O silêncio das cidades

Seis da manhã, ou antes. O silêncio de uma basta cidade à beira-mar se quebra com os primeiros sinais do cotidiano humano irrompendo antes do sol quebrar a luz desta noite.

La Habana era silenciosa por natureza. Presagios de um convívio incomum com o que naturalmente acontece. Ninguém era abrupto. Ninguém no seu são existir revidava. Se era ou se era.

No silêncio das mais sutis manhãs o apito rouco de um trem de carga visitava todos os lares, um trem vazio, que avançava pelas frestas de uma cidade moribunda, que despertava para fazer o pão tardio, que derivava num refazer de fachadas desgastadas, ou de vidros umedecidos pelo orvalho caribenho de uma ilha à deriva.

O silêncio era a práxis. O refrão da canção mais cantada.

Um barco que abria uma senda no mar calmo de uma baía moribunda. O apito era oco e respingava nas ondas oleosas de um mar calado e putrefato.

Do alto das colinas da Víbora eu escutava antes do sol queimar as casas velhas do meu bairro silencioso. Andava, escadas acima, até a laje do prédio, e no frio matinal de essas horas, eu escutava o grito silencioso das nuvens que se penduravam de esse último amanhecer.

Hoje, eu acordei naqueles ruídos miúdos da minha outra estância. Vida que estilhaça minha memória terráquea, infância de este outro corpo, entre barulhos sinceros de um presente que me abraça.

Esta cidade é calada, a pesar do ruído do tamanho de suas bordas pragmáticas. Homens gritam pelas dores, e calam a raiva e o amor de seu raríssimo existir.

Um galo canta nas mesmas cidades do meu tempo. Um galo antecipado y sedutor que acorda bem antes de todos os seres e grita sem pudor de estar vivo. Eu o escuto, tão antecipado e sedutor como meu irmão de penas e grasnido.

Eu estou vivo.

A cidade do Milton

Milton ia no vagão do trem. Sentado, observava a cidade passar através da janela. Ele, e eu frente a ele. Sozinhos.

Afora, o frio estreava um inverno longe dos outros. A brisa dava sensação do despir de um abraço, que se apagava num adeus definitivo. Tudo impregnava melancolia.

“As pessoas todas… “ disse Milton e eu olhei, vi centos, pisquei vi outras duzentas, “cada uma delas… “ a cidade avançava na janela, milhares ou milhões de pessoas “… sabe exatamente aonde está indo”.

Era o existir dos outros. Ele e eu éramos apenas testemunhas daqueles rascunhos de gente no vidro empoeirado.  A miúda verdade de que cada um tem em si, o poder de escolher.

“E nós?” ele olhava nos meus olhos, os meus nos dele, de nós “… sabemos aonde é que vamos?” O clarão do olho dele, avermelhou. O meu, de puro reflexo, cintilou.

A certeza dele, era também a minha certeza? O caminho? As nossas verdades divididas? As utopias? Procedimentos? As palavras? Eram nossos sentimentos igualmente perceptíveis? E os sonhos?

O trem deteve-se numa estação não muito distante. A porta abriu-se. Ninguém entrou. Nenhum de nós, desceu.

Os trilhos levavam a um só destino, apesar das escolhas, dos amanheceres, das despedidas, havia somente um caminho, para nós.

Milton vagou pelo vagão vazio. O barulho do trem nos ferros silenciou nosso afastamento. Tudo era ínfimo do outro lado do vidro: o mundo, os encontros, a poesia.

O poente avançava sobre a cidade laranja. A próxima seria a última estação daquela viagem.

Milton pôs a cabeça para fora, e gritou “descemos?” o trem ia nos seus trilhos, “ … ou voltamos?”