Fidel: comandante ou ditador?

… toda memória merece uma lágrima e um sorriso

 

Eu nasci, e ele estava ali; provavelmente presidindo um discurso da fé patriótica versus o medo do ataque inimigo. Era o ano de 1980. Anos depois, nos primeiros agostos da minha infância, lembro-me vagamente de uma imagem colada, em cores gastos de chuva, na porta de casa; um adesivo do líder verde-oliva, perto do olho mágico que brilhava na calçada.

Hoje esquecido na larga memória, as primeiras vezes do nome dito, no clarão dos ensinos escolares, do herói militar, seguidor dos ideais do Apóstol – nome que se dá José Martí, principal pensador, poeta e intelectual cubano neocolonial – , contra à tirania militar nos anos 50, o salvador, triunfante, o quase agradecimento pátrio-paterno, por ter crescido no seio da minha – e de todas as outras – família, merecedores do processo libertador, emancipador de uma nação, da minha ilha, e por conseqüência histórica e geográfica, o também devir de um continente e de um processo político regional. Ele era essa rara espécie de deus que governa os dias e os destinos, como os Deuses já guiaram os romanos, os gregos e ora,  guiam tantos os todos humanos que sobre a Terra sobrevivem. O Deus nas paredes do meu país levava o nome de Fidel.

Na escola havia um retrato na direção e outra na secretária. No mural de informações sempre uma das frases das tantas proferidas. Murais de rua pintavam seu rosto barbado. Na televisão, era garantida a íntegra de seus discursos, a repercussão das decisões da Revolução que ele encabeçava, no âmbito de nossa ilha e no mundo afora.

Nas noticias e no governo, Fidel estava em todas as conquistas revolucionárias, como idealizador e condutor. Nas ruas, era também responsável por tudo quanto era de ruim na sociedade, numa clara isenção da responsabilidade pessoal dos indivíduos.

Nas casas, no recôndito do silêncio familiar, entre uma refeição e outra, entre um apagão e o próximo, entre as filas do bairro, entre as notícias da televisão estatal, nos ônibus escassos e muito baratos, nas comemorações, praças públicas, eventos políticos, nos bastidores da sociedade que aceitamos – as várias gerações de cubanos– havia uma sensação de gratidão e decepção pelo grande pai Castro.

Era dele, a responsabilidade pelos logros sociais e os dogmas ideológicos na educação. Pelas medalhas nas Olimpíadas e pelas deserções nos Pan. Dele eram os destinos dos médicos em países amigos e pela falta destes no posto do prédio onde eu morava. Eram dele, os que estudavam nos países do leste europeu, e os que morriam em balsa tentando chegar aos estados norte-americanos. Eram dele, os refugiados das ditaduras latino-americanas e dele, os cubanos exilados políticos em Miami.

Eram as crianças sem fome, os adolescentes sem sonhos, um povo assalariado, uma diáspora raivosa, alguns intelectuais do terrunho e outros tantos já emigrados, alguns poucos com tudo bem arrumado em terras e imóveis, a ausência de milícias ou paramilitares, os militares no comando, zero narcotráfico, uma imprensa do governo, um bloqueio dos norte-americanos, todos os países não-alinhados, sempre as ótimas alianças políticas, e ele, grande líder: El Comandante.

Desde pequenos ouvi falar do fim daquela dinastia – há palavras para tudo! –, e com isso brincávamos naquela adolescência tardia da crises dos noventa, entre conversas quase silenciosas nos fundos das casas, ninguém se acostumava com o desacerto do insosso futuro que nos esperava, éramos o povo-à-deriva, o real maravilhoso da invenção do que ainda não era e nem seria. Acho que por lá, muitos  desejavam aquele final do deus humano: “o que será de nós, o dia que Fidel morrer?” ou na aquela forma mais intuitivo e primitivo desejo da morte, em profundo medo da nossa própria morte? essa mediocridade quando se detém o poder das próprias e justas ações individuais, em detrimento do poder de um governo, e suas leis.

Todo ano que virava, a duvida vinha: “será este ano que el Fifo vai morrer? ” Era um desejo de ver a monotonia mudar de rotina, não por vontade própria, nem ação popular, não por proposta da força de um povo, o meu; ainda bem menos, ou pior; no comum da morte de um ser, neste caso o mesmo poder em pessoa, um rei, um herói, um soldado, um comandante, um ditador, um militar, um pensador, um manipulador, um estadista?

No ano 2000 ou pouco mais – no tempo da minha memória-vitral colorida e orquestrada– o Fidel, havia ido re-inaugurar uma escola na esquina de casa onde eu morava. Foi a vez que mais próximo estive daquele homem: o bairro estava mobilizado para a ocasião, carros policiais circundavam a região, a avenida foi fechada, a multidão fechava um círculo entorno a escola. Cheguei lá, lembro que por impulso da minha irmã ou mãe, não sei bem: lá estava descendo, vestido de verde, alto e imponente, cumprimentava e despedia-se acenando adeuses – a los dioses? Em mim, lembro da energia que vibrou ao meu redor e me contagiou, era um calafrio natural diante da presença humana de um deus.

<< Fidel Castro morreu >> simples assim. Pessoas morrem, não era deus nenhum. O mundo se manifestou, e depois obviamente se dividiu. Os cubanos, a maioria, se dividiram: COMANDANTE ou DITADOR?

Pensei em meus amigos que ainda moram lá – Cló, tú? Tan triste febril, tan festeira –  haveriam comemorado a morte, gritando trás janelas fechadas com medo de ser por alguém recriminado? Minha mãe, meu pai: haveriam chorado a paz de todos estes quase sessenta anos, os anos doados, os plantões cumpridos, o serviço militar, as horas voluntárias? Minha sobrinha, que hoje ainda na escola estuda que o Fidel fez a Revolução que garante ela estudar numa escola pública, a mesma escola onde eu vira de perto ao Fidel;  como seria para ela presenciar a morte de um deus de suas páginas. E minha mais nova sobrinha, menos de um mês de nascida, o que será que ela saberá deste dia, que lhe contarão nos livros de História, ou nos mesmos, a família.

Eu tive um dia desses na rua: sem celular, sem jornal, sem televisão. Não acompanhei os debates entre as hordas  nas redes sociais. Eu – neste minuto, três dias depois dessa morte – ainda não me escrevi uma palavra com minha família na ilha. Eu não senti nada especial naquele instante sobre a morte daquele ser. Não havia mágoas algumas. Também nenhuma gratidão. Pensei que talvez um dia, meu filho me perguntará como era aquele homem, ao final: “que o tempo passa, e tudo se esquece, ninguém ficará para memória ulterior”.

Crônica da mala pronta

Descobri a vela maior das minhas virtudes. Maestria do que sou, e faço. Não sei se sou tão bom, mas acredite, me viro. Agora sou o chapeleiro maluco (ouço as palavras do mestre KatigOria), subcomandante jagunço das malas prontas por fazer e sem destino.

Minha primeira mala era de metal metálico: alumínio de chapa prateado. Meu pai que trouxe, minha mãe que colocou o que iria dentro. Num canto tinha comida: goiabada, torradas, essas coisas que duram mais que a fome. Era pesada, e podia por até dois cadeados. Lembro que tinha uma fenda, uma ferida de alguma viagem anterior da qual eu não sabia nada.

Mala pronta para o afronto: distante de algo ou alguém. Uma mala bem feita viaja vazia e sem deixar espaço. Qualquer mala leva algo de si e esquece o que não dá para levar.

Eu tive uma mochila verde-oliva. Dentro, com apenas variações, iam: duas camisas verde-olivas, duas calças verde-olivas, meias manchadas de betún. Escondia nela minhas primeiras simulações escritas: poesia de formiga, lembranças de disparos, a rotina do tempo perdido, a pele do camaleão acomodado. Mas essa mochila não era minha, devolvi ao Exército com tudo que havia dentro.

Mala carrega tempo, emparedado entre silêncios e nostalgias. Apanhado de instantes memoriosos e olvidados. Estilhaços de si próprio – e no espelho, os avessos.

Um dia fiz uma mala por mim mesmo. Dentro votei um país. Empacotei minha família. Dobrei meus amigos. Prensei meus amores num só. Dessertei de um yo. A linha no chão era amarela: a última porta branca: acima havia um vidro mas não dava para ouvir o que gritavam do outro lado. No outro aeroporto, a mochila chegou rasgada: nunca mais serviu para viajar.

Uma mala pronta não se entrega em frete, nem se confia ela ao mar. De uma mala pronta não se tem retorno. Não se esperam perdões. Nem precisa desculpar.

Numa manhã de inverno julinho peguei meus cacos e os enfie numa mochila. Acho que estava triste, então peguei demais. Demorei em armar toda aquela bagunça minha: é, de nos mesmos, quem a gente menos conhece. Até hoje ando com essa mochila que um amigo me emprestou (é Fredy, a mochila apareceu).

Agora ela está vazia. Mala pronta para fazer e sem destino.

Eu assino em baixo.

Sub-comandante jagunço samurai do yo.

Sobrevivente.

out of island lost at oceans

Minientrada

my friends life in Sampa. Some still at Cuba. A lot of smile at Miami Beach. I have a lot in Madrid, Rio or London. I saw a girl at Hollywood. I saw a guy in Istambul. I miss a friend to Stockolm. I have never see her in Cali, I have never been in Buenos Aires. I want to go to Amazonas. Cross river, seas and clouds. Where are you reading this?

Meu sonho americano

Aprendi cedo na escola o que era Latinoamérica, me ensinaram em libros alguns professores dedicados, histórias que lembro de mártires e homens de bem de estas terras americanas.

Depois li as paragens de Rulfo, as paixões alucinadas de Cortázar, a mágica palabra de García Marques, a delicada observação de Quiroga, os infinitos sertões de Guimarães Rosa, todos os caminhos de Vargas Llosa, o negro que sou em Guillén, o real maravilhoso do Carpentier.

Em La Habana conheci amigos bolivianos, uruguaios, argentinos, peruanos, equatorianos, brasileños. Deles ouvi muito de tradições, músicas, lugares que deveria um dia conhecer. A maioria, tínhamos alguns sonhos comuns, terras abraçadas de uma vez só numa palavra única, numa língua nossa apesar dos sotaques, do lugar do nascimento.

América é o lugar que sonho, que invento com imagens de olho aberto, das praias quentes e campos memoriosos da minha ilha às planícies secas dos brasis, as cachoeiras escondidas no coração do continente, sobrevoando as lembranças das montanhas nevadas dos Andes, as trilhas azul-úmidas da Amazônia, areias salpicadas sob pés descalços de La Paz, os cerros pelados de Cali ou os litorais de Cartagena com acordes e danças de pretas quase nuas, a ondas bravas frias e profundas do Pacífico em Lima, e caminhar nesse fio branco rochoso, espinha dorsal da Venezuela até Argentina, e nas neves, pastos frios das pampas, mate e violão, boiada e pantanal, caminhos perdidos nas BR-101, ilhotes perdidos à deriva no mar, Cubas, Margaritas, Angras e Reis.

América é as ruas de Rosário na voz do velho Fito, falando em quechua ou tolteca com pessoas que sabem muito mais do que estão a falar, e o ayahuasca do Ino Moxo, o peyote de don Juan, as ervas mais finas do Rio La Plata cultivadas de mão em mão por famílias milenarias, em cuica de chimarrão que é como chama el mate em terras do Rio Grande so Sul, falando español en Recife y português em San José. Esquecendo que sou de uma ilha flutuante no mar, a maior ilha entre outras mil ilhas flutuante à deriva no mar.

América é de olho em olho, homens da minha cor e mulheres das minhas verdades, conversas enfileiradas em praças, sob sombras de pessoas e pessoas, com amigos de amigos ou amores inconfessáveis, cada sonrisa, músicas no rádio ou de vozes roubadas de cidades, povoados à beira de estradas ou rios, marginais, litorâneos, crisálidas de Macondo ou Luvina, pessoinhas comuns, imaginárias, fora do real, do meu real imaginário feito sob medida para minha prosa, para meu sonho, para meu viver.    

América, todos meus caminhos…

Milton, o estrangeiro.

Milton fotografa esquinas conhecidas, monumentos de heróis da esquecida Revolução, exóticos detalhes da sua terra em paredes, murais e, sobretudo, mas do que tudo, na sua gente.

Há certa surpresa no jeito como enxerga aquilo que já fora tão natural, e que agora, na sorte de quem emigra, na volta triunfal a sua Pátria, o acolhe distinto… estrangeiro.

Um estranho lhe oferece charutos. Outro homem lhe vende conversa sob a única sombra neste Sol tropical. Alguém lhe convida a experimentar aquele drinque que já soube, há muito tempo, preparar.

Milton nega tudo com a mesma acidez que eu costumo negar.

“Somos raros até neste raro país”, me cutuca e eu sorrio da moça pretinha que vem até nos. Ela jovem, gostosa, feliz até que demais.

Ela sussurra um fetiche, e Milton, velho poeta do artifício, se deixa falar em inglês, “I have money for that, babe”, eu traduzo num latejo no peito e numa ereção.

Milton agarra a mão da mocinha. Ela me beija os lábios com seu carmim natural e nos leva por um corredor escuro, de escada tortuosa, de porta pequena pintada de azul. Antes de fechar a porta, ela nos solta seu preço e Milton, calando minha boca, pensa para dentro de nos “benditos reais e o cambio mundial”.

La nueva Patria y el retorno a casa

En menos de un mes volveré a Cuba. En estos últimos tres años sin la isla, mi vida dio un giro de aquellos que se esperan en toda vida boa. De repente, el mundo sin piso, ni paredes… mucho menos techo. Y yo vagando… el tiempo congelado en presente… la poesía de los actos y sus consecuencias… la felicidad y sus tristezas … inhalo, aguanto, suelto. Estou vivo.

En ese tiempo entendí – inevitablemente – que la Patria, la gran madre que abraza, ese barquito flotando en altamar,  el Escudo, el respeto a la bandera, los héroes y los villanos, no eran más que un cuento en tanta vida que había en mi corazón.

Delante de mí, emergiendo de profundas aguas, una isla-continente, surge un cuerpo blando y blancuzo, que hace sonidos por palabras y mayoría de las veces me hace sonreír : BENJAMÍN.

“Minha pátria é você!”

En poco tiempo estaré en La Habana, me quedaré – como pocos consiguen –  por tres meses (jejeje). Menos tiempo sería una pérdida de tiempo, una fantasía, tipo un ensueño.

Entonces tranqué el dominó: hice las paces con mi rutina, intenté acuerdos para volver a mis proyectos cuando regrese – obviamente sin una definición -, direccioné contratos amigos para vivir en algunas casas de amigos a mi regreso. El pasaje, carisísimo, lo pagué casi todo con los direitos de Gizamundo, mi primera publicación en portugués. Benjamín viajará los últimos días de diciembre con su mamá… y La Habana se rendirá a sus pies.

Estoy preparando una fiesta para que los amigos ayuden a viajar… mi Brasil y yo!

Es difícil escribir lo que vendrá, digo más, es un alto riesgo de postular las palabras del futuro como quien dicta veredas y funde el destino. Prefiero destilar el aliento cuando respire aquel aire que mi cuerpo conoce… ¿cuáles serán las palabras que mis ojos descubran? ¿cuáles las preguntas que escucharé a mi paso? ¿cuál es el significado de la nostalgia? ¿del olvido? ¿cómo seré yo, nuevamente yo, otro?

Nuevamente… eu!

A vida “gris” e meu direito à (in)felicidade

La vida es gris” assim pintava de cinza a Expósito a vida que a gente levava. Com seu rosto esfumaçado pelo aroma do café e seus dois filhos por perto, eles já sabiam das variedades de cor da vida: “la vida es gris, mamá”.

A vida era mesmo difícil dentre daquelas paredes roídas pelo tempo e desgastadas pelo calor numa ilha que negava toda e qualquer maior satisfação. Na geladeira não haveria muito mais do que aquilo. Na televisão reprisavam infinitamente desenhos de anos atrás…

Éramos felices com poco…

Minha felicidade sempre foi simples: o sol a través da fresta da porta de casa invertia a cena lá fora e trazia um mundo em cinema, colorido com filtro de cinza. Eu sorria com a mesma rua dentro de casa na parede da sala. Era a mesma rua de todos os dias da minha vida.

A felicidade é feita de migalhas de pão, como aqueles de João e Maria, que não à toa, acham uma casa feita de todos os melhores doces.

A felicidade é um perigo.

Ser feliz é saber-se vivo. O ar quente que entra no meu nariz. A dor dos músculos por me locomover. O sorriso num beijo. A lágrima de quando despertei.

Mas qual felicidade é a sua? Qual são os detalhes que iluminam seu viver?

E se não conseguirmos aquilo que acreditamos querer? E se aquilo que acreditamos e nos fez feliz deixa de repente de nos preencher?

Todo na vida é construído a partir daquilo que você quer. Humanamente falando as pessoas, esquecem que o que a gente precisa mesmo é viver. Toda construção, conhecimento ou pertencimento nós aprisiona o viver, como a casa de docinhos de João e Maria.

Porém não interessa o que nos faz (in)feliz. Cada um reconhece no instante que amanhecer ficará retido na memoria. Qual amor deixará suspiros de “quero ainda mais”. Que morte deixará um vazio difícil de largar.

Mas o que me aflige mesmo é… Por que se todos estão à procura daquilo que lhe faz feliz, seja lá que for, exigimos do outro uma (in)certa (in)felicidade? Não deveríamos cada um cuidar a priori de nossas migalhas espalhadas pelo caminho, à procura da casa de nossos sonhos mais doces?

Deixe-me ser…

Londres… longe demais

Eu sempre quis conhecer Londres desde criança.

Pergunta como eu, nascido em Cuba tinha como sonho conhecer esse país conhecido como frio, berço do capitalismo moderno, tão diferente da minha ilha?

Eu não me lembro de como tive essa consciência, mas desde que eu tenho lembranças meu pai, Jose Ramón, trabalhava para a embaixada do Reino Unido em La Habana. Desde sempre me recordo desse fato, isso porque ele começara trabalhar lá uns poucos anos antes de eu nascer. Entre coisa e outra, aquele país com nome forte cruzava as conversas entre ele e minha mãe.

Em casa sempre teve, diferente das casas dos meus amigos de bairro, uma revista ou jornal em inglês. Alias, de ali provavelmente começara aquele desejo, impulsionado pelas imagens dos carrões que mostravam as propagandas. Os jornais eram gigantes, com muitas páginas coloridas, bem diferentes do Granma ou Bohemia que circulavam em Cuba.

Fui crescendo e meu pai, aos sábados, me levava para acompanhá-lo. Eu devia me portar extremadamente bem, pois aquelas pessoas, los jefes, eram pessoas supostamente muitas estritas, vindos de outro lugar, com uma cultura completamente diferente da nossa e muito sérios. Era a cartilha antes de irmos a atravessar a cidade. E eu a cumpria honrosamente, sem tocar nada, observava cada detalhe daqueles lugares que eram completamente diferentes de tudo que existia na minha casa, no meu bairro, na minha vida.

Cresci entre conversas em inglês, jornais em inglês, festas de natal (na Cuba revolucionaria,  até a vinda do Papa João Paulo II eram praticamente raras) no estilo inglês, presentes e até roupas diferentes de todos meus colegas de escola.

A verdade, meu pai ganhava muito bem se comparado aos salários do resto de qualquer das famílias dos meus amigos. E isso refletia, sobretudo, na comida, da qual meu pai sempre dizia “no puede faltarnos nada en casa”.

Na época, em Cuba, aqueles que trabalhavam para estrangeiros recebiam uma moeda que intermediava os câmbios entre os dólares que os consulados pagavam aos seus funcionários e que somente poderia se usar em determinados estabelecimentos. Eram chamados de chavitos (olha que naquele tempo o Chávez nem era conhecido) e me lembro que funcionava como espécie de talão de cheque.

Esse fato me diferenciava, quisesse ou não, do resto dos meus amigos de infância e terminava reverberando nas minhas relações porque de fato minha família tinha acesso a muitas mais oportunidades que a maioria das famílias,  daquelas que não tinham alguém que trabalhasse com estrangeiros.

Em 1990, durante a Copa do Mundo na Itália, na sempre ausência da Seleção de Cuba, eu não tive dúvida em escolher a Seleção inglesa como minha favorita. Naquele ano Paul Gascoigne e Gary Lineker me levaram até as semi-finais e por muitos anos, foi meu time favorito.

Depois o inglês ficou fácil. Entre a escola e as conversas com Alain, um de meus melhores amigos, fomos construindo um universo aparte em english. Diálogos intermináveis atravessavam a cidade, decifrando aquela língua diferente.

Londres no está lejosassim chamei um de meus contos que publiquei depois no meu primeiro livro “Cómo le crecen los senos a las niñas?”. É uma história sombria, de um casalzinho teenager que em plena angustia, ela tenta se suicidar. Ele para trazê-la de volta, lhe inventa uma Londres em plena cidade de La Habana. Era minha fantasia voando solta no Caribe, ainda muito cruel e menos esperançosa do que hoje, e o moleque depois de convencê-la, é ele quem se joga janela abaixo.

Depois eu fiquei como quem diz “mais grande”. Meu espírito ficou leve e sincero, e recuperado daquela formação britânica tive a certeza de que meu coração era latino, minha essência latino-americana, minha vontade permaneceria deste lado do Atlántico, entre Yukon e Ushuaia.

A vida me trouxe para dentro do continente, me deu um coração brasileiro, um filho das Américas.

Minhas músicas, meus livros, meus filmes foram todos gestados neste pedaço gigante de terra.

Mas ontem, feito pesadelo ou proposta, apareceu aquela cidade do “nunca-jamais” para me tirar o sono. E como não gostei do sonho, acordei para escrever isto.

Nu meio do caminho

para Marcela, no seu caminho

Hoje acordei do lado do meu filho… novamente. Faz quase um mês já, que a rotina de estarmos juntos se completa minuto a minuto, cada instante, desde que sai o sol e se põem a noite. Mamãe está viajando, e merece!

Eu sobrevivo à canseira e o stress com pequenos luxos: uma cerveja, um porro, o abraço quente delicia do sexo, a praia, os filmes e a solidão. Tem dado certo.

Hoje liguei o computador, esta máquina que é mais do que meu caderno de viagens, meu diário digital continuo e li um texto de um outro diário de bordo http://numeiodocaminho.blogspot.com.br/ .

Na estrada, Marcela, essa minha amiga, solta poucas palavras da experiência depois que decidiu sair da cidade, seus costumes, a família, a falta de dinheiro e a pressa.

Li com os olhos vendados de lágrimas, porque imagino a  felicidade dela nessa estranheza de um mundo completamente diferente, novo, que se constrói a cada segundo e a cada respiração. Imagino, como eu, também toda dificuldade que é, olhar para um teto que te desconhece, umas estrelas que não tem nome, uns amigos que ela ama e logo terá que esquecer.

Essa estranheza da felicidade que é amor e também é dor.

Para mim, que tenho o desconhecido como utopia, li hoje nessa bitácora o reflexo daquilo que eu realmente quero. Como quem olha dentro do espelho d´agua vi os meus passos, seguindo meus passos, num mundo desconhecido e sem nome… novamente.

Eu, que acordo há um mês com meu filho, sei, sinto e padeço o difícil que será um dia me perder e achar um novo caminho. O desapego que aclamo, eu desconheço.

Desconheço o tamanho dessa estranheza, dessa feliz estrada.

Desconheço o tamanho do amor… o tamanho da dor.

Café forte em xícara pequena

Abro a porta de grade de um corridor, destravada, entro e perto da próxima porta, chamo pelo nome.

Familiaaa…” – abre-se a janela e aparece Ania. Surpresa. Destrava a porta e no encontro el abrazo.

Ania, é cubana. Mora no Brasil há uns anos. Somos amigos nessa confiança da “insularidad”, termo que caracteriza poeticamente quem nasce, vive ou morre numa ilha. Atravessamos a casa no silêncio e a magia de uma casa de artistas.

Depois de uns minutos, uma ligação de outro cubano “volao vem pa´ca…” e ela o convida para chegar.

Perguntamos-nos pelos nossos filhos, Samuca e Benjuki, (a versão carinhosa de um mangá cubano-paulistanêis) e planejamos um encontro que teimamos em postergar.

Temos há tempos uma ideia que beira a utopia de fazermos algum projeto com esta identidade bipolar, ilhadamente continente, que sobrevive ao desapego de uma identidade anterior, vinda de outro país, uma espécie de árvore imensa, de galhos escuros e raízes inchadas no fundo do mundo e que flutuou no tempo até se firmar neste outro pedaço de mundo, crescente no sentido presente de ser e viver, nesta terra que abre os braços, e colhe os filhos, e os vê crescer.

Todo a su tiempo” Ania me acalma. Aquilo que chamam de sexto sentido parece convencer.

Me despido e chegando naquela primeira porta, destravada do começo, aparece o outro amigo cubano. Yaniel es músico, toca e canta com a rara sutileza de quem é de Santiago de Cuba.

O acaso poético me convida voltar atrás.

Voy a hacer um café” e voltamos os três até a cozinha. Dois minutos depois estamos os três falando dessa sensação palpitante de algo que “ya no está más”, e que foi, ou ficou para trás: Cuba. As lembranças nos levam de volta naquele espaço-tempo que deixamos, numa espécie de triste alegria, que nos abraça nesta felicidade maior: É ESTE VIVER.

O café em Cuba, servido em pequeníssimas xícaras, fortemente adocicado sempre foi o pretexto para amarrar o encontro, quase sempre nas cozinhas, esperávamos  que quem estivessem fazendo colocasse el poquito de café que nos correspondia. Era um instante corriqueiro, cotidiano mas sublime, roçando o divino.

Assim era em Cuba e assim me pareceu hoje.

Essa ponte estabelecida no fato de estar juntos num lugar comum, distante de outro lugar comum, nos fazia mais próximos do que nunca de nós mesmos. Algo assim como assistir um filme com outras pessoas e depois sentar para conversar sobre o que aconteceu.

Era algo simples, cotidiano e corriqueiro como um café, porém sublime, beirando o sublime.

Chegam Samuca e Kike e naquilo só faltou um dominó, um musiquinha bem alto, um rum, e de um danzón. Era a transposição poética de um passado inexistente, possível, e real no presente. Partilhamos algumas memórias, os amigos comuns, os planos sobre ese PUENTE que precisa ser levantado. Os filhos de este novo país que cresce no peito e na consciência nossa de sobre vencer. A constatação de uma natureza transumante, individual em cada percepção, sobre este ser que abandonamos num corpo que partiu de outro território, humano e temporal. As devidas nuances. Os tons. As afirmações,  contradições e negações de cada um. As mortes, passadas e futuras.

Depois saímos juntos pela mesma calçada e o sol. Ao principio numa mesma direção: era o leste. Em pouco mais que uns quarteirões, cada um tinha pegado seu rumo. Eu resolvi escrever.