ode final para um amor

o amor passional é uma ilusão. o oásis espelhismo do nosso deserto interior. a febre dos olhos. o falso serviço do ser na resistência à solidão.

um pulo confiante de si diante do nada provável de alguém. na fome insaciável da alma a busca pelo alimento final, satisfação divina do eu.

a conjura em promessas do eterno, a sutil esperança de um abraço fugaz que nos salve do morrer. o feliz do encontro, numa certa infalível verdade.

o amor é a mais cruel das mentiras que ansiamos viver, pois o deserto é agreste demais, solitário demais, sem águas demais; e a solidão tem tão poucas palavras, tão poucas ressalvas, tamanha imensidão.

e o salto no abismo é de um oco infindável, sem beiras nem estradas para percorrer, nem a alma – tem calma – sossega ao chegar no silêncio do eu.

e o eterno é tão somente tão pouco, tão vácuo e distante que o fim se finge de cálido amigo, amor ilusório, única maneira de sobreviver, e ainda sorrir.

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espirais

Existe uma espiral no peito

destino próprio de si

no caminho crucial dos sentidos

avalanche comum do existir

de palavras que sucumbem na névoa

da singela voz interior

perguntas cotidianas

anseios do imenso

mascaradas do ego-sonhador

fantástica sapiência dos céus

evocados naquele dEUs infeliz

vingativo de rude substância

incapaz de assumir seu devir

a ilusória verdade dos além

d´um futuro sempre mais promissor

de infindáveis luxurias do corpo

nos outros corpos

(cada vez mais belos corpos)

no desejo do alheio

da esperança perdida

d´outros cantos

da mesma velha sereia

que abanica sua cauda infantil

na profunda galaxia

nos confins

do amar.

 

 

 

 

 

faça frio, venha calor

estou afiando a faca para sepultar a morte,

o destino da ponta é meu peito,

o dos gumes nosso inverno. >>  <<

 

a mariposa não pousa na sua mão porque você a persegue. somente, num vento andaluz no instante seguinte ao sol se apagar no seu anseio, com os olhos fechados num beijo – de nos – , é que ela se entrega.

no vazio do trem, as pessoas. no interior do ser, o silêncio. no oco da voz, as memórias. no profundo de um sonho, maresias. na ventania do tempo, os preságios e os remorsos. na esperança do eu, nos e outros. no abraço a solitude, a esperança, ciclo de sete cavernas do escuro eterno.

nunca é azar o acontecer dos acasos, nem tem destino o respiro dos encontros, nem horizonte final o oceano de um sonho, não é o dia o amanhecer dessas noites, nem o inverno consegue esfriar nossa febre, não há palavras para escrever sentimentos, nem silêncio para calar a existência

cinco flashes entre silêncio e esquecer

tengo brazos en varias latitudes,

memorias allende este presente que vivo,

recuerdos de otros instantes con personas que (quizá no) existen,

atemporal en el recuerdo y el olvido,

soy yo, ahí donde también existes!

 

 

sete ondas tem o mar que eu pulo num só impulso, aparecem frestas dos fundos, maresias do meu ser, andorinhas litorâneas, peixinhas escorregadias de olhos sem fim, onde é que some o horizonte? onde acaba esta utopia?

 

 

no sozinho do que sou, sendo, 
no silêncio de entender, histeria, 
no percurso de fluir, epicentros,
nos avanços de ter, desacertos, 
na entrega do amar, manifesto
na vileza de existir, amanheço! 

 

 

as palavras que não foram testemunhas silenciam a partida/
carimbam o desdem abrupto do que não é /
compreendo a desempatia /
o agreste lunar no grama dos dias /
apenas o esquecimento salvará a utopia /
de saber /
ou imaginar /
de inventar /
as sem-saídas /
este estágio anestesia o revés /
vai restar pouco nos registros /
a dor não reconhece memórias /
apenas apago /
ou sobrevivo.

no furo da terra
o fundo de um sonho
emana o abraço
o tamanho do mundo
sorriso do espelho
amor que te amava
no escuro do beijo
no outro destino
de línguas possíveis
te amei no silêncio
talvez tão miúdo
que parece outro sonho
morada ilusória
do tempo passado
no furo do peito
cacimba da águas.

profundas superfícies

A realidade é pouca nas sinapses dos poetas, inventar mundos é a única saída decorosa…

 

…gastar palavras e gestos,

inundar o instante e o ócio,

pretender máscaras e roteiros,

aborrecer a negligência e os afetos,

morrer de agrestes e alegrias,

fundar a raiva e a melancolia,

forçar adeuses e perdões,

desistir o que foi e o que não seria.

 

a alegria é contagiosa e popular,

ações de prevenção de pragas e vírus, 

devem ser aplicadas invariavelmente.

 

 

o silêncio são das relações, o que as palavras são da solidão!

 

descobri no meu silêncio as respostas de outras vozes, que confirmaram por sua vez, o sentido do meu “sem-palavras” e neles o grande sentido do meu recolhimento.

.

Mel do Maranhão

 hoje o pote acabou! 

Abri o pote. Senti o cheiro das flores do Maranhão. Agora vidrada em lacre de mãos apertadas, um plástico vedando o sabor e as formigas, e um elástico de cabelo.

Peguei o pote. Coloquei o dedo Aquelas miudezas deliciosas do muito prazer. O maior dos prazeres dos méis das abelhas silvestres do Maranhão. Vi  florecitas no pote, desenhando os horizontes mais distante: tão reais, tão similares ao sonhados por mim.

Colher-por-colher saborei: as abelhas voaram até o fim do horizonte, lá floresceram casitas silvestres de árvores com frutas e rios do Maranhão. Havia umas plantas de café na cerca, o cheiro daquele mel pairava no ar.

Levei o pote comigo, o mel, as abelhas silvestres, os horizontes que pairavam, as casitas, os rios, as cercas e as planticas do café: eu no pote nadando no mel, sob o plástico vedado e o elástico de cabelo.

Beijei as abelhas. Nadei rios de méis silvestres. Mudei para a casita. Pairei o Maranhão. Cresceram imensas as florecitas e as planticas de café na cerca. O pote comportava os horizontes e minha existência.

Era infinito o universo, eu próprio no mel do existir: as abejitas, florecitas, planticas, casitas, mariposita. Tudo imenso, tão grande como o Maranhão. Pairava o mel dos silvestres, miudezas.

Peguei a colher. Soltei o elástico de cabelo, nem havia mais plástico para evitar às formigas, apenas o fundo, a lama sequinha do resto do mel. Os rios em seca. Seca as plantas do seco café. Maranhão em alerta. Horizonte vidrado no pote com tampa. Eu, nas raspas de mim, seco em miúdos pedaços, pedacitos de mi.

outro fim dos mares

Esperei, ainda em vida, o tempo daquele silêncio

Na beira da estrada, o que seria de mim

Assim, na espera alargada

Os pássaros ausentes do último verão

Voltaram para silenciar minha dor

Tocava uma música

Trinos de uns rios que nunca escutei

Mas que eram fortes e fundos,

Reais demais

Molhados demais

Estranhos demais

Agarrei o silêncio e pus pra dançar

Na beira do rio, ausência de mim,

Mas aquilo era um mar que estava pro vir

Assim, o silêncio estragou

Eram gritos de guerra

Anúncios de paz – e liquidação,

Eram trinos dos pássaros que iriam logo voar

Voando demais

Distantes demais

Ausência demais

Agarrei os pássaros e pus eles para dançar

Na beira do trino, tristezas de mim

Mas aquilo era a morte que estava por vir

Assim, a morte anunciou

Era a voz do silêncio

Cuspidas de amor – e traição,

Era o fim dos finais,o mar que acabou.

 

A metamorfose do peixe

Um dia qualquer, Gregório Samsa, acordou transformado num brilhante, prateado e liberto peixe. Ao começo, achando que tudo aquilo era um sonho, não percebeu que era de extremadamente urgência cair na agua. Gregório Samsa, como qualquer outro humano, não acreditou nele mesmo, e ali, ao pé da cama, morreu.

Gregório Samsa era eu mesmo, acordando de um sonho que podia ter sido meu ou que nunca aconteceu.

Diante daquela sequidade mortífera, eu acreditei em tudo aquilo e em mim, e dei um pulo magnífico: eu cai num copo d´agua.

Era um líquido aquoso, transparente, inodoro, sem-sabor e mais do que suficiente para sobreviver.

Gregório Samsa ou eu, descobrimos que era o justo necessário para viver: nadar livre na onda sem fim; tinha a luz infinita que atravessava o vidro e o mar; haviam todos as figuras possíveis que fossem possíveis imaginar: todas.

Gregório Samsa imaginou uma barata. Eu sonhei um pescador. Gregório queria uma bailarina, e eu um despertador. Gregório desejava mais que sete ondas de mar, e eu uma paz com orvalho, e grama verdinha, e areia finíssima, vários coqueiros, e um abacateiro, e uma página branca para escrever. Gregório queria dormir, e eu que ele voltasse sonhar que era eu.

A primeira onda era mansa como uma carícia, como um dengo, como um piscar. Ele sorriu da sua potência para se consagrar, e eu, abri os braços-aletas e deixei que agua viesse me inundar.

A segunda onda apareceu sem avisar. Chamou pelas costas e nos abraçou. Gregório Samsa desacreditou, e quase o peguei no fundo do copo d´mar.

Entre essa onda e a terceira, levei uma bronca do resgatado, pois não se brinca de vida e morte na vida real. Se vive e se morre, é tudo um simples piscar. Entre verbo e ato, eu vi o sol se arrastar e um terrível despertador avisar: era o começo de tudo e fim do que estava por começar.

A quarta onda nos pediu licença. Eu dei trezentas voltas em torno de mim. Cada vez eu sonhei este sonho maluco e cada vez houve um distinto despertar. Num dele o Gregório Samsa chorava por mim. Eu estava inerte, e sem fala, sem direito ao sonho e seu despertar. Ele chorava e suas lágrimas iam caindo sobre mim, mas eu não conseguia acordar. Estava morto nessa volta da vida. Mas era só o principio de um sonho de trezentas voltas entorno de mim, e eu não tinha medo de vê-lo chorar.

Eu disse ao Gregório Samsa, tem sempre uma nova onda, uma quinta mais forte capaz de tudo desequilibrar.  E não foi, que o desejo dele era mais real que o nosso sonho comum, de peixe brilhante, prateado e liberto num copo d´agua de mar? Então mergulhamos naquela que era impossível de pular, impossível de sossegar. Era necessário um novo tombo, desta vez quase sem fôlego e quase já sem acreditar.

Gregório Samsa acordou à beira do mar. Sentiu o orvalho, a grama verdinha acariciando a mão, areia finíssima, uns coqueiros, abacateiros e minha mão. Eu imaginei a sexta onda em forma de redemoinho, e a vida no meio correndo perigo. Gregório era o náufrago de mim mesmo, e eu o destino sem rumo daquilo que ele não tinha vivido.

Gregório Samsa desejava suas sete ondas, e essa última bateu só de levinho nos pés estendidos, o corpo inerte e sem fala, sem direito ao sono e ao seu despertar.

Ele pensava que aquilo era somente um sonho. A vida num copo sem vidro e nem beira. Um sonho sem despertadores nem rumos divinos. Eu era um peixe prateado, brilhante, liberto. Gregório Samsa meu espelho de orvalho.

Um copo d´agua num vidro. A vida atravessando na luz o destino.

 

Passando a nado a linha onde quebra a onda

Em Camburizinho, passando a nado a linha onde quebra a onda, em direção da calmaria após a espuma, se volteando em direção da beira-mar, da para ver distante levantando-se firme e alta, a Serra do Mar. Aquela massa verde se abraça as nuvens e ao azul. De lá se despencam, em formas de cachoeiras e trilhas d´agua as chuvas do entardecer. A noite começa sob tochas de luz e sombras de algodão.

A imagem é sublime, ainda mais naquele flutuar que puxa para baixo e leva para trás.  Mas aquela imagem só é possível se nadar para dentro do mar, se afastando de tudo e olhando do distante afastado.

Enquanto se nada, atravessando as ondas do ir e vir, não há instantes para perceber ou enxergar o ao redor: existe-se sem justificativas. O estado é de entrega e dádiva. Não vaga tempo para outra coisa não seja o nadar.

Na proximidade de outros, as sensações tem um impulso diferente, invadidas pela emoção e o afeto. Pela paixão. No estado de entrega, enamorado, os detalhes destacam-se sobre o contexto. Mas somente na perda, despido de interpretações e apego, é que se enxerga o todo do amor.

Ao sair da ilha, já morando há algum tempo no Brasil, demorei em começar me entregar ao novo jeito de vida. Tudo me lembrava à ausência do único que tinha como experiência, numa pátria flutuante-à-deriva num pedaço de terra onde eu nasci. Mas nada daquilo que eu tinha sido ou fosse; existia. Tinha ficado sob as águas do mar, no devir no existir.

A existência é essa flutuação sobre as ondas de vida. O lapso entre o nado para se afastar da areia e o justo intervalo para voltar olhar as montanhas à beira-mar. É o que se perde sob as ondas e o que há depois do anoitecer. É a aflita ausência daquilo que não é. A rara impossibilidade do que está para acontecer.

Lluvia

Hace tres días llovía.

Llueve lluvia que viene bajando las montañas, mojando el verde y el bajo cielo. Llueve también en el mar, gris precioso de olas bravas de fuerte marea y el viento que viene del vientre del Atlántico. Un viento insano, de agua leve, salado.

Hace tres días llueve sobre el cuerpo, en las orejas, entre ojo y ojo. Llueve en el pelo y en las palabras. Llueve en la memoria.

Llovió debajo del agua, el eco único de cada gota, y cada sonido único de aquellos entrando en mis oídos debajo del agua.

Llovió entre las maderas de los horcones, escurriendo por debajo de las puertas e entre las hendijas. Llovió con truenos que desgarraban el silencio de la lluvia sobre las hojas y el césped.

Llovió con ganas de ser la última vez de este ciclo de lluvias incesantes. El asfalto llenó sus lagunas. La ropa no secaba. El barro apareció bajo un mar rojizo de pisadas.

Yo pensé que no escamparía aquella lluvia, y pensaba en la ciudad que se queja de la sed, y yo aquí bajo estos días sin tregua de diluvio, me contentaba con las luces de los relámpagos que eran la luz infinita de la madrugada.