Obama, presidente de uma ilha-à-deriva

Barack Obama é o novo presidente de Cuba. Ou ao menos, isso aparentou nesses três dias que esteve passeando com sua família e comitiva pelas ruas habaneras. Além disso, fez discurso histórico no Gran Teatro de La Habana, no mesmo palco onde o Enrico Carusso, cantara lá pelos anos de 1920. Depois presidiu jogo de béisbol entre um time profissional de Miami e a seleção cubana. Ainda se reuniu com alguns opositores políticos do governo cubano.

A política de governo de Obama com relação a Cuba contrasta opostamente com tudo que tem acontecido desde os anos que Fidel Castro comandou sua toma de poder no ano 1959. De fato é tão contrastante que diante dos discursos proferidos em terras cubanas, Obama parece mais engajado com o porvir da sociedade cubana que de fato, seus vetustos comandantes.

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Air Force One antes de pousar no Aeroporto José Martí

O jogo de poder dos Castros – tenho muitas dúvidas sobre a existência ainda em vida do Fidel – é permitir essa injeção de capital que tanto se precisa para manter girando o rotor enferrujado da pseudo-política pseudo-comunista cubana. Depois de ter visto desgastadas as relações com Venezuela, e após o fracasso de tentar atrair investimentos brasileiros de mais peso, Castro preferiu se aliar aos americanos.

Estes acordos com os “yanquis”  permitem várias mudanças em questões de comercio e cooperação, mas que beneficiam diretamente somente as instituições cubanas, que dito seja, pertencem ao governo; enquanto discussões sobre direitos humanos como livre associação ou liberdade de imprensa continuam fora dos assuntos a serem tocados.

Na conferencia de prensa onde os dois mandatários estiveram, foi apenas Obama quem falou, pois Castro não teve nem sequer máscaras para esconder sua despreparação política, sua falta de carisma e compromisso com o povo o qual ele representa, e ainda por cima, tirar uma onda com a figura de Obama – porque aquele gesto que evidentemente caracteriza uma marionete passa longe de ter sido um acaso.

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

Para quem é cubano, sabemos, todo o que o presidente cubano-americano Barack Obama presenciou não passa de um teatro paraplégico com roteiro assinado pela Seguridade do Estado (G2) onde até cada pessoa que ele cumprimentou ou ouviu fazem parte do elenco. Talvez – eu tenho quase certeza – alguns dos opositores presentes na recém reinaugurada Embaixada dos Estados Unidos em Cuba fazem parte das hordas castristas de repressão. No estádio de béisbol onde os Tampa Bay derrotaram a seleção cubana todos os presentes eram quadros políticos ou até mesmo policiais à paisana.

Por outra parte, a postura do Castro é vergonhosa e patética, assim como as dos apoiadores do governo que nas falas que tem vazado nas redes sociais, tentando desmoralizar os discursos do Obama.

Longe está de haver mudanças significativas na sociedade cubana, isto porque os chefes, militares e gerentes das empresas estatais vivem bem demais como para querer por em cheque suas vantagens. O povo, silente e amedrontado, silenciado durante anos não consegue ver a realidade pra além dos noticiários estatais – onde diga-se não devem ter passado as íntegras as intervenções de Obama – continuará longe dos benefícios que os governantes usufruem, e continuarão a cegas, ameaçados pelo medo que tem, de ver as bombas norte-americanas caindo sobre suas casas.

Obama partiu – quase há dois anos ele dava o primeiro grande passo. Ele ganhou individualmente, por méritos, o posto do presidente norte-americano que decidiu descongelar as relações diplomáticas. Saiu no lucro, pois colocou no bolso uma nação que há cinqüenta anos estava pronta para morrer ou viver pela pátria, esperando que os norte-americanos nos bombardeassem, nesse jogo dos governos totalitários usam para manter o povo do seu lado.

ps. me antecipo a dizer, que esta minha íntima observação sobre recentes acontecimentos acontecidos em Cuba, com o presidente Obama e o povo cubano, não serve como régua para quaisquer interpretação sobre a política bipartidária que acontece hoje no Brasil. 

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A mudança que não chega (um dia histórico de San Lázaro)

Era dia de San Lázaro em La Habana. Por ser de Babalú ayé as pessoas vestiam roxo. De manhã cedo, uma ligação interrompeu a preparação das minhas malas. Liguem a televisão: Cuba liberará o espião prisioneiro norte-americano Alan Gross em troca dos outros três espiões cubanos detidos há mais de dez anos nos Estados Unidos.

Na televisão os noticiários anunciavam o exercício de dois governantes, que nalgum ajuste secreto davam um passo histórico para duas nações há muito tempo brigadas no cenário político internacional. A maior potencia mundial e uma ilha pseudo-comunista, e com essa canetada mudavam os rumos, não só de quatro prisioneiros e suas famílias, se não talvez agendando um capítulo na história.

Essa mesma manhã eu estaria viajando de volta ao Brasil. Não veria acontecer aquele papo radio-bemba cubano onde o que não se fala, se disse, se comenta nas esquinas e nas filas. Na televisora Telesur faziam link com o jornalista em New York mas a rede nacional cubana, cortava a transmissão direta dos Estados Unidos por um comunicado repetitivo e sem mais informações. Raúl Castro falaria ao povo cubano, ao meio-dia, hora em que os ex-presidiários cubanos estivessem em território nacional.

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O embargo acabaria, dizia-se em jocosas frases da família. Agora vai sim, e algo do tipo. Mas em Cuba, o ceticismo é uma das qualidades que dominam. Por não ter confiança no governo e as decisões. Por estar tão distantes dessas tomas de decisão. Por estas, tantas vezes, serem tão injustas em detrimento do próprio povo.

De fato, as mudanças norte-americanas, em forma de medidas, entrarão logo em vigor, beneficiando o que há de melhor lá: negócios, investimentos, remessas. Estados Unidos não quer perder para outros concorrentes, como o Brasil e China, os negócios com a ilha. Do ponto de vista histórico alguns cubanos exiliados reclamam os mortos e o tempo perdido no exilio, enquanto analisam se investir ou não na ilha de seus sonhos e suas fantasias.

Do lado do governo totalitário cubano, o discurso é de vitória sobre o imperialismo. Em La Habana, os cubanos terão que logo gritar consignas de vitória sobre o imperialismo. Os que já estão acomodados, os políticos, chefes de empresas, gerentes e agentes de viagem estão celebrando com champagne e habanos. Os cubanos de a pie ficaram à espera de ónibus que não passa, ou no Malecón à espera de uma balada que nunca acontece, de alguma mudança que realmente mude suas vidas, mas de fato não verão tão de perto as vantagens do que significa esta reaproximação entre ambos países.

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Por trás de tudo isto, continuarão se esconder os principais problemas sociais que o governo cubano oculta: falta de livre expressão, de livre organização e de livre pensamento; manterá a perseguição política contra opositores; a censura contra artistas e escritores; o controle totalitário das leis, das tropas, da polícia, da imprensa e dos negócios; manterá no poder os históricos defensores do único Partido e assim assegurará por mais anos o poder em toda a estrutura social e de instituições.