versos de viento huracanado

Día, calor extremo, calma

alarma vecina del proximidad de un ciclón

categoría avasalladora por ahora desconocida

como el miedo y su más fiera condición: la muerte

el tiempo acalma

entre compras y cuidados de la casa

estantes rellenos con lo que falta

¿velas? ¿galletas? ¿vegetales congelados?

un vino de arroz, dos botellas de ron a granel

unos huevos luchados en la cola del mercado

frutas de estación si sobraron,

si algo quedó

si compramos

unas tablas asegurando una ventana

los vidrios con plásticos, en cruzes al centro

el radio encendido

en el paso a paso de las noticias que se repiten

la vecina grita “se fue la luz”

y el oscuro abraza la tarde

vientos huracanados se aproximan de la costa

el cielo nubla

el viento arrasa

palmas se tambalean

árboles enteros se vienen abajo

vuelan plásticos, maderas… y los sueños

una llama encendida sobre el lugar más alto

un silencio cortado por el aullar de las ventanas clausuradas

el dominó en el centro

un café dividido cruzando la sala

los cuartos cerrados, evitando lo mínimo de revuelos

la oscuridad agarrando los recovecos

un ruido más alto, lejos, desconocido

como explosión que incendia la noche

las alarmas son de abrazos

una calma a pesar de este peligro

no hay teléfonos

ni electricidad

y el agua ya fue cortada

entonces, nos queda la pausa de la familia abrigada

los chistes de siempre

un buche de alcohol, con el doble nueve en la mano

trancado,

algo friéndose en la caldera de aceite caliente

un café colado, dividido entre tantos

la vecina gritando “que es esto dios mío”

la vela se gasta en el último lumbre

un libro en la mano, leído en voz alta

estos versos – que aún no he escrito, quizá la memoria adelantada

la próxima vela y los vientos se calman

ya es la mañana,

un gris ceniciento

los árboles tumbados

los cables

la gente que anda en la calle,

buscando entre escombros pedazos de cielo

es más una ventisca

infierno terreno,

la astucia de tiempo

los nuestros, en casa, tranquilos

a espera del próximo sol

sin estos versos de viento huracanado

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Fidel: comandante ou ditador?

… toda memória merece uma lágrima e um sorriso

 

Eu nasci, e ele estava ali; provavelmente presidindo um discurso da fé patriótica versus o medo do ataque inimigo. Era o ano de 1980. Anos depois, nos primeiros agostos da minha infância, lembro-me vagamente de uma imagem colada, em cores gastos de chuva, na porta de casa; um adesivo do líder verde-oliva, perto do olho mágico que brilhava na calçada.

Hoje esquecido na larga memória, as primeiras vezes do nome dito, no clarão dos ensinos escolares, do herói militar, seguidor dos ideais do Apóstol – nome que se dá José Martí, principal pensador, poeta e intelectual cubano neocolonial – , contra à tirania militar nos anos 50, o salvador, triunfante, o quase agradecimento pátrio-paterno, por ter crescido no seio da minha – e de todas as outras – família, merecedores do processo libertador, emancipador de uma nação, da minha ilha, e por conseqüência histórica e geográfica, o também devir de um continente e de um processo político regional. Ele era essa rara espécie de deus que governa os dias e os destinos, como os Deuses já guiaram os romanos, os gregos e ora,  guiam tantos os todos humanos que sobre a Terra sobrevivem. O Deus nas paredes do meu país levava o nome de Fidel.

Na escola havia um retrato na direção e outra na secretária. No mural de informações sempre uma das frases das tantas proferidas. Murais de rua pintavam seu rosto barbado. Na televisão, era garantida a íntegra de seus discursos, a repercussão das decisões da Revolução que ele encabeçava, no âmbito de nossa ilha e no mundo afora.

Nas noticias e no governo, Fidel estava em todas as conquistas revolucionárias, como idealizador e condutor. Nas ruas, era também responsável por tudo quanto era de ruim na sociedade, numa clara isenção da responsabilidade pessoal dos indivíduos.

Nas casas, no recôndito do silêncio familiar, entre uma refeição e outra, entre um apagão e o próximo, entre as filas do bairro, entre as notícias da televisão estatal, nos ônibus escassos e muito baratos, nas comemorações, praças públicas, eventos políticos, nos bastidores da sociedade que aceitamos – as várias gerações de cubanos– havia uma sensação de gratidão e decepção pelo grande pai Castro.

Era dele, a responsabilidade pelos logros sociais e os dogmas ideológicos na educação. Pelas medalhas nas Olimpíadas e pelas deserções nos Pan. Dele eram os destinos dos médicos em países amigos e pela falta destes no posto do prédio onde eu morava. Eram dele, os que estudavam nos países do leste europeu, e os que morriam em balsa tentando chegar aos estados norte-americanos. Eram dele, os refugiados das ditaduras latino-americanas e dele, os cubanos exilados políticos em Miami.

Eram as crianças sem fome, os adolescentes sem sonhos, um povo assalariado, uma diáspora raivosa, alguns intelectuais do terrunho e outros tantos já emigrados, alguns poucos com tudo bem arrumado em terras e imóveis, a ausência de milícias ou paramilitares, os militares no comando, zero narcotráfico, uma imprensa do governo, um bloqueio dos norte-americanos, todos os países não-alinhados, sempre as ótimas alianças políticas, e ele, grande líder: El Comandante.

Desde pequenos ouvi falar do fim daquela dinastia – há palavras para tudo! –, e com isso brincávamos naquela adolescência tardia da crises dos noventa, entre conversas quase silenciosas nos fundos das casas, ninguém se acostumava com o desacerto do insosso futuro que nos esperava, éramos o povo-à-deriva, o real maravilhoso da invenção do que ainda não era e nem seria. Acho que por lá, muitos  desejavam aquele final do deus humano: “o que será de nós, o dia que Fidel morrer?” ou na aquela forma mais intuitivo e primitivo desejo da morte, em profundo medo da nossa própria morte? essa mediocridade quando se detém o poder das próprias e justas ações individuais, em detrimento do poder de um governo, e suas leis.

Todo ano que virava, a duvida vinha: “será este ano que el Fifo vai morrer? ” Era um desejo de ver a monotonia mudar de rotina, não por vontade própria, nem ação popular, não por proposta da força de um povo, o meu; ainda bem menos, ou pior; no comum da morte de um ser, neste caso o mesmo poder em pessoa, um rei, um herói, um soldado, um comandante, um ditador, um militar, um pensador, um manipulador, um estadista?

No ano 2000 ou pouco mais – no tempo da minha memória-vitral colorida e orquestrada– o Fidel, havia ido re-inaugurar uma escola na esquina de casa onde eu morava. Foi a vez que mais próximo estive daquele homem: o bairro estava mobilizado para a ocasião, carros policiais circundavam a região, a avenida foi fechada, a multidão fechava um círculo entorno a escola. Cheguei lá, lembro que por impulso da minha irmã ou mãe, não sei bem: lá estava descendo, vestido de verde, alto e imponente, cumprimentava e despedia-se acenando adeuses – a los dioses? Em mim, lembro da energia que vibrou ao meu redor e me contagiou, era um calafrio natural diante da presença humana de um deus.

<< Fidel Castro morreu >> simples assim. Pessoas morrem, não era deus nenhum. O mundo se manifestou, e depois obviamente se dividiu. Os cubanos, a maioria, se dividiram: COMANDANTE ou DITADOR?

Pensei em meus amigos que ainda moram lá – Cló, tú? Tan triste febril, tan festeira –  haveriam comemorado a morte, gritando trás janelas fechadas com medo de ser por alguém recriminado? Minha mãe, meu pai: haveriam chorado a paz de todos estes quase sessenta anos, os anos doados, os plantões cumpridos, o serviço militar, as horas voluntárias? Minha sobrinha, que hoje ainda na escola estuda que o Fidel fez a Revolução que garante ela estudar numa escola pública, a mesma escola onde eu vira de perto ao Fidel;  como seria para ela presenciar a morte de um deus de suas páginas. E minha mais nova sobrinha, menos de um mês de nascida, o que será que ela saberá deste dia, que lhe contarão nos livros de História, ou nos mesmos, a família.

Eu tive um dia desses na rua: sem celular, sem jornal, sem televisão. Não acompanhei os debates entre as hordas  nas redes sociais. Eu – neste minuto, três dias depois dessa morte – ainda não me escrevi uma palavra com minha família na ilha. Eu não senti nada especial naquele instante sobre a morte daquele ser. Não havia mágoas algumas. Também nenhuma gratidão. Pensei que talvez um dia, meu filho me perguntará como era aquele homem, ao final: “que o tempo passa, e tudo se esquece, ninguém ficará para memória ulterior”.

(Três) Ingênuas roubadas

O que me roubaram não foram às memórias, e sim o momento sadio feito peçonha e raiva; com a deixa, uma sensação de vazio e de injusta exposição, um furo, sempre um abuso…

Eu tinha 6 anos, e cursava a primeira serie de uma escuela – Pre-Eide Alfredo Sosa – que tinha como intuito incentivar os esportes nas crianças e descobrir habilidades esportivas. Minha mãe tinha me colocado lá, indicado pelos médicos por causa da minha asma crônica. Na falta de aptidão para saltos ornamentais, única modalidade aquática que ainda restavam vagas, eu terminei matriculando no fútbol.

Nosso time treinava nos fundos do campo de baseball, que era ao contrário do que no Brasil, o esporte mais popular, reservando ao futebol o raríssimo posto de esporte alternativo, contracorrente até. No meu caso tudo a ver.

Num dia de treino comum, eu fui pegar algo na minha mochila, e um cara se aproximou em bicicleta, do outro lado da grade, que dava a uma avenida. Ele me chamou, e depois de algumas palavras, elogiou a mochila de um colega, e pediu para eu mostrar para ele. Lembro de ter jogado a mochila por cima da cerca de peerless, com a força de tamanha ingenuidade que até consegui que voasse certeira até ele. Ele pegou a mochila, e de bicicleta, sem olhar para mim, foi-se embora…

Eu havia ganhado uma bicicleta do meu pai. Era uma mountain-bike vermelha vinda do Canadá, para os tempos era certa ostentação, que eu cuidava muito, mas porque era muito confortável. Durou-me pouco…

Uma manhã, conversava eu com uma amiga, que havia encontrado bem na frente da minha casa, e aparece um obrero que vem saindo da casa de uma vizinha,e oferece uma ajuda de custo se eu ajudar ele trazer um vaso sanitário para instalar, “ali na Aida, estou fazendo uma reforma para ela…” e convida à amiga, para acompanhar o rolé, e “… com sua bicicleta a gente consegue trazer num carrinho, puxando, fica mais fácil.”

Então, eu no flerte com a amiga, meus adolescentes anos, aceito o bico, e descemos a ladeira de casa: o carinha andando na frente, a menina, a bicicleta e eu, detrás, na nossa.

Caminhamos vários quarteirões, zigzagueando  ruas avulsas, até que o homem avisa que chegaríamos nos próximos vinte metros, “tá vendo aquele carro?” e se aproxima, pede a bicicleta “ … deixa eu aproveitar essa descidinha, posso testar a bicicleta?” e minha ingenuidade solta da mão o guidão, abraça a menina, e vejo mi bicicleta roja ir-se embora, e eu ainda perplexo, duvidando, espero definitivamente ver o cara desaparecer na próxima esquina…

No aeroporto antes de embarcar, a última vez que estive em Cuba, com as malas entregues, os carimbos no meu passaporte, me informaram, que mi hijo por razão de dois dias estava ilegal em nuestro país e que eu devia pagar um novo visto de turismo, para ele poder deixar a ilha.

Sem alternativas, fui fazer os novos pagamentos, e na fileira para trocar dólares pela moeda conversível cubana, um estrangeiro, de sotaque europeu, jovem, simpático, me diz que não tinha como tirar dinheiro com seu cartão de crédito, confirma que ele embarcaria no mesmo vôo que eu, mostrando a na tabela de embarques, e que “…em Cidade de Panamá, assim que desembarcássemos ele me devolveria a grana”.

Minha ingenuidade segurava a mão de Benjamín, e a outra liberava as notas que pagavam mais um descuido. Atravessamos os controles de alfândega, e chegando na sala antes do embarque vejo o menino, sentado, calmamente mexendo no seu notebook, escuto a chamada do vôo, e eu apenas me preocupo pelo meu filho e nossa já difícil despedida daquele país.

Entramos no avião, e ainda esperançoso, aguardo com o olhar, todo mundo se sentar. Ainda, percebo à espera, por um erro, de não ter visto o ladra tomar assento, e mais duas horas sobre o Caribe, até chegar no Panamá…

Lá no aeroporto conexão com o Brasil, vejo partir aviões em direção da América toda, infinita… o cara não apareceu.

Olhe ao Céu

“Olhe ao céu enegrecido, a ausência de lua, o mar escuro estrelado. Lá distante, brilha um astro sobrevoando entre as tantas um caminho certeiro através do universo”. Essas poderiam ser as palavras do meu pai, na poética da memória, vinte anos depois daqueles dias em La Habana.

Depois que o muro de Berlim caiu e a União Soviética desapareceu dos mapas e de nossas despesas, os cubanos conhecemos uma das piores crises econômicas de nossa historia: falta total de comida, transporte público praticamente nulo, crises nas relações pessoais, empregos em falta, prostituição renascente, e longos períodos sem eletricidade.

Apagões de mais de doze horas alternavam com o mesmo período com luz elétrica. Cidades, povoados, regiões inteiras eram acessos ou desligados. Em La Habana, uma grade semanal dividia municípios entre os “encendidos” ou “apagados”. De noite, a escuridão tomava conta das ruas e esquinas, dos céus e dos sonhos.

“Olhe pro céu. O escuro da noite sem lua. O véu enfeitado de pequeníssimos pontos brilhantes. Olhe fixo, alguma coisa acontece, e se mexe. É uma estrela? Um planeta cintilante?” Éramos meu pai e eu, sentados na calçada olhando pras únicas luzes que nos restavam. Sorriamos daquela felicidade simplificada, ínfima como o brilho que o céu nos regalava.

As noites eram esticadas com as conversas dos vizinhos que puxavam cadeiras, sofás e travesseiros para a calçada. Fugiam do calor insuportável de dentro de casa. As crianças corriam na rua, jogando de esconde-esconde, ou simplesmente sentavam a ouvir as histórias dos adultos: histórias do mesmo que se contavam cada dois dias, alternando entre “apagados” o “encendidos”.

“Olhemos o céu. Aquilo que brilha e se mexe não é um astro. Uma estrela cadente? Um sol errante procurando galáxias sem luz? Um planeta viageiro a procura de nos? ” Assim, a cada dois noites, meu pai e eu anotávamos – na memória – a cada novo satélite que descobríamos  no céu habanero – você já viu satélites? aqueles pontinhos de luz que se mexem entre as estrelas?

Ali, a cada nova descoberta de um desses artefatos luminosos, a nuestra euforia iluminava aquele breu do bairro, entre gritos e sorrisos, entre nossos abraços – as vezes minha irmã – assim como é a mesma cumplicidade daquela amizade que até hoje, diante do escuro estrelado, nos acompanha sob o único céu que nos abraça.

Despedidas da viagem*

“Negro, estou indo embora…” a despedida era eminentemente em breve, lhe disse a Meple ainda num abril há quase dez anos, casi diez años. Despedidas naquela ilha-à-deriva eram infinitas ou definitivas: eu não sabia, como poderia eu saber?

Nos demos o primeiro dos longos abraços: um aperto demorado de silêncios, tus cabelos despencando entre nossos peitos, a respiração continua e perdurável de nossos hálitos, os olhos fechados adentrando nos corpos de um, e do outro. Era, seria uma espécie de último e pôstrer abraço.

O tempo havia se detido caprichoso desde então, no primeiro daqueles últimos abraços nossos. Era uma esquina qualquer de La Habana, que hoje não mais lembro, naquela ilha que jamais voltou ser nuestra.

Daquele instante em diante, até que definitivamente minha partida-vinda ao Brasil se concretizou, passaram-se cinco meses “… estamos nos despedindo, Negro” (a memória recria suas próprias palavras, salvo-condutos de auto-afirmação e sobrevivência); e durante aqueles instantes o tempo se encolheu entre as mãos daquele agarre, entre dedos e unhas, o suor de nossa caribenha continuidade, tus dreadlocks y los mios aún sin hacerse, futuros, eram nossos olhos pretos, tão perto.

Ninguém compreenderia nossa despedida solitária, intuída, de finais exorbitantes e misteriosos, sem antes saber da nossa amizade de asas voadoras e de ensonhos. Nadie, talvez, ni siquiera nosotros.

Nos cinco meses posteriores ao momento do primeiro-último abraço a promessa seria cumprida a riste: o encontro é no presente: começa nos olhos, termina no fim do abraço, e será único sem aguardar o próximo abraço porque não há amanhãs na terra dos homens, nesta terra nossa, sua e minha.

Assim fora o antes que seria: vimos-nos sempre como se aquele instante fosse o último de nossas vidas.

E Meple… cumprimos com honra: hoje é sempre ainda: todavías.

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Renaces 

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    Renazco 

    *o título foi dado por você, Benjamín.

Obama, presidente de uma ilha-à-deriva

Barack Obama é o novo presidente de Cuba. Ou ao menos, isso aparentou nesses três dias que esteve passeando com sua família e comitiva pelas ruas habaneras. Além disso, fez discurso histórico no Gran Teatro de La Habana, no mesmo palco onde o Enrico Carusso, cantara lá pelos anos de 1920. Depois presidiu jogo de béisbol entre um time profissional de Miami e a seleção cubana. Ainda se reuniu com alguns opositores políticos do governo cubano.

A política de governo de Obama com relação a Cuba contrasta opostamente com tudo que tem acontecido desde os anos que Fidel Castro comandou sua toma de poder no ano 1959. De fato é tão contrastante que diante dos discursos proferidos em terras cubanas, Obama parece mais engajado com o porvir da sociedade cubana que de fato, seus vetustos comandantes.

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Air Force One antes de pousar no Aeroporto José Martí

O jogo de poder dos Castros – tenho muitas dúvidas sobre a existência ainda em vida do Fidel – é permitir essa injeção de capital que tanto se precisa para manter girando o rotor enferrujado da pseudo-política pseudo-comunista cubana. Depois de ter visto desgastadas as relações com Venezuela, e após o fracasso de tentar atrair investimentos brasileiros de mais peso, Castro preferiu se aliar aos americanos.

Estes acordos com os “yanquis”  permitem várias mudanças em questões de comercio e cooperação, mas que beneficiam diretamente somente as instituições cubanas, que dito seja, pertencem ao governo; enquanto discussões sobre direitos humanos como livre associação ou liberdade de imprensa continuam fora dos assuntos a serem tocados.

Na conferencia de prensa onde os dois mandatários estiveram, foi apenas Obama quem falou, pois Castro não teve nem sequer máscaras para esconder sua despreparação política, sua falta de carisma e compromisso com o povo o qual ele representa, e ainda por cima, tirar uma onda com a figura de Obama – porque aquele gesto que evidentemente caracteriza uma marionete passa longe de ter sido um acaso.

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

Para quem é cubano, sabemos, todo o que o presidente cubano-americano Barack Obama presenciou não passa de um teatro paraplégico com roteiro assinado pela Seguridade do Estado (G2) onde até cada pessoa que ele cumprimentou ou ouviu fazem parte do elenco. Talvez – eu tenho quase certeza – alguns dos opositores presentes na recém reinaugurada Embaixada dos Estados Unidos em Cuba fazem parte das hordas castristas de repressão. No estádio de béisbol onde os Tampa Bay derrotaram a seleção cubana todos os presentes eram quadros políticos ou até mesmo policiais à paisana.

Por outra parte, a postura do Castro é vergonhosa e patética, assim como as dos apoiadores do governo que nas falas que tem vazado nas redes sociais, tentando desmoralizar os discursos do Obama.

Longe está de haver mudanças significativas na sociedade cubana, isto porque os chefes, militares e gerentes das empresas estatais vivem bem demais como para querer por em cheque suas vantagens. O povo, silente e amedrontado, silenciado durante anos não consegue ver a realidade pra além dos noticiários estatais – onde diga-se não devem ter passado as íntegras as intervenções de Obama – continuará longe dos benefícios que os governantes usufruem, e continuarão a cegas, ameaçados pelo medo que tem, de ver as bombas norte-americanas caindo sobre suas casas.

Obama partiu – quase há dois anos ele dava o primeiro grande passo. Ele ganhou individualmente, por méritos, o posto do presidente norte-americano que decidiu descongelar as relações diplomáticas. Saiu no lucro, pois colocou no bolso uma nação que há cinqüenta anos estava pronta para morrer ou viver pela pátria, esperando que os norte-americanos nos bombardeassem, nesse jogo dos governos totalitários usam para manter o povo do seu lado.

ps. me antecipo a dizer, que esta minha íntima observação sobre recentes acontecimentos acontecidos em Cuba, com o presidente Obama e o povo cubano, não serve como régua para quaisquer interpretação sobre a política bipartidária que acontece hoje no Brasil. 

La Habana: Sete músicas para não esquecer de você

É bem provável – eu não duvido – que a cidade de La Habana, seja uma das cidades com mais músicas dedicadas a ela. Se não a que mais, certeza que é entre todas, as mais belas composições foram feitas para essa cidade à beira mar.Cheia de cantos nostálgicos e amorosos. Receio de verte partir no olvido fatal, os compositores jorram luz nos teus versos e lembranças.

A quem já esteve lá, as imagens pulam num mar de belas retratos solitários. A quem não, aqui a essência dessa bela cidade, representada apenas, pelos mais recentes cantores e pelos mais variados ritmos.

Em primeiro lugar, o clássico Sábanas Blancas do cantor e trovador Geraldo Alfonso, aqui numa versão ao vivo, e como ele mesmo no vídeo explica fora a música tema de um programa de televisão… Sábanas Blancas de Gerardo Alfonso .

Na mesma pegada, com mais potencia na voz e mais lírica nos versos, a incrível apresentação de Xiomara Laugart da composição de Jose Antonio Quesada Xiomara Laugart – Hoy mi Habana .

Este outro presente a capital de todos os cubanos faz parte da trilha sonora do longa-metragem Habana Blues que mostra a a realidade de músicos independentes na ilha no começo dos anos 200o. O vídeo da música é com cenas do filme e é interpretada pelo X Alfonso. Habana Blues: o filme  .

Do próprio X Alfonso, a música  Habana 8pm uma composição electrónica que vá surpreender a muitos.

Mantendo o ritmo mais pegado, a música de Los Aldeanos, Mi hermosa Habana que é na verdade una releitura del clássico do mesmo nome de Los Zafiros, traz uma crítica sólida a questões sociais da principal cidade de Cuba, com apontamentos à sociedade e também ao governo. Além do que, dá para acompanhar através das batidas e vozes em background o tema original Mi hermosa Habana .

A música mais “moderna” é o abraço entre os reggeatoneros de Gente de Zona, banda que se tornou conhecida por aqui pelo hit Bailando, junto com a famosa banda Orishas que apresentam esta Mi Habana . 

Para terminar a lista, Carlos Varela canta Habáname, simples assim.

Aqui, na distância, este post-lembrança da minha cidade. Nossa cidade.

 

 

Sob o céu da minha infância

Sob o céu da minha infância em Moa, o patio era de terra avermelhada no centro. Ao redor deste, a casa grande, de tabuas e guano. A latrina um pouco afastada por causa do mau cheiro. O chiqueiro mais distante, mas visível, de onde se ouviam os barulhos dos porcos enjaulados. Um cercado de um mato espinhoso, alto e perigoso, impossível de atravessar ou pular. Uma sombra de árvore aqui, lá e por todos os lados, e o solzão no meio. O murmúrio do vento nos galhos. E a barulhinho do rio, há poucos metros, umedecendo a rochas.

Assim era a terra nos dias mais incríveis que me lembro de pequeno. Tudo verde e vermelho naquelas montanhas sem fim. Meus pais e irmã por perto. E meus primos e tios. Meu avô Mâximo. Minha avó Dulce.

É dela mesmo que brilha a lembrança, andando devagar de chinelos e vestido gastado. Era quase sempre calada no que eu lembro, e com a minha certeza, de que estava chateada por algo que eu desconhecia. Naquela minha idade eu não sabia o que significava o silêncio. De tanto respeito que eu sentia por ela, eu quase que tinha medo.

Ao fim da tarde, os adultos começavam preparar a janta: yuca que aqui chamam de mandioca, aipim ou macaxeira; malanga sendo aqui inhame; plátano macho cozido que se conhece como banana-da-terra; boniato que é a batata-doce, e calabaza o que é a abóbora; tudo isso plantado por perto pelo Maximiliano, meu vô e pelos meus tios. Costumava ter algum feijão, que podia ser de vários tipos dependendo da colheita: negro, gandul, caballero ou  judias que é o feijão branco. Também havia arroz, que podia não ter, já que era daquela comida, o único que não se plantava na finca.

Avó Dulce, no meio do pátio e com um balde cheio de milho seco e outros grãos, começava-os jogar “tiu, tiu…” e chamar as aves “… tiu, tiu”. . Eram centos de galinhas e seus pintinhos. Alguns galos. Outros frangos sem alcurnia, aqueles sem crista. Patos e gansos. Vinham alguns porcos que perambulavam soltos, pois só os grandes crescidos, que estavam para engordar e depois abate, eram os que ficavam no chiqueiro.

Quase simultaneamente, nós nos aproximávamos. Éramos muitos os netos que sentávamos perto dela. Minha irmã e eu, vindos da cidade naqueles dias de férias, virávamos os prediletos, só que naquela hora, seria a destreza e o justo que prevaleceria.

Aquele quintal a céu aberto ia enchendo em minutos dos bichos que respondiam ao chamado da avó e dos grãos caindo no chão. Entre eles estava o plato fuerte da nossa ceia, que em breves instantes, seriam escolhidos pelo olho, dedo e voz da avó Dulce. Dentre nós, estava quem conseguiria pegar os bichos que comeríamos naquela noite.

Vó Dulce assinalava “vocês veem aquela galinha ali…” nos a percebíamos dentre as outras “… é essa mesma”,  éramos nós quem tinha que ficar prontos “quem pegá-la, vai ser quem degole ela” era esse o prêmio pela caça.

Éramos apenas crianças, mas naquela cultura montanhesa, já incentivados à sobrevivência.

Então íamos aproximando-nos, encurralando-a, discretamente. A coitada não sabia seu destino, apenas lutava por encher seu bico, na sua sobrevivência no meio de todos os outros bichos. Desavisadas, as aves iam pegando seu sustento, em perigo iminente de morte, mas somente a “dourada” estava marcada para morrer.

Assim avançávamos, até que alguém de nós, depois de várias tentativas conseguia finalmente pega-la. O efeito era instantâneo, assim que prendia a bichinha, depois que todos nos contentávamos com a alegria de ter pegado “nossa” comida, depois da confirmação da avó Dulce María, e da aprovação dela mesma, quem tivesse pego a galinha, simplesmente a apertava pelo pescoço e a girava bruscamente, até parar de estar viva.

Assim era a vida, simples. Logo, a morte.

Os bichos se dispersavam, mas em seguida voltavam inconscientes de que entre aqueles milhos jogados e o começo da noite, alguma possibilidade de continuar vivendo existia.

Numa mesma tarde, e dependendo da quantidade de pessoas na janta, avó Dulce repetia a escolha de três ou quatro animais. Pertinho dela, nós acompanhávamos o próximo “juízo” e já estávamos prontos para caçar a próxima vítima.

Uma vez obtive meu prêmio. Havia pegado a galinha para a janta, e dei castigo mortal sob comando da avó Dulce “olha o meu neto…” ela disse orgulhosa.

Aos meus amigos de vermelho

Estamos todos, num momento crucial nas eleições presidenciáveis no Brasil. Um momento tenso, onde está em risco a luta de uma sociedade à procura de erradicar a desigualdade social que historicamente vive-se neste país há quinhentos anos. Nesse contexto, na briga entre a Dilma e Aécio, tem se mencionado muito a relação do Governo com o meu país de origem: Cuba.

Sobre o programa Mais Médicos já comentei na época sobre os prós e contra do mesmo.

Nos últimos dias, os debates tocaram a favor ou contra sobre a presença brasileira no porto do Mariel. Obras que teriam sido financiadas pelo BNDES e executadas pelas maiores empresas brasileiras do ramo.

O porto do Mariel ficou famoso no ano de 1980 quando após a invasão da Embaixada do Perú por centenas de pessoas insatisfeitas com a situação na ilha, o governo cubano em acordo com o governo dos Estados Unidos, permitiu a saída de vários presos políticos. Nesse momento histórico da emigração cubana, o governo da ilha permitiu, ou exigira, a saída de reconhecidos detratores da ideologia castrista, de homossexuais, artistas e escritores de oposição.

Naqueles dias minha mãe me carregava na barriga, e foi ela, negando-se ao pedido do meu pai, que fez que eu nascesse em Cuba.

Sobre os fatos atuais, minha compreensão, para os amigos que defendem como eu a continuidade do governo da Dilma e usam os investimentos do BNDES no porto cubano, como ponto a favor nessa campanha.

O porto do Mariel pelas suas caraterísticas geográficas é muito importante para o acesso entre as Américas e Europa. Pela profundidade da Baía do Mariel permite a entrada de barcos de grande porte, que viriam ou iriam através do Canal de Panamá. Lá o governo cubano, com apoio brasileiro, está concluindo um dos maiores Polos industriais do Caribe, algo assim como o Polo industrial de Manaus. Grandes empresas multinacionais estariam radicando-se na ilha por ter boas condições de pagamento e baixíssimos custos de mãos de obra.

A mão de obra cubana contratada, seria mais ou menos nos mesmos moldes que o dos profissionais cubanos que atuam no Mais Médicos. Uma empresa estatal faz o meio campo entre as empresas no Porto e os professionais. Nesse meio termo, a empresa estatal fica com a maior fatia do contrato, e repassa aos trabalhadores apenas uma porcentagem.

Tanto neste caso, como nos médicos que estão no Brasil, eu não tenho a menor dúvida, que os professionais cubanos ainda ficam contentes, porque o salário nestes contratos internacionais ainda é bem superior ao que eles receberiam se trabalhassem dentro das normativas cubanas comuns.

A questão principal nestas transações é que a fatia que fica com as empresas estatais termina financiando o governo do meu país, que – agora berrem aos prantos, vermelhos – deixou a muito tempo de ser um governo de esquerda com interesses sociais como prioridade.

Hoje em dia, e há muito tempo, Cuba é um país comandado por militares e famílias de políticos que por anos, ficaram à frente dos ministérios, parlamento, bancos, terras, hotéis e forças armadas com a caraterística fundamental de não ter nenhum diálogo com a classe trabalhadora.

Para os extremistas de esquerda, não estou abdicando nem negando as reformas politicas e sociais dos idos anos dourados do governo cubano, e das quais, conheço aqui no Brasil, vários fiéis seguidores. Porém, há muito tempo estas propostas estão longe de ser palpáveis para o povo cubano.

Ainda, o governo de Cuba, durante todas estes anos tem sido intransigente com questões de diversidade ideológica, não permitindo nenhuma oposição ao seu modelo de gestão. Perseguindo, encarcerando e até matando opositores para manter a hegemonia partidária e ideológica na ilha.

Então, nesta reta final dos debates a eleição, e defendendo a democracia que todos queremos para o Brasil, eu não aceito que um ponto a favor seja a vantagem de ter cooperado no Porto do Mariel, e que desta maneira aceitar que o governo brasileiro, apoie sim, um processo político muito mais complexo que a simples margem de lucro entre empresas no Polo industrial do Mariel e seus assalariados cubanos.

Não, aquela ilha no Caribe, não é mais o berço de ouro das igualdades latino-americanas. Deixou de sê-lo, para não arriscar e dizer que nunca fosse, pois se é para todos, tem que se ouvir os que discordam. Não é, e não será enquanto a família cubana esteja dividida nos cinco continentes, seja pela simples vontade de angariar e ter posse de coisas e valores, como o resto do mundo deseja, e tem; e obrigados a viver distantes porque existem leis que proíbem cubanos de voltar na sua terra. Não é, nem será enquanto quem dirige o barquinho-à-deriva sejam os mesmos de sempre, caudilhos cinquentenários que apelam a pátria e os costumes revolucionários mas que banham suas contas e poderes se distanciando sempre de quem não tem nem pode.

Aos meus amigos de vermelho, eu sou o mesmo que conhecem, eu mesmo, mas um povo sofre na distância isolada do Caribe, o silêncio de não enfrentar esse marasmo politico, dita ditadura, com o qual o atual governo brasileiro compactua.

O luxo do Sponge Rush.

Hoje eu fiz e comi Sponge Rush.

Na Cuba que eu nasci e me criei, os luxos eram poucos. Nem quem tivesse algo a mais de grana poderia adquirir produtos que os mantivessem digamos, fora do padrão. Ninguém, obviamente, que não fosse das cúpulas políticas ou militares.

Na época que “éramos” crianças, todos tinham as mesmas coisas, ou as mesmas faltas. Os mesmos brinquedos. As mesmas camisas xadrez. Os calçados de couro preto. As mesmas oportunidades de visitar museus ou locais turísticos. Ou mesmo, a falta de tudo isso.

A comida era basta. Produzidas no campo da ilha sob aquele sol feroz: frutas, legumes e feijões. Ou trazidos em latas em navios soviéticos – é, esse gentilício já foi mais famoso – sortiam as prateleiras dos mercados: maçãs, merluzas, vinhos, sopas prontas.

Hoje em especial lembrei-me de um desses luxos pedestres, daqueles que se vivem só nas condições precárias que los cubanos convivíamos, e que chamava sponge rush – na falta de informação sobre Cuba na web, el Bu perguntou a mi amiga Mailín Milanés, dois cubanos do pedaço. La temba quem confirmou o nome correto.. Era uma torrada doce, feita de bolo comum de baunilha. Digo eu baunilha, mas na isla poderia ser qualquer coisa nos paladares.

Naquela época aquele doce me causava uma felicidade imensa. Não sei se era o sabor diferente da forma torrada de um mini pão de forma. Não sei se era a frequência com que eu comia aquilo, só às vezes, sabe! Não sei se era o inglês contido nas palavras que designava aquilo: esse lado subversivo de quem vive afastado de todo do mundo El Capital ou das sequências imagéticas da leitura de 1984.

Demorei em ficar maiorzinho e começar perceber como se construía aquele país; aliás, como se desconstruía. Demorei em descobrir que o luxuoso doce era simplesmente um bolo comum torrado em forno industrial. Eram o fim de sueño cubano.

Eu era um moleque. Todos naquele país éramos. Sponge rush era incrivelmente delicioso, até hoje é.

Hoje eu fiz, e comi.