Nosso leite derramado

O leite ferve e derrama-se, quase sempre. Parece uma condenação. É o barulho da efervescência, instantes antes da ebulição. E cai fora, apagando as chamas. Quase matemática.

Minha mãe não havia um santo dia que isso não lhe acontecia. Nos reclamávamos, mas de fato, quase sempre acontecia. Parecia uma condenação. Ela dizia que o leite só estava pronto para beber, se se desligava a fervura justo antes de se derramar.

Hoje, eu pai, quase sempre me acontece. Pareço condenado: a uma memória que está escrita nos meus dias, minha mãe fervendo o leite até o ponto mais crítico, quase sempre a fervura sobe e derrama-se.

Minha mãe ferve o leite: derrama-me. É o barulho da fervura, instantes antes do derrame. É uma condenação.

Eu fervo o leite, meu filho observa: derrama-se. Estou preso a memória inscrita na minha pele, nos pensamentos, nos meus atos.

Depois o leite está quente demais. Então para esfriar-lo mais depressa se passa de xícara em xícara, várias vezes, assoprando o leite que vai pulando de xícara-em-xícara. Esse gesto, barulho, essa cena: é uma memória. Tudo inscrito. Minha mãe fazia, meu pai. Eu faço.

Estamos presos à memória: derrame-nos.

Detenha a fervura justo antes de derramar o leite. Se muito quente, troquei o leite de xícara em xícara, assoprando entre dentes: isto é uma memória, tudo inscrito.

Derramo-me.

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Huracáname

… es la ventisca. el huracán que sopla en inviernos tropicales.
las altos ramajes del más viejo de los árboles del parque,
acostados, caídos. cayendo la más vieja de las verdades del barrio
no soy más el niño que huye del soplo de los dioses.
caigo. cae el recuerdo junto a los ramajes caídos.
afuera sopla la ventisca de este invierno. las palmeras se acuestan
sobre el horizonte. se abajan con el viento los cables, los postes,
los mangales, los hombres, los viejos.
la verdad sea dicha: hay niños corriendo bajo la lluvia de estos deuses.
no recuerdo haber vivido esta memoria: desmemorio
no le huyo a las mentiras del tiempo: no soy um niño?
me busco niño…
me juzgo niño…
me invento niño…
enniñome.
dentro sopla una tormenta de inviernos tropicales: olvidáme
hace instantes me acosté sobre el horizonte
decidimos haber guardado las memorias: sólo yo
con la infancia de barrios tristes, sufridos. sufro
con las esquinas, los murmullos, las mujeres y las viejas.
entrego el cuerpo como testigo,
el silencio premia con la corona del olvido
somos apenas los príncipes d´esta comarca de destierros.
afuera el huracán: las palmeras acostadas, caídas…
yo vencido: invencible.

Rei Leão

“Olha filho, até lá, tudo o que você consegue enxergar são as terras do teu avô”, meu pai esticava o braço em direção de um horizonte de montanhas de terra vermelha, amontoadas sob um céu azul com nuvens, todas cobertas por uma grande massa de árvores. Entre elas, eu sabia, zigzagueava o rio Moa. Um rio bravo, não muito largo, com fundo de pedras polidas, e grandes rochas contornando suas paredes.

Eu devia ter seis, no máximo dez anos, e essa imagem, eu nunca esqueci.

Aquele território todo, basto de vários quilómetros quadrados, era plantado na sombra de suas ladeiras, com café e cacau. Meu avô havia sido dono daquele latifúndio havia umas décadas atrás, antes da chegada ao poder do Fidel Castro, mas durante a Reforma Agrária, ele tinha perdido elas. Desse causo minha família não falava, mas na época meu avô Maximiliano – até nome de chefão o velho tinha – tinha se revoltado e enfrentado as leis do governo, o que lhe custou prisão e encargos, e pior na época, o título sombrio de prisioneiro político.

Uma vez, às vezes duas vezes ao ano, visitávamos o reino da minha família materna, nas montanhas de Farrallones , no munícipio de Moa, na província de Holguín. Eram férias do campo: frutas tropicais silvestres, animais criados soltos na imensidão do bosque, aquele rio livre gelado que nascia no boqueirão de uma grande caverna, sinos de gado descendo a montanha, vizinhos distantes há várias léguas, sem energia elétrica, nem esgoto, chão de terra batida e candeeiro pendurado nos batentes da casa de madeira e pencas de palmeiras, sem pão ou manteiga, sem televisão ou torneiras.

Minha família materna era também numerosa. Minha avó Dulce Maria teve oito filhos com Maximiliano. Eles se haviam conhecido em terras próximas, do outro lado da serra moense, em terras da Baracoa. Ele era branco, olhos azuis e magro, bom partido e com poder. Ela era uma preta formosa, com um brilho raro na pele preta, olhos puxados, esticados num sorriso fechado. Ambos dois, muito estritos e de uma moral muito convicta: ele no esforço do trabalho, ela na paz do Evangelho.

Deles lembro com muito respeito. Minha mãe criou-me para louvá-los assim como ela, fora antes educada. Naquela época, o respeito e o medo moravam muito perto. Mas no escondido do peito o carinho que sentia por eles e pelo respeito àqueles silêncios quando eles estavam presentes, hoje eu lembro como uma dádiva, um sentimento que nunca mais senti por alguém.

Graças a essa paixão contracorrente, do branco à cavalo, terciado em dinheiro com a preta brilhosa de olhos, pintei minha alma de terra avermelhada, com cheiros de mato virgem, de pedras arredondadas no fundo de um rio, de mangas pingando nos trilhos de homens da montanha, de porcos sacrificados nas festas de domingo à beira da agua escorrendo, de banhos gelados em dezembro ou agosto, de primos e tias e mulheres e maridos de primas e tios que a cada férias eu conhecia e desconhecia, dos céus mais estrelados nunca depois descobertos, de bezerros dando o leite matutino, da mandioca e o milho cozidos na braça noturna, o cheiro de café torrado e pilado no quintal pelas mãos de todos, um por um, passando o pilão e aquele som repetido ecoando infinito, indo e vindo nas montanhas, aquele reino assinalado pelo dedo do meu pai no topo da mais altas delas.

A felicidade não conhecia horizontes…

Se a seca chegar … (e outras memórias líquidas cubanas)

Nestes dias que a seca acossa a grande São Paulo, que o Sistema Cantareira está em colapso, que chove muito, mas o nível da represa não aumenta; veio a duvida: se faltar a agua, vão a distribuir a agua por classes sociais, por bairros e vilas e comunidades de igual maneira?

Não imagino os prédios de Tatuapé e Higiénopolis ou da Pompeia sem agua. As madames, os filhos das Facú, os maridões de carrão, os filhotinhos de cachorro da alta classe burguesa economizando agua no seu dia-a-dia.

Em Cuba, desde que tenho lembrança, agua não era corrente nas torneiras. Ao menos, na minha casa. O agua entraba um dia sim, e um dia não. De tardinha, até a meia noite. Nesse intervalo as pessoas precisavam estocar agua do jeito que cada família conseguisse, e assim poder chegar no próximo dia do sim.

Entre os dois dias de agua, cada um devia economizar agua, mas aquilo durante os anos tinha-se tornado natural: lavar louça com um fiozin´ de agua, lavar roupa só nas noites nas quais a agua vinha direto na torneira ou tomar banho de balde e caneca.

Lembro-me disso especialmente nesta seca paulistana: eu esperando uma jarra de agua ser aquecida no fogão, depois misturada com agua fria da banheira que permanecia sempre cheia durante os dias de não entrar agua.

Era uma odisseia familiar.

Nalguns dias de forte calor de verão, de estes veranos brasileños ou daqueles distantes cubanos, eu já teria alguns anos de consciência, no fim das noites, depois de eu tomar banho, já limpo, parava de fazer barulho e colocando pouco a pouco o corpo na banheira ficava lá pensando, deitado dentro da agua da banheira, agua que o resto da família usaria até a agua entrar novamente. Era safadice de criança, sem pensar nos outros, só me divertindo.

Hoje está quente e parece que vá chover. Fiquei sabendo que a agua aqui em casa vem da represa Billings, ou seja, não tirarei agua dos condomínios da Pompeia, Tatuapé ou Higienópolis.

Mas as minhas memórias de hoje continuam levitando: na hora que a agua acabar – se acaba – , vão tirar agua primeiro nas comunidades ou nos bairros das grandes famílias paulistanas?

Passeio por uma Infância Distante

Ontem andei por Alamar, uma cidade de pequenos prédios pré-fabricados ao leste de La Habana, onde eu passava parte de minhas férias e finais de semana na casa da minha tia e primos preferidos. Desandei caminhos conhecidos com a certeza que não tinham mudado de lugar, e não houve surpresas. Cada coisa estava no exato lugar que eu o deixara há mais de quinze anos atrás. Naquela andança logrei me antecipar a cada atalho, parede, prédio ou árvore porque tudo era exatamente igual.

Aquele bairro fora construído por seus próprios moradores com subsídios do governo durante os anos oitenta. É um bairro feio, de prédios de no máximo cinco andares, espalhados sem nenhuma organização urbanística, dividido por zonas. Cada zona tinha seu mercado para comprar os abastecimentos, e onde confluíam outros serviços menores. Também algumas empresas e instituições do Estado num dos maiores planos imobiliários que foi conhecido como “Microbrigadas”, repartia terrenos aos seus funcionários para que com parte de suas horas pagas, fossem trabalhar na construção de seus apartamentos. A região é conhecida por ter abrigado as famílias mais humildes que eram removidas de moradias com perigo de derrube no Centro Histórico, e casualidade ou não, com uma alta concentração de população negra. Alamar é conhecido hoje por ser dos piores bairros para morar de La Habana, sobretudo pela falta de serviços e péssimo transporte.

Aquele apartamentinho no primeiro andar que eu frequentava tinha sido construído pelo marido da minha tia, Esteban, naquele sistema “microbrigada”. Ele era capitão da Marina Mercante de Cuba e no prédio onde morava minha tia Elena, e meus primos Estebita e Elenita, todos os vizinhos tinham alguma relação com a Marina. Anos depois meu tio abandonara o barco em Canadá e se exiliou. Depois conseguiu pagar as viagens de toda a família dele que hoje moram em Canadá e Estados Unidos. Ele começara escrever e hoje já tem par de livros de crônicas sobre os anos frente aos navios e os problemas dos cubanos na Cuba daqueles anos primeiros da Revolução.

Caminhando eu, ontem por aquelas ruas, a única surpresa que tive foi a de ver as distâncias terrivelmente encurtadas. Todo era pequeno menor para mim. Lugares que eu sabia, existem, chegavam em menor tempo aos meus pés. Era uma sensação esquisita. Era eu, Gulliver nas minhas próprias terras habaneras.

Nesse trajeto pequenininho, minha lembrança era transportada a minha distante infância. Este lugar era dos poucos que de pequeno eu vivi, e nunca mais visitara, e por isso agora me parecia tão surreal e mágico. Meu sorriso era de susto. Eu crescera em anos e experiência, e este era um fato. Minha vida tinha se esticado em livros, línguas e filho, mas aquela cidade feia à beira do mar tinha ficado igual.

Então pensei nos meus primos e tios que certamente há muito tempo não caminham por aqui. Eles também tinham crescido, ganhado em livros, línguas e filhos. A saudade daquilo tudo era gigante, porque da infância da gente, quase sempre temos saudades. Qual seria o tamanho desta cidade para eles hoje tão distantes destes passos?

No fim do passeio cheguei à desembocadura do rio Cojímar, divisa entre Alamar e Cojímar. Este bairro é dos mais tradicionais de La Habana e mais conhecido por ser o lugar onde acontece o famoso romance de Ernest Hemingway, “The Old and the Sea”. Caminhei até a beirada, perto da ponte que as pessoas usam para passar de um lado ao outro, e no encoste rochoso sentei-me. Não houve surpresa novamente, a infância e meu ser, estavam finalmente em paz… meu mar.