O luxo do Sponge Rush.

Hoje eu fiz e comi Sponge Rush.

Na Cuba que eu nasci e me criei, os luxos eram poucos. Nem quem tivesse algo a mais de grana poderia adquirir produtos que os mantivessem digamos, fora do padrão. Ninguém, obviamente, que não fosse das cúpulas políticas ou militares.

Na época que “éramos” crianças, todos tinham as mesmas coisas, ou as mesmas faltas. Os mesmos brinquedos. As mesmas camisas xadrez. Os calçados de couro preto. As mesmas oportunidades de visitar museus ou locais turísticos. Ou mesmo, a falta de tudo isso.

A comida era basta. Produzidas no campo da ilha sob aquele sol feroz: frutas, legumes e feijões. Ou trazidos em latas em navios soviéticos – é, esse gentilício já foi mais famoso – sortiam as prateleiras dos mercados: maçãs, merluzas, vinhos, sopas prontas.

Hoje em especial lembrei-me de um desses luxos pedestres, daqueles que se vivem só nas condições precárias que los cubanos convivíamos, e que chamava sponge rush – na falta de informação sobre Cuba na web, el Bu perguntou a mi amiga Mailín Milanés, dois cubanos do pedaço. La temba quem confirmou o nome correto.. Era uma torrada doce, feita de bolo comum de baunilha. Digo eu baunilha, mas na isla poderia ser qualquer coisa nos paladares.

Naquela época aquele doce me causava uma felicidade imensa. Não sei se era o sabor diferente da forma torrada de um mini pão de forma. Não sei se era a frequência com que eu comia aquilo, só às vezes, sabe! Não sei se era o inglês contido nas palavras que designava aquilo: esse lado subversivo de quem vive afastado de todo do mundo El Capital ou das sequências imagéticas da leitura de 1984.

Demorei em ficar maiorzinho e começar perceber como se construía aquele país; aliás, como se desconstruía. Demorei em descobrir que o luxuoso doce era simplesmente um bolo comum torrado em forno industrial. Eram o fim de sueño cubano.

Eu era um moleque. Todos naquele país éramos. Sponge rush era incrivelmente delicioso, até hoje é.

Hoje eu fiz, e comi.

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Pequenas fantasias de moleque

Um dia, lá na adolescência cubana, tramávamos um camping de uns cinco dias. Só os amigos mais próximos da esquina. Eu não tinha grana suficiente, e não podia pedir aos meus pais.

Faltando dois dias, sem solução financeira, veio a “cabulosa” ideia. Meu amigo Alain, mestre dos bicos e as tretas, e eu, íamos passar um filme em casa para os moleques menores, e cobraríamos um troco pela entrada.

Em Cuba, nem todos tinham videocassetes. Lá em casa, pelo meu pai, tínhamos um, e seria a saída para irmos ao camping com uma grana a mais.

Fomos trocando ideia com os outros meninos menores, nós tínhamos que? Dezesseis anos, máximo dezoito.

Eu pensaria disso aê, pô pagar para assistir um filme, a molecada junta? Razão do que? Não era que ninguém não tinha vídeo em casa. Mais e o filme pornô!?

Isso, o filme pornô.

Minha mãe sairia de manhã, só voltando de tarde. Minha irmã, talvez na escola. Meu pai trampando. Minha avô, no quarto dela ou viajando, não lembro.

O quarto, duas camas, a da minha irmã e a minha. Os moleques “sentem no chão, hein!” tudo comandado. Tem que fazer silêncio. Tenho certeza que a maioria iria ver aquilo pela primeira vez. Eram uns sete deles, mais Alain e eu.

Tinham pago a graninha. O filme passando, a zoeira, zoeira boba de moleques, tiração da pesada, brincadeira, sorrisos o tempo todo. Eu, a tensão e a bobeira, dinheiro de brincadeira para continuar na brincadeira. Alain e eu, rindo a toa e tensos.

Daí, a luz acaba. APAGÓN! SE FUE LA LUZ, COJONES! Lá a eletricidade, acaba do nada e sem previsão de voltar.

Zica, é pouco irmão. Mas, oh, todo mundo quieto. Os moleques, “então não rolou o filme, não rola a grana”, e a luz não voltava, imagino que alguém foi ao banheiro, tiramos onda, todos tensos, e felizes. “Peraí, não é assim não!” e a tensão tomando conta, subindo, dominando.

A luz volta. Ufa, põem de novo. O filme tá rolando, na boa. Eu e minha pequena fantasia de projecionista de filme. Eles, a maioria, assistindo pela primeira vez um filme pornográfico. Nós dois, a grana fechada. O camping resgatado.

A luz vá de novo ainda com o filme sem terminar. Eu falo “bom agora já era”. Eles reclamam, esperamos um pouco, e como não voltava, combinamos de terminar aí. Abro a porta, e quase já na saída de casa, minha mãe chegava.

Ela conhecia todo mundo, meninada da rua e do bairro. Saímos na boa.

Sexta feira, rolou o camping.

A vez que a policia me chamou para depor

Intimações policiais são comuns em Cuba, do tipo político-censor, repressor.

Uma vez conheci um grupo de norte-americanos, estudantes de uma faculdade que estavam de visita em Cuba. Tinham se dividido por temas de pesquisa. O rapaz que conheci, teria que pesquisar sobre a saúde em Cuba, as experiências de missões médicas, ou a Escola de Medicina Latino-americana, com sede em La Habana.

Durante uns dias levei ele conhecer amigos que trabalham ou estudavam medicina. Levei-o em um hospital. Depois conhecer o consultório médico do prédio onde eu morava.

Ele fez suas conclusões e voou para Boston.

Dias depois, um oficial esteve na minha casa e entregou uma citação para os dias próximos, na estação policial do meu município.

Rolou aquela tensão em casa de eu ter feito algo errado, mil hipóteses. Fui lá.

Numa daquelas salas clássicas de cinema americano policial, ou de qualquer ditadura militar, um policial à paisana, tipo inspetor, fez-me várias perguntas. Respondi sem muito medo, e deduz que aquilo tinha relação com meu tour com o garoto norte-americano.

Naquele ponto, já eu achei aquilo tudo uma palhaçada. Alguém, entre as mesmas pessoas que tínhamos entrevistado, teria advertido daquela projeto dele, a policia.

No final, o cara fez-me a proposta: quer trabalhar para nós? No meio artístico, tem muitos intelectuais, dizia, que não são a favor da Revolução. Sabiam que eu era do bem, dizia, que seria muito valioso para a defensa das Conquistas, dizia, do Socialismo.

Falei que não cooperaria com nada. Que eu já tinha vida para cuidar, projetos, enfim.

Anos depois, amigos meus, próximos alguns, contavam dessas experiências. Tinham sido abordados, chantageados, incriminados, perseguidos. Na real, nunca saberíamos ao todo, quem desses próximos trabalhavam de fato para os esquemas de segurança política do governo cubano.

A brincadeira era: que de cada quatro cubanos, um era informante do governo. Mas de fato, isso não era uma brincadeira, pois a policia trabalha com esse tipo de abordagem, repressor e chantagista.

Muitos dos meus amigos daqueles anos, os que ainda vivem na ilha, tem sofrido durante anos, citações, sequestros e intimações por parte da policia, o braço militar opressor do governo cubano. Escudados sempre no discurso de que estão cuidando o patrimônio revolucionário cubano em detrimento da falta de liberdades individuais.

Intimação policial feita á blogger cubana Lia Villares

Intimacão policial feita a blogger cubana Lia Villares

Não há diálogos. E de fato, acontecem sequestros, pedidos de apresentações em delegacias policiais, escutas telefónicas, pressão nos centros laborais ou meio artístico, censura na mídia e outras práticas comuns de ditaduras militares ou ideológicas.

Tem uma luta legítima, popular, cívica que pede entrar no diálogo com o governo que omite, a través do argumento de que estás pessoas são comandadas e patrocinadas pelos americanos, em discutir sobre os rumos de uma nação. O governo não só omite, senão reprime, coage e ameaça qualquer tentativa de mudança ideológica ou politica.

 

Se a seca chegar … (e outras memórias líquidas cubanas)

Nestes dias que a seca acossa a grande São Paulo, que o Sistema Cantareira está em colapso, que chove muito, mas o nível da represa não aumenta; veio a duvida: se faltar a agua, vão a distribuir a agua por classes sociais, por bairros e vilas e comunidades de igual maneira?

Não imagino os prédios de Tatuapé e Higiénopolis ou da Pompeia sem agua. As madames, os filhos das Facú, os maridões de carrão, os filhotinhos de cachorro da alta classe burguesa economizando agua no seu dia-a-dia.

Em Cuba, desde que tenho lembrança, agua não era corrente nas torneiras. Ao menos, na minha casa. O agua entraba um dia sim, e um dia não. De tardinha, até a meia noite. Nesse intervalo as pessoas precisavam estocar agua do jeito que cada família conseguisse, e assim poder chegar no próximo dia do sim.

Entre os dois dias de agua, cada um devia economizar agua, mas aquilo durante os anos tinha-se tornado natural: lavar louça com um fiozin´ de agua, lavar roupa só nas noites nas quais a agua vinha direto na torneira ou tomar banho de balde e caneca.

Lembro-me disso especialmente nesta seca paulistana: eu esperando uma jarra de agua ser aquecida no fogão, depois misturada com agua fria da banheira que permanecia sempre cheia durante os dias de não entrar agua.

Era uma odisseia familiar.

Nalguns dias de forte calor de verão, de estes veranos brasileños ou daqueles distantes cubanos, eu já teria alguns anos de consciência, no fim das noites, depois de eu tomar banho, já limpo, parava de fazer barulho e colocando pouco a pouco o corpo na banheira ficava lá pensando, deitado dentro da agua da banheira, agua que o resto da família usaria até a agua entrar novamente. Era safadice de criança, sem pensar nos outros, só me divertindo.

Hoje está quente e parece que vá chover. Fiquei sabendo que a agua aqui em casa vem da represa Billings, ou seja, não tirarei agua dos condomínios da Pompeia, Tatuapé ou Higienópolis.

Mas as minhas memórias de hoje continuam levitando: na hora que a agua acabar – se acaba – , vão tirar agua primeiro nas comunidades ou nos bairros das grandes famílias paulistanas?

Nuestros Parques

Esta viagem à semente-ilha está chegando ao fim. A minha própria viagem. A nossa, Benjamín. Chegamos aqui, terra flutuante-à-deriva agradecidos de tantos e tanta ajuda e compreensão. Agradecidos de muito esforço, e intento, e força, e desejos de vir, viver.

Ontem, Benja – hoje o texto é para você – estivemos na pracinha da minha infância. Para ti, qualquer parque é diversão suficiente. Mas esta pracinha era uma pracinha simplesmente diferente. Os brinquedos eram velhos, mais de cinquenta anos. Os mesmos brinquedos da infância de teu avô Ramón, e os mesmos brinquedos da infância de teu pai, eu. Ontem, teu corpo era o mesmo corpo de nós três juntos, correndo na mesma praça e no mesmo corpo e no mesmo tempo. Eu, testemunha de tua alegria, era alegre de te ver.

Parei para (te) observar. A terra era árida de sertão. O flamboyant estava cheio de folhas e cheio daquelas vagens secas com sementes – maracas? – e era o mesmo flamboyant do meu passado (flamboyant tem esse divino verão de ficar verde, depois seco só de outono com as vagens, depois nú de tudo e de inverno, e logo enche de flores vermelhamarelas da primavera).

Aquela praça oval era igual de charmosa, e eu, preso à memoria, era novamente a criança que alguma vez por ali corria. Perto daquela praça, fazia eu minhas primeiras encomendas familiares, quando com pouco mais de oito anos, ia comprar leite, manteiga e o queijo na leiteria. E fui adolescente, novamente, naquela praça oval de festas de rua, namorando e beijando minha primeira namorada.

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Você me disse ontem “você viu algum gigante por ai?”, e yo sorrindo, respondi que ainda não tinha visto, e era o eco torto do espirro de um desses velhos quase moribundos nalguma das casas ali perto. As vezes a imaginação é a melhor companheira…

Nas árvores, los gorriones cantavam seu trino zonzo, e uma brisa de inverno caribenho assoprava as ramas das árvores sobre nós. Você repetia movimentos infinitamente nos aparelhos como quem aprende um gesto, assim que se cresce adulto, assim que se fica grande, assim que se faz um pai. Sob tua pisada descalça as folhas quebravam-se em pequenos pedacitos, e o som delas era o barulho de quem agradecia ser pisada pelos teus pés.

Você foi feliz de correr independente naqueles barulhentos brinquedos de tantas décadas: el barril, la canal, el columpio, el cachumbambé. E Você e eu, yo y tú, cantávamos.

Cachumbambé

La vieja Inés

Que fuma tabaco

Y toma café. 

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La Habana aos Meus Pés

Caminho por Habana. Cidade montada e remontada sobre antigos e novos pesares. Revestida de ilusões e magias. Cidade de poucos caminhos, tantas veredas e tantas e tantas verdades.

Em La Habana não existe soledad.

Nestes dois meses de diáspora voltei à ruas conhecidas, esquinas onde bebi e amei, lugares que lembro com o único perigo de querer ficar.

Muitas das pessoas que antes conhecia hoje vivem em outros países: como yo. Tivemos a sorte de cruzar os mares e ver amanheceres e pôr-do-sol num outro lugar. Nem sei se todos acharam a felicidade. Por exemplo, eu tive um filho e aprendi o português. Para alguém que escreve a vida, não há nada melhor que aprender outra língua, outro jeito de transcrever a solidão interior.

Em dezembro, muitos dos que foram embora voltam a nosso país. Fazer as contas do aluguel, deixar pago o celular, abastecer com cereais e leite para o dia que voltarmos. Alguns podem não ter visto este céu há muito tempo, e eu tardei quase três anos em voltar aqui.

Eu fechei minhas coisinhas em caixas, lacrei-as com palavras que me lembrassem do que  iria encontrar ali três meses depois. Acabou o contrato da casinha no Morro (sim, aquela festinha cubana não será mais por lá). Conversei possíveis retornos aos projetos nos quais trabalhava em Sampa. Troquei tudo que tinha na conta por dólares num dia de péssima cotação. Dei um abraço no meu filho, um beijo no meu amor e me despedi.

Eu nem imagino as peripécias de cada um dos que voltaram, só conheço a minha própria loucura e as escolhas que fiz. Como é a emoção de reencontrar com a família? Como é descobrir que agora tem filhos os amigos que antes brincavam de esconde-esconde?

Que aquela mocinha que uma vez me apaixonei hoje está longe de ser a mulher que desejo. Que não era tão delicioso o sorvete que tomávamos na adolescência. Que certa distância hoje é bem mais curta do que antes imaginava seria. Que as pessoas e até os amigos, por causa do capitalismo que renasce em Cuba, dão mais importância ao dinheiro e ao trabalho que aos encontros e à amizade. Que hoje quem tem, tem e outros que não tem, então não tem.

Nestes dias de intensa revisitação interior, reencontrei muitos amigos que tiveram que decidir ir-se a outro país. Todos eles estavam muito felizes, e yo. Havia nestes encontros uma euforia por reviver o abraço partido pela distância, as novas experiências e as solidões. Mas tenho a certeza: toda felicidade convive com muita tristeza para poder existir. Só cada um de nós, separada e internamente, sabe o que havia de ter vivido ao deixar esta ilha. Para viver como emigrante há que se deixar morrer a pessoa que nasceu naquele outro país, e não há morte que não leve lágrimas e lembranças, cinzas e saudades.

Por enquanto, estou de férias da vida real e o rum continua sendo o mesmo rum. As esquinas não mudaram de lugar. Alguns que foram estão de volta e os posso rever, e quem não pôde ou não quis ir ainda continua por aqui.

Logo menos está viagem acaba… É viver para escrever!

Brújula de nortes por estrellas

Es fin de año de este 2013. No recuerdo exactamente lo que escribí por este tiempo, hace un año atrás,  pero sé que entre pasiones y el amor, sufría con una soledad muy mía, que me hacía daño interminablemente. Sufría porque entre otras cosas, reales, cotidianas,  pedestres,  el dolor que me invadía yo me le entregaba enteramente, sin desatinos , consciente.

Mi hijo, Benja, tal vez nunca sabrá cuanto me salvaba de la catástrofe, o lo sabía en mi abrazo o en un llanto escondido en un cuarto donde no había nada que esconder.

Recuerdo que por este tiempo, en aquella ciudad increíblemente feliz que es São Paulo, la gente, mis amigos casi todos, se distribuían destinos para la felicidad de cada uno. Entre correos electrónicos y llamadas telefónicas, yo sabía que mi destino-lugar era la soledad.

Y aquella soledad mortífera se vistió de una sutil pobreza y fuegos artificiales ajenos en un pequeño alquiler de un barrio distante. Entre aquellas blancas paredes de luto tardío, se despidió el dolor de toda una vida, y nació, aún sin saberlo, la nueva felicidad de la soledad.

Quien se detenga entender las tristezas, y aún más las felicidades, difícilmente sobrevivirá para escribirlo. Esas dádivas hay que agarrarlas con los dientes, y de pecho abierto, vivirlas hasta cierto final…

Un año después, quemdiabosescreveria?, la brújula cambió sus nortes por estrellas, constelaciones de ojos y danzas, y abrazos de intensa candidez. Llegué a La Habana de esquinas malolientes en el vuelo manso de una brizna en el viento. No sabía cómo habría de ser este viaje – ser yo – porque el presente no tiene sombras ni soles en el reloj del tiempo, y porque la paz de espíritu no teme balancearse sobre la cuerda floja de la vida. Y aquí estoy yo, con los segundos suspendidos en instantes, la felicidad amontonada en los pliegues de mi piel y los amigos escondidos en recuerdos.

Y nunca hubo tanta felicidad en mi Habana: deliciosa y calma, calurosa e infame, maleducada y rara, machista y policíaca, insistente, autoritaria, bailarina y borracha, prostituta y leve, con faltas de ortografía en sus paredes y ómnibus que nunca pasan, limosinas de hierro de otros siglos, e iglesias donde se predica el oro, el tema de los negocios y las “balas”, y los carros que se venderán por toneladas, literatura marginada y poetas que se dedican a inventar traumas, músicos que travisten sus mecánicas, y familias enrevesadas por el pan, el vino, los peces y las aguas, y la diáspora necesitada de calor, y de felices pascuas, como yo.

Entonces, espero entre estas tantas paredes blancas – que no lo son – los fuegos artificiales de los otros, ajeno a tanto y tantas alegrías y tristezas que me aguardan, porque el presente no tiene sombras ni soles en el reloj del tiempo, y porque la paz de espíritu no teme balancearse sobre la cuerda floja de la vida. Aquí estoy yo…

 

drelos

Ilha à Deriva


BLOQUEO

 

O tempo não passa… para. O tempo é da gente, dentro… não passa. O tempo de ilha da gente, dentro, não passa… para. Não há tempo na gente que passa, da ilha sem tempo que para… e não passa. O tempo não espera a gente, a ilha que passa, o céu colorido de azul, tingido de sóis e pássaros pretos que cantam… o tempo.

Sentado no pé das memórias, tingindo de preto meu canto o azul, pássaros que passam sem tempo não aguardam… e dentro da ilha, o tempo não passa.

Para gentes, eu sou uma ilha sem pássaros e no azul sem sóis, canto o tempo que passa e não para… eu.

Cadê a ilha guardada no tempo e o azul tingido de pássaros? Cadê as memorias cantadas por gente sem tempo? Cadê o abraço de pé colorindo cantos que passam? Cadê aquele outro eu que antes passava, e agora não passa, nem aguarda? Cadê o tempo, os sóis, as gentes da ilha?

PARA!

Antes do choro, abdico da culpa. Não há tempo para arrependimentos na ilha que o tempo não passa. O tempo é de gente que passa, e não para, sem tempo de nada. E gente que não canta, nem enxerga os pássaros pretos nem sóis azuis nem ilhas que param o tempo que a vida não para, nem o tempo – se existe – não aguarda.

Eu – ilha-à-deriva – não paro… TEMPO ME PASSA!

Voo 758

O que é que será eu não sei. Está vez, de mochilas a travessia é em direção da ilha.

Marco a data no peito… 4 de novembro estou à reencontro daqueles que há anos só moram no meu peito.

Até aqui o desafio foi longo, fundo, largo… quatro coraçoes palpitando no centro da vida.

Deste lado, continente, vão ficar aqueles que me abraçaram todos estes anos… não há mais palavras. Estão chamando para embarque…

LUZ!

O dia que Milton soube de nosso retorno a Cuba

Quando Milton soube que iriamos a Cuba, ficou em silêncio por três noites e dois dias. Não aceitou nenhuma comida nem o vi tomar banho.

Na manhã de sábado, gritou pela janela até perder a voz. Os vizinhos se assustaram e vieram falar comigo.

Domingo pegou um caderno e rabiscou palavras longas frases sem vírgulas p3ns4m3ntos pOEsIAs sobre o a.b.s.u.r.d.o. que era ser HOMBRE, fez a tradução ao português de um poema de José Martí que nunca olvidó. Só parou de escrever quando o lápis gastou.

“Que porra que vamos fazer nessa ilha?” – eu desconhecia a resposta.

Estava preocupado com ter ganho um sotaque paulistano. Quais eram palavras para aquele entardecer no Malecón? Sabia que tinha esquecido alguns caminhos habaneros. Onde andariam seus melhores amigos? Como chamaria aquela muchacha que um dia o esquecera? Haveria tempo para rescrever estas palavras num perfeito cubaneo?   

Era em La Habana – como eu – que o Milton tinha nascido. Lá que tinha transado pela primeira vez com uma mulher. Lá tinha amado, sofrido, amado novamente, sofridamente de novo. Foi lá que tinha escrito seus primeiros versos, e sem sabê-lo ainda, começado esta vida de poeta maldito, poeta bem vivido, meu alter-ego.

Olhando o Milton nos olhos, lembrei-me de toda minha vida vivida naquela terra flutuante-à-deriva… era longa a história nos fundos escuros no meio de tantos fios de sangue ocular.

Me aproximei devagar, parecia que ambos os dois tremíamos… Foi ele quem me deu o abraço.

Eu chorei.