rascunhos à beira-mar

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

Pretinhosidade

Eu não sé muito de mim, por isso não me questionei a minha voz dentre tua canção. Você é quem bem sabe! Assim, sem você, perdi o fluxo dos meus passos na pretinhosidade do Éden ou o Calvário.

Sim, você sabe de mim
Quando eu não to afim
Quando eu só quero brincar
Não, sim, mesmo que eu diga não

 

Diante do reflexo do meu sorriso, mesmo diante da minha negação, os instantes se foram num pingado café à beira-mar. Molhei os pezinhos numa maré de alto-rio. Depois sumi na correnteza do mais puro amor. Avistei as areias da felicidade. Não havia o perigo de nelas sucumbir – isso achei. Ainda, com dor, ainda acho.

 

Entretanto não vá

Não vá me abandonar

 

Uma aranha curvou suas pernas pro céu num fantástico bocejo de nudez. O escuro da noite vetou a felicidade de um “sempre feliz”. Todos te olhavam. Eu te amava assim convertida na bichinha dos meus pastos sem luz, na besta da minha imaginação, nos seus olhos de paz olhando o sem-fim de uma paixão interior.

 

Como em teus bosques. bebo nos teus rios.

Entre teus montes, vales escondidos.

Faço fogueiras, choro, canto e danço.

 

Éramos abismo para cair. O eco da queda sem medo. Soneto dos corpos discretos, um dentre do outro, deliciosamente nossos. A beira-mar nosso rio. A pele pretinha luzindo os brios, e os breus. A voz do nosso som parecia infinito. Todos escutavam. Eu também assim o escutava.

 

Agora é só eu e você
Juntos na mesma estrada
Atravessando a madrugada
Pra ver o sol nascer

 

Eras começo. Eras meu fim!

 

Prá você é o fim da estrada

Ainda és!

 

Obs: Músicas de Mart´nalia e Paulinho Moska, todas interpreadas pela Mart´nalia. 

cinco flashes entre silêncio e esquecer

tengo brazos en varias latitudes,

memorias allende este presente que vivo,

recuerdos de otros instantes con personas que (quizá no) existen,

atemporal en el recuerdo y el olvido,

soy yo, ahí donde también existes!

 

 

sete ondas tem o mar que eu pulo num só impulso, aparecem frestas dos fundos, maresias do meu ser, andorinhas litorâneas, peixinhas escorregadias de olhos sem fim, onde é que some o horizonte? onde acaba esta utopia?

 

 

no sozinho do que sou, sendo, 
no silêncio de entender, histeria, 
no percurso de fluir, epicentros,
nos avanços de ter, desacertos, 
na entrega do amar, manifesto
na vileza de existir, amanheço! 

 

 

as palavras que não foram testemunhas silenciam a partida/
carimbam o desdem abrupto do que não é /
compreendo a desempatia /
o agreste lunar no grama dos dias /
apenas o esquecimento salvará a utopia /
de saber /
ou imaginar /
de inventar /
as sem-saídas /
este estágio anestesia o revés /
vai restar pouco nos registros /
a dor não reconhece memórias /
apenas apago /
ou sobrevivo.

no furo da terra
o fundo de um sonho
emana o abraço
o tamanho do mundo
sorriso do espelho
amor que te amava
no escuro do beijo
no outro destino
de línguas possíveis
te amei no silêncio
talvez tão miúdo
que parece outro sonho
morada ilusória
do tempo passado
no furo do peito
cacimba da águas.

Mel do Maranhão

 hoje o pote acabou! 

Abri o pote. Senti o cheiro das flores do Maranhão. Agora vidrada em lacre de mãos apertadas, um plástico vedando o sabor e as formigas, e um elástico de cabelo.

Peguei o pote. Coloquei o dedo Aquelas miudezas deliciosas do muito prazer. O maior dos prazeres dos méis das abelhas silvestres do Maranhão. Vi  florecitas no pote, desenhando os horizontes mais distante: tão reais, tão similares ao sonhados por mim.

Colher-por-colher saborei: as abelhas voaram até o fim do horizonte, lá floresceram casitas silvestres de árvores com frutas e rios do Maranhão. Havia umas plantas de café na cerca, o cheiro daquele mel pairava no ar.

Levei o pote comigo, o mel, as abelhas silvestres, os horizontes que pairavam, as casitas, os rios, as cercas e as planticas do café: eu no pote nadando no mel, sob o plástico vedado e o elástico de cabelo.

Beijei as abelhas. Nadei rios de méis silvestres. Mudei para a casita. Pairei o Maranhão. Cresceram imensas as florecitas e as planticas de café na cerca. O pote comportava os horizontes e minha existência.

Era infinito o universo, eu próprio no mel do existir: as abejitas, florecitas, planticas, casitas, mariposita. Tudo imenso, tão grande como o Maranhão. Pairava o mel dos silvestres, miudezas.

Peguei a colher. Soltei o elástico de cabelo, nem havia mais plástico para evitar às formigas, apenas o fundo, a lama sequinha do resto do mel. Os rios em seca. Seca as plantas do seco café. Maranhão em alerta. Horizonte vidrado no pote com tampa. Eu, nas raspas de mim, seco em miúdos pedaços, pedacitos de mi.

outro fim dos mares

Esperei, ainda em vida, o tempo daquele silêncio

Na beira da estrada, o que seria de mim

Assim, na espera alargada

Os pássaros ausentes do último verão

Voltaram para silenciar minha dor

Tocava uma música

Trinos de uns rios que nunca escutei

Mas que eram fortes e fundos,

Reais demais

Molhados demais

Estranhos demais

Agarrei o silêncio e pus pra dançar

Na beira do rio, ausência de mim,

Mas aquilo era um mar que estava pro vir

Assim, o silêncio estragou

Eram gritos de guerra

Anúncios de paz – e liquidação,

Eram trinos dos pássaros que iriam logo voar

Voando demais

Distantes demais

Ausência demais

Agarrei os pássaros e pus eles para dançar

Na beira do trino, tristezas de mim

Mas aquilo era a morte que estava por vir

Assim, a morte anunciou

Era a voz do silêncio

Cuspidas de amor – e traição,

Era o fim dos finais,o mar que acabou.

 

fim dos mares

presos aos sonhos
iam os homens – e as mulheres – ao redor da terra
traz as sombras daquele sonho fugaz
de trino incessante a sereia do amor
e timões levados à esmo
ou desdem
perseguindo aquela caudal mortal
no eixo interno
da espiral da dor
iam se fardados do sorriso da emoção
a irreal empatia do amar
a ilusa confusa vontade de se aproximar
o abraço nas noites
os corpos consequentes
era somente sorrir
um bocejo ao acordar
e depois, olvidar.

Aquele (im)possível

Era ela, e ela. Eu era.

Era o sem-fim de um beijo, basto e sem beiradas. Sem fundo. Sem cume.

Tamanho aquele possível, que o mar diante, era pequeno e menos profundo. E nos nadávamos no abraço ínfimo de nossas línguas. Dela. Minha. E dela.

Era um pulo nos campos-pele. Nas peles morenas torradas. Morenas mais claras. Morena suada.

Era o encontro do momento. Instante diminuto do segundo. Ela no meu olho. O olho meu no dela. Ela e ela. Eu mesmo.

Era a base da grã pirâmide. De ponta-cabeça todos os argumentos. Eu amava o mar, sendo apenas testemunha do corpo dela, e o meu, e o dela, trançados num só agarre. Nús num só beijo.

Beijo no tempo da sétima onda que veio. E depois voltou, e veio, antes de acabar o tempo. Era eu dela, e dela. Delas eu mesmo.

Ode ao mar de (cabelo) preto

Ela bateu a cabeça na onda e o mar abriu-se ao meio. Os cabelos pretos tingiram de escuro o sal na onda. Minhas mãos tingiram-se daquele negro dos cabelos. O sol cobriu-se entre seu rosto e o meu. O raro silêncio da maré afundou-se no escuro da boca de uns beijos.

Ela estava em silêncio. Eu calei depois.

Era tudo fundo, e afundei-me mais. Era escura a boca dos beijos daqueles cabelos pretos de fundo de mar.

Ela adormeceu-se sob o fluxo leve do vir e ir daquelas ondas de começo de anoitecer. Por baixo, nas costas da pele, minhas mãos seguraram o seu ir e o seu devir.

Do mar, não se desejava mais que um entardecer: o sol se apagando no oeste de nós, distante dos seres, sem horizontes do aqui, só aquele olhar infindável, sem palavras de azar, sem destino do querer.

O vento batia em qualquer direção. A vastidão do beijo não deixou dúvidas, mas não fiz pergunta nenhuma e ela nada respondeu. O silêncio era a estrela vermelha, refluxo do brilho moribundo da Estrela Maior;  e a lua era o espelhamento daquela luz que não quer morrer, e tenta, com tudo, sobreviver.

Ela afundou-se na sétima onda, e veio a renascer flutuando sobre meus dedos, seu corpo boiando livre, e o mar de preto, seus cabelos tomando conta das ondas, do pôr-do-sol e de mim.

Era escura: la noche.

Entreguei-me naquela sensação de brilho opaco cintilante, de lua reflexa do sol, de horizonte sem dor, as palavras caladas, os silêncios rotos com escritos na areia como destino do fim: diante do mar o que muda sou EU.

A sétima onda voltou tingida de noite e tudo apagou.

Não haveria restos. Registro nenhum.

Sempre jamais.