Mel do Maranhão

 hoje o pote acabou! 

Abri o pote. Senti o cheiro das flores do Maranhão. Agora vidrada em lacre de mãos apertadas, um plástico vedando o sabor e as formigas, e um elástico de cabelo.

Peguei o pote. Coloquei o dedo Aquelas miudezas deliciosas do muito prazer. O maior dos prazeres dos méis das abelhas silvestres do Maranhão. Vi  florecitas no pote, desenhando os horizontes mais distante: tão reais, tão similares ao sonhados por mim.

Colher-por-colher saborei: as abelhas voaram até o fim do horizonte, lá floresceram casitas silvestres de árvores com frutas e rios do Maranhão. Havia umas plantas de café na cerca, o cheiro daquele mel pairava no ar.

Levei o pote comigo, o mel, as abelhas silvestres, os horizontes que pairavam, as casitas, os rios, as cercas e as planticas do café: eu no pote nadando no mel, sob o plástico vedado e o elástico de cabelo.

Beijei as abelhas. Nadei rios de méis silvestres. Mudei para a casita. Pairei o Maranhão. Cresceram imensas as florecitas e as planticas de café na cerca. O pote comportava os horizontes e minha existência.

Era infinito o universo, eu próprio no mel do existir: as abejitas, florecitas, planticas, casitas, mariposita. Tudo imenso, tão grande como o Maranhão. Pairava o mel dos silvestres, miudezas.

Peguei a colher. Soltei o elástico de cabelo, nem havia mais plástico para evitar às formigas, apenas o fundo, a lama sequinha do resto do mel. Os rios em seca. Seca as plantas do seco café. Maranhão em alerta. Horizonte vidrado no pote com tampa. Eu, nas raspas de mim, seco em miúdos pedaços, pedacitos de mi.

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Vinheta bilíngüe para um retorno-adiós.

Agora cruzei de volta a ponte, novamente. A ponte é, por demais, um braço-abraço tingido de mar-continente. Estou de volta, Brasil, meus amigos e a cidade maior.

O instante de pôr os pés no asfalto se tornou tão trivial, que não houve aquela emoção. Ali estava meu filho de braço-abraço correndo em direção da mãe, e yo, nem triste ou faminto,  fiquei de ladinho vendo tudo acontecer.

Quem leu, conhece muito do que aconteceu por lá, minha ilha distante-à-deriva. Permiti-me largos momentos para registrar o segundo ocular, e o movimento por ação, a intenção de um sentimento, os poucos absurdos que vivi. Voilá…

Crucé el puente, nuevamente, en dirección del Sol. En la ventanilla, la presencia mi hijo, no me permitió ningún sufrido adiós. Yo era la rarísima felicidad de su instante, y el deseo de irse-regresar.  

En el aeropuerto la instancia se vistió de insensatez, por esa amarga certeza de volverlos a ver (todos y todas). No mentí si prometí regresar, pero la noche era fría y no habría motivos para no intentarlo otra vez. Mi hijo y yo vimos a mis padres, sus abuelos, sonreír. Era distante el momento, a lo largo de toda aquella luz de la despedida, pero era indudable y grande, el más grande y genial de los adioses. ADEUS.

O impulso foi tênue, e quando apareceram as avenidas conhecidas do sobreviver, entendi por acaso ou por fé, que era daqui onde este pedaço de corpo gastado dos trinta lhe pertence este viver. O apego não é suficiente, mas existe a raiz. Semente lançada em prantos e beijos, e mortes e orgias, bailes e poupanças falidas. Tudo sem destino…

Abri as malas sem temor de ter esquecido. O que não é de mim, flutua no Edén perto da mão, a boca ou as entrepernas. O meu, que é meu, eu escrevo no intuito de tê-lo para mim, e persisto: tenho que ser feliz.

La noche fría onde não acontece nada

la noche es fría, eso nunca será un buen comienzo de crónica, pero realmente es uno de esos fríos de fin de verano. caminé solo, de frente las luces de los carro que no paran no paran nunca paran de pasar.

atravieso con pasos largos la avenida, antes que cierren los últimos bares y se pasen las últimas guaguas en dirección de mi casa, del otro lado de la noche de esta noche fría.

nunca tuve miedo de estas horas.

la habana anos dois mil e pouco. algumas luzes iluminam uma cidade derruída, cheia de lixo nas esquina, gatos fazem sombras chinesas em muros, portas fechadas e grades de metal anos cinquenta.  no muito longe o mar cumprimenta a costa. a madrugada nesta cidade é muito silenciosa.

nesta hora “la confronta” como chamam as linhas de ónibus noturnas não vai passar. Algumas pessoas preferem a calma, a espera, aquela solidão que bem se partilha. conheço estes trilhos como o mais velho dos bondes. é sempre bom ficar alerta, olho nas costas, ouvidos mordendo silêncios.

nunca tive medo da morte nessas horas.

são paulo de noche parece que es mía. los pocos que respiran lo hacen en autos de vidrios cerrados, con miedo. todo cambia depende del barrio, un rompecabezas de situaciones y bifurcaciones. digo que escribo de eses lugares que transito, como si fueran lugares de otra vida, conocidos .

recuerdo semáforos, zebras anchas, edificios que de repente, encienden sus luces de seguridad, motos en alta velocidad, alguna persona, una pareja de manos o abrazados, ningún perro, tal vez un gato, una patrulla sospechosa, yo, mi sombra caminando, silencioso.

eu acho que lhe conheço uma historia a cada uma destas esquinas. nem que seja uma memoria, um simples olhar a uma dessas paredes, tijolo rasgado de sol, esse cartaz político rasgado, aquela bandeira flutuando no varal, um menino de pé, uma galera apostando no dominó, tem um bêbado falando em inglês.

sinto certa segurança por ter nascido por aqui, bem que mal desde pequenininho vejo e revejo a mesma realidade. parece uma foto, saca? mudam as vezes a cor; mas as linhas, os contornos, as sombras, é tudo igual.

subiendo el morro­, llego en casa por primera vez. aquí es siempre el comienzo.

subindo as escadas chego cansado, sobre minha cama, descanso.

no recuerdo mucho de lo que era.

não sei o acontece com o nada.