Fidel: comandante ou ditador?

… toda memória merece uma lágrima e um sorriso

 

Eu nasci, e ele estava ali; provavelmente presidindo um discurso da fé patriótica versus o medo do ataque inimigo. Era o ano de 1980. Anos depois, nos primeiros agostos da minha infância, lembro-me vagamente de uma imagem colada, em cores gastos de chuva, na porta de casa; um adesivo do líder verde-oliva, perto do olho mágico que brilhava na calçada.

Hoje esquecido na larga memória, as primeiras vezes do nome dito, no clarão dos ensinos escolares, do herói militar, seguidor dos ideais do Apóstol – nome que se dá José Martí, principal pensador, poeta e intelectual cubano neocolonial – , contra à tirania militar nos anos 50, o salvador, triunfante, o quase agradecimento pátrio-paterno, por ter crescido no seio da minha – e de todas as outras – família, merecedores do processo libertador, emancipador de uma nação, da minha ilha, e por conseqüência histórica e geográfica, o também devir de um continente e de um processo político regional. Ele era essa rara espécie de deus que governa os dias e os destinos, como os Deuses já guiaram os romanos, os gregos e ora,  guiam tantos os todos humanos que sobre a Terra sobrevivem. O Deus nas paredes do meu país levava o nome de Fidel.

Na escola havia um retrato na direção e outra na secretária. No mural de informações sempre uma das frases das tantas proferidas. Murais de rua pintavam seu rosto barbado. Na televisão, era garantida a íntegra de seus discursos, a repercussão das decisões da Revolução que ele encabeçava, no âmbito de nossa ilha e no mundo afora.

Nas noticias e no governo, Fidel estava em todas as conquistas revolucionárias, como idealizador e condutor. Nas ruas, era também responsável por tudo quanto era de ruim na sociedade, numa clara isenção da responsabilidade pessoal dos indivíduos.

Nas casas, no recôndito do silêncio familiar, entre uma refeição e outra, entre um apagão e o próximo, entre as filas do bairro, entre as notícias da televisão estatal, nos ônibus escassos e muito baratos, nas comemorações, praças públicas, eventos políticos, nos bastidores da sociedade que aceitamos – as várias gerações de cubanos– havia uma sensação de gratidão e decepção pelo grande pai Castro.

Era dele, a responsabilidade pelos logros sociais e os dogmas ideológicos na educação. Pelas medalhas nas Olimpíadas e pelas deserções nos Pan. Dele eram os destinos dos médicos em países amigos e pela falta destes no posto do prédio onde eu morava. Eram dele, os que estudavam nos países do leste europeu, e os que morriam em balsa tentando chegar aos estados norte-americanos. Eram dele, os refugiados das ditaduras latino-americanas e dele, os cubanos exilados políticos em Miami.

Eram as crianças sem fome, os adolescentes sem sonhos, um povo assalariado, uma diáspora raivosa, alguns intelectuais do terrunho e outros tantos já emigrados, alguns poucos com tudo bem arrumado em terras e imóveis, a ausência de milícias ou paramilitares, os militares no comando, zero narcotráfico, uma imprensa do governo, um bloqueio dos norte-americanos, todos os países não-alinhados, sempre as ótimas alianças políticas, e ele, grande líder: El Comandante.

Desde pequenos ouvi falar do fim daquela dinastia – há palavras para tudo! –, e com isso brincávamos naquela adolescência tardia da crises dos noventa, entre conversas quase silenciosas nos fundos das casas, ninguém se acostumava com o desacerto do insosso futuro que nos esperava, éramos o povo-à-deriva, o real maravilhoso da invenção do que ainda não era e nem seria. Acho que por lá, muitos  desejavam aquele final do deus humano: “o que será de nós, o dia que Fidel morrer?” ou na aquela forma mais intuitivo e primitivo desejo da morte, em profundo medo da nossa própria morte? essa mediocridade quando se detém o poder das próprias e justas ações individuais, em detrimento do poder de um governo, e suas leis.

Todo ano que virava, a duvida vinha: “será este ano que el Fifo vai morrer? ” Era um desejo de ver a monotonia mudar de rotina, não por vontade própria, nem ação popular, não por proposta da força de um povo, o meu; ainda bem menos, ou pior; no comum da morte de um ser, neste caso o mesmo poder em pessoa, um rei, um herói, um soldado, um comandante, um ditador, um militar, um pensador, um manipulador, um estadista?

No ano 2000 ou pouco mais – no tempo da minha memória-vitral colorida e orquestrada– o Fidel, havia ido re-inaugurar uma escola na esquina de casa onde eu morava. Foi a vez que mais próximo estive daquele homem: o bairro estava mobilizado para a ocasião, carros policiais circundavam a região, a avenida foi fechada, a multidão fechava um círculo entorno a escola. Cheguei lá, lembro que por impulso da minha irmã ou mãe, não sei bem: lá estava descendo, vestido de verde, alto e imponente, cumprimentava e despedia-se acenando adeuses – a los dioses? Em mim, lembro da energia que vibrou ao meu redor e me contagiou, era um calafrio natural diante da presença humana de um deus.

<< Fidel Castro morreu >> simples assim. Pessoas morrem, não era deus nenhum. O mundo se manifestou, e depois obviamente se dividiu. Os cubanos, a maioria, se dividiram: COMANDANTE ou DITADOR?

Pensei em meus amigos que ainda moram lá – Cló, tú? Tan triste febril, tan festeira –  haveriam comemorado a morte, gritando trás janelas fechadas com medo de ser por alguém recriminado? Minha mãe, meu pai: haveriam chorado a paz de todos estes quase sessenta anos, os anos doados, os plantões cumpridos, o serviço militar, as horas voluntárias? Minha sobrinha, que hoje ainda na escola estuda que o Fidel fez a Revolução que garante ela estudar numa escola pública, a mesma escola onde eu vira de perto ao Fidel;  como seria para ela presenciar a morte de um deus de suas páginas. E minha mais nova sobrinha, menos de um mês de nascida, o que será que ela saberá deste dia, que lhe contarão nos livros de História, ou nos mesmos, a família.

Eu tive um dia desses na rua: sem celular, sem jornal, sem televisão. Não acompanhei os debates entre as hordas  nas redes sociais. Eu – neste minuto, três dias depois dessa morte – ainda não me escrevi uma palavra com minha família na ilha. Eu não senti nada especial naquele instante sobre a morte daquele ser. Não havia mágoas algumas. Também nenhuma gratidão. Pensei que talvez um dia, meu filho me perguntará como era aquele homem, ao final: “que o tempo passa, e tudo se esquece, ninguém ficará para memória ulterior”.

Obama, presidente de uma ilha-à-deriva

Barack Obama é o novo presidente de Cuba. Ou ao menos, isso aparentou nesses três dias que esteve passeando com sua família e comitiva pelas ruas habaneras. Além disso, fez discurso histórico no Gran Teatro de La Habana, no mesmo palco onde o Enrico Carusso, cantara lá pelos anos de 1920. Depois presidiu jogo de béisbol entre um time profissional de Miami e a seleção cubana. Ainda se reuniu com alguns opositores políticos do governo cubano.

A política de governo de Obama com relação a Cuba contrasta opostamente com tudo que tem acontecido desde os anos que Fidel Castro comandou sua toma de poder no ano 1959. De fato é tão contrastante que diante dos discursos proferidos em terras cubanas, Obama parece mais engajado com o porvir da sociedade cubana que de fato, seus vetustos comandantes.

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Air Force One antes de pousar no Aeroporto José Martí

O jogo de poder dos Castros – tenho muitas dúvidas sobre a existência ainda em vida do Fidel – é permitir essa injeção de capital que tanto se precisa para manter girando o rotor enferrujado da pseudo-política pseudo-comunista cubana. Depois de ter visto desgastadas as relações com Venezuela, e após o fracasso de tentar atrair investimentos brasileiros de mais peso, Castro preferiu se aliar aos americanos.

Estes acordos com os “yanquis”  permitem várias mudanças em questões de comercio e cooperação, mas que beneficiam diretamente somente as instituições cubanas, que dito seja, pertencem ao governo; enquanto discussões sobre direitos humanos como livre associação ou liberdade de imprensa continuam fora dos assuntos a serem tocados.

Na conferencia de prensa onde os dois mandatários estiveram, foi apenas Obama quem falou, pois Castro não teve nem sequer máscaras para esconder sua despreparação política, sua falta de carisma e compromisso com o povo o qual ele representa, e ainda por cima, tirar uma onda com a figura de Obama – porque aquele gesto que evidentemente caracteriza uma marionete passa longe de ter sido um acaso.

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

Para quem é cubano, sabemos, todo o que o presidente cubano-americano Barack Obama presenciou não passa de um teatro paraplégico com roteiro assinado pela Seguridade do Estado (G2) onde até cada pessoa que ele cumprimentou ou ouviu fazem parte do elenco. Talvez – eu tenho quase certeza – alguns dos opositores presentes na recém reinaugurada Embaixada dos Estados Unidos em Cuba fazem parte das hordas castristas de repressão. No estádio de béisbol onde os Tampa Bay derrotaram a seleção cubana todos os presentes eram quadros políticos ou até mesmo policiais à paisana.

Por outra parte, a postura do Castro é vergonhosa e patética, assim como as dos apoiadores do governo que nas falas que tem vazado nas redes sociais, tentando desmoralizar os discursos do Obama.

Longe está de haver mudanças significativas na sociedade cubana, isto porque os chefes, militares e gerentes das empresas estatais vivem bem demais como para querer por em cheque suas vantagens. O povo, silente e amedrontado, silenciado durante anos não consegue ver a realidade pra além dos noticiários estatais – onde diga-se não devem ter passado as íntegras as intervenções de Obama – continuará longe dos benefícios que os governantes usufruem, e continuarão a cegas, ameaçados pelo medo que tem, de ver as bombas norte-americanas caindo sobre suas casas.

Obama partiu – quase há dois anos ele dava o primeiro grande passo. Ele ganhou individualmente, por méritos, o posto do presidente norte-americano que decidiu descongelar as relações diplomáticas. Saiu no lucro, pois colocou no bolso uma nação que há cinqüenta anos estava pronta para morrer ou viver pela pátria, esperando que os norte-americanos nos bombardeassem, nesse jogo dos governos totalitários usam para manter o povo do seu lado.

ps. me antecipo a dizer, que esta minha íntima observação sobre recentes acontecimentos acontecidos em Cuba, com o presidente Obama e o povo cubano, não serve como régua para quaisquer interpretação sobre a política bipartidária que acontece hoje no Brasil. 

Eu já vi o Papa em Cuba

Eu já vi um papa. Na época era o Juan Pablo II.

No ano 1998 quando o Papa esteve em Cuba. O pais não teve como não se mexer com a presença dele.

O Estado Cubano desde sua pose militar no 1º de janeiro de 1959 se posicionou contra a Igreja. Na real, a pose do Fidel Castro que veio anos depois, foi contra qualquer uma das religiões, sobretudo em cargos políticos, públicos ou administrativos.

Pessoas comuns, trabalhadores e funcionários também eram aliciados a não reconhecer suas crenças religiosas temorosas de perder seus empregos. Altares, medalhinhas, pingentes, oferendas eram secretamente ocultas de olhos alheios.

Quando o Papa desceu no aeroporto em janeiro do 98, meus amigos e eu corremos até uma avenida que ele passaria no papamóvel. Ao longo da larga avenida que liga o aeroporto ao Centro da cidade uma multidão de cubanos tínhamos se juntado.

Depois de quase quarenta anos de perseguições da inquisição socialista, crentes fidel y el papade todas as religiões estavam de mãos dadas por aquele gesto episcopal. Fidel foi receber o rei de ouros do Vaticano e apertou a mão, de homem para homem. Mas aquilo era a mão branca, endinheirada à custa dos plebeus e vítimas da igreja católica e a mão vermelha, ensanguentada, do líder comunista cubano.

Certo era que eu cresci entre pessoas que mantinham sua religiosidade bem escondidinha. Minha mãe de família evangélica. Meu pai agnóstico de família católica. Eu, desde sempre, perseguidor da felicidade em todo canto, fui batizado na Igreja Católica; e abençoado em festas Yorubá e filho da mãe Oshún; e o suficientemente eu, como para não acreditar, até então, em nenhuma dessas religiões – eu também sem preconceito algum. Minha irmã batizada encontrou-se no espiritismo e frequentou festas de Santería. Minha prima Yami, fez “santo” e fazia nos anos noventa tambores e festas em casa, onde se dançava e comia demais.

O Papá fez missa em várias cidades de Cuba. Sacramentou à Virgen de la Caridad del Cobre , a padroeira de Cuba, sincrética de Oshún no Yorubá cubano. Em cada um dos atos, compareceram milhões de pessoas “saídas do armário” religioso. Ainda, a pedido do Juan Pablo, constituiu-se o dia do nascimento de Jesus Cristo em feriado nacional, isso em plena ilha comunista.

Significava aquilo uma abertura política do tal regime Castro? Era mais uma jogada do craque das relações públicas do governo cubano?

O fato foi que quando o Papa passou pela Av. Rancho Boyeros eu estava lá. “A gente” tinha um monte de bandeirinhas cubanas de papel e a fazíamos ondear com orgulho. Ele passou num súbito segundo, de tarde nublada. E eu, eu não me lembro dele.

No domingo daquela semana, na missa proferida na mesma Plaza de la Revolución onde Fidel proclama seus discursos, o Papa falou para mais de dois milhões de cubanos. Eu, entre bandeirinhas e brincadeiras, puxe uns binóculos comuns e consegui lhe ver a bata branca, e a mãozinha fazendo o sinal da cruz: abençoando-me!

¡Amén!

ps. O Papa Benedicto XVI esteve na ilha em março de 2012. 

Pioneros pelo comunismo! Seremos como quem?

Até poucos anos atrás era impossível, para mim, desacreditar nos valores da Revolución Cubana, seus fatos e façanhas. Não era possível desconfiar de seus líderes e heróis. Também não de seus mártires.  

Eu fui criado no berço desse processo revolucionário que a maioria, por aqui, conhece pelos jornais conservadores. Ou, em visitas guiadas por partidos políticos, da chamada esquerda em conluio com o governo cubano. Outros que foram de turistas, e tem as boas e más impressões que os deixam mais perto dessa incerta realidade.

Há dois dias acordei com barulho de crianças entrando numa escola. Era o som da alegria que não veste fome, nem classes sociais. Gritos, correrias, vozes de professoras tentando manter a ordem.

Era o som do meu filho num futuro quase palpável.

Era eu, há uns anos atrás, num outro país, através da janela.

Pioneros por el Comunismo…” se levantava uma voz firme por sobre todas as cabeças, enfileiradas, divididas por salas, num pátio estreito de alguém com muito dinheiro, numa casa abandonada depois da chegada do Fidel, e pelo processo revolucionário, agora feita uma escola “… seremos como el Ché” respondíamos todos, ao uníssono, com a mão firme, dedos esticados e polegar na testa.

Assim era o fim de todo ato matutino, depois de cantar o hino nacional e ao ver a bandeira se hastear no alto. Diga-se, em Cuba a bandeira não se eleva até o fim da haste em protesto à base naval americana em Guantánamo.

Assim era, e é bem provável que ainda assim seja até hoje, em toda instituição educacional ao longo da ilha.

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Na frente de todos nós, um busto de José Martí, poeta e apóstolo, de todas as lutas cubanas, presidia a cerimônia cotidianamente. Era comum uma criança, uma menina, uma mãe ou pai, uma professora trazerem flores e coloca-las perto daquele rosto branco de cal, sem gesto, nem tons.

Lembro-me de Cecilia com seis anos como parte de seu ritual para chegar à sala. Ela era feliz, também.

Para se ter uma ideia, na escala de punição escolar as piores causas poderiam ser, brigar com colega ou “faltar” ao respeito de um professor, seguidas de intento de colar nas provas, incorrer em algum furto e as piores, as ideológicas, deixar cair a bandeira no chão ou ferir imagens de heróis, em especial o busto de Martí. O castigo a estes últimos era severo.

Por anos, idolatrar homens ou mulheres que tinham lutado até chegar neste processo que o país vivia – naquela época no presente – foi parte da minha formação ideológica. Até hoje é difícil não acreditar naquela vida de herói semideus, íntegro, valente, desapegado do seu eu em prol da luta de uma nação, sem defeitos, e com um final feliz na História da minha pátria.

Era como os super-heróis da sociedade capitalista, só que de carne e osso, com árvore genealógica e túmulo para se visitar.

Na sala, sempre havia um quadro ou foto do Fidel, que estava lá como Deus, cuidando de nosotros, acompanhado muita vezes do Ché ou Camilo ou José Martí. Era, supremamente, a quem mais devíamos respeito, a quem louvávamos e a quem proferíamos nossas naturezas. Ao sermos justos ou não com a presença daqueles “seres” nossos valores e ações eram avaliados e logo depois, validadas pelo resto da sala, a professora ou toda a escola.

A berlinda ideológica entre o bem e o mal era sempre um abismo ao qual se entregar ou do qual se manter a salvo.

Na televisão, nas propagandas políticas, nos cartazes espalhados pela cidade ou estradas, nos jornais, na rádio, até em casa, essa imagem do Deus Castro, dos filhos da Revolución, dos mártires mantinha o cerco sobre nós. Sobre mim. E o amávamos bem, a ele e a todos os outros.

El Gran Hermano de Orwell. O Big Brother do Bial de vocês.

Demorei-me nos questionamentos. Isolado na minha realidade como muitos, foi difícil começar a dissolver aqueles gestos da Revolución, e a figura do Fidel, Raúl; e entender a complexidade, o funcionamento, as duplas intenções, o terror, e mais importante ainda, a vontade de algumas pessoas ou grupos que já acordados, começavam se postular contrários.

A soberania, porém, não está em julgamento, a pesar de há tantos anos sermos presa dessa construção política que deixou de dialogar com o nuestro pueblo, e óbvios interesses externos aos cubanos pretendam tomar conta da situação.

Aos cubanos de aqui e de allá:  VIVA CUBA LIBRE!

Yoanis Sánchez, a cubana do momento.

Amanheceu a semana ansiosa, querendo saber de posturas, posicionamentos de esquerda ou direita porque a blogger mais famosa cubana chegou neste, precisamente meu nuevo país. Carpe diem geográfico.

Yoanis é a escritora do blog Generación Y que descreve a realidade de Cuba de uma maneira bem crítica. A história disso tudo você se informa melhor na Veja, no jornal da Cultura e até na Piauí. Com uma pluralidade dessa magnitude você pode fazer um mestrado sobre jornalismo político no ciberespaço ou sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea.

Nestes dias assisti novamente no ringue batalhas de pessoas com opostos ideais, defendidos a gritos sem escuta, sem diálogo. Os que negam a Yoanis com insultos e agressões, usam cartazes xerocados de guerras alheias, a maioria sem ter pisado jamais em Cuba para ver o cenário real das suas utopias. Os que apoiam a blogger se aproveitam da fúria dos rojos – aqueles que gritam para calar o que a Yoanis tenta dizer – e a usam como se ela fosse defensora dos ideais da direita e acho que até acertam na hora que a apadrinham.

No discurso dela, se escuta apenas a vontade de expor a injustiças políticas do governo Castro, o direito a oposição, ao diálogo civil, e alguns outros poucos direitos ditos humanos com a intenção de criar uma sociedade justa e comum a todos os cubanos. Os cubanos todos, onde quiser que estiverem deveríamos desejar cada um, um pouco disso para nossa ilha, nas diferencias e necessidades respeitando a origem e as diversidades. Isso tem se mostrado difícil entre os novos atores políticos.

Acúsa-la de se apegar a políticos ruins na chegada ao Brasil, é de fato a maior bandeira de os movimentos políticos de base, movimentos alternativos de poder e outras organizações civis caem na armadilha da mídia e dos homens de negócios, que de fato são os maiores interessados num diálogo futuro com a ilha.

Confesso que não leio o famoso blog. Daquilo tudo que a Yoanis escreve, eu já vivi o suficiente, de um modo muito particular, obviamente. De qualquer maneira quando leio seus textos, me sinto viajando, cada vez, aos meus próprios episódios habaneros.

Cuba sorri morrendo de fome. Temos a audácia de divertimos a desgraça. Choramos no Carnaval.

Ela é mais reconhecida representante de um movimento civil que vem se posicionando diante da crua e unilateral política do governo cubano. Movimento que existiu desde a chegada do Fidel Castro ao poder, mas que nunca foi tão articulado e maduro como o que hoje se pratica na ilha e nas suas diásporas. Perante o absurdo de imaginar um país sem contrários nem opositores, Yoanis usa sua imagem para disseminar esse espírito revolucionário que nós, cubanos, sempre tivemos, do qual somos conscientes e pelo qual sempre lutamos.

Dizem os que a criticam, e não é difícil acreditar, que a força dela – do Generación Y – se deve ao financiamento do governo norte-americano. Eu mesmo acho bem possível exista apoio monetário e tecnológico dos filhos do Obama, mas a Yoanis regularmente nega essa ajuda. Porém concordo que muito do que ela recebe atualmente deve-se a doações de seguidores que ela tem pelo mundo todo.

Ao que interessa, gente. Aquilo que ela escreve é um retrato cotidiano daquilo que realmente acontece em Cuba. É a luta de um povo por residir num país que não valoriza o potencial dos seus moradores em detrimento da ação do conservadorismo marxista-leninista-castrista e de uma nova onda de investimentos estrangeiros que mantenham o saldo positivo nas contas do Estado. Em contrabalanço, um assédio violento à livre escolha de pensamento, ou de reconhecimento da individualidade tudo isso sustentado por um aparato repressivo que persegue quem, como ela, se coloca do outro lado, questionando as adversidades.

Aquelas fotos, por demais um ótimo trabalho do OLPL, o amigo fotógrafo que ilustra o Generación Y, demostram que aquelas imagens de uma vida derruída, quase miserável, que flutua na aquela mi isla são cruéis demais como para não denunciá-las ao custo que seja necessário.

Atacar a postura monolítica do governo do Raúl – não toca mais Raulito – leva-a e aos outros, a se colocar em situações de riscos típicas das mais cruéis ditaduras militares do século passado na América Latina – aqui no Brasil, até esse capítulo da história ainda veicula nos Senados e Parlamentos de interior de Goiás para ser no mínimo investigado. Esses capítulos de resistência são relatados no domínio dela, para combater o silêncio de uma mídia governamental tão poderosa quanto as grandes mídias que simulam manter os níveis de liberdade de expressão exigidos nas democracias modernas, tipo Brasil.

Em 2011, última vez que estive em Cuba, entrei num restaurante no bairro chinês. Na primeira mesa, Yoanis conversava com um homem, depois soube era seu esposo. Claudia que me acompanhava a cumprimentou, perguntou algumas coisas pessoais. Fui apresentado e eu me senti, lembrando outros momentos onde tinha estado no mesmo espaço que ela, que podia olhar nos olhos dela sem sentir nenhum ódio ou inveja ou orgulho.

Subimos ao segundo andar e jantamos. No local onde estávamos não teve nenhum tumulto nem presença policial. Yoanis era uma pessoa comum num restaurante comum de uma cidade comum num país que parece incomum.

Yoanis viajará na sequencia para outros países ao redor do mundo. Talvez a imprensa brasileira prove que ela realmente é um messias mediático e acompanhe o percurso dela por outras democracias ocidentais. Se ela for experta como aparenta ser, algumas pessoas acordem para a realidade que se vive no meu país. Lembrar que não é necessário cair na ingerência na qual caem os fanáticos. Ainda encontrar um jeito de entender o momento histórico que se vive em Cuba, e do qual Yoanis, é uma das peças, pessoa midiática, e hoje bode expiatório.

Os da esquerda, acordem, acolham o fato de aquilo que deveria ser em Cuba, não é. Aproveitem para escutar da cruel realidade. Um alicerce, talvez seja mais proveitoso salvar o bom que temos naquele país que de fato tende a se resistir a um capitalismo feroz – difícil acreditar, mas…

Acho que o Brasil está choramingando heróis.

Sem vistos nem fronteiras.

Liberaram as viagens para cubanos, disse a imprensa. Não vai ter que pedir permissão de saída, se comenta nas mídias sociais. Cuba é livre, sonham alto quem não tem ideia do que é viver numa ilha.

Cómo foi que você saiu de Cuba? Essa pergunta bate com folga qualquer questionamento que já fora me feito durante a vida. A pergunta não me toca, não me diz nada, não me interpela. A pergunta só me diz da ignorância, me traz dúvida, me afasta.

As respostas: Saí de avião, pelo aeroporto, tudo em ordem… Apaixonei-me de uma mulher, ela arriscou tudo, deu-me um filho… Não sou emigrante ilegal, posso voltar assim que quiser, mas não quero, fico por aqui.

A vida é para frente, não existe nunca um voltar atrás.

As reformas migratórias eliminam na prática a o pedido de permissão de saída que exigem as autoridades cubanas para cubanos que ainda morem no país; aumenta para dois anos a estadia fora da ilha para quem for cidadão cubano e otras cositas más. Mantém as taxas a serem pagas aos consulados para aqueles “ainda” cubanos que permaneçam fora do “seu” país.

Reconheço que a diáspora cubana ficou contente. E até eu, mas… Até onde todos terão o direito e a coragem de sair? Quem vai largar sua infância, suas esquinas, seu porvir? Quem, mais do que interessado em ter as coisas que o mundo atual, moderno, capitalista, individual, catastrófico oferece, vai morrer num outro lugar? Quem, nas mãos da ditadura política, de consciência e militar, que carimba os passaportes do livre vir e devir,  terá o direito, o humano direito de sair, voltar, revoltar?

Quem vai poder vir me ver?

Quando Natalia e eu decidimos que eu viajaria para nós encontrar no Brasil parecia tudo simples. Uma carta convite de uma instituição social ou cultural. Dinheiro para passagens de ida e volta. Alguém com responsabilidade financeira para me receber.

Em menos de um mês tudo isso estava resolvido.

Não que foi fácil, certo? Imagina neste Brasil alguém que decide pagar do seu próprio débito tudo o que a burocracia mundial me pedia para me locomover. Só ela mesma.

Só você.

Caminhava pela rua Teniente Rey que também chama Brasil. Na minha cidade, algumas ruas têm dois nomes: um, das antigas, quando a cidade ainda não conhecia a Revolução e pelo qual as pessoas realmente a reconhecem; e um segundo, aquele que o Fidel mandou pôr. A Teniente Rey; segundo eles, Brasil, desce desde o Capitólio até a Plaza Vieja, e lá ia eu fazer fila no consulado do Brasil. De tanto que fui, conheci os seguranças, arrisquei minhas primeiras palavras em português, obrigadecí, reconheci-me andando na Av. Paulista pela primeira vez numa foto imensa que pendurava lá.

“Nosso” primeiro tento de visado foi negado. Natalia frustrou, e até chorou. Eu, naquela insossa conformidade de ser feliz, não me abati.  A saga estaria só começando.

Para sair da ilha nunca se precisou de autorização.

Logo depois que a Revolução Castrista tomou posição, muitos levaram suas contas bancarias para Miami, com elas se foram famílias completas, relíquias históricas e culturais de quem possuía o melhor daquele país. Na verdade, largou-se todo aquele que não acreditou no que dizia o Fidel. E não foram poucos, não!

Quem acreditou ou não teve como ir, viu o país se virar, e com isso, eles também. Era difícil ser feliz, mas ainda assim se conseguiu.

Durante décadas, famílias ficaram sem ter como se reencontrar, nem se falar, nem se escrever.

No ano 1980, vinte anos depois do Fidel assumir plenamente o poder, teve o que se conhece como El Mariel. Um dito acordo entre os Estados Unidos e seu vizinho comunista do Sul liberava as fronteiras marítimas entre ambos os países para quem quiser navegar. As famílias divididas tiveram a primeira oportunidade de se reencontrar. Em troca, o Fidel exigiu que opositores, intelectuais, veados e escorias tivessem que acompanhar em lanchas pagas pelos endinheirados cubanos de Miami e fossem embora do país.

Minha mãe estava grávida de mim quando meu pai pediu a ela para viajar os três. Ninguém naquele dia me perguntou, mas ela negou-se e na ilha, eu nasci. Toda minha vida teria sido outra, mas nessa outra, eu nunca me imaginei.

Mudamos os trâmites, e segundo a própria funcionaria do Consulado, eu seria o primeiro cubano em qualidade de voluntario a viajar ao Brasil. Ela mesma não sabia o que fazer. Então Natalia se informou, ligou a Brasilia, orquestrou tudo pelo telefone, contatou o consulado em La Habana, me orientou. Tínhamos até uma advogada amiga na coligação que em determinados momentos teve que agir. Os documentos da instituição que me convidava viajaram até mim, eu os entregaria junto com os meus naquele escritório com bandeira do Brasil, feitos os pagamentos, eles retornariam juntos até Itamaraty.  Quatro meses depois, muita paciência e outra viagem da Naty a La Habana foi possível acontecer.

Catorze anos depois, em 1994, o Fidel intimou o Bill liberando o mar entre Florida e La Habana. Não existe cubano que não tenha entre seus queridos, alguém que se lançou ao mar dessa vez. A sorte, a bússola e os tubarões ditariam o cujo cada final.

Brincando na praia vi as balsas partir, entupidas de negos na ilusão, naquela pretensão de ser feliz. Era o sonho americano mais possível do que aquela falácia do Marx, nessa altura mais uma belíssima interpretação do Chico, Harpo e Groucho na versão caribenha de uns tal Castro´s Brothers.

Esse pedacinho da minha história é uma lágrima da qual é impossível me esquecer.

Eu vim de avião na calorosa manhã do 10 de agosto de 2007. Soltei-me da mão da minha mátria e pulei no colo de um novo país. Não teve que apertar as amarras de uma vela no alto-mar. Minha mãe teve medo de abandonar tudo o que conhecia como o “seu” país e o meu pai todo o amor para lhe acompanhar. Naquela ilha eu tinha nascido e crescido e vivido feliz. Uma mulher tinha olhado no fundo dos meus olhos e não se importou com o que haveria de acontecer. Eu tinha meus papéis em ordem e nada para me arrepender.

Agora eu estou aqui. Comigo e com o Benjamín.

Voto Nulo

Domingo fue el primer turno de las elecciones municipales en Brasil. Encargarle mis “destinos” a ningún mandatario es tarea fácil. Ni de izquierdas ni de derechas.

El viento – y cierto estado financiero, dicha Máquina- se lleva mis días a mejor lugar.

E o Fidel Castro? – me preguntaron mis coterráneos brasileros.

Fidel, e seu “toca Raúl”, nasceram numa família sem problemas. Quer dizer, o problema era administrar as fazendas, os animais, as terras que possuiam. Depois tiveram o problema de ver o seus filhos lutarem contra a própria ideologia para a qual deviam estar servindo. Isso deixou a familia muito puta, aos fazendeiros todos. Fidel, meio charme meio desafiador, subiu ribanceira arriba e conta a História, declarou a guerra com media dúzia de fuzis. Até hoje, muita gente no mundo, e muita gente aqui no Brasil defende a morrer aquela ideologia que ainda que de sucesso nas suas pretensões igualitárias de dividir o mundo, deixou muito, mais muito que desejar.

Pergunte isso a um cubano? Mas pergunte sem a única intenção de entender, para se compreender o que ele vai responder, daí você vai ter que viajar lá. E  ver. Sentir. Viver.

En São Paulo el futuro promete pocas migajas. La legión política solamente intentará arreglar el caos del tránsito, cosa que es imposible. Habrá algún que otro hospital mal funcionando. Regalías a las constructoras, concesiones a los policías, un aumento de salario aquí y otras mil promesas incumplidas. Habrá que trabajar para sustentar la legión pública de servidores, legisladores, vereadores, mujeres e hijos de los administradores.

Todo eso y sin protestar ni un poco. Ni aquí ni en la tierra de los Karamazov cualquier manifestación popular que demuestre descontento va a encontrar brazos abiertos del lado del poder.

Vivimos en uma dictadura … vivemos na mesma ditadura.

Em Cuba, cresceu-se ao ponto que o Fidel e o “toca Raúl” se fizeram administrar as fazendas, um povo inteiro, uma ilha à deriva. Depois da guerra contra uma sanguinolenta Ditadura Militar que levou ao país a ser um dos mais ricos de América e dos mais pobres do mundo -(qualquer semelhança com o Brasil e só ver o quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos porque Cuba, sei lá como, ainda bate com folga aos verdeamarelinhos) – entramos para a história como o povo que se revelou contra os Estados Unidos, construindo uma Revolução Comunista no backyard dos gringos do norte.

E teve churrasco com carne enlatada soviética, ervilhas polonesas cultivadas por camponeses albaneses, cervejas do leste alemão geladas no Báltico, carvão búlgaro na brasa, perdizes das estepes checas, loiras servias,  morenas eslovacas, crianças chinesas, lágrimas cubanas.

La Habana não acredita em lágrimas.

São Paulo no cree en nadie.

El resultado del primer turno en la Megalópolis no tuvo mayor acontecimiento: los mismos dos grandes partidos se hicieron con el segundo turno. Sin embargo nos alegramos que no ganase el representante de las Iglesia evangélica, habría la primera Inquisición moderna sudamericana.

Enquanto vivi na ilha participei de três comícios. Ba-boom…  caíram das cadeiras da ignorância setecentos amigos e inimigos. E as três vezes, votei nulo. Que conste, queridos defensores do poder do voto, lá esse ato cívico não é obrigatório, e de fato anular voto, é sim, uma escolha.

E o Chavez, será que vai ganhar? – se preocupaban con la Integración Latinoamericana? Se preocupaban con las inversiones de la Petrobras en el petróleo del Caribe? Se preocupaban con la fibra ótica que conectaba Cuba finalmente con la internet mundial? Se preocupaban con la Zona de Libre Comercio del Mariel, territorio brasileño en la islita? O era simplemente, un desvío natural psíquico de la incompetencia política de este país que todavía nos debe respeto, nos debe dinero, nos debe dignidad? O era a culpa ciudadana marcada con la sombra histórica de nunca haber forzado su propia independencia?

Porque se preocupaban con el resultado de otro país? A quienes, silenciosamente, en sus escondidas pretensiones y utópicos sueños políticos estaban apoyando?

Y no habría muchos interesados en los resultados de los comicios paulistanos. O quizá sí,  algunos tantos utópicos considerando la idea de que la democracia los representaba. O quizá sí, quien confiaba sus ahorros a la providencia pública. O quizá sí, quienes pudieron ayudar monetariamente sus partidos, y ahora podrían comer un pedacito de la torta que el pueblo paulista les regalara en este domingo de elecciones.

Chavez ganha de novo. Eu me reservo meus comentários sobre o caso, para criticar, meu povo, é necessário um visto bolivariano e no mínimo 2 anos de experiência vivencial venezuelana.

Em La Habana, o outro Seixas fez a festa e os investidores da Camargo Côrreia, Odebrecht e Petrobras parabenizaram o pessoal da esquerda nos países vizinhos. A tal de fibra ótica, aquele cabinho entre a Isla Margarita e Cuba, já em funcionamento, só serve para transmitir conteúdo politicamente correto. Blogueiros, comunidade politicamente alternativa e artistas vão ser vigiados ainda nesta semana, qualquer manifestação contra a reeleição da turma do Seu Madruga, vai terminar numa cela fervente em masmorras pseudo-comunistas.

Aquí en Sampa quien pasó para segundo turno va poder usar sus carteles nuevamente, en poco menos de un mes veremos nuevamente el circo. El resto del elenco se retiró a sus casas de campo, y por allá permanecerán por otros cuatro años, hasta el evento comenzar nuevamente. El destino está echado. Once millones de paulistas entregarán en urna sus poderes soberanos a quien supuestamente mejor los representa.

Na ilha, outros onze milhões mesmo não tendo duas escolhas, sorriem da pobreza com a fome roncando nas barrigas e, um raro orgulho e muita raiva de estar isolados de esse raro mundo capitalista e até alegres com a vitória chavista- bolivariana.   

Yo por aqui, no tendré que jugármelas en un colegio electoral. Todavía no me gané ese derecho – morro de rir – de escoger quien va a representarme en los próximos cuatro años. Sería mi cuarto voto nulo.

Por enquanto só o vento e esse grande prazer de sorrir…