ALFABETO DO MEU NOME*

“O que está escrito nesse cartaz pai?” Era uma das perguntas mais freqüentes do Benjamín nas últimas semanas. A sede de descobrir esse mundo de significados contido nas palavras, esse labirinto de imagens desenhado em frases e metáforas.

“Ali diz ATENÇÃO” ai vem aquela astúcia paterna – e materna – , o cansaço incrível de tantas outras coisas cotidianas, o repetitivo da criança no seu intuito de aprendizagem, e você tem que ir escolhendo o momento certo de dar resposta, ou de quando não é possível dar resposta, ou quando de fato não se está com vontade “então, niño, agora papai está prestando atenção aos carros”.

Ele já ia sacando detalhes “essa palavra começa com letra do meu nome” eram os primórdios da leitura do mundo, as primeiras olhadas ao mundo encantado de ler.

Mas não era o início de outras mortes? Do ingênuo olhar sobre o real? Da liberdade do universo dos sentidos? O da não opressão das emoções escritas, ditas, lidas ou escutadas? Não era o fim, agora finalmente, de um universo que jamais retornaria; e do qual nunca mais nos recordávamos, o mundo das sem palavras?

Ele soletrava “M” respirava “E” com esforço “T” quase ofegante e cansado “R” duvidando, com aquele medinho da raça humana “Ô” e agora com êxtase, eu perto daquela independência praticamente definitiva “que diz aí Benja?” e ele, mais feliz do que qualquer outro ser “METRÔ, diz metrô”.

O mundo se desvendava entre palavras, perguntas, leituras, significâncias, interpretações e respostas. Um caminho novo para o que recém existia e que agora seria tão novo e desconhecido para ele, para mim que do lado dele, junto com ele, também iria novamente descobrindo-o.

“É pai eu aprendi ler pixo antes que palavras” ele afirmou, sorrindo, enquanto traduzia os desenhos nos muros da cidade, os traços jeroglíficos da selva de concreto, com aquela liberdade lúdica da criança. Daí ele inventava sentidos para aquilo que lia: essas viagens.

Então veio a mágica – de mágico aquilo era somente a minha recém descoberta, na escola era que havia nascido aquele ímpeto e a audácia – de ler em sílabas, pouco a pouco, arriscando, tudo o que estava escrito no mundo.

Foi no mercado do bairro, ele lendo os estantes, os produtos, os nomes dos corredores que eu não mais segurei minha emoção daquela empreitada e diz a ele “Benja,você já aprendeu ler” e de rir também chorei, naquela alegria tristonha, naquela saudades de despedidas: eu ria e chorava.

“Mas pai você está triste” e mesmo me sabendo tão chocado, tão imerso naqueles sentimentos misturados, dei-lhe um abraço, e tantos outros beijos “É hijo, de felicidade também se chora”.

 

  • O título foi Benja quem deu 🙂

 

 

Las noches de nuestro invierno

Quem vai lembrar você?
Quem lembrará de mim?
O que será de nós?

Sergio Sampaio

 

El invierno de estas noches fue muy frío, hijo. La casita con árboles era demasiada húmeda. Os cobertores sobrepuestos, todos juntos, aún no eran suficientes.

Dormíamos juntos…

Los veinte cuatro pequeños vidrios de la ventanita – tuve que contarlos – empañaban, así que la noche remataba con fuerzas al atardecer. Dentro, nuestro calor  de latidos incesantes, las sonrisas interminables, nuestros altercados de cansancio y rabia en formas de gritos, iluminaban las goticas que contaminaban a contraluz las lámparas amarillas de calle aledaña, afuera, del otro lado de esos mismos cuarenta y ocho vidrios – yo los conté.

Hacía mucho frío…

Preparábamos la comida, el simple alimento de una jornada común de nuestros días. Todo era suficiente en demasía, y en la mesa lo arduo era convencerte comer sin comentar tus largas conversaciones sobre algún de tus temas sin fin – ideas tuyas sin final.

A veces era todo. A veces, desistía de convencerte…

Encendimos velas, tú y yo hijo,

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Fuego en Iquiririm

para apagar una oscuridad ensayada; leímos libros mientras comías o dormías; canté canciones que poco recordaba – e las repetí sin aún recordarlas bien –; inventamos crónicas del arcoíris y sus personajes de otras fantasías; jugamos tú y yo, solos; o solito tú, mientras yo me enfrascaba en otras cosas, mías.

 

Nunca fue fácil… a pesar de lo profundo de nuestra poesía a dos.

En las noches de nuestro invierno – que todavía recién comienza – apenas dormí mis propios sueños; demasiado era el frío y yo, durmiendo a tú lado, despertaba para cubrirte; y en ese fugaz despertar de mis anhelos, te observaba con los ojos cerrados, dormías, y yo, intentando colarme para siempre en nuestro ensueño de vida compartida

Nosso leite derramado

O leite ferve e derrama-se, quase sempre. Parece uma condenação. É o barulho da efervescência, instantes antes da ebulição. E cai fora, apagando as chamas. Quase matemática.

Minha mãe não havia um santo dia que isso não lhe acontecia. Nos reclamávamos, mas de fato, quase sempre acontecia. Parecia uma condenação. Ela dizia que o leite só estava pronto para beber, se se desligava a fervura justo antes de se derramar.

Hoje, eu pai, quase sempre me acontece. Pareço condenado: a uma memória que está escrita nos meus dias, minha mãe fervendo o leite até o ponto mais crítico, quase sempre a fervura sobe e derrama-se.

Minha mãe ferve o leite: derrama-me. É o barulho da fervura, instantes antes do derrame. É uma condenação.

Eu fervo o leite, meu filho observa: derrama-se. Estou preso a memória inscrita na minha pele, nos pensamentos, nos meus atos.

Depois o leite está quente demais. Então para esfriar-lo mais depressa se passa de xícara em xícara, várias vezes, assoprando o leite que vai pulando de xícara-em-xícara. Esse gesto, barulho, essa cena: é uma memória. Tudo inscrito. Minha mãe fazia, meu pai. Eu faço.

Estamos presos à memória: derrame-nos.

Detenha a fervura justo antes de derramar o leite. Se muito quente, troquei o leite de xícara em xícara, assoprando entre dentes: isto é uma memória, tudo inscrito.

Derramo-me.

Nosso facho de azul

Estávamos na trilha na direção da cachoeira no Sertão do Cacau. Um sol rasgava em verdes mais claros um mato de escuro matiz, aquelas árvores mastros da vida, sombra de nosso acontecer. O som apedrejado do rio perto de nossa caminhada. Um facho de azul na testa e los cielos.  Éramos oito. Você e eu, Benja.

Você ia à frente, no ímpeto natural de liderar. Seus passos firmes, nas mãos o apoio, os olhos no aonde? e sua voz de narrar o que está acontecer. Eu ia detrás do seu andar, naquele cuidado  próximo, minha preocupação exigente, minha voz de urgentes comandos.

Num certo momento você quis ficar, não seguir adiante com los otros. Querias, e você disse. Eu topei, e ficamos. Só nós à beira do rio, naquelas poças.

barbapapa bIMG_9754 Nadamos nelas, depois do seu medo do escuro, do frio e da correnteza. Escalamos a parede rochosa do lado da queda, com os escorregadios dos sustos, as mãos firmando na rocha.  Fizemos uma, duas colunas de pedras, dessas que se fazem pensando na construção de um castelo. Castelos de nos à beira do rio. Uma conjura do alto da Torre Babel. Torre dos ensueños e do nosso encontro.

Naquele lugar eu nunca tinha ficado, sempre andando mais à frente no salto de água maior. Sentados na pedra lisa, dentro da água, eu falei “que bom que você quis ficar aqui”, querendo na verdade dizer bom mesmo havia sido aquela solidão a dois, aquelas falas e os sorrisos.

Você criança, me disse “eh, eles não vão saber o que se perderam”. O rio era o mesmo na trilha das águas, lá na alta cachoeira, e ali nos nossos umbigos. Nossas torres de pedras um dia sumiriam nessa mesma correnteza.

“Eu acho que eles estão bem lá onde eles estão” acho que foi assim que eu disse. O facho ainda era azul mas distinto sobre nossas testas e em nuestros cielos.

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“É, nesse momento eles estão separados de nossas vidas” seu olhar arregalou-se à distância, foi um meio sorrindo, um meio abismado. A percepção do instante. O presente na palma da mão. A sombra do eco da voz.

“O bom é estar aqui” eu te disse, e sorrimos com o rio, as Torres erguidas, nosso facho de azul e cielos.

Crônica para um adeus.

Se eu for embora – ou se já fosse – não pense mal, não reaja. Sou um animalzinho callejero que transito a desdém pelas beiradas. Vou caindo pelos cantos como chuva na ladeira, como sombra que esparrama no fim da tarde sobre o asfalto. Eu não sou nem isso. Sou de uma dor terrível que não sossega nem da trégua: a poesia ou estes textos que tento, são a plena dor que de mim foge, e não adianta segurar o sentimento, pula fora, jorra vento na rosto de mim mesmo. Não me vê hijo, deve ser que estou sorrindo no outro canto da sala, ou chorando detrás de ti mesmo, segurando-me mais forte no teu abraço esperando cair a última lágrima.

Eu disse, e tento, tentei com minhas poucas forças meus intentos, sempre banal, sempre pouco útil, pouco ágil para me converter no real que precisamos. Eu tive fome. Eu tive noites solitárias no deserto desta cidade manifesto, cidade de compras bem pagas, de bens refeitos, hereditários e de  créditos. Eu vim com pouco mais que uma fantasia, vestido de uma paixão pouco vestida, de uma ilusão macabra e paguei o preço de dizer adeus a todo que tinha. O que era para ser, assim foi feito, refeitos contratos com a nada, e disse adeus a qualquer cadeira que o destino inventara para o meu sossego. E disse adeus, a violência do silêncio, à magoa do amor partido ao meio, disse adeus em silêncio, calado com o pouco que no meu colo eu aguentava. Não pedi nada. Me contentei com o real, com o humilde e necessário.

Você, melhor que ninguém sabe, as artes mágicas de nossos trajetos, de nossos artifícios para sermos, das caminhadas, dos amigos e amigas parceiros, dos sorrisos que todas e todos nós regalavam porque era verdadeiro o abraço de nós sendo. Precário era o sol e a lua iluminando, porque ainda lhe faltavam ao Astro Rei e a sua rainha, a verdadeira essência do nosso encontro.

Se choro é porque não me cabem mais saídas para a dor. Dor escrita tem um que de beleza, um que de certeza do que tudo vai passar. Mas a dor que doe marca na pele, fere nas lágrimas, mata o coração. Eu fiz o que de mim, eu esperava. Outras coisas, os outros poderiam esperar das minhas lágrimas, mas cada um, você isso terá que aprender, cada um tem o dom de ser aquilo que acredita ser.

Se eu fui embora, não espere, seja, caminhe, procure o seu verdadeiro ser.

Opinião

Faz uns dias, estávamos sentados na mesa para jantar, e Benja, você me perguntou: “Oh pai, o que que é opinião?”

Eu pensei nos microssegundos do pensamento, é uma palavra grande, funda, dessas que se aprendem onde?  Pensei, ouvi direito?

“Opinião é…” te disse, e nesse outro instante do pensamento, duvidei o significado dela, duvidei porque eu me lembro até hoje de coisas que eu perguntei e meus pais me disseram, e que até hoje nunca esqueci. Queria acertar nas minhas palavras, ser simples em te dizer, e te explicar talvez para sempre o que aquilo significava “… opinião é aquilo que você acha sobre alguma coisa ou alguém”.

Tive um alivio.

“O qué?” seco, você me respondeu, perguntando.

Era um desafio.

“O que você acha, qual é sua opinião dessa comida?” eu disse. “Ruim, eu não gosto de mandioca” você disse, já apartando os pedacinhos do frango e do feijão com arroz. Afastei-me do exemplo, estava mais preocupado em você jantar.

“A festa de ontem que a gente foi, você que achou? Qual é sua opinião dela?”. A festa tinha sido boa, no Ateliê onde trabalho, tinhas ido com mamãe porque eu estava na função. “Ah ruim, eu não gostei que machuquei o dedo” era a negação, a postura do contra da qual tanto sou assíduo.

Daí eu “então Benja, mas a gente tem várias opiniões, não por isso você vai dizer que você não gostou da festa”. Você pensava, comíamos. “O que você gostou da festa?” e veio aquela frase sua interminável, daquilo e outro, tanta coisa gostosa que você gostara.

É isso, uma verdade não definia a verdade toda. Era somente pontos de vistas, vários, de alguma coisa. Nossa opinião instável e efêmera. Nosso fluido da realidade, apenas perspectiva.

Entendes, eu te explicava, podemos achar de várias maneiras sobre o mesmo, é isso que é opinião. Eu não tinha certeza se entendias, mas dai arrisquei mais.

“E você Benja, que você acha, qual é tua opinião de mim?” Você apartou o corpo da mesa, e olhando firme aos olhos disse, sem nenhum peso, livre de opinar e achar de mim o que quiseres. “Ah pai, eu gosto de você inteiro”.

Eu ri com orgulho besta. Rindo de mim tentando me explicar para você. E fiquei sem palavras e sem gesto, só o do garfo à boca, e do peito enchido de amor sem fim.

Ufff…

Desabafo

Eu deveria escrever saudades… mas me aflige a dor. Bem fininha, esconderija no peito, matou.

Tudo torna, retorna. Nem você, meu filho, me abraçando, não consegues. Você pôs seus olhos nos meus, juntos. Disse pouco e me abraçou. No fundo, no fundo, o abraço abafou tudo que havia de dor. Só que não…

As ausências todas, não tinham acabado. Ao contrário, na vida, as ausências só aumentam.

Era só mais um dia, comum, de teu retorno. Eu queria chorar todos os momentos que perdi da tua caminhada. Queria chorar, nesse instante, todos os momentos do teu futuro, já crescido, caminhando solitário.

Era de mim de quem eu chorava. De uma tristeza fatal que não me larga apesar dessa alegria que teu abraço me regalava.

Nada tinha mudado. Talvez sim, a voz. O jeito de contar com palavras o que sucedeu. Eu estava perplexo, silenciosamente, do orgulhoso que sou, sendo eu, pai seu.

Eu talvez não compreenda tudo isto… estou desabafando mesmo.

De pai para filho (ou de como venho para onde vou)

Há um par de dias atrás que meu pai, lá em Cuba, se aposentou do único emprego que teve nos últimos quarenta anos. Nos últimos anos ele era o chefe do grupo de manutenção – serviços gerais – do Consulado Britânico em Habana.

Um emprego que serviu de sustento a nossa família. Um bom sustento. Em american dollars ou no seu equivalente em Cuba, CUCs.

Durante toda minha infância, minha adolescência e existência toda, el viejo Ramón dedicou sua vida a trabalhar para sustentar minha família. Tudo tinha começado muitos anos antes, quando meu avó Franscisco abandonou minha avô Dora, deixando para trás uma família de diez hijos. Meu pai se prometera e cumprira sua própria promessa e afã pessoal.

Papá, ¿dónde tú trabajas?”, era eu querendo saber, precisando responder à professora, na escola.

Eu devia dizer que ele era “pintor”, daqueles que cuidam do branco das casas, dos verdes dos jardins e do azul das piscinas. Em caso nenhum eu devia dizer que trabalhava para estrangeiros, ainda menos ingleses, muito menos capitalistas. Eu poderia sofrer represálias do tipo ideológico.

O trabalho dele era rigoroso. Lembro perfeitamente porque de criança, aos sábados ele me deixava acompanha-lo. Eram os melhores dias, brincando entre móveis que só estrangeiro, inglês e capitalista usava naquela ilha. Visitando casas de muito luxo, carros importados e comidas que nunca teria experimentado antes. Toquei brinquedos que nenhum dos meus amigos de bairro ou da escola antes vira.

Naqueles finais de semana, eu via ele, dedicado ao seu trabalho, sempre brincalhão e esforçado. Los yumas – como chamávamos os estrangeiros em Cuba – exigiam muito mais do que era acostumado nos empregos, serviços e instituições cubanas.

Assim conheci e aprendi english. Assim, como poucos na ilha, tive festa de Natal, com presentes da mão do Papai Noel. Como poucos, tinha bebido Coca-Cola. Tinha entrado em LandRovers e Bentleys.

Na escola e entre os amigos, zoeiras da esquina e da bola, até ente meus primeiros flertes esse fato aparecia como aparência de certo status.

Daquilo eu nunca teve orgulho. Orgulho no sentido de ostentar.

Meu pai tinha me ensinado que o único necessário era a comida, comer bem, com fartura e gosto, com desejo. E compartir. Dar simplemente dar.  

Em casa, ele que fazia tudo: obvio. E seria obvio, quase um lugar comum, que eu não aprendesse dele, por preguiça, por pirraça por lambança.

Faz um tempo que voltei de Cuba. Lá conversei com meu pai sobre a decisão dele de se aposentar.  Momento de virada, novos rumos. O homem estava feliz.

Eu na minha volta nem sabia o que seria de mim aqui no Brasil. Saber sem pretensões, apenas saber que ia me jogar. Então escrevi o meu destino. Vida, escrita em passagens memoriosos, com tons de acaso, e dias reais. Comecei trabalhar exatamente com o que ele por anos trabalhara, e com ele eu me negara aprender.

No mesmo dia que ele se aposentava do seu emprego com os estrangeiros, os ingleses, os capitalistas, eu pintava de mão e pincel uma porta restaurada. Antes a tinha desmontado, lixado e ajustado novamente. Era o meu momento de virada, novo rumo. Eu estou feliz.

Abro a Porta. La puerta.

Essa porta fechada com chave antes de entrar. É de noite, noitada de amigos e bar. Essa porta de casa, de noite fechada, antes de entrar.

Abro la puerta de casa como otras tantas veces llegué para entrar. Es la noche, en mi casa, después de los amigos y el bar.

Desta vez minha companhia é meu filho, como outras tantas vezes foram meus amigos e outras tantas mulheres que amo e amei. Meu filho aguarda com ânsia depois dos violões, as vozes que cantaram as músicas que nunca esqueci.

Es casi medianoche de la noche estrellada habanera. Es mi hijo quien espera abrirse la puerta cerrada que otras tantas veces ya abrí. Es mi amigo y todo el amor en un solo cuerpecito quien espera las voces y las canciones que nunca olvidé.

Abro a porta. La puerta.

Él es mi ansia después de guitarras, las voces, los amigos y las mujeres que amo y amé, todo en su único cuerpecito de amigo y amante quien me espera en la medianoche habanera de tantas estrellas.

Ele é o único que ultrapassa portas fechadas, noites de cidades estreladas, mulheres que amo ou amei, amigos, violões, músicas que nunca esqueci, bares, ânsias e todo o amor.

Que sensação é essa que me ultrapassa como vento invisível na porta do além?

Abro la puerta. A porta.

¿Quién es este hombre allende puertas cerradas, noches de ciudades estrelladas, mujeres que amo o amé, amigos, guitarras, músicas que nunca olvidé, bares, ansias y todo el amor?

Para él, puede que sea apenas la primera noche delante de esta puerta nocturna de todo el amor, y sin saberlo, corre dentro de casa con una felicidad ulterior.

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Que felicidade é essa que corre em duas pernas, sorri demais, faz-me feliz? E pode ser que para ele, seja apenas a primeira vez de tantas outras vezes que verei correr o amor diante de mim numa noite estrelada, além de bares e amigos, amores que vivem em mim, violões de músicas que amo e amei.

Abro la puerta, mi hijo.

Meu filho, a porta. 


O verdadeiro, essencial e duradouro único sentido

Só quem tem filho pode compreender isto que estou vivendo – e escrevo. Só quem deixou sua terra de nascença poderá ler nestas palavras a profunda satisfação que estou sentindo. Tudo embolado aqui no peito, nas ideias e nos gestos.

Benjamín chegou em Cuba e parece que nunca tivesse ido, parece que foi aqui que abriu os olhos ao mundo e começou escorregar-se pela vida – e nesta nossa historia.

Ao atravessar a porta final do aeroporto me viu, soltou a mão da mãe e partiu para o abraço. Eu apertei forte, como aquele último abraço que ainda eu recordara e que fora nosso último contato real durante todo este tempo. Eu soltei umas lágrimas, que novamente, não deixei que ele percebesse.

Eu fiquei alegre de todo esforço e de cada desatino. Os caminhos que eu tomei foram muito fundos e fortes, e ainda eu não compreenderia.

Ter um filho é das realizações, á única verdadeira, essencial y duradoura. Sozinho, então, eu não imaginava quanto tudo isto mudaria meus dias – minhas felicidades e tristezas. E quanto tudo faria sentido desde o começo, naquele dia olvidado do meu próprio nascimento.

Nestes instantes de este último dia, a cobra comprida do tempo mordeu sua cauda, e no abraço singelo fora do aeroporto, ele pisando as terras que eu também pisara, cumpriu minha vida seu verdadeiro, essencial e duradouro, único sentido.

Naquele abraço me esvaziei de remorsos y barreiras, e me inundei do que me assemelha do amor profundo da vida, e me afasta da morte, o hálito que me mantém vivo – e escrevendo: mi hijo.

Dali para frente, eu vi nele e ele viveu – enquanto eu escrevo isto ele dorme – como se fosse sempre aqui isolado pelo mar que agora nos recebe, que ele viveu desde antes do nosso tempo. Eu vi nele e ele vive, que ao filho de um, lhe pertencem todas e cada uma das suas paisagens anteriores; todos e cada um dos personagens que lhe abraçam ou lhe amam; todos e cada um dos encontros, antes e depois do nascimento. Eu vi nele e ele vive, que esta terra com nome e arbitrariedades como toda terra que os homens conhecem, lhe abraçou, lhe pertence e lhe ama.

Benja hoje conheceu as ruas, os carros e o mar desta ilha. De mãos dadas à mãe e a este que escreve – e vive – ele sorriu tanto como agora eu choro. A felicidade tem máscaras vestidas de céu azul, brancas ondas batendo contra os muros, rumba multicolorida de tambores e pernas-de-pau, chocolate frio ou quente, e solidão sob a noite estrelada.

Éramos felizes juntos nesta terra desde sempre.

Agora, ele dorme.

Eu lhe escrevo.

bijukis