out of island lost at oceans

Minientrada

my friends life in Sampa. Some still at Cuba. A lot of smile at Miami Beach. I have a lot in Madrid, Rio or London. I saw a girl at Hollywood. I saw a guy in Istambul. I miss a friend to Stockolm. I have never see her in Cali, I have never been in Buenos Aires. I want to go to Amazonas. Cross river, seas and clouds. Where are you reading this?

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Passeio por uma Infância Distante

Ontem andei por Alamar, uma cidade de pequenos prédios pré-fabricados ao leste de La Habana, onde eu passava parte de minhas férias e finais de semana na casa da minha tia e primos preferidos. Desandei caminhos conhecidos com a certeza que não tinham mudado de lugar, e não houve surpresas. Cada coisa estava no exato lugar que eu o deixara há mais de quinze anos atrás. Naquela andança logrei me antecipar a cada atalho, parede, prédio ou árvore porque tudo era exatamente igual.

Aquele bairro fora construído por seus próprios moradores com subsídios do governo durante os anos oitenta. É um bairro feio, de prédios de no máximo cinco andares, espalhados sem nenhuma organização urbanística, dividido por zonas. Cada zona tinha seu mercado para comprar os abastecimentos, e onde confluíam outros serviços menores. Também algumas empresas e instituições do Estado num dos maiores planos imobiliários que foi conhecido como “Microbrigadas”, repartia terrenos aos seus funcionários para que com parte de suas horas pagas, fossem trabalhar na construção de seus apartamentos. A região é conhecida por ter abrigado as famílias mais humildes que eram removidas de moradias com perigo de derrube no Centro Histórico, e casualidade ou não, com uma alta concentração de população negra. Alamar é conhecido hoje por ser dos piores bairros para morar de La Habana, sobretudo pela falta de serviços e péssimo transporte.

Aquele apartamentinho no primeiro andar que eu frequentava tinha sido construído pelo marido da minha tia, Esteban, naquele sistema “microbrigada”. Ele era capitão da Marina Mercante de Cuba e no prédio onde morava minha tia Elena, e meus primos Estebita e Elenita, todos os vizinhos tinham alguma relação com a Marina. Anos depois meu tio abandonara o barco em Canadá e se exiliou. Depois conseguiu pagar as viagens de toda a família dele que hoje moram em Canadá e Estados Unidos. Ele começara escrever e hoje já tem par de livros de crônicas sobre os anos frente aos navios e os problemas dos cubanos na Cuba daqueles anos primeiros da Revolução.

Caminhando eu, ontem por aquelas ruas, a única surpresa que tive foi a de ver as distâncias terrivelmente encurtadas. Todo era pequeno menor para mim. Lugares que eu sabia, existem, chegavam em menor tempo aos meus pés. Era uma sensação esquisita. Era eu, Gulliver nas minhas próprias terras habaneras.

Nesse trajeto pequenininho, minha lembrança era transportada a minha distante infância. Este lugar era dos poucos que de pequeno eu vivi, e nunca mais visitara, e por isso agora me parecia tão surreal e mágico. Meu sorriso era de susto. Eu crescera em anos e experiência, e este era um fato. Minha vida tinha se esticado em livros, línguas e filho, mas aquela cidade feia à beira do mar tinha ficado igual.

Então pensei nos meus primos e tios que certamente há muito tempo não caminham por aqui. Eles também tinham crescido, ganhado em livros, línguas e filhos. A saudade daquilo tudo era gigante, porque da infância da gente, quase sempre temos saudades. Qual seria o tamanho desta cidade para eles hoje tão distantes destes passos?

No fim do passeio cheguei à desembocadura do rio Cojímar, divisa entre Alamar e Cojímar. Este bairro é dos mais tradicionais de La Habana e mais conhecido por ser o lugar onde acontece o famoso romance de Ernest Hemingway, “The Old and the Sea”. Caminhei até a beirada, perto da ponte que as pessoas usam para passar de um lado ao outro, e no encoste rochoso sentei-me. Não houve surpresa novamente, a infância e meu ser, estavam finalmente em paz… meu mar.

La Habana aos Meus Pés

Caminho por Habana. Cidade montada e remontada sobre antigos e novos pesares. Revestida de ilusões e magias. Cidade de poucos caminhos, tantas veredas e tantas e tantas verdades.

Em La Habana não existe soledad.

Nestes dois meses de diáspora voltei à ruas conhecidas, esquinas onde bebi e amei, lugares que lembro com o único perigo de querer ficar.

Muitas das pessoas que antes conhecia hoje vivem em outros países: como yo. Tivemos a sorte de cruzar os mares e ver amanheceres e pôr-do-sol num outro lugar. Nem sei se todos acharam a felicidade. Por exemplo, eu tive um filho e aprendi o português. Para alguém que escreve a vida, não há nada melhor que aprender outra língua, outro jeito de transcrever a solidão interior.

Em dezembro, muitos dos que foram embora voltam a nosso país. Fazer as contas do aluguel, deixar pago o celular, abastecer com cereais e leite para o dia que voltarmos. Alguns podem não ter visto este céu há muito tempo, e eu tardei quase três anos em voltar aqui.

Eu fechei minhas coisinhas em caixas, lacrei-as com palavras que me lembrassem do que  iria encontrar ali três meses depois. Acabou o contrato da casinha no Morro (sim, aquela festinha cubana não será mais por lá). Conversei possíveis retornos aos projetos nos quais trabalhava em Sampa. Troquei tudo que tinha na conta por dólares num dia de péssima cotação. Dei um abraço no meu filho, um beijo no meu amor e me despedi.

Eu nem imagino as peripécias de cada um dos que voltaram, só conheço a minha própria loucura e as escolhas que fiz. Como é a emoção de reencontrar com a família? Como é descobrir que agora tem filhos os amigos que antes brincavam de esconde-esconde?

Que aquela mocinha que uma vez me apaixonei hoje está longe de ser a mulher que desejo. Que não era tão delicioso o sorvete que tomávamos na adolescência. Que certa distância hoje é bem mais curta do que antes imaginava seria. Que as pessoas e até os amigos, por causa do capitalismo que renasce em Cuba, dão mais importância ao dinheiro e ao trabalho que aos encontros e à amizade. Que hoje quem tem, tem e outros que não tem, então não tem.

Nestes dias de intensa revisitação interior, reencontrei muitos amigos que tiveram que decidir ir-se a outro país. Todos eles estavam muito felizes, e yo. Havia nestes encontros uma euforia por reviver o abraço partido pela distância, as novas experiências e as solidões. Mas tenho a certeza: toda felicidade convive com muita tristeza para poder existir. Só cada um de nós, separada e internamente, sabe o que havia de ter vivido ao deixar esta ilha. Para viver como emigrante há que se deixar morrer a pessoa que nasceu naquele outro país, e não há morte que não leve lágrimas e lembranças, cinzas e saudades.

Por enquanto, estou de férias da vida real e o rum continua sendo o mesmo rum. As esquinas não mudaram de lugar. Alguns que foram estão de volta e os posso rever, e quem não pôde ou não quis ir ainda continua por aqui.

Logo menos está viagem acaba… É viver para escrever!

O verdadeiro, essencial e duradouro único sentido

Só quem tem filho pode compreender isto que estou vivendo – e escrevo. Só quem deixou sua terra de nascença poderá ler nestas palavras a profunda satisfação que estou sentindo. Tudo embolado aqui no peito, nas ideias e nos gestos.

Benjamín chegou em Cuba e parece que nunca tivesse ido, parece que foi aqui que abriu os olhos ao mundo e começou escorregar-se pela vida – e nesta nossa historia.

Ao atravessar a porta final do aeroporto me viu, soltou a mão da mãe e partiu para o abraço. Eu apertei forte, como aquele último abraço que ainda eu recordara e que fora nosso último contato real durante todo este tempo. Eu soltei umas lágrimas, que novamente, não deixei que ele percebesse.

Eu fiquei alegre de todo esforço e de cada desatino. Os caminhos que eu tomei foram muito fundos e fortes, e ainda eu não compreenderia.

Ter um filho é das realizações, á única verdadeira, essencial y duradoura. Sozinho, então, eu não imaginava quanto tudo isto mudaria meus dias – minhas felicidades e tristezas. E quanto tudo faria sentido desde o começo, naquele dia olvidado do meu próprio nascimento.

Nestes instantes de este último dia, a cobra comprida do tempo mordeu sua cauda, e no abraço singelo fora do aeroporto, ele pisando as terras que eu também pisara, cumpriu minha vida seu verdadeiro, essencial e duradouro, único sentido.

Naquele abraço me esvaziei de remorsos y barreiras, e me inundei do que me assemelha do amor profundo da vida, e me afasta da morte, o hálito que me mantém vivo – e escrevendo: mi hijo.

Dali para frente, eu vi nele e ele viveu – enquanto eu escrevo isto ele dorme – como se fosse sempre aqui isolado pelo mar que agora nos recebe, que ele viveu desde antes do nosso tempo. Eu vi nele e ele vive, que ao filho de um, lhe pertencem todas e cada uma das suas paisagens anteriores; todos e cada um dos personagens que lhe abraçam ou lhe amam; todos e cada um dos encontros, antes e depois do nascimento. Eu vi nele e ele vive, que esta terra com nome e arbitrariedades como toda terra que os homens conhecem, lhe abraçou, lhe pertence e lhe ama.

Benja hoje conheceu as ruas, os carros e o mar desta ilha. De mãos dadas à mãe e a este que escreve – e vive – ele sorriu tanto como agora eu choro. A felicidade tem máscaras vestidas de céu azul, brancas ondas batendo contra os muros, rumba multicolorida de tambores e pernas-de-pau, chocolate frio ou quente, e solidão sob a noite estrelada.

Éramos felizes juntos nesta terra desde sempre.

Agora, ele dorme.

Eu lhe escrevo.

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O ACASO HABANERO E O ACOSO POLICIAL.

Conheci Victor andando no Centro de La Habana. Ele era um preto de dreads que estava visivelmente meio bêbado.

Aproximou-se de Nathália e de mim achando que eu era estrangeiro. Isso tem sido das coisas mais absurdamente chatas que vem me acontecendo.

Veio na paz, fazendo conversa. Normalmente – como já tinha me acontecido nestes dias solar– eu teria me afastado do sujeito, sobretudo pelo absurdo, pela quase vergonha de me fazerem sentir brasileiro na minha terra cubana, mas o olhar ingênuo, o preto nos dreads e o convite a conhecer a casa dele no solar (uma construção popular típica de tempos da colônia com pequenos kitnets e banheiro comunitário e pequeno pátio central cimentado) e a possibilidade de me adentrar numa Cuba que há anos não vejo, não vivo e já não mais sofro; aceitei ir.

A casa dele tinha quase nenhum móvel. Mostrou-me parte das artes que ele faz em madeira para sobreviver e que nem intentou me vender.

Aquele vazio todo não me assustou, mas resultou-me um raro espelho daquilo que eu sou, e da minha vida em terras paulistanas no meu intento por sobreviver.

Perguntei-lhe pela mãe e chorou. Ainda viva andaria pelas calles habaneras também tentando se virar para não morrer de fome. Voltaria depois, me disse, não conseguiria viver sem ela, continuou. Então pediu que o convidasse um drinque, a amizade tem esses detalhes etílicos necessários para existir. Lá fomos nos à beber.

Em Cuba, tem gente que se fez profissional do turismo, alternativamente. Tinham se acostumado abordar gringos, e no bem ou mal, tirar vantagem da necessidade dos estrangeiros de querer conhecer a Ilha.

Victor é um desses, que por viver no centro histórico, vive do contato com os estrangeiros. Vende suas peças de cabeças de animais. Se lhe dão trégua, pega as loirinhas e passa a semana sendo feliz. Disse-nos que tem quatro filhos espalhados pelo mundo.

 Zanqueros

E desandamos ruas conhecidas, pintadas de sol e cheias de pessoas suadas. Dançamos detrás dos pernas-de-pau. Bebemos rum barato. Rimos da sorte do encontro.

E ainda sendo felizes, um policial o abordou. Tanto ele como eu, tínhamos vivido esse momento infeliz várias vezes. O agente pediu pelos documentos e chamou pelo rádio.

Pedi para Nathália se afastar de nós, aquele sotaque não passaria por cubana em lugar nenhum. Poderia complicar as coisas.

Por quinze minutos, ambos tentamos convencer o fardado do absurdo daquele victorprocedimento. Aleguei racismo. Aleguei injustiça. Aleguei burrice. Ainda lhe comentei, coisas como estas que definem uma ditadura. Não adiantou.

Dei o número do telefone de casa para se o Victor, depois da prisão temporária e depois daquele grau de álcool, quisesse me ligar de volta.

Victor foi-se caminhado acompanhado pelo guarda e perdeu-se dentre aquele montão de pessoas suadas e ruas conhecidas.

Londres… longe demais

Eu sempre quis conhecer Londres desde criança.

Pergunta como eu, nascido em Cuba tinha como sonho conhecer esse país conhecido como frio, berço do capitalismo moderno, tão diferente da minha ilha?

Eu não me lembro de como tive essa consciência, mas desde que eu tenho lembranças meu pai, Jose Ramón, trabalhava para a embaixada do Reino Unido em La Habana. Desde sempre me recordo desse fato, isso porque ele começara trabalhar lá uns poucos anos antes de eu nascer. Entre coisa e outra, aquele país com nome forte cruzava as conversas entre ele e minha mãe.

Em casa sempre teve, diferente das casas dos meus amigos de bairro, uma revista ou jornal em inglês. Alias, de ali provavelmente começara aquele desejo, impulsionado pelas imagens dos carrões que mostravam as propagandas. Os jornais eram gigantes, com muitas páginas coloridas, bem diferentes do Granma ou Bohemia que circulavam em Cuba.

Fui crescendo e meu pai, aos sábados, me levava para acompanhá-lo. Eu devia me portar extremadamente bem, pois aquelas pessoas, los jefes, eram pessoas supostamente muitas estritas, vindos de outro lugar, com uma cultura completamente diferente da nossa e muito sérios. Era a cartilha antes de irmos a atravessar a cidade. E eu a cumpria honrosamente, sem tocar nada, observava cada detalhe daqueles lugares que eram completamente diferentes de tudo que existia na minha casa, no meu bairro, na minha vida.

Cresci entre conversas em inglês, jornais em inglês, festas de natal (na Cuba revolucionaria,  até a vinda do Papa João Paulo II eram praticamente raras) no estilo inglês, presentes e até roupas diferentes de todos meus colegas de escola.

A verdade, meu pai ganhava muito bem se comparado aos salários do resto de qualquer das famílias dos meus amigos. E isso refletia, sobretudo, na comida, da qual meu pai sempre dizia “no puede faltarnos nada en casa”.

Na época, em Cuba, aqueles que trabalhavam para estrangeiros recebiam uma moeda que intermediava os câmbios entre os dólares que os consulados pagavam aos seus funcionários e que somente poderia se usar em determinados estabelecimentos. Eram chamados de chavitos (olha que naquele tempo o Chávez nem era conhecido) e me lembro que funcionava como espécie de talão de cheque.

Esse fato me diferenciava, quisesse ou não, do resto dos meus amigos de infância e terminava reverberando nas minhas relações porque de fato minha família tinha acesso a muitas mais oportunidades que a maioria das famílias,  daquelas que não tinham alguém que trabalhasse com estrangeiros.

Em 1990, durante a Copa do Mundo na Itália, na sempre ausência da Seleção de Cuba, eu não tive dúvida em escolher a Seleção inglesa como minha favorita. Naquele ano Paul Gascoigne e Gary Lineker me levaram até as semi-finais e por muitos anos, foi meu time favorito.

Depois o inglês ficou fácil. Entre a escola e as conversas com Alain, um de meus melhores amigos, fomos construindo um universo aparte em english. Diálogos intermináveis atravessavam a cidade, decifrando aquela língua diferente.

Londres no está lejosassim chamei um de meus contos que publiquei depois no meu primeiro livro “Cómo le crecen los senos a las niñas?”. É uma história sombria, de um casalzinho teenager que em plena angustia, ela tenta se suicidar. Ele para trazê-la de volta, lhe inventa uma Londres em plena cidade de La Habana. Era minha fantasia voando solta no Caribe, ainda muito cruel e menos esperançosa do que hoje, e o moleque depois de convencê-la, é ele quem se joga janela abaixo.

Depois eu fiquei como quem diz “mais grande”. Meu espírito ficou leve e sincero, e recuperado daquela formação britânica tive a certeza de que meu coração era latino, minha essência latino-americana, minha vontade permaneceria deste lado do Atlántico, entre Yukon e Ushuaia.

A vida me trouxe para dentro do continente, me deu um coração brasileiro, um filho das Américas.

Minhas músicas, meus livros, meus filmes foram todos gestados neste pedaço gigante de terra.

Mas ontem, feito pesadelo ou proposta, apareceu aquela cidade do “nunca-jamais” para me tirar o sono. E como não gostei do sonho, acordei para escrever isto.

Café forte em xícara pequena

Abro a porta de grade de um corridor, destravada, entro e perto da próxima porta, chamo pelo nome.

Familiaaa…” – abre-se a janela e aparece Ania. Surpresa. Destrava a porta e no encontro el abrazo.

Ania, é cubana. Mora no Brasil há uns anos. Somos amigos nessa confiança da “insularidad”, termo que caracteriza poeticamente quem nasce, vive ou morre numa ilha. Atravessamos a casa no silêncio e a magia de uma casa de artistas.

Depois de uns minutos, uma ligação de outro cubano “volao vem pa´ca…” e ela o convida para chegar.

Perguntamos-nos pelos nossos filhos, Samuca e Benjuki, (a versão carinhosa de um mangá cubano-paulistanêis) e planejamos um encontro que teimamos em postergar.

Temos há tempos uma ideia que beira a utopia de fazermos algum projeto com esta identidade bipolar, ilhadamente continente, que sobrevive ao desapego de uma identidade anterior, vinda de outro país, uma espécie de árvore imensa, de galhos escuros e raízes inchadas no fundo do mundo e que flutuou no tempo até se firmar neste outro pedaço de mundo, crescente no sentido presente de ser e viver, nesta terra que abre os braços, e colhe os filhos, e os vê crescer.

Todo a su tiempo” Ania me acalma. Aquilo que chamam de sexto sentido parece convencer.

Me despido e chegando naquela primeira porta, destravada do começo, aparece o outro amigo cubano. Yaniel es músico, toca e canta com a rara sutileza de quem é de Santiago de Cuba.

O acaso poético me convida voltar atrás.

Voy a hacer um café” e voltamos os três até a cozinha. Dois minutos depois estamos os três falando dessa sensação palpitante de algo que “ya no está más”, e que foi, ou ficou para trás: Cuba. As lembranças nos levam de volta naquele espaço-tempo que deixamos, numa espécie de triste alegria, que nos abraça nesta felicidade maior: É ESTE VIVER.

O café em Cuba, servido em pequeníssimas xícaras, fortemente adocicado sempre foi o pretexto para amarrar o encontro, quase sempre nas cozinhas, esperávamos  que quem estivessem fazendo colocasse el poquito de café que nos correspondia. Era um instante corriqueiro, cotidiano mas sublime, roçando o divino.

Assim era em Cuba e assim me pareceu hoje.

Essa ponte estabelecida no fato de estar juntos num lugar comum, distante de outro lugar comum, nos fazia mais próximos do que nunca de nós mesmos. Algo assim como assistir um filme com outras pessoas e depois sentar para conversar sobre o que aconteceu.

Era algo simples, cotidiano e corriqueiro como um café, porém sublime, beirando o sublime.

Chegam Samuca e Kike e naquilo só faltou um dominó, um musiquinha bem alto, um rum, e de um danzón. Era a transposição poética de um passado inexistente, possível, e real no presente. Partilhamos algumas memórias, os amigos comuns, os planos sobre ese PUENTE que precisa ser levantado. Os filhos de este novo país que cresce no peito e na consciência nossa de sobre vencer. A constatação de uma natureza transumante, individual em cada percepção, sobre este ser que abandonamos num corpo que partiu de outro território, humano e temporal. As devidas nuances. Os tons. As afirmações,  contradições e negações de cada um. As mortes, passadas e futuras.

Depois saímos juntos pela mesma calçada e o sol. Ao principio numa mesma direção: era o leste. Em pouco mais que uns quarteirões, cada um tinha pegado seu rumo. Eu resolvi escrever.

De como llegar en casa en tierras ajenas: una perspectiva del presente.

Una nueva casa, un nuevo hogar. Parece juego de niveles. Yo personaje de este proyecto loquísimo que es la vida. Como si fuera un héroe y su fiel compañero, el Benja me acompaña, valientemente.

Hace un mes que estamos en el Morro del Querosene – quien se imagina que aquí hay mucho fuego, ni lo dude, este barrio es también maravilloso. Y quizá sean mis ojos que ven muchos árboles y cantos de pájaros. Quizá sea yo, quien en mi interna serenidad descubre calles cubanas subiendo laderas paulistas. Aquí, podría encontrarme sin dudas cualquier de los amigos de antes, de aquellos que la vida y la geografía enviaron lejos.

Nuestra casita azul es pequeña. Apenas dos cuartos, un bañito, una sala-cocina-comedor. Benjamín me pregunta – ¿aquí é a sala? – y sí pues, a veces es sala, algunas veces es comedor, casi siempre es cocina.

Alexandre, el sociólogo de casa, es adepto al cine y ya sé le encanta la isla. Si todo sale bien, pronto él estará por allá y conocerá en carne y hueso aquello que tanto hemos hablado en casa sobre Cuba. Esta ilha tão difícil de se entender na distancia Esa isla difícil de entenderse a distancia y mucho más difícil de vivirse desde dentro.

Las casas vecinas son de varios colores: azul, verde, naranja, vermelhas. Una estrecha escalera las divide, por donde circulan los 5 o 6 gatos de la villa. La mayoría de los mininos son de Camila, una artista plástica – creo yo – que se preocupa tanto con los felinos como yo con mi hijo. El otro gato es de Sara, la nueva amiguita del Benjamín. Ella tiene tres añitos también y bueno ya se hicieron los “mejores” amiguitos. Sus padres, Verónica y Fabio, son también buenos queridos míos. A Fabio ya lo conocía de la capoeira y fue una feliz alegría encontrármelo por aquí.

El barrio es de calles soleadas y casas con jardines y perros. Pocos carros suben y bajan sus laderas curvas. Es el mismo de la Festa do BoiPor veces vi mi infancia, de la mano de mi abuela, por aquellas calles soleadas de Santos Suarez, allá en La Habana.

Los ojos de niño brillan por cada grieta, cada nuevo sonido, cada rascuño de paredes pintadas. Una frase diferente, leída al paso del nuevo caminante. Benjamín de mi lado, descubre también esas nuevas texturas, esos aromas de vida diferente.

Regresando a casa, por sobre los tejados anaranjados sobresale un bosque de altos gajos, pinos, araucarias, quizá alguna casuarina, alguna ceiba escondida. Es una imagen de finos contornos de verde como si la ciudad, esta grande ciudad, falsamente, terminase después de nossa casa.

Es bueno sentirse en casa.

Corinthians, de mi corazón

El mundo es Albinegro!!! Nacido en Brasil, Corinthians es nuevamente campeón del mundo después de dos juegos bien disputados en Japón. La final contra otro grande, Chelsea, de Inglaterra.

Quien vive, o conoció Brasil, sabe que con fútbol aquí no se juega. El negocio es serio, serísimo. Por fútbol aquí se mata, por fútbol aquí se muere.

Soy corintiano ­de pequeneninho, pero en verdad soy corintiano desde el primer día que llegué aquí. Natalia abrió la puerta del apartamento y avanzó por el corredor. Yo, dejé la mochila en el piso, avancé dos pasos sin ser invitado. Ella apareció desde lo oscuro y encendió una luz, traía una bolsa de compras, un regalo de dice y yo contento le busco también uno, especial, que le traía – un disco de William Vivanco. Cuando abro veo el símbolo do Timão, ya había escuchado de ese equipo en Cuba, cuando fuera campeón del mundo en 2000, nada más. En Cuba sabíamos pocos de los equipos brasileros, tal vez sólo los nombres.

Era mi primera camisa. Camisa blanca, listas negras finas, el escudo en negro, rojo y letras balancas, un timón de barco – como así?- un ancla, dos remos. Sport Clube Corinthians Paulista. 1910, año de la fundación.

Yo comprendí lo que me sucedió, cuando uno cambia de país tiene que agarrarse rápido a algún símbolo, algo profundo y cierto, de manera que uno no se deje llevar por el viento de las nostalgias. En eso, estaba Corinthians, ese amor.

Ese año sería sin todavía saberlo el año más triste de Corinthians. Yo, ya aprendía de la pasión por ellos, sufrí el rebajamiento para la segunda división, aún sin toda la intensidad que aquel hecho merecía. Durante ese período fue que me volví corintiano.

Todos, excepto los corintianos aprovecharon para burlarse del Club que en Brasil tiene más seguidores – hecho contestado todavía con el Flamengo – y el club que es el más odiado de Brasil.

Comencé a ir al Pacaembu, estadio municipal que quedaba muy cerca de la casa donde vivía con Natalia. De las ventanas del área de servicio se podía ver todo el terreno, incluídos las dos porterías. Hubo días que con un radio y un monóculo me sentaba en la ventana a ver el juego en directo.

En el estadio la cosa era otra. Caliente, enervados, gritando los cerca de 40 mil personas gritaban y cantaban músicas de apoyo. Poco a poco, siguiendo las letras, equivocándome, cantaba junto con el resto.

En 2008, Ronaldo vino para el Timão, que es como le llaman al Corinthians. Y tuve la oportunidad de verlo jugar varias veces. Pero fue un momento especial, cuando en las semifinales del campeonato paulista, en el estadio rival de Morumbi, el “Gordo” arrancó solo en contraataque en dirección del gol. El porteiro vino en dirección de él, creyendo que le llegaría al balón antes de tiempo, sólo que el toque fue preciso antes de él sao-paulino llegar y Ronaldo tocó suavemente por arriba.

Después que el Timão regresó al Brasilerão serie A, nuevamente, la estrategia del equipo cambión. Vinieron casi sucesivamente, después del título de la Serie B, el Paulista del 2009, Copa de Brasil 2009 y un poco después el Brasileiro 2011. Ese último decidido en el último juego del campeonato, em un empate a cero con el Palmeiras.

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El resto me preguntan: – cómo que um cubano chega no Brasil e torce pelo Corinthians? Al principio me gustaba decir que los cubanos y corinthianos nos parecíamos, casi siempre de clases bajas – y ni tanto – luchadores, sufridores que nos gusta ganar más con la raza y la pasión que con las ventajas. Ya después de tanto lo mismo, ya luego les digo que no vengan con boberías: chora porco, chupa bambi, cala a boca sardinha. Quien me conoce de cerca, sabe que con Corinthians y conmigo no se juega. Me sé todos los chistes, me conozco un millón de historias, não venham com viadagem.

¡Corinthians es el equipo del Pueblo! ¡Es el Coringão!

Del Corinthians vinieron muchas alegrías, muchos amigos, muchas memorias.

Benjamín nació y él también es corintiano. Con pocos más de cuatro meses el tenía unas boticas con el distintivo del Timao, estábamos descansando en la yerba, yo lo hacía fotos mientras él se bajaba y besaba el escudo de remos, timón y anclas. Flash, el instante guardado. Meses después en las conmemoraciones del centenario hubo un concurso de fotos, y Benjamín y yo, nos hicimos con uno de los premios. El día que me llamaron para decírmelo fue de los más lindos días albinegros de estos tiempos.

Así aprendí de Natalia y de la familia de ella. Aprendí de Fredy, mi hermano corintiano. Aprendí de los días de juegos, miércoles y domingo, aprendí leyendo, viendo juegos antiguos, descubriendo sus ídolos, goles, y mejores momentos. Me divertí en cada fiesta de fin de campeonato, cantando el himno, las músicas, saltando y gritando até ficar rouco. Lloré las eliminaciones, las pérdidas, las malas contrataciones. Me reí de los adversarios, también amigos y de los enemigos. Evadí la policía en juegos. Compré entradas anticipadas. Fui debajo de lluvia o bajo un sol de más de 30 grados. Corrí para llegar a tiempo, falté al trabajo, pagué caro. Llevé a mi madre a ver un juego en el Pacaembú.

En 2010, todavía tuve la oportunidad de cruzarme con Sócrates. Era un evento sobre la Democracia Corinthiana, un proceso político que atravesó el país en la idealización del equipo corintiano de los años ochenta contra la dictadura militar brasileira. Sócrates, además de corintiano, fue el artífice de aquella época. Un hombre simple que cuando en aquel evento me presenté como el único corintiano cubano del lugar, me interrumpió y dijo “eu também sou cubano”. Yo sé que el defendía la supuesta izquierda cubana, pobre doctor, las cosas en mi isla habían cambiado, ni izquierdas, casi ni cubanos.  Me hice una foto con el hombre, era alguien realmente diferente.

Este año sin embargo fue el momento éxtasis. Corinthians después de mucho esfuerzo y muchos años tratando, conseguía la Copa Libertadores de manera invicta. Juego tras juego, equipo tras equipo y en la final Boca Juniors. La emoción no creo que quiera verterla en palabras. Fueron días felices esos días.

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Hace un par de días Corinthians ganaba del Chelsea e se tornaba nuevamente campeón del mundo en un juego digno de finales. Uno por cero, difícil de ganarse hasta el último minuto. El porteiro hizo milagros con los pies y las manos. Hubo más fiestas en Sao Paulo.

Yo no tuve elección, fue una decisión unilateral de mi destino. Entendí la felicidad y la tristeza de seguir fielmente algo que me es tan distante. Para quien es de otra tierra, un abrazo albinegro que me hizo mucho bien en largos días lejos de mi isla. Yo soy agradecido Corinthians. Yo nunca voy te abandonar. Siempre CORINTIANO.

Bem-vindo a Cuba

Duas amigas, quase desconhecidas, viajaram nesta semana para Cuba.

Cuba, Ilha à deriva, casi desconocida, todos te buscan, ansiando el amor, te buscan, para abrazarse a tu amor.

Quem viaja para Cuba, anda sempre com aquela dúvida cruel de quem viaja onde existe o terror.

“É uma ditadura” – repito. Não discordem marxistas, os utópicos, os académicos comunistas de fim do século XX. Não festejem os que não sabem o que é viver outro jeito que não seja o “quero mais”.

Mas se imagina la isla povoada de pequenos Fidelitos de barba basta, defendendo a risca-faca o dogma de uma revolução de cinquenta anos, manifestos comunistas como bíblia, paz y amor, o Cuban-dream. Desçam cortinas, favor em pé, aplausos à ignorância, morra de rir “dôce”.

Mas logo no aeroporto, você vê sim, muitos uniformados, verde seco, com aquele olhar que já desconfia, simultaneamente acusa, descobre algum medo, te incrimina. Não se usa barba. No exército, diariamente, eu tinha que raspar uma vez, as vezes duas, a barba. Sofri.

Um exaustivo operativo, que começa tempo antes na inteligência militar,  continua naquela pressão do processo de “admissão” na ilha, um que de sorte “ – me puede acompanhar, por favor” . Até sair da sala de imigração corre-se grande risco de enfartar.

O cadete te olha nos olhos.

Lembra-se da última vez que você olhou nos olhos de uma pessoa?  Lembra-se do tremor de descobrir alguém? Ou que pudessem descobrir você?

Um pessoal jovem, a maioria do interior, incitado a fazer currículo na vida militar, jurídico-militar, económica-militar, engenheira-militar, médico-militar. Educados na compreensão de um mundo que existe somente porque, sobrevive ao grande inimigo, que tem seus heróis reais discursando, em carne e osso ao palanque de uma nação, cientes de uma verdade que acreditam ser além da única, a melhor.

O cadete confere que a pessoa diante do vidro, chegando a Cuba pela primeira vez, querendo disfrutar das maravilhas deste país que defende e que cresce e depende dele ali com o carimbo na mão, seja realmente você. Que você não seja um espião dos norte-americanos, que não traga drogas, que acredite nas apostas da Revolución ou que porte uma somatória digna de fazer o país crescer.

Se você não piscar demais. Se não tiverem que pedir “míreme, por favor” mais de duas vezes. Se você não fizer xixi. Se não cuspir no vidro tudo aquilo que você realmente acha de nuestro país e de como se vive ali. Se os pacotinhos de duas quilogramas não estourarem. Se você, boooom, não explodir.

Ba-boom…

Um, track, na porta liberada. Uma puerta branca, estreita, evidentemente gastada, velha, perigosa se deixa abrir. Ainda vai sentir um frio no pescoço, subindo até a orelha, um arrepio do peso do olhar do cadete a suas costas. Um frio que alivia assim que atravessa aquela linha no chão. Uma linha no chão? O que isso significa? Um barulho denso, murmullos em varias línguas transitando, se organizando num “formigueio”  de saída pelas próximas poucas portas.

De repente os sorrisos vindos do reencontro com a sanidade, com um respirar calmo se mistura a novas filas, bagagens de mão, três ou quatro agentes da Aduana. Você relembra as marcações na Lonely Planet, desconfiança de ter riscado algum lugar censurado pelos militares. O livro de Frei Betto com anotações dúbias, mas do que desconfiantes, dos teus medos sobre a ilha. Aquele pacotinho que um cubano, ainda em São Paulo, te entregou para trazer para a família dele. Será que pode entrar com a caixa de Chiclet´s ? Ipod? Os chinelos são “Made in Brazil”. O cartãozinho da Aparecida, as fitinhas do Nosso Senhor do Bomfim, o chaveirinho do Timão. Desconfia até do papel com os contatos daquele gringo no aeroporto de Panamá.

Nos olhos da agente da alfândega, em brilhos coloridos, você não vê nenhum piscar de alerta, só os olhos de se arregalar, um sorriso picante, cúmplice da moça para você. Algo que de simples, ela gostou, sorriu, partiu.

O terrier encosta em você, brincalhão, fofíssimo, te lembra de alguma velha mascote de alguém. Ele cheira, se enrosca nos pés, afasta-se até alguém, brincalhão, ainda fofinho, mexendo a cauda. Você nem suspeitou até que aparecem mais três, soltos, brincalhões, já nem tão fofuchos assim. Cheiram, enroscam-se nos pés. Transitam na esteira onde começam a aparecer depois de uma hora as bagagens. Um barulho mecânico que lembra o caldo de cana, e descobres os “donos” pelas coleiras andando de botas, à dois.  Insistem nos cheiros das malas, mochilas, caixotes que chegam.

No mínimo você se imagina num videogame com pistola de ar e balas de borracha tentando acertar os cães e seus donos. Tudo em primeira pessoa. Você.

Avista as suas, se aproxima e as pegas. Detrás, uma confusão que você não vê começar nem se desenvolver nem terminar. Simplesmente uma turma entre empurrões, os cachorros alertas correndo, alguma voz em inglês ou num espanhol bem cubano.

Não entendes. Não vas a entender. Não sabes que se passou.

Caminas já sem esperanças nem sustos.

Todo preparo emocional para uma viagem deveria acabar no momento que se escolhe o lugar destino. Não há futuro para o presente, nem boletos para outro lugar. Você carrega todo em você, como a libélula quando parte voando para morrer.

No afunilamento, lei dos fluidos, a pressão aumenta e a velocidade diminui; você se depara com uma serie de janelinhas, pessoas um pouco afastadas abrindo suas bagagens em pequenos amontoados de coisas, coisas contáveis que ganham um saldo em dinheiro. Você aí não precisa disso, percebe, e da janelinha um sorriso, e o primeiro sorriso cubano em terras cubanas te pergunta se traz muitos presentes, eletrodomésticos em demasia, coisas de valor que pretende escambar, diamantes, dólares. E você que acha que trouxe só o necessário ganha uma taxa comuns, um valor em moeda conversível – um outro dia melhor explico – que deve pagar ao cambio internacional cubano. Um valor, o primeiro valor cubano em terras cubanas e adeus, sorriso.

Abre-se uma porta, esta mais leve e de vidros. No fundo, detrás da grade, os eufóricos dos reencontros. Em Cuba,  voltar de uma viagem é uma proeza, das grandes. Das sublimes.

Descobres que tem algumas propagandas de bebidas, destino turísticos, muita gente como todo aeroporto de antes. Vês a bandeira. Aquele triângulo vermelho de estrela solitária é a inveja de muitas das nações. Um orgulho que só quem nasceu, viveu ou morreu lá, sabe.

WELCOME TO CUBA.