memórias do inverno mais frio

no palácio ateniense das musas, se trocam por centavos as paixões, os beijos na balança são por centeio, e os orgasmos se convertem em sete cordas de terrenos baldios. os homens sempre custaram menos, eu mesmo me troquei por um espelho.

faça frio, venha calor

a ventania da criança do inverno que trouxe suas folhas de fios dourados, e brindou sua noite amarela de danças circulares, quem desenhara o cais dos seus dentes, a língua do centro do beijo, entre tenras maozinhas de um cálido chão: era os ossos o abrigo do abraço, a carne estava quieta, não mordi.

faça frio, venha calor

no lumiar de um bosque de escuros matizes, no meio ao húmus das folhas úmidas do último outono, sob a tenra volúpia da terra inerte, um broto de vida suspira vulcões de afago e tesão no paralelo d´um instante: somente em olhos acessos que renasce o instante do agora… e tudo é possível no jardim dos tempos do Éden.

faça frio, venha calor

 

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no embaço do espelho

 

um espelho embaçado

orvalho da presença

muito próxima de sim mesmo

da boca, o hálito

do vidro, o reflexo

do sorriso, uma náusea

daquela outra imagem de si

(outro impróprio)

que se aplasta

e se disfarça alheio

semeando o sedimento

da maneiragem

do singelo

eu

que

doe-se

na pele contra pele

um raio desconforto dos olhos frente aos olhos

de sim

do singelo

eu

 

Milton sem mim

“Quem seria esse bicho andaluz, quando não estava por perto de mim?“ me perguntei ao espelho, me olhando. A voz esfumaçou meu reflexo, e não me vi mais.

Essa era uma dúvida do existir. Um silêncio neuroses. A voz em forma de eco interior. A resposta sem horizontes da explanação.

Quem era esse ser quando sumia na cidade? Como seria entre tantos outros seres com outro existir? Como seria aquela voz sem eu lhe escutar? Como seus passos sem meus pés? Sua silhueta sem minha sombra?

Eu me multiplicava em dez mil eus tentando saber tudo sobre ele. Tudo sobre mim sem ele, e vice-versa.

“Quem é você, Milton?” era o meu amor querendo saber dos opostos. Entender a ausência fugaz. Perceber o eclipse do ser. A lua interior no centro do Sol.

Na ausência dele, faltava-me um infindável eu, um buraco no meio de mim. Eu chamava-o sem ele responder. Eu intuía-lhe sem ele aparecer. Era um fantasma a falta dele em mim.

Então, às vezes Milton aparece nesse justo instante da comoção à beira do abismo “que acontece rapaz?” era a certeira aparição, avalanche do súbito entendimento de que eu era pouquíssimo sem ele, sem mim.

“Medo de ficar sozinho?” ele perguntou e o eco despencou abismo abaixo, eu com ele, na voz dele de mim. No escuro, eu ainda enxergava o rosto irônico dele, o meu medonho, o humano dele dentro do meu: cara ou cruz.

Minha voz não emanava, sumia no vácuo daquele som interior, num silêncio perpetuo: o som da solidão.

“Psiu, psiu…” ele cutucava meu medo num raro jeito dele sobreviver.

Milton diante do espelho

Milton abre os olhos diante do espelho. No primeiro instante, não consegue se reconhecer neste rosto. Nem eu, nesse rosto do outro lado do espelho.

“São esses meus olhos me olhando nos olhos?” – me disse olhando aos olhos.

Um medo de não ser ninguém, e que ninguém nós reconheça, se traduze em desespero. Milton esfrega as mãos com força. Um grito único sai da minha boca e se expande pelos corredores, pula a janela, se estreita no chão… lá fora.

Milton cuspe na imagem prateada, e no reflexo, eu limpo a saliva dele dos meus lábios.

Não revido, cada qual tem razões para sua loucura. A minha, eu escrevo e tento dar conta…

Milton se curva segurando os joelhos, e murcha nossa sombra num canto do chuveiro. Logo sente a agua escorrendo pela pele, e toda aquela sensação de solidão compartida se transforma num sorriso histérico e sombrio, como de homem sem destino.

Eu deixo os olhos se inundarem de vapor, e aos poucos me esqueço dele no meu rosto no espelho.

“Quem é você Milton?” – e ele não responde.