Milton e Alberto Caieiro no Caribe

Milton havia perdido o sono no meio da noite. Sem fome nem vontade de sexo saiu a andar pelas veredas de uma ilha que flutuava até que chegou ao mar. Era ele o único irreal naquele mundo que se entregava ao vento pouco antes de sair o Sol.

Uma sombra plana se aproximava pela areia.

Eu olhei aquele homem com uma emoção desenfreada e sem querer entender entreguei-me as lágrimas.

Milton afundou seus passos até perto da agua. O sol era laranja nos seus primeiros segundos, e alaranjado o mar, os três pelicanos e uma turista que fotografava.

Eu achei que tinha algo de belo aqueles dois homens que eu amava aproximando-se entre sim, se olhando aos olhos e no fundo da alma. E achei quase divino o instante que se abraçaram as duas sombras.

Mas tudo era simplesmente comum, sem nenhum significado além daquele abraço alaranjado que nos acontecia.

O homem foi-se.

Milton calara.

Eu fiquei olhando o mar, respirando no ritmo das ondas que até meus pés chegavam.

El Malecón Habanero, o Muro

El Malecón é o começo e o fim da cidade de La Habana. Uma larga avenida que costura entre asfalto e mar, o oceano com a humanidade. De um lado o vento cuspindo salitre sobre a vida. Do outro, o silêncio de quem se sabe pequeno diante daquele azul-verde sem fim.

El Muro del Malecón como se lhe conhece é uma faixa de concreto que se eleva, ora calçadão ora parapeito contra ondas, e estende-se por vários quilômetros passando por bairros mais frequentados por turistas  entre  o Vedado, Centro Habana  e Habana Vieja. Naquele pedaço tem os hotéis mais famosos e luxuosos da cidade: Hotel Nacional, o Cohiba e o Riviera. Tem bares e praças. Tudo isso do lado oposto do mar.

Não tem areia lá. Um velho recife, gastado e sujo, acompanha aquela construção. Dalí precisamente se combinam as mais belas imagens de espuma quando o mar, na sua fúria, contra-ataca por aquilo que lhe foi roubado.

El Malecón, no extremo oeste, começa onde o Rio Almendares acaba. Um rio poluído de fezes e dejetos industriais. Ali um castelo colonial que resguardava aquele estratégico ponto hoje é um restaurante e casa de shows. O 1830 é um bar de clássicos drinques cubanos sob guarda-sóis com propagandas de cervejas. O som é alto. O cheiro, a pesar do Almendares, é do mar.

Várias das mais importantes avenidas da cidade começam – ou terminam – lá: Avenida del Prado, La Rampa ou Calle 23, Avenida de Los Presidentes ou Calle G e Paseo. 

Do lado do Muro é comum o povo, os turistas e o povo que vive do turista, ficar sentado olhando pro mar.

Lembre-se a menos de 200 kilómetros daquele ponto, e do outro lado do Estreito da Flórida, fica o ponto mais meridional do American Dream – aquele pesadelo. Dalí, nos anos noventa, muita gente se lançou em balsas feitas de pneus, tabuas, garrafas pet com agua e comida empacotada à procura do que seria uma vida melhor. Alguns não chegaram. Os outros, podem-se achar, de uma certa forma, heróes.

Andando por aquele calçadão, porque aquele Malecón só faz sentido se você transitar por lá, você vai conhecer pescadores que não acreditam na poluição do mar e ainda tem várias teorias sobre o aquecimento global. Vai conhecer casais se beijando, brigando, tentando se reconciliar. Vai vê-los dormindo abraçados sob o Sol ou se cobrindo juntos da última onda que tentou ultrapassar aquele paredão. Vai escutar duetos, de violão e voz, o repertorio clássico do Son cubano – especifico aqui que Son é o ritmo base das principais vertentes da música popular cubana, um ritmo para dançar à dois, sem se importar com o roce entre os dois parceiros. Vai comprar cucuruchode amendoim, docinhos, flores plásticas ou reais. Vai escutar boas e belas ofertas de sexo para todos os gostos e desgostos.

Daí eu aposto, se você foi a La Habana e não foi ver o pôr-do-sol sobre El Muro, se você não escutar a trilha sonora de sua viagem desenhada por aquelas ondas batendo perto de você, se você não virou a noite e sentiu aquele friozinho da manhã, reconsidere voltar na cidade. Você nunca esteve lá!.

Antes que el mar. Antes que o mar.

Já se imaginou sem tudo o que alguma vez viveu? Sem tudo o que alguma vez possuiu? Sem memorias? Sem esquinas, cantos ou parques?

Te imaginas sin nombre? Sin amores, familia, amigos?

Quem apaga suas próprias pegadas na areia, antes que uma onda criança venha borrar o único que é possível deixar para o mar, sabe que a solidão é a única companhia, o único destino aonde ir a morar.

Quien cambió alguna vez su camino, ese que parecía insuperable e imposible de abandonar, sabe que no existe retorno, ni otro destino que la soledad.

Eu apaguei minhas pegadas, antes que o mar, essa criança, viesse por mim as borrar.

Yo, que abandoné mis caminos, insuperables e imposibles, acepté mi soledad.

Quem saiu de uma ilha, deixando-a para o mar vir a devorar, se imaginou alguma vez sem tudo o que já viveu. Sem tudo o que alguma vez possuiu. Sem memorias. Sem esquinas, cantos ou parques.

Ya viví sin nombre. Sin amores. Familia. Amigos.

Quem aceita a solidão sabe que tudo isso é possível..

                                                     …y todavía saberse feliz en soledad. 

Mar dos meus oceanos. Isla de mis continentes

A ilha é do mar. Pedacinho de terra flutuante, à deriva, se equilibrando entre ondas, furacões, e ventos alísios.

Un continente es una isla gigante. Pedacito de tierra fluctuante, a la deriva, equilibrándose entre olas, huracanes y largas sequías.

O mar é um só. Um pedacinho de agua com nomes oceânicos que sempre termina aos meus pés.

El mar es único. Alrededor de esta isla-continente, existe esta extraña sensación de soledad.

Quando você entra no mar, está entrando pelo resto da sua vida no mesmo mar.

Cuando yo entro en el mar tengo la sensación de que mi soledad acabó.

O mar de La Habana é muito azul. Natalia me dizia que não o via assim, algum tom dos seus olhos azuis não lhe permitiam reconhecer o anil frente ao seu olhar. Eu nunca vi mar de essa cor. O mar quente, calmo como caldo fervilhante, se derretia aos pés dela.

Yo entré al mar de Brasil meses después de llegar por aquí. El mar queda a no mínimo dos horas de la ciudad. Y era frío ese pedacito de océano gigante que es el mar. Y eran fuertes las olas rompiendo en la orilla. Y era arisco el viento en su resistir.

Quase ano depois vim descobrir que os olhos da Natalia, não eram azuis. Talvez o mar nos olhos dela não me deixara ver a real cor neles. Dessa vez, sorri sim perceber toda a verdade. Ela, mais tarde, admitira que de fato aquele pedacinho de mar ao redor da “minha” ilha era muito azul. Eu não consegui entrar no “seu” mar.

Durante estos años ya conocí “varios” mares de por aquí. Y mucha nostalgia de “mis” mares del Caribe que sentí. Calculé las diferencias en mi afán de sentirme feliz, y no lo logré. Así fue que descubrí el único mar que hay en mí, con el que me defiendo y me resguardo en la soledad.

El mar de sus ojos era de un verde fugaz, era el verdadero color del mar, que cambia con las sombras y los deseos, que emigra en cada mirada que se pierde fugaz. Natalia me miró y el mar se desbordó a mis pies. El mar se tragó los océanos alrededor del mundo y yo pude nadarlos todos de una sola vez.

A ilha cresceu feita continente. A solidão se encolheu num piscar temendo ser pressa da felicidade. Os olhos dela se encheram do mar que engoliu os oceanos, todas as ilhas num só continente.

A solidão num piscar de feliz azul.