rascunhos à beira-mar

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

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Passando a nado a linha onde quebra a onda

Em Camburizinho, passando a nado a linha onde quebra a onda, em direção da calmaria após a espuma, se volteando em direção da beira-mar, da para ver distante levantando-se firme e alta, a Serra do Mar. Aquela massa verde se abraça as nuvens e ao azul. De lá se despencam, em formas de cachoeiras e trilhas d´agua as chuvas do entardecer. A noite começa sob tochas de luz e sombras de algodão.

A imagem é sublime, ainda mais naquele flutuar que puxa para baixo e leva para trás.  Mas aquela imagem só é possível se nadar para dentro do mar, se afastando de tudo e olhando do distante afastado.

Enquanto se nada, atravessando as ondas do ir e vir, não há instantes para perceber ou enxergar o ao redor: existe-se sem justificativas. O estado é de entrega e dádiva. Não vaga tempo para outra coisa não seja o nadar.

Na proximidade de outros, as sensações tem um impulso diferente, invadidas pela emoção e o afeto. Pela paixão. No estado de entrega, enamorado, os detalhes destacam-se sobre o contexto. Mas somente na perda, despido de interpretações e apego, é que se enxerga o todo do amor.

Ao sair da ilha, já morando há algum tempo no Brasil, demorei em começar me entregar ao novo jeito de vida. Tudo me lembrava à ausência do único que tinha como experiência, numa pátria flutuante-à-deriva num pedaço de terra onde eu nasci. Mas nada daquilo que eu tinha sido ou fosse; existia. Tinha ficado sob as águas do mar, no devir no existir.

A existência é essa flutuação sobre as ondas de vida. O lapso entre o nado para se afastar da areia e o justo intervalo para voltar olhar as montanhas à beira-mar. É o que se perde sob as ondas e o que há depois do anoitecer. É a aflita ausência daquilo que não é. A rara impossibilidade do que está para acontecer.

Milton e eu à beira mar

Milton descobriu que perto do mar, ele e eu, nos parecíamos mais. “Estou começando a te entender melhor” disse-me enquanto se entregava ao abraço do oceano feito onda sagaz com espumas e algas.

Eu não conseguia fechar a boca da surpresa: o brilho do sol em cada minúsculo espelho quebrantos de mar, a brisa riscando cada barulho, o terrível azul dos céus, as montanhas acabando ao entardecer.

Milton ali na frente, fazendo de silhuete luminosa, no caminho de tudo, na minha frente abrindo o caminho, do sol e da sombra. “Você está vendo isso?” ele falava, eu ouvia-o extasiado, ambos, diante daquela imensidão.

Levamos um tombo da onda que veio depois, silenciosa e abrupta, como o azar. Deixamos nos levar nesse vai, nesse vir. Estávamos vivendo sem questionamentos, no agora fluxo das marés.

Gastamos as horas com silêncio, só olhando, vendo o tempo passar.

Acho que o sol perdeu-se no sudoeste. A onda acalmou. A serra do lado oposto do mar desapareceu. Milton e eu ficamos boiando na noite, na maré das estrelas.

Era lua nova. Escurecia.

Escurecíamos.

Ode ao mar de (cabelo) preto

Ela bateu a cabeça na onda e o mar abriu-se ao meio. Os cabelos pretos tingiram de escuro o sal na onda. Minhas mãos tingiram-se daquele negro dos cabelos. O sol cobriu-se entre seu rosto e o meu. O raro silêncio da maré afundou-se no escuro da boca de uns beijos.

Ela estava em silêncio. Eu calei depois.

Era tudo fundo, e afundei-me mais. Era escura a boca dos beijos daqueles cabelos pretos de fundo de mar.

Ela adormeceu-se sob o fluxo leve do vir e ir daquelas ondas de começo de anoitecer. Por baixo, nas costas da pele, minhas mãos seguraram o seu ir e o seu devir.

Do mar, não se desejava mais que um entardecer: o sol se apagando no oeste de nós, distante dos seres, sem horizontes do aqui, só aquele olhar infindável, sem palavras de azar, sem destino do querer.

O vento batia em qualquer direção. A vastidão do beijo não deixou dúvidas, mas não fiz pergunta nenhuma e ela nada respondeu. O silêncio era a estrela vermelha, refluxo do brilho moribundo da Estrela Maior;  e a lua era o espelhamento daquela luz que não quer morrer, e tenta, com tudo, sobreviver.

Ela afundou-se na sétima onda, e veio a renascer flutuando sobre meus dedos, seu corpo boiando livre, e o mar de preto, seus cabelos tomando conta das ondas, do pôr-do-sol e de mim.

Era escura: la noche.

Entreguei-me naquela sensação de brilho opaco cintilante, de lua reflexa do sol, de horizonte sem dor, as palavras caladas, os silêncios rotos com escritos na areia como destino do fim: diante do mar o que muda sou EU.

A sétima onda voltou tingida de noite e tudo apagou.

Não haveria restos. Registro nenhum.

Sempre jamais.

De la isla al mar (un viaje de tiempos en tiempos)

Hace un año, exactamente un año atrás, estaba en La Habana. La noche fue una larga fiesta de abrazos y danzas, de mis mejores amigos y tantos desconocidos, bajo la lluvia fuerte de un largo verano. Una madrugada con el peso de una ausencia de tres años de aquel mi país natal. Con la felicidad de tres largos años de otra vida, nascido en mí y de mi mismo. Pienso en eso, y de tanta felicidad me entristezco, porque también ya pasó un año de aquello que ahora recuerdo, y yo de tan triste de mí, me contento.

¿Cómo es que se computa el tiempo en la memoria? ¿cómo desinstalo la parodia de la continuidad (de los parques)? ¿cómo reinvento lo que vivo mientras escribo o viceversa? ¿soy esclavo de estas palabras que manifiesto? ¿puedo definitivamente aceptar que lo que vivo es cierto? ¿amo de verdad este cinismo metafórico y poético? ¿debo pedir disculpas por errar lo que desconozco? ¿por fin existe la muerte?

Hoy, por ser de esta razón de existir, llegué a otro lugar. Diría-se, un nuevo lugar. Esa suerte de alcatraz sobre el mar, camaleón sobre la hoja verde-amarilla, la mariposita nocturna en la madera de una ventana.

Amanecí aquí à beira mar.

Nota al pie de página: Praia Camburizinho, São Sebastião, São Paulo. Aqui vou escrever um capítulo da minha leitura. Vivo. Existindo em tempo presente. Suspiro. Espero ser feliz, sendo.

É a prece…

Tristeza mesmo, não tem fim. Como não tem fim, a alegria. O que tem fim mesmo é o que te faz feliz ou entristece. É, os gestos. É, os modos, trejeitos. É, as pessoas, nossas relações.

Tristeza fala da gente. Tristeza fala daquilo que gostamos, às avessas, daquilo que deixamos de gostar ou nos largou.

Tristeza tem jeito simples: procura aquilo que te faz melhor.

Tem tristeza que se curam só no mar. Mar profundo, azulejado, de céu com nuvens e solidão. Esta é a prece. Solidão numa conversa de bar com os amigos, mesmo que eles, iludidos, nem imaginem como você morre por dentro.

Minhas tristezas, aquelas mais fundas de mar, são as mais simples. Eu quando quero ficar triste – isto também é uma escolha – me entristeço com as coisas mais tolas. Bestas

Eu curto tristeza, confesso.

Tristeza me levou nos meus lugares menos conhecidos, aqueles que nem imaginava poderia chegar. Breus meus. Vulgares pedacinhos de mim que eu precisava conhecer. Sorte minha que entristeci.

E a tristeza do amor? Tristeza para lá de mar azulejo com nuvens e solidão. Tristeza que rói recifes e arrasta países. Às vezes é assim, não adianta correr atrás: não tem como fugir do mar.

Entristeço, é minha escolha: Solidão.

MEUS BREUS TEUS #ManoelAndo

MEUS BREUS TEUS #ManoelAndo

Antes que el mar. Antes que o mar.

Já se imaginou sem tudo o que alguma vez viveu? Sem tudo o que alguma vez possuiu? Sem memorias? Sem esquinas, cantos ou parques?

Te imaginas sin nombre? Sin amores, familia, amigos?

Quem apaga suas próprias pegadas na areia, antes que uma onda criança venha borrar o único que é possível deixar para o mar, sabe que a solidão é a única companhia, o único destino aonde ir a morar.

Quien cambió alguna vez su camino, ese que parecía insuperable e imposible de abandonar, sabe que no existe retorno, ni otro destino que la soledad.

Eu apaguei minhas pegadas, antes que o mar, essa criança, viesse por mim as borrar.

Yo, que abandoné mis caminos, insuperables e imposibles, acepté mi soledad.

Quem saiu de uma ilha, deixando-a para o mar vir a devorar, se imaginou alguma vez sem tudo o que já viveu. Sem tudo o que alguma vez possuiu. Sem memorias. Sem esquinas, cantos ou parques.

Ya viví sin nombre. Sin amores. Familia. Amigos.

Quem aceita a solidão sabe que tudo isso é possível..

                                                     …y todavía saberse feliz en soledad. 

Mar dos meus oceanos. Isla de mis continentes

A ilha é do mar. Pedacinho de terra flutuante, à deriva, se equilibrando entre ondas, furacões, e ventos alísios.

Un continente es una isla gigante. Pedacito de tierra fluctuante, a la deriva, equilibrándose entre olas, huracanes y largas sequías.

O mar é um só. Um pedacinho de agua com nomes oceânicos que sempre termina aos meus pés.

El mar es único. Alrededor de esta isla-continente, existe esta extraña sensación de soledad.

Quando você entra no mar, está entrando pelo resto da sua vida no mesmo mar.

Cuando yo entro en el mar tengo la sensación de que mi soledad acabó.

O mar de La Habana é muito azul. Natalia me dizia que não o via assim, algum tom dos seus olhos azuis não lhe permitiam reconhecer o anil frente ao seu olhar. Eu nunca vi mar de essa cor. O mar quente, calmo como caldo fervilhante, se derretia aos pés dela.

Yo entré al mar de Brasil meses después de llegar por aquí. El mar queda a no mínimo dos horas de la ciudad. Y era frío ese pedacito de océano gigante que es el mar. Y eran fuertes las olas rompiendo en la orilla. Y era arisco el viento en su resistir.

Quase ano depois vim descobrir que os olhos da Natalia, não eram azuis. Talvez o mar nos olhos dela não me deixara ver a real cor neles. Dessa vez, sorri sim perceber toda a verdade. Ela, mais tarde, admitira que de fato aquele pedacinho de mar ao redor da “minha” ilha era muito azul. Eu não consegui entrar no “seu” mar.

Durante estos años ya conocí “varios” mares de por aquí. Y mucha nostalgia de “mis” mares del Caribe que sentí. Calculé las diferencias en mi afán de sentirme feliz, y no lo logré. Así fue que descubrí el único mar que hay en mí, con el que me defiendo y me resguardo en la soledad.

El mar de sus ojos era de un verde fugaz, era el verdadero color del mar, que cambia con las sombras y los deseos, que emigra en cada mirada que se pierde fugaz. Natalia me miró y el mar se desbordó a mis pies. El mar se tragó los océanos alrededor del mundo y yo pude nadarlos todos de una sola vez.

A ilha cresceu feita continente. A solidão se encolheu num piscar temendo ser pressa da felicidade. Os olhos dela se encheram do mar que engoliu os oceanos, todas as ilhas num só continente.

A solidão num piscar de feliz azul.