Do tamanho do meu amor…

Enxerguei naqueles olhos o brilho do amor que me observava. Um brilho tênue que refletia as sombras e luzes de um arco-íris.

O vôo era cego até aquele encontro. Dei um abraço apertado, sentindo as batidas combinadas daqueles dois corações-seres.

Era o mais grande amor que batia dentre aqueles dois peitos. E eu o sentia num silêncio que desconhecia palavras.

Era um abraço singelo. Fugaz e voraz como o fogo que arde entre chamas de uma lavareda. Era um quente que ardia. Queimando e sanando tudo que acontecia.

Era a dor do abraço. A certeza do adeus.

E assim, seguro entre dedos, o corpo do beijo, cabelos do tempo, aquela umidade de rios no meio a penhascos, aquela pele basta de campos e bosques e altas montanhas, a imensa caverna do eterno, aquele refúgio donde a vida se fingia permanente, e essa dádiva de me saber efêmero diante do amor, a paz do instante, a morte do eterno, e a dor do distanciamento.

E no instante da brisa geada entre um corpo e o outro, o momento do aquém e da ida, um continente se abrindo viagem no oceano, assim como a folha se aventura no vento, a semente estourando o caroço da terra em incrível crescida até os céus, uma dor de mil séculos, do filho no ventre, ou pior, muito antes, nunca nascido.

Era a dor de mais um adeus, do tamanho do amor que já fora. Insensível o destino de amar desmedido. Sangue nos olhos, pingando lágrimas destemidas, raivas silenciosas e desejos contidos.

Havia que aprender o silêncio do monge.

A paz do desterro.

O trino do pássaro na janela fechada.

Não haveria primaveras, nem tampouco perdões.

 

Forró da Solidão

A manhã cinzenta invadiu meu peito e um forró tirou para dançar minhas lágrimas. A noite seria de sanfona, triângulo, zabumba e imensidão.

Pingos de luzes nos cantos de uma sala aberta e larga. Chão de estrelas pintadas. Gente dançando no silêncio do som surdo de uma banda de três.

Eu sozinho, num canto esquecido de mim.

A todo mundo eu dou psiu

Perguntando por meu bem

Tendo o coração vazio

Vivo assim a dar psiu

Sabiá vem cá também

Minha tristeza está com som de Nordeste. Arrombando minhas vilas. Meu sertão sem nome. Enche os rios da minha seca. E rio, rio de mim e da minha sorte.

A pista lotada. Silente a pesar da banda e da dança. Eu me pego da mão. Sozinho, vou dançar ao som da banda sem fim. E ninguém me vê chorar porque a sanfona chora mais alto que eu.

Só trazia a coragem e a cara

Viajando em pau de arara

Eu penei

Mais aqui cheguei

Daí, a morena tira eu para bailar, e mando meu corpo sem eu. Assim sem mim, eu danço melhor. Ela que manda na dança e quem decide como vou dançar.

A morena não quer parar. Nem ela, nem eu.

E esse teu suor sargado

É gostoso tem sabor

Pois o teu corpo suado

Com esse cheiro de fulô

Tem um gosto temperado

dos temperos do amor.

Assim é: madrugada alta, a pista aberta, um céu de gente, a banda infinita, sanfona maldita, zambumba do meu bem, a dança da solidão, forró do adeus.

Mas forró mesmo, não tem fim. A morena se despede da manhã, caminhando sem olhar para trás, e meu corpo sem mim se entristece e eu aqui.

Assim ia, eu no meu canto sem mim. A banda tocando para ninguém. A pista sem estrelas. A manhã sem sóis. O Nordeste na seca. A tristeza sem ter fim.

Assim era. Assim foi…

 

Gozo

O corpo dela estava jogado debaixo. Nus. O movimento, apenas, era um roce continuo dos umbigos, os peitos e o beijo. Assim se arrochando, entre perna e perna, o pau ereto imbricava na cavidade úmida do seu sexo. Entre ambos, o suor fazia deslizar as peles, num desce e sobe do aperto perfeito.

“Não enfia ainda…” suplicava ela com uma vontade irresistível, com um tesão irremediável.

O corpo era maciço. Difícil de lhe pegar alguma sobra, não fosse aquela bunda desmedida e perigosa, que agora se tornava visível assim que ela girara. Dentro daquelas bochechas exageradas, no fundo do poço à procura dos deuses com a língua, o nariz e até o queixo.

Cheirava à mulher-cavala. A égua da qual todos os Deuses falavam. Era real, o sonho, e tão fantástica a loucura dentre aquelas duas pernas, sob o umbigo, com aquele todo suor.

As mãos delas pressionaram a cabeça, ajustando a engrenagem daquela maquinaria milagrosa dos orgasmos.

“Vá devagar…” outra vez a voz, e os suspiros, e os olhos tortos se virando para sim.

Ela se contorcia, e comprimia com a presença firme da língua direto na pontinha rosa – e a pinta – de seu clitóris. Era fálico, e mole, e suave, e deliciosamente amoldável dentro da boca, e sob a língua e os dedos, e o nariz e o queixo.

“Não para…” mais uma ordem dada, mais um detalhe calculado da mulher-cavala, égua bendita sob o corpo, e a mão prendendo o cabelo, e um controle estrito dos movimentos, e língua, os dedos, a pontinha rosa, a pinta, o suor se escorrendo entre as peles, e os corpos, os beijos entre as pernas e um silêncio magistral de menos de um instante… e o vulcão de dentro, dos olhos tortos e a voz gemendo, a mão prendendo, a língua, cheirando o suor quente de dentro que brota, e brota e brota, brota, brota, brota tanto gozo quente de dentro, e o silêncio é eterno, a mão prendendo, e brota, brota, brota, brota o sêmen dela transparente e aquoso, delicioso mijo fora e dentro que molha tudo que está próximo, pega na língua, os olhos, os dedos dentro e fora, o queixo e os lenções e os travesseiros.

Ela leve, mulher-dos-deuses sob o corpo, tanto gozo que é de agua o corpo maciço esses músculos, e é de gozo que é feito esse sorriso, e o beijo molhado é de gozo, entre as línguas que se encontram no beijo, beijo molhado de seu sexo, da pontinha rosa e a pinta, tudo de feito de gozo, e eu gozado, e molhado de gozo como se fosse dos deuses também filho, e abrindo mais os olhos, olhar úmido e gozado, e ela distante, num silêncio-gozo do qual é prisioneira, e calada ainda, como se com os deuses falasse solta a mão que prende e se liberta num suspiro, e fechando as pernas…

“Me olha aos olhos…”

O ACASO HABANERO E O ACOSO POLICIAL.

Conheci Victor andando no Centro de La Habana. Ele era um preto de dreads que estava visivelmente meio bêbado.

Aproximou-se de Nathália e de mim achando que eu era estrangeiro. Isso tem sido das coisas mais absurdamente chatas que vem me acontecendo.

Veio na paz, fazendo conversa. Normalmente – como já tinha me acontecido nestes dias solar– eu teria me afastado do sujeito, sobretudo pelo absurdo, pela quase vergonha de me fazerem sentir brasileiro na minha terra cubana, mas o olhar ingênuo, o preto nos dreads e o convite a conhecer a casa dele no solar (uma construção popular típica de tempos da colônia com pequenos kitnets e banheiro comunitário e pequeno pátio central cimentado) e a possibilidade de me adentrar numa Cuba que há anos não vejo, não vivo e já não mais sofro; aceitei ir.

A casa dele tinha quase nenhum móvel. Mostrou-me parte das artes que ele faz em madeira para sobreviver e que nem intentou me vender.

Aquele vazio todo não me assustou, mas resultou-me um raro espelho daquilo que eu sou, e da minha vida em terras paulistanas no meu intento por sobreviver.

Perguntei-lhe pela mãe e chorou. Ainda viva andaria pelas calles habaneras também tentando se virar para não morrer de fome. Voltaria depois, me disse, não conseguiria viver sem ela, continuou. Então pediu que o convidasse um drinque, a amizade tem esses detalhes etílicos necessários para existir. Lá fomos nos à beber.

Em Cuba, tem gente que se fez profissional do turismo, alternativamente. Tinham se acostumado abordar gringos, e no bem ou mal, tirar vantagem da necessidade dos estrangeiros de querer conhecer a Ilha.

Victor é um desses, que por viver no centro histórico, vive do contato com os estrangeiros. Vende suas peças de cabeças de animais. Se lhe dão trégua, pega as loirinhas e passa a semana sendo feliz. Disse-nos que tem quatro filhos espalhados pelo mundo.

 Zanqueros

E desandamos ruas conhecidas, pintadas de sol e cheias de pessoas suadas. Dançamos detrás dos pernas-de-pau. Bebemos rum barato. Rimos da sorte do encontro.

E ainda sendo felizes, um policial o abordou. Tanto ele como eu, tínhamos vivido esse momento infeliz várias vezes. O agente pediu pelos documentos e chamou pelo rádio.

Pedi para Nathália se afastar de nós, aquele sotaque não passaria por cubana em lugar nenhum. Poderia complicar as coisas.

Por quinze minutos, ambos tentamos convencer o fardado do absurdo daquele victorprocedimento. Aleguei racismo. Aleguei injustiça. Aleguei burrice. Ainda lhe comentei, coisas como estas que definem uma ditadura. Não adiantou.

Dei o número do telefone de casa para se o Victor, depois da prisão temporária e depois daquele grau de álcool, quisesse me ligar de volta.

Victor foi-se caminhado acompanhado pelo guarda e perdeu-se dentre aquele montão de pessoas suadas e ruas conhecidas.

Do meu amor…

Do meu amor, rasguei – ontem – a camisa, as roupas velhas e sujas. Rasguei dele as máscaras e a cobertura, aquela película que o embrulhava como enfeite.

Rasguei-lhe o futuro, passados, faculdades, aposentadorias.

Tirei-lhe fome, ausências, saudades. Rasguei-lhe sonhos e pesadelos.

Tirei-lhe cobranças, pedidos, taxas, trocos convertidos em poupanças.

Ao meu amor, afastei-o de largas caminhadas, de desertos, de noites desveladas e da Sombra que da Luz o afastava.

Abri-lhe os olhos.

Beijei-lhe a alma.

O livrei de irmãos e dinastias. Libertei-o de pátrias.

Arranquei-lhe os cabelos, dentes, unhas e barbas. O abaixei do pódio. Neguei-lhe casamento. Não lhe compus músicas, serenatas, zero hinos de cavalgadas. Não conheceu heróis nem ídolos que o coroavam.

E na escuridão da noite, a Lua dúbia, e sem estrelas, eu despido e sem medo, o abracei sem nada, para ver se o meu amor me amava.