O real demasiado

Instantes bons e belos junto a você, Benja, sempre são muitos. A cumplicidade dos momentos, que esticam em dias, que hoje são anos. O partilhar conversas sem rumo, no fio da imaginação sem beiradas, na saga de romances ou de vilões imaginados; ou aquela pergunta das trinta e três respostas e todas suas interpretações. Aquelas minhas memórias distantes, trazidas por alguma lembrança, por espelho de consciência, e no agora, revivida contigo, no sorriso e a surpresa.

Porém, há os desafios cotidianos, do ir e o devir, nos prazos dos compromissos, dos tempos alheios, dos encontros marcados. Às vezes, o real demasia, tornasse o muro diante do corpo, a lágrima diante dos olhos, a dor dentre do peito. A raiva esmaga entre dentes, o silêncio de algum grito. Há os berros dentro do punho, no caminho certeiro de alguma parede. O chute sem bola, no ar de uma mágoa. O alarido em tantas palavras, do que não consigo aquietar na paciência. Já arremessei meu pranto na sua queixa, na sua insistência por mi tirar do centro; ou bati com minhas assas, no vento da sua pele. O remorso entorta, de joelhos a morte é solidária, e me abraça a causa de mais uma batalha perdida, entre a razão e os limites, um pai e o filho, a emoção e as dores de uma paternidade vivida na sinceridade.

Esses dias, depois de um desses processos, onde o oco toma conta do tempo, o breu ilumina os gestos, e a pressa domina as vontades, eu te perguntei, Benja, mas bem num questionamento meu; o que poderíamos fazer para nos entender sem birras, para nos acompanhar sem sofrimentos; e você que de longe é mais experto, disse-me, leve e com seus olhos nos meus, “sorrir, pai” e sorrimos.

Andança

Caminhávamos Benja, na cidade, não lembro exatamente. Algum lugar entre este ou aquele. Eu quase sempre  dois passos a frente, eu acho que você demora no atraso, como quem comanda um andarilho com passos tortos, e nossas sombras.

Havia grades humanas, asfaltos beirando os caminhos, árvores altas com verdes infinitos no comum cinza dos prédios. Uma borboleta espiã. Cachorros andaluzes. Caçulos diversos, verdes, dourados, alvinegros. Você os contava. Eram muitos.

Caminhávamos, assim distraindo-nos e você me disse “Pai, vamos andar em silêncio”.

Medida Exata

“Benja vamos fazer alguma coisa?” a tarde se antecipava num cinza chuvoso. Lá fora São Paulo seguia no seu sem-fim cotidiano. Você topou e “o que será que faremos, pai?”. Na minha duvida, passei a responsa para você e tu, “vamos brincar com as ferramentas” você concluiu.

Te expliquei para que servia cada uma, as dividimos por grupo.

“Essa daqui… ” era a régua para medir “para que que serve, pai?”

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Medindo nuances

 

“Vou te mostrar…” eu disse “como que faz com isso”. Como colocava sobre a superfície. A diferença entre centímetros e polegadas. Como fazer a marquinha do lápis, quando a medida é maior que a régua.

Você escutava, e repetia os meus conselhos, na brincadeira de fazer as medidas de uma cadeira plástica, que como modelo, serviria para medir e reprisá-la no papel com as medidas certas.

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Medida certa

Era confusa a numeração, o cálculo da medida, e o local onde medir. Depois, era o momento de escrever os dados: a medida certa.

O processo continuava pois a cadeira tinha três peças, e três eram as medidas para pegar.

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Outras (repetidas) medições

Você anotava com letras firmes, sobre o traço retilíneo que demarcava e enunciava a medição: uma sorte de exatidão e precisão.

Eu perguntei onde faltava medir, e minha surpresa esvaziou-se pois você sabia exatamente onde colocar a régua, o lápis e a disposição.

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Medida externa

Eram detalhes finais da terceira dimensão. Você media o largo e ancho e altura: o volumem do afeto preencheria as quinas, os defeitos seriam o alicerce do próximo, e a presença  pilar do próximo devir.

Você surpreendia-se com os cálculos e os traços dando certo

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Planos do exato

Ao final, estavam os planos da cadeira, prontos: a visível cadeira representada em três folhas, com as medidas cuidadosamente medidas.

Você me pediu para pendurar na parede; e achamos lugar lá no alto. Você quis colocar as folhas por si próprio, um sobre a outra, com ajuda da cadeira, e depois com ajuda de mim: sobre os ombros.

Assim ficou: um pouquinho do certo, na medidas daquele esforço seu.

Ordem e respeito (ou o silêncio que gritou por nós)

Ontem caminhávamos, hijo, um perto do outro. Atravessando as ruas e as calçadas do bairro onde moras. Depois da escola, o almoço na avó e a piscina; íamos em direção ao metrô para irmos ao dentista. Acostumado andar sozinho, porém perto, pelo horário pedi para irmos de mãos dadas.

Eu, desse gesto costumeiro, citadino e humano, não sou adepto. Minha mão sua, minhas pernas tremem, mudam o passo, até às vezes dou uns pulos. Eu de mãos dadas, não gosto desde que era adolescente.

Você, ao contrário, não queria; apesar de que naquela hora, as pessoas andam muito depressa, com aquela vontade insana de voltar para casa, apenas olham para frente, a mente alheia, pensando em tortas e urgentes necessidades.

Você fechou a cara. Fez bico. Ensaiou um pranto.

Eu argumentei ao perigo. Aleguei à pressa. Exigi respeito.

As pessoas que passavam então olharam. Um menino veio se aproximar, dizer alguma coisa. Eu não deixei, pedindo que me deixasse falar com você. Um segundo depois, havia dois policiais militares, pediram meus documentos. Eu pedi, para continuar falar com você. O policial exigiu respeito cidadão. Eu retruquei pedindo meu direito paterno.

“Você me dá seu documento” o fardado, alto, armado, vociferava.

“Posso falar com meu filho?” respondi, com uma calma fria, que por dentro queimava.

“Não, não pode!” ele era a ordem, “eu preciso terminar de falar com meu filho” e eu um cidadão.

Ele alegou à diferencia cultural, acredito que sentiu um sotaque, e diz que eu devia obedecê-lo. O tom era áspero.

Eu perguntei se ele era pai. Ele era. Pedi para que ele me compreende-se enquanto pai, e que me deixasse enfim, terminar minha conversa com meu filho. Eu fui enfático.

Ele disse “você tem um minuto”.

Daí eu te lembrei do porque que eu queria que você fosse de mãos dadas, lembrei da pressa, o dentista, e ressaltei daquilo que repito “não gosto de estar chamando atenção” (algo que se opõem a minha extrovertida figura em âmbito amigo-familiar).

Você escutava em silêncio. No olhar pingava uma raiva da birra entre nós, uma vergonha daquele momento, o medo por aqueles policiais ao redor. Seu rosto era gigante, e me olhava firme, no fundo dos meus olhos.

Puxei a carteira. Dei meu documento e “este é o documento do meu filho” eu disse.

Ele conferira. Explicou que alguém tinha ouvido nos conversando, e haviam achado estranho (sim eu de cabelo crescido para cima, gadelha mundana dos meus pensamentos, o preto cimarrón da preta da minha avó, minhas roupas quaisquer, com qualquer um dos meus sapatos, as meias cruzadas, mochila rasgada e o japamala, e você louro, bonito garotão, de sobrenome judeu, e olhos mel, andando comigo num bairro burgués… eu sei o que eles achavam estranho).

Eu falei que era que não tinha nada o que fazer com a vida deles.

O policial disse que eu entenderia se fosse alguém tentando levar meu filho.

Eu falei que aquilo era o dever dele, e o meu, educar você.

Ele perguntou se estava tudo bem com você. Você assentiu, sem falar. Ele perguntou se sabia onde estava indo? Você assentiu, ainda sem falar, com os lábios apertados, numa rara mistura de bravura e desdém.

Eu disse que você podia falar. Você disse então que íamos ao dentista

O policial então devolveu meus documentos.

Nós, prendemos nossas mãos, e fomos a pé. Juntos.

Na esquina, antes de atravessar a próxima rua, me detive de novo para conversar. E te falei, seco, e firme, olhando aos olhos aquilo que te falei: o que foi, isso sim, fica entre nós dois!

(Três) Ingênuas roubadas

O que me roubaram não foram às memórias, e sim o momento sadio feito peçonha e raiva; com a deixa, uma sensação de vazio e de injusta exposição, um furo, sempre um abuso…

Eu tinha 6 anos, e cursava a primeira serie de uma escuela – Pre-Eide Alfredo Sosa – que tinha como intuito incentivar os esportes nas crianças e descobrir habilidades esportivas. Minha mãe tinha me colocado lá, indicado pelos médicos por causa da minha asma crônica. Na falta de aptidão para saltos ornamentais, única modalidade aquática que ainda restavam vagas, eu terminei matriculando no fútbol.

Nosso time treinava nos fundos do campo de baseball, que era ao contrário do que no Brasil, o esporte mais popular, reservando ao futebol o raríssimo posto de esporte alternativo, contracorrente até. No meu caso tudo a ver.

Num dia de treino comum, eu fui pegar algo na minha mochila, e um cara se aproximou em bicicleta, do outro lado da grade, que dava a uma avenida. Ele me chamou, e depois de algumas palavras, elogiou a mochila de um colega, e pediu para eu mostrar para ele. Lembro de ter jogado a mochila por cima da cerca de peerless, com a força de tamanha ingenuidade que até consegui que voasse certeira até ele. Ele pegou a mochila, e de bicicleta, sem olhar para mim, foi-se embora…

Eu havia ganhado uma bicicleta do meu pai. Era uma mountain-bike vermelha vinda do Canadá, para os tempos era certa ostentação, que eu cuidava muito, mas porque era muito confortável. Durou-me pouco…

Uma manhã, conversava eu com uma amiga, que havia encontrado bem na frente da minha casa, e aparece um obrero que vem saindo da casa de uma vizinha,e oferece uma ajuda de custo se eu ajudar ele trazer um vaso sanitário para instalar, “ali na Aida, estou fazendo uma reforma para ela…” e convida à amiga, para acompanhar o rolé, e “… com sua bicicleta a gente consegue trazer num carrinho, puxando, fica mais fácil.”

Então, eu no flerte com a amiga, meus adolescentes anos, aceito o bico, e descemos a ladeira de casa: o carinha andando na frente, a menina, a bicicleta e eu, detrás, na nossa.

Caminhamos vários quarteirões, zigzagueando  ruas avulsas, até que o homem avisa que chegaríamos nos próximos vinte metros, “tá vendo aquele carro?” e se aproxima, pede a bicicleta “ … deixa eu aproveitar essa descidinha, posso testar a bicicleta?” e minha ingenuidade solta da mão o guidão, abraça a menina, e vejo mi bicicleta roja ir-se embora, e eu ainda perplexo, duvidando, espero definitivamente ver o cara desaparecer na próxima esquina…

No aeroporto antes de embarcar, a última vez que estive em Cuba, com as malas entregues, os carimbos no meu passaporte, me informaram, que mi hijo por razão de dois dias estava ilegal em nuestro país e que eu devia pagar um novo visto de turismo, para ele poder deixar a ilha.

Sem alternativas, fui fazer os novos pagamentos, e na fileira para trocar dólares pela moeda conversível cubana, um estrangeiro, de sotaque europeu, jovem, simpático, me diz que não tinha como tirar dinheiro com seu cartão de crédito, confirma que ele embarcaria no mesmo vôo que eu, mostrando a na tabela de embarques, e que “…em Cidade de Panamá, assim que desembarcássemos ele me devolveria a grana”.

Minha ingenuidade segurava a mão de Benjamín, e a outra liberava as notas que pagavam mais um descuido. Atravessamos os controles de alfândega, e chegando na sala antes do embarque vejo o menino, sentado, calmamente mexendo no seu notebook, escuto a chamada do vôo, e eu apenas me preocupo pelo meu filho e nossa já difícil despedida daquele país.

Entramos no avião, e ainda esperançoso, aguardo com o olhar, todo mundo se sentar. Ainda, percebo à espera, por um erro, de não ter visto o ladra tomar assento, e mais duas horas sobre o Caribe, até chegar no Panamá…

Lá no aeroporto conexão com o Brasil, vejo partir aviões em direção da América toda, infinita… o cara não apareceu.

ALFABETO DO MEU NOME*

“O que está escrito nesse cartaz pai?” Era uma das perguntas mais freqüentes do Benjamín nas últimas semanas. A sede de descobrir esse mundo de significados contido nas palavras, esse labirinto de imagens desenhado em frases e metáforas.

“Ali diz ATENÇÃO” ai vem aquela astúcia paterna – e materna – , o cansaço incrível de tantas outras coisas cotidianas, o repetitivo da criança no seu intuito de aprendizagem, e você tem que ir escolhendo o momento certo de dar resposta, ou de quando não é possível dar resposta, ou quando de fato não se está com vontade “então, niño, agora papai está prestando atenção aos carros”.

Ele já ia sacando detalhes “essa palavra começa com letra do meu nome” eram os primórdios da leitura do mundo, as primeiras olhadas ao mundo encantado de ler.

Mas não era o início de outras mortes? Do ingênuo olhar sobre o real? Da liberdade do universo dos sentidos? O da não opressão das emoções escritas, ditas, lidas ou escutadas? Não era o fim, agora finalmente, de um universo que jamais retornaria; e do qual nunca mais nos recordávamos, o mundo das sem palavras?

Ele soletrava “M” respirava “E” com esforço “T” quase ofegante e cansado “R” duvidando, com aquele medinho da raça humana “Ô” e agora com êxtase, eu perto daquela independência praticamente definitiva “que diz aí Benja?” e ele, mais feliz do que qualquer outro ser “METRÔ, diz metrô”.

O mundo se desvendava entre palavras, perguntas, leituras, significâncias, interpretações e respostas. Um caminho novo para o que recém existia e que agora seria tão novo e desconhecido para ele, para mim que do lado dele, junto com ele, também iria novamente descobrindo-o.

“É pai eu aprendi ler pixo antes que palavras” ele afirmou, sorrindo, enquanto traduzia os desenhos nos muros da cidade, os traços jeroglíficos da selva de concreto, com aquela liberdade lúdica da criança. Daí ele inventava sentidos para aquilo que lia: essas viagens.

Então veio a mágica – de mágico aquilo era somente a minha recém descoberta, na escola era que havia nascido aquele ímpeto e a audácia – de ler em sílabas, pouco a pouco, arriscando, tudo o que estava escrito no mundo.

Foi no mercado do bairro, ele lendo os estantes, os produtos, os nomes dos corredores que eu não mais segurei minha emoção daquela empreitada e diz a ele “Benja,você já aprendeu ler” e de rir também chorei, naquela alegria tristonha, naquela saudades de despedidas: eu ria e chorava.

“Mas pai você está triste” e mesmo me sabendo tão chocado, tão imerso naqueles sentimentos misturados, dei-lhe um abraço, e tantos outros beijos “É hijo, de felicidade também se chora”.

 

  • O título foi Benja quem deu 🙂

 

 

Las noches de nuestro invierno

Quem vai lembrar você?
Quem lembrará de mim?
O que será de nós?

Sergio Sampaio

 

El invierno de estas noches fue muy frío, hijo. La casita con árboles era demasiada húmeda. Os cobertores sobrepuestos, todos juntos, aún no eran suficientes.

Dormíamos juntos…

Los veinte cuatro pequeños vidrios de la ventanita – tuve que contarlos – empañaban, así que la noche remataba con fuerzas al atardecer. Dentro, nuestro calor  de latidos incesantes, las sonrisas interminables, nuestros altercados de cansancio y rabia en formas de gritos, iluminaban las goticas que contaminaban a contraluz las lámparas amarillas de calle aledaña, afuera, del otro lado de esos mismos cuarenta y ocho vidrios – yo los conté.

Hacía mucho frío…

Preparábamos la comida, el simple alimento de una jornada común de nuestros días. Todo era suficiente en demasía, y en la mesa lo arduo era convencerte comer sin comentar tus largas conversaciones sobre algún de tus temas sin fin – ideas tuyas sin final.

A veces era todo. A veces, desistía de convencerte…

Encendimos velas, tú y yo hijo,

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Fuego en Iquiririm

para apagar una oscuridad ensayada; leímos libros mientras comías o dormías; canté canciones que poco recordaba – e las repetí sin aún recordarlas bien –; inventamos crónicas del arcoíris y sus personajes de otras fantasías; jugamos tú y yo, solos; o solito tú, mientras yo me enfrascaba en otras cosas, mías.

 

Nunca fue fácil… a pesar de lo profundo de nuestra poesía a dos.

En las noches de nuestro invierno – que todavía recién comienza – apenas dormí mis propios sueños; demasiado era el frío y yo, durmiendo a tú lado, despertaba para cubrirte; y en ese fugaz despertar de mis anhelos, te observaba con los ojos cerrados, dormías, y yo, intentando colarme para siempre en nuestro ensueño de vida compartida

Solidão de ser homem

Ontem passei te pegar em casa, Benja, “coloque sapatos, vamos dar um passeio”. Você perguntou onde íamos, justificando que acabavas de brincar “la embaixo” e eu respondi que íamos numa manifestação na avenida Paulista. “Manifestação do qué?” a pergunta era óbvia, pensei; porém eu não sabia bem a resposta.

Seria o ato Todas por elas, em apoio à menina “violentada” no Rio de Janeiro alguns dias antes; como te explicaria isso?, minha cilada; “na marcha das mulheres” eu disse, e você mais confiante em mim do que no convite, terminou de se arrumar e fomos.

Eu queria te deixar por perto de algo que havia atrapalhado minha vida: um país e costumes  bem machistas, que me afastaram sempre de nuances afetivas menos polarizadas, além de um consenso social que havia feito errar tantas vezes nos relacionamentos. Ali era eu quem te pedia, ocultamente, uma companhia para o homem que eu era, e que também aos poucos, tornasse outro homem, melhor, no momento que se tem um filho.

No trajeto era evidente o movimento: meninas de rosto pintado, viaturas e motos de policias, helicópteros, a avenida apenas sem carros. No seu afã de descoberta da leitura, você perguntava o que estava escrito em cada cartaz: Ser mulher sem temer, não a cultura de estupro, a culpa nunca é da vítima e assim vários, eu ia lendo.

Aproximamos-nos da concentração, e lá fomos ouvindo os cantos. Não demorou muito para começar a marcha. Era unânime a presença: somente mulheres. Meus olhos eram somente para não te perder de vista, apesar de que sabia que entre elas ali, haveria tantas amigas para abraçar e estar perto.

Vimos um sinalizador e você me disse “olha pai é uma menina quem está segurando” sua surpresa não era minha nessa hora “é Benja, é só menina mesmo” nos aproximamos “e porque elas estão se manifestando?” nessa hora eu já não fui pego “aconteceu algo ruim com uma jovem no Rio, ai as mulheres se organizaram em apoio a ela”.

Também havia muitos policiais “NÃO ACABOU TEM QUE ACABAR EU QUERO O FIM DA POLICIA MILITAR” e obvio que isso chamava sua atenção, eu disse “eles não gostam muito das pessoas se manifestando” estavam por todos lados, beirando o ato “tem uma hora que começam lançar bombas, são perigosos” eu disse, e você ficou alarmado “aliás…” eu sorrindo “eles estão detrás de você” e seu susto fui visível “eu também não gosto” eu disse e você continuou “eu estou com medo, pai” e não era para menos.

Você começou puxar a caminhada mais depressa, querias chegar ao começo da marcha, ver de frente, “EU BEIJO HOMEM BEIJO MULHER TENHO DIREITO DE BEIJAR QUEM EU QUISER” eu ia cantando junto, quase chorando, sabia. Os homens fomos criados para pensar apertado, sem muita assa para as sensações. Ali uma espécie de liberdade – espécie porque a liberdade se conhece no amar e não, de fato, no lutar – ecoava entre as tantas vozes e gritos, era lindo ao menos para mim, te ver ali de olho aberto, enxergando algo que eu jamais vira na minha infância: tantas mulheres juntas lutando por elas.

Lá, quase antes de nos separar do ato, na descida pela Augusta, um casal com criança de colo, veio nos entrevistar. Queriam saber o porquê de eu ter levado você lá. Eu emendei algumas respostas, nem sei bem no nervoso de um gravador e uma câmera se falei bem, mas o que eu sentia eu sei: Eu tenho certeza que você será um menino bem mais mulher do que eu já sou. Tomara que isso garanta minha esperança, de que você sofra menos a solidão de ser homem.

Guia Fora da Casinha

Nosso facho de azul

Estávamos na trilha na direção da cachoeira no Sertão do Cacau. Um sol rasgava em verdes mais claros um mato de escuro matiz, aquelas árvores mastros da vida, sombra de nosso acontecer. O som apedrejado do rio perto de nossa caminhada. Um facho de azul na testa e los cielos.  Éramos oito. Você e eu, Benja.

Você ia à frente, no ímpeto natural de liderar. Seus passos firmes, nas mãos o apoio, os olhos no aonde? e sua voz de narrar o que está acontecer. Eu ia detrás do seu andar, naquele cuidado  próximo, minha preocupação exigente, minha voz de urgentes comandos.

Num certo momento você quis ficar, não seguir adiante com los otros. Querias, e você disse. Eu topei, e ficamos. Só nós à beira do rio, naquelas poças.

barbapapa bIMG_9754 Nadamos nelas, depois do seu medo do escuro, do frio e da correnteza. Escalamos a parede rochosa do lado da queda, com os escorregadios dos sustos, as mãos firmando na rocha.  Fizemos uma, duas colunas de pedras, dessas que se fazem pensando na construção de um castelo. Castelos de nos à beira do rio. Uma conjura do alto da Torre Babel. Torre dos ensueños e do nosso encontro.

Naquele lugar eu nunca tinha ficado, sempre andando mais à frente no salto de água maior. Sentados na pedra lisa, dentro da água, eu falei “que bom que você quis ficar aqui”, querendo na verdade dizer bom mesmo havia sido aquela solidão a dois, aquelas falas e os sorrisos.

Você criança, me disse “eh, eles não vão saber o que se perderam”. O rio era o mesmo na trilha das águas, lá na alta cachoeira, e ali nos nossos umbigos. Nossas torres de pedras um dia sumiriam nessa mesma correnteza.

“Eu acho que eles estão bem lá onde eles estão” acho que foi assim que eu disse. O facho ainda era azul mas distinto sobre nossas testas e em nuestros cielos.

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“É, nesse momento eles estão separados de nossas vidas” seu olhar arregalou-se à distância, foi um meio sorrindo, um meio abismado. A percepção do instante. O presente na palma da mão. A sombra do eco da voz.

“O bom é estar aqui” eu te disse, e sorrimos com o rio, as Torres erguidas, nosso facho de azul e cielos.

Amor no eco do elevador

Havíamos passado a tarde juntos os dois, Benja; após a escola: andando na bike, depois um suco. Subi contigo até o andar do apartamento, e lá você disse que queria descer comigo até o térreo. Bora lá e descemos, e já de volta, embaixo, você disse que estava sendo difícil se despedir de mim.

“É Benja, para mim também as vezes é”. Você sorrindo quase chorou. Eu, quase chorando, sorri.

Você disse “pai eu te amo” e eu respondi “filho eu te amo”.

Daí nos abraçamos, e sorrimos. Pedi para você apertar o botão do seu  andar, o que fez acionar a porta automática do elevador. Pela janelinha da porta, nos olhávamos fixamente, e você disse “papai, eu te amo” e fechou-se, e então eu disse já com as portas travadas, o elevador começava subir, “filho, eu te amo” e o elevador se foi.

Assim ficamos: você gritava que me ama e eu respondia que te amo enquanto você subia andar por andar, e eu estático no térreo continuava a gritar “filho te amo” e você respondia desde qualquer andar “pai, eu te amo”.

O vácuo do tubo do elevador preenchido com tua voz, ecoava, e se escutava como se você estivesse muito perto. Você ainda sorria e gritava, cada vez mais forte, “agora já estou no oito” e mais, continuaste até chegar até seu último andar:

“Pai eu te amo” você gritou antes de sair do ascensor.

Eu acho que não chorei.