primeira lembrança da morte

Íamos de carona, Benja, voltando de um dia de muitas brincadeiras, trabalhando. No tránsito da Marginal, trocávamos ideia sobre isto e aquilo, e não lembro como começamos falar sobre a morte.

Aquele abismo entre o que somos e o escuro além silencioso que nos abraça depois do último hálito.  Entre as tuas perguntas e as memórias de Suely, a amiga que dirigia, foi se tecendo o emaranhado da dúvida, o real do véu que apaga aos olhos e libertam à alma, aonde o tempo pára e o sol se extingue.

Eu, talvez de um medo, não disse nada. Senti medo até de olhar pro seu rosto, no seu medo à morte, que pela primeira vez você experimentava.

“Eu queria apagar esse memória…” você diz, e bateu sua testa com a mão “… eu não queria lembrar disso”. Eu sofria, em vão, o despertar da conciência da vida, vinda ao acaso das palavras no mais singelo gesto humano: o medo a não estar vivo.

A dor em mim era aguda. Sofria por você enxergar a verdade básica dos que estamos vivos. Descobrias o pote mágico dos dias e os sóis nesta terra antropofágica. A luz no fundo do túnel.

Faz anos, quando eu tinha mais ou menos essa sua idade, também sem lembrar como, numa conversa entre meus pais e eu, havíamos caído nessa de falar sobre a morte. Eu não lembro da sensação do medo provocado pelas palavras, mas lembro de eles, tentando me fazendo esquecer daquilo, rindo da minha cara pálida e lábios roxos, dizendo mais ou menos, o mesmo que eu te disse: “assim é a vida, filho”.

Eu também tenho medo de morrer.

 

 

E quando tenha filhos…

Uma coisa simples, do ABC da educação, do simples afeto construtor, não faça de seu filho preso do seu amor. O amor é o que liberta e, nunca pelo medo, nos ajuda crescer.

Acho que meus pais não fizeram isso comigo. Hoje eu vejo, quanto é fácil não olhar para meu filho e ver nele, a conclusão ou fim dos meus dias. Dele, não espero o chamego de um filho adulto no seu pai velho. À ele, de igual para igual, iguais.

Porém, nas esquinas do meu bairro, lá em Santos Suarez, eu ouvia. “Se eu não jogar eu levo a bola”, pois leve a bola rapaz. Leve sua bola na sua escura solidão de si próprio. Esconda-a onde só você e sua triste figura possam encostar e brincar.

Lá no meu bairro se alguém ameaçasse levar a bola, em troca de ficar, pois tirávamos a bola, e ainda mandamos o infeliz ir embora. Sem bola. Sozinho.

Essa atitudes em troca de afeto, nascidas no seio da família, da imensa maioria das famílias, são responsáveis pelas piores chantagens emocionais  que virão encontrar você ao longo da sua vida.

Amores pregados na chantagem de não ficarmos a sós. Relacionamentos enfurnados na escura solidão de si próprios, escondidos nas suas tristes figuras, pelos simples medo de perder a “bola” do outro que ameaça sair do jogo. Famílias que se assustam, tentando tirar de seus filhos ou pais, o afeto que as sustentam.

Então, se vai ter um filho, se já tem, se alguém perto de você tem, não o ameace de lhe tirar o docinho, não troque um beijo por sorvete, não o iluda com brinquedos na venda de afeto, não o leve ao parquinho no escambo do amor.

Isso muda o mundo. Isso nos fará, fará dos nossos filhos, o melhor.

 

Crônica para um adeus.

Se eu for embora – ou se já fosse – não pense mal, não reaja. Sou um animalzinho callejero que transito a desdém pelas beiradas. Vou caindo pelos cantos como chuva na ladeira, como sombra que esparrama no fim da tarde sobre o asfalto. Eu não sou nem isso. Sou de uma dor terrível que não sossega nem da trégua: a poesia ou estes textos que tento, são a plena dor que de mim foge, e não adianta segurar o sentimento, pula fora, jorra vento na rosto de mim mesmo. Não me vê hijo, deve ser que estou sorrindo no outro canto da sala, ou chorando detrás de ti mesmo, segurando-me mais forte no teu abraço esperando cair a última lágrima.

Eu disse, e tento, tentei com minhas poucas forças meus intentos, sempre banal, sempre pouco útil, pouco ágil para me converter no real que precisamos. Eu tive fome. Eu tive noites solitárias no deserto desta cidade manifesto, cidade de compras bem pagas, de bens refeitos, hereditários e de  créditos. Eu vim com pouco mais que uma fantasia, vestido de uma paixão pouco vestida, de uma ilusão macabra e paguei o preço de dizer adeus a todo que tinha. O que era para ser, assim foi feito, refeitos contratos com a nada, e disse adeus a qualquer cadeira que o destino inventara para o meu sossego. E disse adeus, a violência do silêncio, à magoa do amor partido ao meio, disse adeus em silêncio, calado com o pouco que no meu colo eu aguentava. Não pedi nada. Me contentei com o real, com o humilde e necessário.

Você, melhor que ninguém sabe, as artes mágicas de nossos trajetos, de nossos artifícios para sermos, das caminhadas, dos amigos e amigas parceiros, dos sorrisos que todas e todos nós regalavam porque era verdadeiro o abraço de nós sendo. Precário era o sol e a lua iluminando, porque ainda lhe faltavam ao Astro Rei e a sua rainha, a verdadeira essência do nosso encontro.

Se choro é porque não me cabem mais saídas para a dor. Dor escrita tem um que de beleza, um que de certeza do que tudo vai passar. Mas a dor que doe marca na pele, fere nas lágrimas, mata o coração. Eu fiz o que de mim, eu esperava. Outras coisas, os outros poderiam esperar das minhas lágrimas, mas cada um, você isso terá que aprender, cada um tem o dom de ser aquilo que acredita ser.

Se eu fui embora, não espere, seja, caminhe, procure o seu verdadeiro ser.

Opinião

Faz uns dias, estávamos sentados na mesa para jantar, e Benja, você me perguntou: “Oh pai, o que que é opinião?”

Eu pensei nos microssegundos do pensamento, é uma palavra grande, funda, dessas que se aprendem onde?  Pensei, ouvi direito?

“Opinião é…” te disse, e nesse outro instante do pensamento, duvidei o significado dela, duvidei porque eu me lembro até hoje de coisas que eu perguntei e meus pais me disseram, e que até hoje nunca esqueci. Queria acertar nas minhas palavras, ser simples em te dizer, e te explicar talvez para sempre o que aquilo significava “… opinião é aquilo que você acha sobre alguma coisa ou alguém”.

Tive um alivio.

“O qué?” seco, você me respondeu, perguntando.

Era um desafio.

“O que você acha, qual é sua opinião dessa comida?” eu disse. “Ruim, eu não gosto de mandioca” você disse, já apartando os pedacinhos do frango e do feijão com arroz. Afastei-me do exemplo, estava mais preocupado em você jantar.

“A festa de ontem que a gente foi, você que achou? Qual é sua opinião dela?”. A festa tinha sido boa, no Ateliê onde trabalho, tinhas ido com mamãe porque eu estava na função. “Ah ruim, eu não gostei que machuquei o dedo” era a negação, a postura do contra da qual tanto sou assíduo.

Daí eu “então Benja, mas a gente tem várias opiniões, não por isso você vai dizer que você não gostou da festa”. Você pensava, comíamos. “O que você gostou da festa?” e veio aquela frase sua interminável, daquilo e outro, tanta coisa gostosa que você gostara.

É isso, uma verdade não definia a verdade toda. Era somente pontos de vistas, vários, de alguma coisa. Nossa opinião instável e efêmera. Nosso fluido da realidade, apenas perspectiva.

Entendes, eu te explicava, podemos achar de várias maneiras sobre o mesmo, é isso que é opinião. Eu não tinha certeza se entendias, mas dai arrisquei mais.

“E você Benja, que você acha, qual é tua opinião de mim?” Você apartou o corpo da mesa, e olhando firme aos olhos disse, sem nenhum peso, livre de opinar e achar de mim o que quiseres. “Ah pai, eu gosto de você inteiro”.

Eu ri com orgulho besta. Rindo de mim tentando me explicar para você. E fiquei sem palavras e sem gesto, só o do garfo à boca, e do peito enchido de amor sem fim.

Ufff…

Olhar

“Olha pai, aquele é o prédio da exposição das bolinhas”.

Você referia-se à exposição da japonesa Yayoi Kusama, no Instituto Tomie Ohtake. Eu sabia que tinhas ido lá, por uma foto que a mamãe me enviara, no meio daquela infinidade de bolinhas vermelhas.

O prédio do Instituto é visivelmente um dos prédios mais reconhecíveis no skyline paulistano. Avermelhado e solitário destoa do cinza da cidade, lá no baixo Pinheiros.

Prédio projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, sede do Instituto Tomie Ohtake.

Prédio projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, sede do Instituto Tomie Ohtake.

Nós estávamos na rua Augusta, na fila do Cinesesc, e o prédio que você assinalava, era um outro, também destoante, também imponente e reconhecível: o hotel Renaissance.

Eu olhei pra cima, e era absurda a semelhança: “é Benja, esse aí parece mesmo muito com o prédio das bolinhas”.

Eu sabia que não era o prédio que imaginavas, mas ambos dois eram muito parecidos. Alternando entre andares, o vermelho e o preto. Dois prédios com quinas arredondadas, e com um eixo central – talvez os elevadores – bem marcante.

Hotel Renaissance, projetado pelo Ruy Ohtake

Hotel Renaissance, projetado pelo Ruy Ohtake

Era o teu olho incrível de quatro aninhos, desde teu quase metro, pé no chão olhando para o céu azul cortado de fios e postes e prédios. Poderia parecer obvio teu acerto, mas não a minha surpresa: Os prédios foram projetados pelo mesmo arquiteto: Ruy Ohtake.

Minha felicidade, desenhada em pequenos detalhes entre o vermelho e o preto, atravessara o céu pintado da cidade.

Sorri de olhos. Eu e você, um abraço, e um projeto gigante de prédios, bolinhas e surpresas.

Abro a Porta. La puerta.

Essa porta fechada com chave antes de entrar. É de noite, noitada de amigos e bar. Essa porta de casa, de noite fechada, antes de entrar.

Abro la puerta de casa como otras tantas veces llegué para entrar. Es la noche, en mi casa, después de los amigos y el bar.

Desta vez minha companhia é meu filho, como outras tantas vezes foram meus amigos e outras tantas mulheres que amo e amei. Meu filho aguarda com ânsia depois dos violões, as vozes que cantaram as músicas que nunca esqueci.

Es casi medianoche de la noche estrellada habanera. Es mi hijo quien espera abrirse la puerta cerrada que otras tantas veces ya abrí. Es mi amigo y todo el amor en un solo cuerpecito quien espera las voces y las canciones que nunca olvidé.

Abro a porta. La puerta.

Él es mi ansia después de guitarras, las voces, los amigos y las mujeres que amo y amé, todo en su único cuerpecito de amigo y amante quien me espera en la medianoche habanera de tantas estrellas.

Ele é o único que ultrapassa portas fechadas, noites de cidades estreladas, mulheres que amo ou amei, amigos, violões, músicas que nunca esqueci, bares, ânsias e todo o amor.

Que sensação é essa que me ultrapassa como vento invisível na porta do além?

Abro la puerta. A porta.

¿Quién es este hombre allende puertas cerradas, noches de ciudades estrelladas, mujeres que amo o amé, amigos, guitarras, músicas que nunca olvidé, bares, ansias y todo el amor?

Para él, puede que sea apenas la primera noche delante de esta puerta nocturna de todo el amor, y sin saberlo, corre dentro de casa con una felicidad ulterior.

love

Que felicidade é essa que corre em duas pernas, sorri demais, faz-me feliz? E pode ser que para ele, seja apenas a primeira vez de tantas outras vezes que verei correr o amor diante de mim numa noite estrelada, além de bares e amigos, amores que vivem em mim, violões de músicas que amo e amei.

Abro la puerta, mi hijo.

Meu filho, a porta. 


O verdadeiro, essencial e duradouro único sentido

Só quem tem filho pode compreender isto que estou vivendo – e escrevo. Só quem deixou sua terra de nascença poderá ler nestas palavras a profunda satisfação que estou sentindo. Tudo embolado aqui no peito, nas ideias e nos gestos.

Benjamín chegou em Cuba e parece que nunca tivesse ido, parece que foi aqui que abriu os olhos ao mundo e começou escorregar-se pela vida – e nesta nossa historia.

Ao atravessar a porta final do aeroporto me viu, soltou a mão da mãe e partiu para o abraço. Eu apertei forte, como aquele último abraço que ainda eu recordara e que fora nosso último contato real durante todo este tempo. Eu soltei umas lágrimas, que novamente, não deixei que ele percebesse.

Eu fiquei alegre de todo esforço e de cada desatino. Os caminhos que eu tomei foram muito fundos e fortes, e ainda eu não compreenderia.

Ter um filho é das realizações, á única verdadeira, essencial y duradoura. Sozinho, então, eu não imaginava quanto tudo isto mudaria meus dias – minhas felicidades e tristezas. E quanto tudo faria sentido desde o começo, naquele dia olvidado do meu próprio nascimento.

Nestes instantes de este último dia, a cobra comprida do tempo mordeu sua cauda, e no abraço singelo fora do aeroporto, ele pisando as terras que eu também pisara, cumpriu minha vida seu verdadeiro, essencial e duradouro, único sentido.

Naquele abraço me esvaziei de remorsos y barreiras, e me inundei do que me assemelha do amor profundo da vida, e me afasta da morte, o hálito que me mantém vivo – e escrevendo: mi hijo.

Dali para frente, eu vi nele e ele viveu – enquanto eu escrevo isto ele dorme – como se fosse sempre aqui isolado pelo mar que agora nos recebe, que ele viveu desde antes do nosso tempo. Eu vi nele e ele vive, que ao filho de um, lhe pertencem todas e cada uma das suas paisagens anteriores; todos e cada um dos personagens que lhe abraçam ou lhe amam; todos e cada um dos encontros, antes e depois do nascimento. Eu vi nele e ele vive, que esta terra com nome e arbitrariedades como toda terra que os homens conhecem, lhe abraçou, lhe pertence e lhe ama.

Benja hoje conheceu as ruas, os carros e o mar desta ilha. De mãos dadas à mãe e a este que escreve – e vive – ele sorriu tanto como agora eu choro. A felicidade tem máscaras vestidas de céu azul, brancas ondas batendo contra os muros, rumba multicolorida de tambores e pernas-de-pau, chocolate frio ou quente, e solidão sob a noite estrelada.

Éramos felizes juntos nesta terra desde sempre.

Agora, ele dorme.

Eu lhe escrevo.

bijukis

SAUDADE, Essa estranha palavra

“Benja, papai vai ficar com muita saudade”, isso eu falei para o meu filho segurando o pranto, ainda naquela casinha distante do Morro do Querosene. Era meu último dia do ano de 2013 em terras brasileiras, e o meu último dia junto com ele antes de eu viajar a La Habana, esta minha distante terra cubana.

Era a maior tristeza de uma despedida jamais vivida, agarrado da maior felicidade que jamais esperava.

Meu peito era, simplesmente, insuficiente… quase impossível sentir tantas emoções em tão poucos instantes.

Entre@Linguas

                                                    

“Eu não vou ficar com saudades” disparou ele frio, com toda a certeza de um homem de três anos, eu não segurei o choro nem a felicidade. Era ele o filho que eu necessitava para aquele momento, e era ele, meu grande Benjamín num abraço que eu juro, senti todo seu infindável peso, como nunca antes tinha sentido num abraço. 

“Eu sei Benja” foi o único que eu lhe disse depois, e assim me salvava.

E quase um mês se passara neste lado flutuante da minha vida. Tantos encontros e abraços, tantas histórias rememoradas, tantas esquinas revividas, e aquele abraço infinito dele, ainda me abraça. Como a vida que se vive, ou a morte que nos acaba.

Te vi meu filho na rua, correndo; não naquela ilusão desmedida da loucura, e sim no sorriso imaginado do teu rosto feliz. Te vi nos carros antigos que alguns só conhecem por fotos, mas que aqui cheiram a diesel e existem por mil. Te vi brincando na praia verde-azul onde pulei sete ondas antes do ano acabar. Te vi dormindo comigo, dentre as mesmas paredes onde eu também cresci. Te vi junto com a minha família, entre os mesmos dilemas e alegrias que eu vivi.

Te vi no futuro real do presente que ambos viveremos, e que não vejo a hora comece a acontecer.

Te vi… eu simplesmente te vi.