Solilóquio escrito no trem, entre a Luz e Guainazes rumo a Mogi das Cruzes

a arte de escrever é traduzir sensações em palavras,
sempre antes de que estas,
percam a esperança!

 

As palavras não tem mais fluidez que o reflexo; no vidro obtuso, procuro respostas que é, bem provável, não HÁ! As vezes enquanto aparece a questão, aparece uma parede de tijolos se colora, uma vida afundada sob os trilhos, uma rua aquietada, avenidas sem faróis nem pessoas; já viu crianças um dia comum corriqueiro? não né! os adultos as encerram para não lembrarmos de uma vez fomos crianças; FULMINOU o sol esse pensamento, um prédio novo, dois, vários edifícios de uma cidade que não acaba; nos meus opostos: um senhor de óculos lê um livro e um homem de fone fixa seu além num android; logo um muro interminável de grafias de um silêncio que é – e será – infinito: para que essa assinatura citadina, inteligível, inacabada? é a mania de existir que nos acaba, de brindar em vão nossas palavras: blasfemo, não me oculto; o dEUs que me cabe é vadio e me come dia e noite e madrugadas; silhuetes no viaduto, atravessamos à contra-luz aquelas sombras, um circo de lona desligado, de manhãs os palhaços folgam, pois quem de olhos vê o amanhecer não deve ser são as tardes que adormece – há uma pausa/pensar, a saliva acalma, tenho fome, esse corpo meu no fundo é meu inimigo; qual o sinal dessas nuvens que aconchegam o brilho natural dos acordes matinais, uma praça, tantos chorões pingando folhas e sonhos: a semente: uma nova paixão que me extravasa; acho que não há nada mais belo que ver sorrir por amar – aliás amor é fazer sorrir, nada mais -; suprema equação: este instantes de olhos transbordando, mente inquieta, queria atravessar-lhe suas pernas molhadas; toda insegurança é como o trem do retorno, do outro lado, vem da  volta o terror da sinceridade; queria mentir, ser melhor nos desacertos e nas ambições, me conformo: pecado sem religiões; o tempo despenca, eu lhe aceito, aceite-me também: azeite-me….

dançando na contra-mão

Caminhar na contramão, e ver os cartazes da crise: VENDE OU ALUGA! Revendo o aluguel ou alugar as vendas.

Vejo os rostos vazios dos vazios armazéns. Não precisamos atendentes. O preço da banana-mignon subiu. A cena real despencou.

O moço que vassoura a calçada me sorri. Eu danço um abraço distante, devido ao auge do macho-papão. Conformamos-nos com a solidão dos dois indivíduos: ele vassoura, eu danço. Parecemos felizes naquilo que somos, ele e eu.

Eu peço a vassoura, e peço que ele dance, tentando ir à contramão, mas ele é feliz na poeira. Eu só queria tentar.

Vazo…

Vejo as pessoas nos seus carros. Um no volante, a moça digita no celular: eles não se olham, talvez nem nunca mais se olhem. Outro entre o quente do asfalto e do sol, dos vidros abertos,  e o braço para fora pingando suor, não engata nem um sorriso, mas bem alavanca um xingo no próximo condutor.

Eu, na contramão, flerto com minha língua, pingando a baba do mesmo calor, a pé não há trânsito que detenha meu avanço, nem setas que precisem avistar, nem luz no retrovisor, apenas o fluxo do adiante, dos pés sobre a sombra, da fome no espírito, lembranças de cada acalanto, do trino do amor.

ME VENDO E ME ALUGO, diz o cartaz da minha crise. O rosto vazio da sem-emoção. Sorriso do efêmero, faróis piscando, energia esgotou.

Caminho sem crise, dançando esta rara sinfonia da solidão. Vejo uma vassoura largada no chão, sem moço ou sem moça. E continuo dançando, sozinho.

Eu só quero tentar…

fragmentos del acaso

“para Alé Galasso’

salís por esa puerta, y la vida te cambia (o viceversa)
en semáforo tintinea luzes monogámicas
nosotros
dos 
acasos
abrazamos el andar
uno cerca del otro
dos,
distintos, 

las paredes pintorretean grafitis apalabrados
no entiendo
un maestro pinta azules
en forma de ocios espirales
ofrecemos simpatías
y el espejo,
del reflejo oscuro,
se quiebra en mi mano
y sangra el rojo feliz de estar vivo
la noche no perdona estos silencios
en el parque los del circo,
nos sonríen
nada es acaso en la tierra del tiempo
de regreso el retorno de un encuentro
sea más que volátil este instante
reconozco el caos precisando de algun puerto
y quien dice que había isla en medio del océano
nada tiene sentido, ni 
estar cierto.

som infalível

Minientrada

escorrega em mim
eco da dor
no oco do ego vazio sem fim
esvazia os afins
os avessos reflexos do amor
na distantes pradeiras da fé
a conjura do etéreo
as migalhas do tempo
manifesto assinado da solidão
amanhece tertúlias e danças
festa sem convite e a mais pura aceitação
a semente sorriso de uma larga sombra no centro do Sol
sobrevive a calma
a astúcia do rio atravessando montanhas
o furo na pedra da Terra
a ínfima parte do bicho
a luz nas trevas do mar
um som infalível de respiração
sobrevivente!

Águas da vida

Chovia muito lá fora.

Na cozinha, fervilhava água para fazer algum cozido.

Chuverava dentro do banheiro, e você, hijo, divertia-se sozinho com aquelas histórias que você inventa. Eu entrei no banheirinho esfumaçado para tirar você de lá. Peguei a toalha.

“Pai, eu gosto muito dessa minha vida” você disse. Lacrimejou meus olhos pela simples frase, teu sorriso. Eu te secava. Bateu silêncio na minha resposta: não havia palavras.

“Vai ter outra?” você expeliu sem dar fôlego a minha surpresa. Era essa – minha – sensação humana de uma dor sem fundo.

“Vai ter uma…” consegui te dizer “… bela e longa vida”.

“Só esta?” era tua certeza surpreendida, mas consciente, e plena, de que esta seria nossa vida, única vida a ser vivida.

Eu segurei meu pranto, que agora com você brincando no quarto, consegui sem dor, chorar a vontade.

“É, Benja…” eu triste, querendo te mentir, mas não podendo “temos que curtir muito”.

“Sabia pai? As crianças também morrem”.

“Sei Benja, eu sei” a tristeza não doía, machucava, matava. Daí eu falei aquele discurso de se cuidar muito, de se divertir muito, de ser feliz.

“Mas, porque você está me falando isso, hijo?” era eu procurando um caís, um pé no chão para aquela dor que eu não mais segurava.

“Ué, só estou te avisando” você me disse.

Chovia lá fora um mundo. A água no fogo evaporava. Eu estava triste sem motivos. Você caminhava abraçado à toalha, ciente da vida, dos fluxos das águas.