lajes, varandas e quintáis

a roupa boiava na água escura, sujeira de dias convivendo cotidianos com minha pele, meus gestos, meus suores. no tanque mecânico, elas giravam fazendo espuma, liberando instantes passados no ar da memória.

minha mãe que gritava, no fundo do ouvido “posso lavar essas suas roupas?”. ela sabia do minha predileção por panos gastados, tecidos ungidos de mim e minhas andanças “não mãe, pode deixar” mas ela ao fim lavava, escondida de mim e contrária aos meus desejos.

a roupa cheirava novos destinos, outras estórias por ver e viver. um odor de uma fragância letárgica, ou quase plástica. roupa limpa é como uma manhã sem orvalho, ou sem companhia.

eu lembrava. revivia.

eu esfregava com minhas mãos os tecidos, este agora de roupas melancólicas. “o sol gasta as cores” dizia dona Juana, “pendure-as do avesso” e assim eu aprendia “brancas primeiro, logo depois as coloridas”.

cló pendurava as roupas respeitando suas cores. ou mesmo o cumprimento das calças e as camisas. colocava o arco-íris no varal, prendendo-o, até que uma noite pueril o apagava. eu sentava-me ao lado, apenas inesperando a próxima peça para ser pendurada.

as roupas grudavam em mim, como histórias perenes, como a própria pele. e eu me gastava. me rasgava ao vento da vida. destingindo-me com o sol que me secava em lajes, varandas e quintais.

minha segunda pele pululava.  dentre minhas próprias mãos ou dentre as de quem me abraçava. estica e encolhe. soltei as costuras que me prendiam. a pele caia, sozinha, enquanto eu caminhava.

hoje faz sol. a memória clareia. as roupas no varal secam-se. eu estico minha pele do lado da sombra. não falta mais nada, somente o orvalho da próxima manhã ou minha própria companhia.

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En ausencia que se mide el tiempo

minha mae é a ilha
eu o continente
o mar no entre

Única vez que viajamos juntos, solos tu y yo, Eva, era año 2002. No podíamos saber, quince años después que sería hasta este instante la última vez que yo visitaba Moa, tierra que te recibió en el mundo. La tierra que le puso árboles, ríos y tanta infancia a mi vida.

Nos fuimos en tren, atravesando por el centro aquella magnífica isla de nuestro encuentro, en un trayecto que terminó durando casi veinte horas, porque sabemos que en Cuba, los minutos y los días duran más que en otras latitudes. Aquella vía férrea, entre montañas y palmas, era agreste, de pueblitos secos y desgastados, como casi todo lo que ha quedado en ese país que hoy, diez años después apenas recuerdo, o quizá más realista, apenas olvido.

Habíamos llevado, por tus caprichos de llevar todo preparado, comida suficiente y hasta agua congelada, café.  Hoy, tanto de ti se repite, que debes ser tu quien prepara la mochila, cuando voy a viajar con tu nieto. Debimos haber hecho tantos planes: cuál casa de cuál tío primero visitaríamos, dónde dormiríamos las primeras noches, subiríamos a Farallones, nos bañaríamos en el rio, cuántos bichos matarían en las fiestas por nuestra bienvenida?

Atravesábamos el país en tren – nada conseguiría ser más nostálgico. Nosotros a través de las ventanas, atravesábamos nuestras memorias, reflejadas en los vidrios sucios de tierra marrón. De mirada en mirada, aquellos silencios metálicos, nos atravesábamos uno al otro. Yo, demasiado joven, sin saber lo que era el tiempo, menos el presente, quizá pensaba en mis mejores futuros, que de tan imposibles,  no serían como este ahora, tan distantes, tanto tiempo uno sin el otro. Yo sin ti. Tú, apuesto mis lágrimas, sin mí.

Y si es que, en ausencia que se mide el tiempo, tú bien sabes lo que siento, que también habías salido de tu tierra, lejos de tu madre y hermanos, lejos de tu padre, para irte a vivir tu sueño de ciudad grande, así como yo, hoy tantos años también vivo mi sueño.

Nadie, dicen, sabe lo que tiene hasta que lo pierde. Pero yo por distinto, sin haberte perdido, ya sé lo que de ti tengo, o peor, lo que de ti no tengo.

De aquel viaje por la isla-a-la-deriva, atravesando en tren la vida y las memorias, tuyas y mías, guardé quizá mi mejor recuerdo en mi segundo libro, y como todo buen secreto, tal vez nunca te comenté de eso: en Villa Clara, quizá en Camagüey, pero lo más probable es que haya sido por Las Tunas, mientras cruzábamos un caserío casi baldío, una niña observaba el trayecto férreo de nuestro existir, yo la vi y apenas me inventé su pequeña soledad. Le escribí… hoy ese cuento es para ti, mamá!

LEA:::  el cuento (des)conocidos

Nosso leite derramado

O leite ferve e derrama-se, quase sempre. Parece uma condenação. É o barulho da efervescência, instantes antes da ebulição. E cai fora, apagando as chamas. Quase matemática.

Minha mãe não havia um santo dia que isso não lhe acontecia. Nos reclamávamos, mas de fato, quase sempre acontecia. Parecia uma condenação. Ela dizia que o leite só estava pronto para beber, se se desligava a fervura justo antes de se derramar.

Hoje, eu pai, quase sempre me acontece. Pareço condenado: a uma memória que está escrita nos meus dias, minha mãe fervendo o leite até o ponto mais crítico, quase sempre a fervura sobe e derrama-se.

Minha mãe ferve o leite: derrama-me. É o barulho da fervura, instantes antes do derrame. É uma condenação.

Eu fervo o leite, meu filho observa: derrama-se. Estou preso a memória inscrita na minha pele, nos pensamentos, nos meus atos.

Depois o leite está quente demais. Então para esfriar-lo mais depressa se passa de xícara em xícara, várias vezes, assoprando o leite que vai pulando de xícara-em-xícara. Esse gesto, barulho, essa cena: é uma memória. Tudo inscrito. Minha mãe fazia, meu pai. Eu faço.

Estamos presos à memória: derrame-nos.

Detenha a fervura justo antes de derramar o leite. Se muito quente, troquei o leite de xícara em xícara, assoprando entre dentes: isto é uma memória, tudo inscrito.

Derramo-me.