O real demasiado

Instantes bons e belos junto a você, Benja, sempre são muitos. A cumplicidade dos momentos, que esticam em dias, que hoje são anos. O partilhar conversas sem rumo, no fio da imaginação sem beiradas, na saga de romances ou de vilões imaginados; ou aquela pergunta das trinta e três respostas e todas suas interpretações. Aquelas minhas memórias distantes, trazidas por alguma lembrança, por espelho de consciência, e no agora, revivida contigo, no sorriso e a surpresa.

Porém, há os desafios cotidianos, do ir e o devir, nos prazos dos compromissos, dos tempos alheios, dos encontros marcados. Às vezes, o real demasia, tornasse o muro diante do corpo, a lágrima diante dos olhos, a dor dentre do peito. A raiva esmaga entre dentes, o silêncio de algum grito. Há os berros dentro do punho, no caminho certeiro de alguma parede. O chute sem bola, no ar de uma mágoa. O alarido em tantas palavras, do que não consigo aquietar na paciência. Já arremessei meu pranto na sua queixa, na sua insistência por mi tirar do centro; ou bati com minhas assas, no vento da sua pele. O remorso entorta, de joelhos a morte é solidária, e me abraça a causa de mais uma batalha perdida, entre a razão e os limites, um pai e o filho, a emoção e as dores de uma paternidade vivida na sinceridade.

Esses dias, depois de um desses processos, onde o oco toma conta do tempo, o breu ilumina os gestos, e a pressa domina as vontades, eu te perguntei, Benja, mas bem num questionamento meu; o que poderíamos fazer para nos entender sem birras, para nos acompanhar sem sofrimentos; e você que de longe é mais experto, disse-me, leve e com seus olhos nos meus, “sorrir, pai” e sorrimos.

(Pequena serenata diurna)[para falar da dor exaustiva da] Solidão Interior

A cada instante algum sorriso me devolve o sol do meu olhar: um brilho meu do qual  desconfio a cada instante, de mim.

Em nós persiste a vontade comum de estarmos no lugar exato de existir; e nele, por todas sermos feliz, incluso quando não é possível, quando não queremos, quando não conseguimos.

Assim se vão dias inteiros de alguma breve satisfação, de alguma efêmera realização, de algum ínfimo amor fora de nós.

Estamos felizes?

Assim que emana o escuro da retina interior, o soluço do silêncio, a paz infinita da morte ou a imensa gratidão do amor próprio de si surge o vazio de vida que vivemos por pretender, por agradar, por euforias, por sutis belezas, por palavras de agrado.

Eu escuto um silêncio nas vozes: é o grito da dor da solidão, que apenas dilui-se no abraço de um sonho inédito, no olhar próprio no espelho (prenda a respiração, conte em silêncio hasta cem, se conseguir chegue até os mil), na morte que espero, sem saber, sem querer, sem temer.

Eu tenho saudades de morrer… dentre de mim.

É no silêncio que existo

Eu falo e minto, porque se fosse para ser, eu calava. Entre os outros, o silêncio de mim mesmo é quem fala. As palavras que me expõem, saem compulsórias e me traem contra minha própria vontade.

A tendência é o agreste interno. O oasis  mutado do meu mutante. O novo do eu é o silêncio que desconhece as reais palavras do existir.

Deixei de saber dos versos que compõem os ensinamentos nas palavras. Esqueci da comunicação dos olhares que substituem sentimentos. Desconheço a veracidade do julgamento. O brilho do elogio. A raiva do xingamento.

Escrevo porque doe o silêncio: nunca doeu tanto.

Eliminei os substantivos: nada ou ninguém merece um aforismo. Triscam em mim os verbos, ações conseqüentes do tudo que é falar e ser conseqüente. Remoem-se os adjetivos pendurados das frases, brilhantes crus que cegam o que escuto. Nem tempo restaram as palavras massacradas no mutismo do meu fechamento, porque era o fim delas precisamente o que eu procurava.

Mas é tão banal esse processo, porque as palavras me traem e se manifestam.  Jogam-me na ciranda dos amigos, sorrindo, ou cantando ou fingindo, como se fosse eu mesmo quem ali se manifesta. E fazem o arquétipo do sabido, dos passados consagrados em destinos, dos sonhos feito reais, da dança dos corpos sendo um só quando amamos, do lirismo de estas línguas que me dominam e escrevo, da feliz idade de estar vivo, do desapego amoral do meu individuo, do abraço da morte que inspira estes sentidos.

Porém não é real nada disso: eu minto.

era aviso

Veio uma avalanche aventureira

desgarre de fluxo natural

da gangorra cotidiana dos gestos

acidente causal dos efeitos dos sim,

na inversão negativa da ação.

 

O vento era forte na floresta dos olhos

o medo desenhando contrações de luz

cegava o silêncio

das palavras jogadas à esmo no ar

e o eco da pedra oca da perfeição.

 

Quem segurava a justa certeza?

De quem a verdade do acontecer?

Quem satisfazia melhor a sua dor?

Quanto valia um perdão?

Uma rara incerta aceitação?

 

O choro no fundo do ego

pura vontade de sobreviver

nem houve prazer na dor vital de morrer

meia volta em torno do fim

da sem esperança … sem fé.

 

O cartaz era aviso da morte

final dos dias e dos deuses

não há tempo que volte no fluxo do que não aconteceu

nem gestos sem retórica transmissão

na espiral do tempo de nos.

 

 

Do tamanho do meu amor…

Enxerguei naqueles olhos o brilho do amor que me observava. Um brilho tênue que refletia as sombras e luzes de um arco-íris.

O vôo era cego até aquele encontro. Dei um abraço apertado, sentindo as batidas combinadas daqueles dois corações-seres.

Era o mais grande amor que batia dentre aqueles dois peitos. E eu o sentia num silêncio que desconhecia palavras.

Era um abraço singelo. Fugaz e voraz como o fogo que arde entre chamas de uma lavareda. Era um quente que ardia. Queimando e sanando tudo que acontecia.

Era a dor do abraço. A certeza do adeus.

E assim, seguro entre dedos, o corpo do beijo, cabelos do tempo, aquela umidade de rios no meio a penhascos, aquela pele basta de campos e bosques e altas montanhas, a imensa caverna do eterno, aquele refúgio donde a vida se fingia permanente, e essa dádiva de me saber efêmero diante do amor, a paz do instante, a morte do eterno, e a dor do distanciamento.

E no instante da brisa geada entre um corpo e o outro, o momento do aquém e da ida, um continente se abrindo viagem no oceano, assim como a folha se aventura no vento, a semente estourando o caroço da terra em incrível crescida até os céus, uma dor de mil séculos, do filho no ventre, ou pior, muito antes, nunca nascido.

Era a dor de mais um adeus, do tamanho do amor que já fora. Insensível o destino de amar desmedido. Sangue nos olhos, pingando lágrimas destemidas, raivas silenciosas e desejos contidos.

Havia que aprender o silêncio do monge.

A paz do desterro.

O trino do pássaro na janela fechada.

Não haveria primaveras, nem tampouco perdões.

 

Crônica para um adeus.

Se eu for embora – ou se já fosse – não pense mal, não reaja. Sou um animalzinho callejero que transito a desdém pelas beiradas. Vou caindo pelos cantos como chuva na ladeira, como sombra que esparrama no fim da tarde sobre o asfalto. Eu não sou nem isso. Sou de uma dor terrível que não sossega nem da trégua: a poesia ou estes textos que tento, são a plena dor que de mim foge, e não adianta segurar o sentimento, pula fora, jorra vento na rosto de mim mesmo. Não me vê hijo, deve ser que estou sorrindo no outro canto da sala, ou chorando detrás de ti mesmo, segurando-me mais forte no teu abraço esperando cair a última lágrima.

Eu disse, e tento, tentei com minhas poucas forças meus intentos, sempre banal, sempre pouco útil, pouco ágil para me converter no real que precisamos. Eu tive fome. Eu tive noites solitárias no deserto desta cidade manifesto, cidade de compras bem pagas, de bens refeitos, hereditários e de  créditos. Eu vim com pouco mais que uma fantasia, vestido de uma paixão pouco vestida, de uma ilusão macabra e paguei o preço de dizer adeus a todo que tinha. O que era para ser, assim foi feito, refeitos contratos com a nada, e disse adeus a qualquer cadeira que o destino inventara para o meu sossego. E disse adeus, a violência do silêncio, à magoa do amor partido ao meio, disse adeus em silêncio, calado com o pouco que no meu colo eu aguentava. Não pedi nada. Me contentei com o real, com o humilde e necessário.

Você, melhor que ninguém sabe, as artes mágicas de nossos trajetos, de nossos artifícios para sermos, das caminhadas, dos amigos e amigas parceiros, dos sorrisos que todas e todos nós regalavam porque era verdadeiro o abraço de nós sendo. Precário era o sol e a lua iluminando, porque ainda lhe faltavam ao Astro Rei e a sua rainha, a verdadeira essência do nosso encontro.

Se choro é porque não me cabem mais saídas para a dor. Dor escrita tem um que de beleza, um que de certeza do que tudo vai passar. Mas a dor que doe marca na pele, fere nas lágrimas, mata o coração. Eu fiz o que de mim, eu esperava. Outras coisas, os outros poderiam esperar das minhas lágrimas, mas cada um, você isso terá que aprender, cada um tem o dom de ser aquilo que acredita ser.

Se eu fui embora, não espere, seja, caminhe, procure o seu verdadeiro ser.

A negação de Milton

“Isso não pode, Milton”

Dentro de mim abre-se o oco vazio buraco do medo. Como árvore cresce dentro e fora das minhas paredes.

Milton se fecha nele. Nada lhe causa tanta dor quanto a negação de um desejo. Mesmo tendo lutado por aquela vontade, quando aparece um elemento regulador que o detêm, murcha.

Milton é uma criança. Feliz, abre sua mão para pegar aquilo que…

Diante do não ensombrece, capenga, encosta, resvala e cai, tropeça e quebra, rasga, entorta e abre, afunda, entristece, mancha e sangra.

Dou-me um abraço.  Nesta solidão que vivemos, ele me têm e eu o tenho. A fórmula parece simples, mas dá vários nós. Enrosca-nos.

Mas são suas próprias negações que lhe atropelam, que lhe tiram o hálito e as esperanças.

Milton se ajoelha. Não sente a dor beliscando-o em toda extensão das suas pernas. Dentro dele escuta uma espécie de grito das suas vísceras, pinica e doe.

“Não, isso não vou fazer” me disse…

Eu vejo a morte. Nossa morte, Milton.

E não há maior morte que nossa anulação. O próprio e legítimo suicido de quem desiste e se negando, morre!.

Eu me curvo diante da sombra dele, efímera, e lhe abraço os olhos. Deles descem lágrimas sem mais…

Não dá para morrer toda hora.