maquiagem era post-revolucionária.

La Habana continua sitiada militarmente. A fama do governo na ponta do canhão frio do revólver.

Fugi do acosso. Silencioso. Estava frio: um raro frio, do qual não tenho registros anteriores.

Encontrei os velhos buracos na calçada da minha infância. Cai neles, um par de vezes. Era a minha torpeza de alguns anos passados.

Procurei minha agenda telefônica. Meus contatos eram fantasmas transoceânicos omissos. Cada um, seu caminho. Cada um, seu destino. Cada um, a verdade: lembrei-me de uma serie na minha adolescência.

Não encontrei ninguém para lhe perguntar pelos meus amigos. Os poucos que ainda tinha, eram ainda meus amigos, porém não éramos mais os mesmos. As gargalhadas escondiam os silêncios, a diferença de tantos anos ausentes. Eu, deles. Eles, de mim.

Depois fechei a porta com tranca. De que servia o passado no olvido? De que servia lembrar o que não existia mais? A porta não tinha chaves para entrar ou sair. Fiquei só; comigo.

Senti falta do mar: do sol silencioso entrando no oceano, uma estrela nascente, silenciosa, sobre mim. O mar era o mesmo em todos os cantos da Terra: meus amigos também.

De que servia eu sem tudo que yo fui?

Uma calça jeans, uma esquina e outros desapegos

Lembro-me de uma calça jeans, cheia de buraco, que eu insistia em não jogar fora. Minha mãe brigava comigo por aquele pedaço de tecido roído e velho. Eu me pintava de aquele azul, e por nada me permitia trocar ele. Uma tarde, brigando ela e eu, joguei o jeans pela sacada e caiu lá na avenida, onde ficou semanas, primeiro grudando ao asfalto e até finalmente sumir de tanto carros e ónibus que passara por cima.

A existência humana, entre dias e noites, é feita de ganhos e perdas. Ao longo da vida ganhamos ou perdemos algo, alguma coisa. Sempre.

Ganhamos de nossos pais e parentes, roupas e brinquedos de todo quanto é cor e tipo. Amigos de infância ou amores adolescentes, todos tivemos. Mesmo o mais tímido lembra-se de alguém que fez a diferença. Esquinas, praças, viagens distantes todos vivemos, e lembramos como algo que nos pertenceu ou até nos pertence.

Ganhar é quase a sentença de que iremos perder. Ou ao contrário, perder é a condição de ter tido.

Algumas coisas ou momentos, pessoas e ate bichos, marcam nossa existência ao longo da vida. Algumas se fazem tão importantes que é impossível imaginar-se sem elas.

Desses lugares eu lembraria a esquina onde cresci. Onde diariamente ia encontrar meus amigos do bairro. Uma escadinha num portal de uma bodega, uma espécie de armazém onde comercializavam os produtos básicos a população. Dias inteiros, madrugada dentro, zoando e curtindo, brincando e crescendo com os amigos. Eu apenas podia viver sem aquele troço de lugar, e a meninada toda.

Até hoje, quando vou a Cuba, dou uma passada lá e sento, só para ver como estou diferente. Quanto me distancie daquele lugar. Como cresci.

Coisas, momentos e relações que fazem nossa vida tão especial lhe são alheias aos outros, pertencendo apenas a nosso querer. Às vezes, algumas relações nos são especiais a mais de uma pessoa: amigos, amores, encontros que serão para sempre lembrados não importa o que acontecer.

Ao longo dos dias e noites, fatos e feitos marcantes, as mais belas imagens de nossa memoria, os mais incríveis instantes vão se apagando, esquecidas, trocadas por renovadas lembranças.

E o que é esse apego que nós faz sentir essa vontade incontrolável de manter, por afeto, coisas e momentos, pessoas queridas ou odiadas?

Essa sensação de que nada faz sentido sem aquilo, essa dor de imaginar-se sem aquele e que nos prende à coisa ou ser amado e que nos aprisiona e limita nosso existir. Essa sensação que costuma ser momentânea, como crianças quando privadas do seu mais desejado brinquedo, e que subitamente troca por outra nova paixão, pode ser um momento crítico, quase de morte.

Era a imagem daquele jeans, agora pintando de azul o preto asfalto frente a minha janela. Eu olhava para ele como se fosse o troféu. Um ridículo troféu para eu vestir.

Um pedaço nosso deixa de existir. Uma memoria apagada a contragosto. Porém passada a perda temos algo novo a ganhar.

Hoje, muitos instantes depois daquela esquina tardia de La Habana, eu sei que se tem algo do qual não consigo me separar, é porque me faz mal. Não que aquilo seja ruim para mim. Nem é que eu não queira ou deseje ter ou viver aquilo. Mas só se eu puder perder, é que tenho. É que quero.

Hoje (faz uns dias, já)… eu desapeguei mais uma vez.

Rei Leão

“Olha filho, até lá, tudo o que você consegue enxergar são as terras do teu avô”, meu pai esticava o braço em direção de um horizonte de montanhas de terra vermelha, amontoadas sob um céu azul com nuvens, todas cobertas por uma grande massa de árvores. Entre elas, eu sabia, zigzagueava o rio Moa. Um rio bravo, não muito largo, com fundo de pedras polidas, e grandes rochas contornando suas paredes.

Eu devia ter seis, no máximo dez anos, e essa imagem, eu nunca esqueci.

Aquele território todo, basto de vários quilómetros quadrados, era plantado na sombra de suas ladeiras, com café e cacau. Meu avô havia sido dono daquele latifúndio havia umas décadas atrás, antes da chegada ao poder do Fidel Castro, mas durante a Reforma Agrária, ele tinha perdido elas. Desse causo minha família não falava, mas na época meu avô Maximiliano – até nome de chefão o velho tinha – tinha se revoltado e enfrentado as leis do governo, o que lhe custou prisão e encargos, e pior na época, o título sombrio de prisioneiro político.

Uma vez, às vezes duas vezes ao ano, visitávamos o reino da minha família materna, nas montanhas de Farrallones , no munícipio de Moa, na província de Holguín. Eram férias do campo: frutas tropicais silvestres, animais criados soltos na imensidão do bosque, aquele rio livre gelado que nascia no boqueirão de uma grande caverna, sinos de gado descendo a montanha, vizinhos distantes há várias léguas, sem energia elétrica, nem esgoto, chão de terra batida e candeeiro pendurado nos batentes da casa de madeira e pencas de palmeiras, sem pão ou manteiga, sem televisão ou torneiras.

Minha família materna era também numerosa. Minha avó Dulce Maria teve oito filhos com Maximiliano. Eles se haviam conhecido em terras próximas, do outro lado da serra moense, em terras da Baracoa. Ele era branco, olhos azuis e magro, bom partido e com poder. Ela era uma preta formosa, com um brilho raro na pele preta, olhos puxados, esticados num sorriso fechado. Ambos dois, muito estritos e de uma moral muito convicta: ele no esforço do trabalho, ela na paz do Evangelho.

Deles lembro com muito respeito. Minha mãe criou-me para louvá-los assim como ela, fora antes educada. Naquela época, o respeito e o medo moravam muito perto. Mas no escondido do peito o carinho que sentia por eles e pelo respeito àqueles silêncios quando eles estavam presentes, hoje eu lembro como uma dádiva, um sentimento que nunca mais senti por alguém.

Graças a essa paixão contracorrente, do branco à cavalo, terciado em dinheiro com a preta brilhosa de olhos, pintei minha alma de terra avermelhada, com cheiros de mato virgem, de pedras arredondadas no fundo de um rio, de mangas pingando nos trilhos de homens da montanha, de porcos sacrificados nas festas de domingo à beira da agua escorrendo, de banhos gelados em dezembro ou agosto, de primos e tias e mulheres e maridos de primas e tios que a cada férias eu conhecia e desconhecia, dos céus mais estrelados nunca depois descobertos, de bezerros dando o leite matutino, da mandioca e o milho cozidos na braça noturna, o cheiro de café torrado e pilado no quintal pelas mãos de todos, um por um, passando o pilão e aquele som repetido ecoando infinito, indo e vindo nas montanhas, aquele reino assinalado pelo dedo do meu pai no topo da mais altas delas.

A felicidade não conhecia horizontes…

Pequenas fantasias de moleque

Um dia, lá na adolescência cubana, tramávamos um camping de uns cinco dias. Só os amigos mais próximos da esquina. Eu não tinha grana suficiente, e não podia pedir aos meus pais.

Faltando dois dias, sem solução financeira, veio a “cabulosa” ideia. Meu amigo Alain, mestre dos bicos e as tretas, e eu, íamos passar um filme em casa para os moleques menores, e cobraríamos um troco pela entrada.

Em Cuba, nem todos tinham videocassetes. Lá em casa, pelo meu pai, tínhamos um, e seria a saída para irmos ao camping com uma grana a mais.

Fomos trocando ideia com os outros meninos menores, nós tínhamos que? Dezesseis anos, máximo dezoito.

Eu pensaria disso aê, pô pagar para assistir um filme, a molecada junta? Razão do que? Não era que ninguém não tinha vídeo em casa. Mais e o filme pornô!?

Isso, o filme pornô.

Minha mãe sairia de manhã, só voltando de tarde. Minha irmã, talvez na escola. Meu pai trampando. Minha avô, no quarto dela ou viajando, não lembro.

O quarto, duas camas, a da minha irmã e a minha. Os moleques “sentem no chão, hein!” tudo comandado. Tem que fazer silêncio. Tenho certeza que a maioria iria ver aquilo pela primeira vez. Eram uns sete deles, mais Alain e eu.

Tinham pago a graninha. O filme passando, a zoeira, zoeira boba de moleques, tiração da pesada, brincadeira, sorrisos o tempo todo. Eu, a tensão e a bobeira, dinheiro de brincadeira para continuar na brincadeira. Alain e eu, rindo a toa e tensos.

Daí, a luz acaba. APAGÓN! SE FUE LA LUZ, COJONES! Lá a eletricidade, acaba do nada e sem previsão de voltar.

Zica, é pouco irmão. Mas, oh, todo mundo quieto. Os moleques, “então não rolou o filme, não rola a grana”, e a luz não voltava, imagino que alguém foi ao banheiro, tiramos onda, todos tensos, e felizes. “Peraí, não é assim não!” e a tensão tomando conta, subindo, dominando.

A luz volta. Ufa, põem de novo. O filme tá rolando, na boa. Eu e minha pequena fantasia de projecionista de filme. Eles, a maioria, assistindo pela primeira vez um filme pornográfico. Nós dois, a grana fechada. O camping resgatado.

A luz vá de novo ainda com o filme sem terminar. Eu falo “bom agora já era”. Eles reclamam, esperamos um pouco, e como não voltava, combinamos de terminar aí. Abro a porta, e quase já na saída de casa, minha mãe chegava.

Ela conhecia todo mundo, meninada da rua e do bairro. Saímos na boa.

Sexta feira, rolou o camping.

A foto que apagou

Uma fotografia de várias amigas (que alguma vez eu conheci) sentadas em roda na areia de uma praia me tirou da cama. A imagem que eu vira ontem durante o dia não saiu da minha cabeça até agora.

É 4 e 15 minutos da madrugada… e o sono acabou com el recuerdo dessa foto.

Todos meus amigos (que alguma vez foram meus amigos) sentaram-se na areia de uma praia. Era a praia do esquecimento. Conquistamos as diásporas dos atlas. Os nortes de sonhos americanos ou o sul dos amores perdidos. Invadimos Europa e as ilhas do Atlântico e do Caribe.

Não restou canto no mundo sem amigos, cada um sentado na sua areia de praia. Cada um com sua lembrança.

O dia que Hanys deixou a ilha eu não fui à última despedida. Troquei os choros desesperados do aeroporto pelo primeiro dia de uma nova paixão, e sem pudor nem consciência, eu ainda não saberia que até hoje, oito anos depois, eu jamais voltaria ver o primeiro grande amigo que deixou o país.

Quase dois anos depois eu parti de Cuba. Sem pudor ou consciência, eu não imaginava  que seria uma viagem de ida e só…

Quem é emigrante tem poucas certezas, mas uma dessas certezas flutuantes, quase unânime, é de que jamais verá os amigos de antes outra vez juntos.

As pessoas mais importantes que já conheci na minha vida hoje plantaram raízes num outro lugar. Fizeram pátrias e/ou filhos da nova pátria. Ainda que cubanos, e apátridas, finalmente nos libertáramos do lastre de ter uma ilha-à-deriva como âncora, e hoje, maioria reconhece outro país como mátria. Alguns deles na verdade, ainda na ilha, viram-nos partir nos céus, e alguns outros corajosos – e difuntos -, pelo mar.

E tudo isso pode até que não chegue a virar uma tristeza, mas uma ausência enorme, um grande abismo, uma foto que se apagou.