Escolhas que marcam

Aos catorze anos, no meio à maior crise econômica cubana, eu estava no fim do que aqui no Brasil se chama de ensino fundamental, e eu precisava escolher meu rumo escolar. A prova de “ingresso” definiria, entre as escolas dos municípios, o nível acadêmico dos alunos. Essa avaliação, computada à pontuação alcançada durante os últimos três anos de ensino fundamental dariam a colocação geral para a escolha de futuras carreiras universitárias ou técnicas.

Antes da prova, eu era, pela pontuação no ensino fundamental, o segundo melhor colocado da minha escola e um dos primeiros do município. Assim, se eu saísse bem nas provas de “ingresso” eu teria quase total prioridade na escolha do “meu” futuro.

Meses antes, minha mãe praticamente me obrigou a me preparar melhor para as provas. Contratou uma professora particular, amiga nossa, para aprimorar as matemáticas. Durante alguns meses, ia duas vezes por semana aprofundar aritmética, cálculo, equações.

Para língua espanhola e redação, eu estava acima da média e então ela confiava no meu desempenho.

Seriam duas provas: a de matemática primeiro, e  duas semanas depois, a de língua espanhola.

Naqueles dias, dentro de mim, eu tinha feito uma escolha, friamente, que mudaria minha trajetória pro resto da minha vida.

No dia, a prova de matemática seria aplicada numa outra escola, bem maior, que não era a minha, e lá misturados com alunos de outras escolas, para evitar que “colássemos” entre colegas. E lá sentei eu, dentre desconhecidos, para decidir meu futuro.

Às oito e trinta da manhã tocaram uma campainha, e entraram vários professores para explicar as regras. Escutei tudo atento. Entregaram as folhas. Fizeram maior protocolo na espera do horário exato,  depois a campainha, e o começo.

Olhei as questões. Sabia como solucioná-las. Fiquei em silêncio, olhando como ao meu redor, todos os outros meninos e meninas se jogaram sobre o papel para responder os itens, exceto eu, já previamente decidido de não entrar no caminho acadêmico, mesmo em contra da vontade da minha mãe, e contra meu próprio discernimento do que seria – e é.

Passaram os professores e perguntaram se estava tudo bem comigo. Sugeriram de eu apelar a algum problema de saúde e tentar na segunda chance. Questionaram sobre minha aptidão para resolver aquilo. Eu quase mudo, apenas acenando que eu estava sobre meu controle.

Naquelas três horas de espera eu mandei embora todas as chances de faculdade. A de medicina que minha mãe almejava para mim. As de ciências exatas que eu não desejava. As de humanas mas me dava preguiça a leitura.

Quando tocou a campainha, que marcava o tempo menor obrigatório, eu peguei minhas coisas, entreguei as folhas em branco e sai. Tinha decidido até então, e até agora, não fazer nenhuma carreira universitária.

A minha mãe não tive a coragem de dizer o que tinha feito. Somente uns meses depois, que eu decidi contar minha decisão. Ela ficou desapontada, porém sem mágoas.

História de nos

“Soy un perdedor. I’m a loser baby, so why don’t you kill me?” Beck

Somos o que decidimos ser. Dentre o contexto. Situações e conversões. Caminhos divididos, em fractal.

Somos, e assim deixamos de sermos outros tantos, desconhecidos. Outros dentro de nos, porém preteridos ao invés do que somos.

O caminho às vezes contenta. A história bruscamente tornasse avesso.

No meio do caos de nossos medos e anseios, o sucesso cobra caro do ímpeto e a dedicação. O fracasso faz poesia do triste e a decepção. Assim, é apenas a existência.

Somos, entretanto, também as nuances, e refeitos no espelho dos olhos daqueles. Prefixos do espalhado, dos outros seres ao redor. Entre todos, descobrimos a guerra interminável do dia-a-dia. Cotidianos noturnos de sonhos perdidos.

Desandamos um caminho, agreste e solitário, comum a toda humanidade. Ninguém vive mais do que ninguém.

Somos história apenas de nos.

Milton diz – Eu apenas de mim. Vivendo e narrando: existir.

Na caminhada ao lugar nenhum.

Vamos imaginar uma caminhada para lugar qualquer. Pretender o lugar nenhum. Uma caminhada juntos, de vários, muitos nesse lugar do além. Ou lugar do aquém.

Não vou colocar expectativas comuns, nada mais do que um ponto para atingir. Mas, só cumes interessam, sendo humanos, nada no meio é de nossa vontade.

Cada um de nós, do seu próprio plural, encontrará quem vai acompanhar você.

Cada qual com sua meta real, sua capacidade de ser e céus alcançar. Cada um com seus medos e suas inseguranças. Mas juntos, nessa caminhada para lugar qualquer num lugar além.

Na travessia, cada um seu esforço e seu ritmo, iremos achando as conversas. Aquele momento trivial do encontro, vestindo palavras e gestos, tramas, instantes do belo, horizontes comuns, experiências, fatos. Todos inevitavelmente fugazes, passageiros perante o tempo.

Nas pausas, aqueles instantes fúteis para descansar, encontraremos novamente todos os companheiros desse caminhar. Cada um ali com suas metas, sua capacidade de ser tão, sua possibilidade de ser não, seus céus amanheceres, suas tristes chuvas, suas noites per noite, sua própria estrela guia.

Juntos, naquele ponto, aquele céu parece ser só um. Unicamente para todos. Sonho comum possível de quem abraça uma caminhada a um ponto num lugar aquém. Assim de perto, a realidade ao redor aparenta ser uma, assim como a meta, a capacidade de sermos, a possibilidade de não ser.

Sendo humanos, o cume grita, chamando por nós.

Na relargada, o cansaço geme, o peso aumenta, nossa meta foge. O céu rasga-se em solidão. As pernas tremem. Nosso hálito faz parte da conspiração ulterior. O sonho comum, sendo de cada um sua própria adaptação.

Ressurgem por causa natural as novas conversas, refeitas no ritmo e esforço. Um abraço de quem tem por tanto, parecidas vontades, similares forças, desejados os mesmos intuitos.

Veremos lá no final, os aguardados. Os quase desistentes, de fracos ou poucas intenções. No meio, ali entre a folharada e os segredos aqueles que espremem os segundos, ancorando em cada instante, em toda sombra ou em cadas uma das palavras. No começo, os perseverantes, seguros de si e presos flagrantes de uma necessidade absurda de chegar ao cume.

Sentados novamente, no círculo final da caminhada, nossa vida vista por cima, parece-nos pequena diante da imensidão e basto da vida geral, os céus comuns e sonhos máximos.

O silêncio do lugar do além. Do lugar nenhum. Do aquém em nós. Do além de lá, invade. É é tanto que cala todos e toda vontade. Não há lugar onde ir…

E ninguém que nós acompanhe!

No retorno – lembrando: só cumes nos interessam – qualquer compreensão é banal. Dentro de cada um, na conversa, no abraço fugaz do encontro, todo é feito de interiores, nada brota para fora, nada nasce para cima. Tudo é do avesso, e possível.

O silêncio grita. O destino é outro.

 

Meu sonho americano

Aprendi cedo na escola o que era Latinoamérica, me ensinaram em libros alguns professores dedicados, histórias que lembro de mártires e homens de bem de estas terras americanas.

Depois li as paragens de Rulfo, as paixões alucinadas de Cortázar, a mágica palabra de García Marques, a delicada observação de Quiroga, os infinitos sertões de Guimarães Rosa, todos os caminhos de Vargas Llosa, o negro que sou em Guillén, o real maravilhoso do Carpentier.

Em La Habana conheci amigos bolivianos, uruguaios, argentinos, peruanos, equatorianos, brasileños. Deles ouvi muito de tradições, músicas, lugares que deveria um dia conhecer. A maioria, tínhamos alguns sonhos comuns, terras abraçadas de uma vez só numa palavra única, numa língua nossa apesar dos sotaques, do lugar do nascimento.

América é o lugar que sonho, que invento com imagens de olho aberto, das praias quentes e campos memoriosos da minha ilha às planícies secas dos brasis, as cachoeiras escondidas no coração do continente, sobrevoando as lembranças das montanhas nevadas dos Andes, as trilhas azul-úmidas da Amazônia, areias salpicadas sob pés descalços de La Paz, os cerros pelados de Cali ou os litorais de Cartagena com acordes e danças de pretas quase nuas, a ondas bravas frias e profundas do Pacífico em Lima, e caminhar nesse fio branco rochoso, espinha dorsal da Venezuela até Argentina, e nas neves, pastos frios das pampas, mate e violão, boiada e pantanal, caminhos perdidos nas BR-101, ilhotes perdidos à deriva no mar, Cubas, Margaritas, Angras e Reis.

América é as ruas de Rosário na voz do velho Fito, falando em quechua ou tolteca com pessoas que sabem muito mais do que estão a falar, e o ayahuasca do Ino Moxo, o peyote de don Juan, as ervas mais finas do Rio La Plata cultivadas de mão em mão por famílias milenarias, em cuica de chimarrão que é como chama el mate em terras do Rio Grande so Sul, falando español en Recife y português em San José. Esquecendo que sou de uma ilha flutuante no mar, a maior ilha entre outras mil ilhas flutuante à deriva no mar.

América é de olho em olho, homens da minha cor e mulheres das minhas verdades, conversas enfileiradas em praças, sob sombras de pessoas e pessoas, com amigos de amigos ou amores inconfessáveis, cada sonrisa, músicas no rádio ou de vozes roubadas de cidades, povoados à beira de estradas ou rios, marginais, litorâneos, crisálidas de Macondo ou Luvina, pessoinhas comuns, imaginárias, fora do real, do meu real imaginário feito sob medida para minha prosa, para meu sonho, para meu viver.    

América, todos meus caminhos…