Despedidas da viagem*

“Negro, estou indo embora…” a despedida era eminentemente em breve, lhe disse a Meple ainda num abril há quase dez anos, casi diez años. Despedidas naquela ilha-à-deriva eram infinitas ou definitivas: eu não sabia, como poderia eu saber?

Nos demos o primeiro dos longos abraços: um aperto demorado de silêncios, tus cabelos despencando entre nossos peitos, a respiração continua e perdurável de nossos hálitos, os olhos fechados adentrando nos corpos de um, e do outro. Era, seria uma espécie de último e pôstrer abraço.

O tempo havia se detido caprichoso desde então, no primeiro daqueles últimos abraços nossos. Era uma esquina qualquer de La Habana, que hoje não mais lembro, naquela ilha que jamais voltou ser nuestra.

Daquele instante em diante, até que definitivamente minha partida-vinda ao Brasil se concretizou, passaram-se cinco meses “… estamos nos despedindo, Negro” (a memória recria suas próprias palavras, salvo-condutos de auto-afirmação e sobrevivência); e durante aqueles instantes o tempo se encolheu entre as mãos daquele agarre, entre dedos e unhas, o suor de nossa caribenha continuidade, tus dreadlocks y los mios aún sin hacerse, futuros, eram nossos olhos pretos, tão perto.

Ninguém compreenderia nossa despedida solitária, intuída, de finais exorbitantes e misteriosos, sem antes saber da nossa amizade de asas voadoras e de ensonhos. Nadie, talvez, ni siquiera nosotros.

Nos cinco meses posteriores ao momento do primeiro-último abraço a promessa seria cumprida a riste: o encontro é no presente: começa nos olhos, termina no fim do abraço, e será único sem aguardar o próximo abraço porque não há amanhãs na terra dos homens, nesta terra nossa, sua e minha.

Assim fora o antes que seria: vimos-nos sempre como se aquele instante fosse o último de nossas vidas.

E Meple… cumprimos com honra: hoje é sempre ainda: todavías.

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Renaces 

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    Renazco 

    *o título foi dado por você, Benjamín.

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Escolhas que marcam

Aos catorze anos, no meio à maior crise econômica cubana, eu estava no fim do que aqui no Brasil se chama de ensino fundamental, e eu precisava escolher meu rumo escolar. A prova de “ingresso” definiria, entre as escolas dos municípios, o nível acadêmico dos alunos. Essa avaliação, computada à pontuação alcançada durante os últimos três anos de ensino fundamental dariam a colocação geral para a escolha de futuras carreiras universitárias ou técnicas.

Antes da prova, eu era, pela pontuação no ensino fundamental, o segundo melhor colocado da minha escola e um dos primeiros do município. Assim, se eu saísse bem nas provas de “ingresso” eu teria quase total prioridade na escolha do “meu” futuro.

Meses antes, minha mãe praticamente me obrigou a me preparar melhor para as provas. Contratou uma professora particular, amiga nossa, para aprimorar as matemáticas. Durante alguns meses, ia duas vezes por semana aprofundar aritmética, cálculo, equações.

Para língua espanhola e redação, eu estava acima da média e então ela confiava no meu desempenho.

Seriam duas provas: a de matemática primeiro, e  duas semanas depois, a de língua espanhola.

Naqueles dias, dentro de mim, eu tinha feito uma escolha, friamente, que mudaria minha trajetória pro resto da minha vida.

No dia, a prova de matemática seria aplicada numa outra escola, bem maior, que não era a minha, e lá misturados com alunos de outras escolas, para evitar que “colássemos” entre colegas. E lá sentei eu, dentre desconhecidos, para decidir meu futuro.

Às oito e trinta da manhã tocaram uma campainha, e entraram vários professores para explicar as regras. Escutei tudo atento. Entregaram as folhas. Fizeram maior protocolo na espera do horário exato,  depois a campainha, e o começo.

Olhei as questões. Sabia como solucioná-las. Fiquei em silêncio, olhando como ao meu redor, todos os outros meninos e meninas se jogaram sobre o papel para responder os itens, exceto eu, já previamente decidido de não entrar no caminho acadêmico, mesmo em contra da vontade da minha mãe, e contra meu próprio discernimento do que seria – e é.

Passaram os professores e perguntaram se estava tudo bem comigo. Sugeriram de eu apelar a algum problema de saúde e tentar na segunda chance. Questionaram sobre minha aptidão para resolver aquilo. Eu quase mudo, apenas acenando que eu estava sobre meu controle.

Naquelas três horas de espera eu mandei embora todas as chances de faculdade. A de medicina que minha mãe almejava para mim. As de ciências exatas que eu não desejava. As de humanas mas me dava preguiça a leitura.

Quando tocou a campainha, que marcava o tempo menor obrigatório, eu peguei minhas coisas, entreguei as folhas em branco e sai. Tinha decidido até então, e até agora, não fazer nenhuma carreira universitária.

A minha mãe não tive a coragem de dizer o que tinha feito. Somente uns meses depois, que eu decidi contar minha decisão. Ela ficou desapontada, porém sem mágoas.

Da observação sob a quietude de uma árvore

Das árvores sempre me disseram, permanecem imóveis pelo resto da existência, sem ter aonde ir. Doía-me uma tristeza enorme aquela imobilidade perene.

Uma árvore, qualquer que seja, fica sempre para trás. É um ponto na lembrança de algum lugar que visitei. De algum abraço que ganhei. De um horizonte partido em mil verdes, um silêncio rasgado com folhas e brisa.

A gente faz escolhas que definem nosso caminho, marcando somente uma caminhada.

Uma árvore possui impressa, todas as escolhas do seu próprio ser. Ela projeta o infinito do seu caminho nas suas ramagens e raízes. Cada uma delas leva até um possível final. Cada caminho traçado – olhando para eles deitado sob a sombra – leva a um lugar: divididos e multiplicados em várias possibilidades do seu existir.ARVORE2

A árvore se completa na sua basta imensidão – e na sua estática – tanto encima como embaixo, e não repete nunca, nenhum movimento ou possibilidade.

A árvore é o equilíbrio de o seu próprio existir. Todos os caminhos de um só.

A árvore não precisa se mexer para ser.

Ela é.

ARVORE

na ida a frente a volta

há um caminho
na ida
a frente
a volta
outro (mesmo) caminho
bifurque
à procura
só um
possível
caminhe
no trevo mil possibilidades
mas só um
o rumo
ressume
o destino
não ande, desande
abra a mão
do papo retilineo
aviste um caralho
a ova grande do caso
é se surpreender
do mesmo jeito
que o feto destoa em gritos violentos
caindo fora
sozinho o prumo acontece
tem que acontecer
a vida sozinha merece
únicas oportunidades
postreras rasteiras
devem no único fato
a vida é
sua
escolhas
suas
e estas, as minhas.

É a prece…

Tristeza mesmo, não tem fim. Como não tem fim, a alegria. O que tem fim mesmo é o que te faz feliz ou entristece. É, os gestos. É, os modos, trejeitos. É, as pessoas, nossas relações.

Tristeza fala da gente. Tristeza fala daquilo que gostamos, às avessas, daquilo que deixamos de gostar ou nos largou.

Tristeza tem jeito simples: procura aquilo que te faz melhor.

Tem tristeza que se curam só no mar. Mar profundo, azulejado, de céu com nuvens e solidão. Esta é a prece. Solidão numa conversa de bar com os amigos, mesmo que eles, iludidos, nem imaginem como você morre por dentro.

Minhas tristezas, aquelas mais fundas de mar, são as mais simples. Eu quando quero ficar triste – isto também é uma escolha – me entristeço com as coisas mais tolas. Bestas

Eu curto tristeza, confesso.

Tristeza me levou nos meus lugares menos conhecidos, aqueles que nem imaginava poderia chegar. Breus meus. Vulgares pedacinhos de mim que eu precisava conhecer. Sorte minha que entristeci.

E a tristeza do amor? Tristeza para lá de mar azulejo com nuvens e solidão. Tristeza que rói recifes e arrasta países. Às vezes é assim, não adianta correr atrás: não tem como fugir do mar.

Entristeço, é minha escolha: Solidão.

MEUS BREUS TEUS #ManoelAndo

MEUS BREUS TEUS #ManoelAndo