O mundo aos pés

Abriu as pernas… e abriu-se o mundo.

O último continente afundou na lama.

A chuva era agridoce nos seus lábios sedentos

O olho fixou-me na estaca do tempo.

Ela sumiu nos seus dentres

espirais sinais

sinuosos contornos do esbelto

magnânimas coxas

pingentes, mamilos dourados

brilhantes mordiscos ao sul desta pele

cupim do meu ventre

larva do fim d´umbigo.

Ela emanava em seu grito

sinfônicas vozes

elo do orgasmo

secretas deidades que ela vivia…

Pediu pelo são herdeiro

daquele encontro

do abraço da mão-sobre-mão

das pernas-entre-as-pernas

o ser-dentro-fora-do-ser.

A boca aberta

gemente

o fogo na brasa do peito

pagã das palavras

feiticeira do beijo

artesã do barro molhado

modelando com os pés deste verso.

Ela curvada sob a sombra devota da Esfinge

Eu era o totem por trás do horizonte

do mar de seus gozos

e não havia fim destes cernes

morte do conhecimento

belo animal destas trevas

e estas selvas

livre e impávido

febril

destemida

bicha-sina de homens famintos

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Pretinhosidade

Eu não sé muito de mim, por isso não me questionei a minha voz dentre tua canção. Você é quem bem sabe! Assim, sem você, perdi o fluxo dos meus passos na pretinhosidade do Éden ou o Calvário.

Sim, você sabe de mim
Quando eu não to afim
Quando eu só quero brincar
Não, sim, mesmo que eu diga não

 

Diante do reflexo do meu sorriso, mesmo diante da minha negação, os instantes se foram num pingado café à beira-mar. Molhei os pezinhos numa maré de alto-rio. Depois sumi na correnteza do mais puro amor. Avistei as areias da felicidade. Não havia o perigo de nelas sucumbir – isso achei. Ainda, com dor, ainda acho.

 

Entretanto não vá

Não vá me abandonar

 

Uma aranha curvou suas pernas pro céu num fantástico bocejo de nudez. O escuro da noite vetou a felicidade de um “sempre feliz”. Todos te olhavam. Eu te amava assim convertida na bichinha dos meus pastos sem luz, na besta da minha imaginação, nos seus olhos de paz olhando o sem-fim de uma paixão interior.

 

Como em teus bosques. bebo nos teus rios.

Entre teus montes, vales escondidos.

Faço fogueiras, choro, canto e danço.

 

Éramos abismo para cair. O eco da queda sem medo. Soneto dos corpos discretos, um dentre do outro, deliciosamente nossos. A beira-mar nosso rio. A pele pretinha luzindo os brios, e os breus. A voz do nosso som parecia infinito. Todos escutavam. Eu também assim o escutava.

 

Agora é só eu e você
Juntos na mesma estrada
Atravessando a madrugada
Pra ver o sol nascer

 

Eras começo. Eras meu fim!

 

Prá você é o fim da estrada

Ainda és!

 

Obs: Músicas de Mart´nalia e Paulinho Moska, todas interpreadas pela Mart´nalia. 

fim dos mares

presos aos sonhos
iam os homens – e as mulheres – ao redor da terra
traz as sombras daquele sonho fugaz
de trino incessante a sereia do amor
e timões levados à esmo
ou desdem
perseguindo aquela caudal mortal
no eixo interno
da espiral da dor
iam se fardados do sorriso da emoção
a irreal empatia do amar
a ilusa confusa vontade de se aproximar
o abraço nas noites
os corpos consequentes
era somente sorrir
um bocejo ao acordar
e depois, olvidar.

Do tamanho do meu amor…

Enxerguei naqueles olhos o brilho do amor que me observava. Um brilho tênue que refletia as sombras e luzes de um arco-íris.

O vôo era cego até aquele encontro. Dei um abraço apertado, sentindo as batidas combinadas daqueles dois corações-seres.

Era o mais grande amor que batia dentre aqueles dois peitos. E eu o sentia num silêncio que desconhecia palavras.

Era um abraço singelo. Fugaz e voraz como o fogo que arde entre chamas de uma lavareda. Era um quente que ardia. Queimando e sanando tudo que acontecia.

Era a dor do abraço. A certeza do adeus.

E assim, seguro entre dedos, o corpo do beijo, cabelos do tempo, aquela umidade de rios no meio a penhascos, aquela pele basta de campos e bosques e altas montanhas, a imensa caverna do eterno, aquele refúgio donde a vida se fingia permanente, e essa dádiva de me saber efêmero diante do amor, a paz do instante, a morte do eterno, e a dor do distanciamento.

E no instante da brisa geada entre um corpo e o outro, o momento do aquém e da ida, um continente se abrindo viagem no oceano, assim como a folha se aventura no vento, a semente estourando o caroço da terra em incrível crescida até os céus, uma dor de mil séculos, do filho no ventre, ou pior, muito antes, nunca nascido.

Era a dor de mais um adeus, do tamanho do amor que já fora. Insensível o destino de amar desmedido. Sangue nos olhos, pingando lágrimas destemidas, raivas silenciosas e desejos contidos.

Havia que aprender o silêncio do monge.

A paz do desterro.

O trino do pássaro na janela fechada.

Não haveria primaveras, nem tampouco perdões.

 

Aquele (im)possível

Era ela, e ela. Eu era.

Era o sem-fim de um beijo, basto e sem beiradas. Sem fundo. Sem cume.

Tamanho aquele possível, que o mar diante, era pequeno e menos profundo. E nos nadávamos no abraço ínfimo de nossas línguas. Dela. Minha. E dela.

Era um pulo nos campos-pele. Nas peles morenas torradas. Morenas mais claras. Morena suada.

Era o encontro do momento. Instante diminuto do segundo. Ela no meu olho. O olho meu no dela. Ela e ela. Eu mesmo.

Era a base da grã pirâmide. De ponta-cabeça todos os argumentos. Eu amava o mar, sendo apenas testemunha do corpo dela, e o meu, e o dela, trançados num só agarre. Nús num só beijo.

Beijo no tempo da sétima onda que veio. E depois voltou, e veio, antes de acabar o tempo. Era eu dela, e dela. Delas eu mesmo.

Coração mexerica

Meu amor não se divide. Multiplico-o em partes, fazendo-o maior. Cresce do pedaço e mágico, aumentar maior.

Não me divido. Sou um no instante, e outro, no depois do momento. Não me repito no auge, somente avanço no voo do que foi e súbito, renasce.

Pense que nesse transe, entre você e o resto, meu amor revive, e até voltar a você está maior do que fosse antes.

Meu amor eu ponho na mesa, naquele canto onde todos podem. Onde todos queiram. Não temo ao furto, nem me cuido da traíra. A vida mostrou-me conhecimento: meu amor ninguém leva, porque é do meu sentimento.

Abro a casca. Cuidadosamente espirra o sumo do doce azedo. Ofereço. Dividir da fruta é que o mais prazer da ao gomo que saboreio. A doce fruta e o raro ácido dentro no beijo. Espremo-me no abraço. Quero sacar-lhe tudo o que tiver contido.

Cresço nesse convexo. A elipse torna tudo metaforicamente impossível. Mas é do avesso, muito mais do que possível.

Ofereço(me) um gomo. O sumo do amor é doce azedo. Não queiras, não significa que não seja possível amar amor o impossível.

Não aflito, descasco meus ventríloquos abertos. Pulsa ao máximo: não temo. O meu coração somo. Assomo à mesa: o gomo exposto, ao alcance da mão do meu desejo.

Quer um gomo? É doce e também azedo.

Por si próprio

Sozinhos em si, assim até que parece difícil. Solitários enfim, é a única verdade que temos. Dentro de cada ser, somos cada um diferente, distintos de todos. Sós…

Então como conviver com os “outros”? Como relacionarmos entre si? Como amar?

Esse amor entre nós todos é o principio de uma grande solidão. Para amar, precisa-se sentir primeiro o amor em nós. O amor por nós. Qualquer outra variação do amor, que não comece e preze pelo amor próprio, terminará seus dias numa tristeza só. Só dor…

Nas relações muito próximas, família, casais ou roomates onde o convívio dilui as fronteiras dos indivíduos, o amor próprio, quase egoísta, é muito mais do que fundamental.

Em família, vivemos aprendendo com comportamentos alheios por muito tempo. Sem outras referências, aquelas maneras terminam nos moldando até parecermos com esses nossos familiares. O amor próprio se divide e multiplica em muitos outros amores que nem sempre são tão amados. A falta de enfrentamento entre as pessoas, ou pouco espaço para a sinceridade, vá gastando os afetos. O amor de si, abalado, sofre e magoa. Abala e afoga. Mata. De aí, que tantas vezes, dessas relações tão duradouras e pouco questionadas saiam tantas faíscas.

Nas relações afetivas do amor, é indispensável a confiança. Confiança de que a pessoa que acompanha, que nos acompanha, não está medindo ou testando nossa existência. O afeto, aquilo que realmente nos aproxima, não corre riscos. Os corpos se juntam e a energia desse encontro reflete a verdadeira natureza do amor.

Para estarmos juntos, acredito, a pessoa amada – com seu amor próprio completo – se aproxima não só para aprender ou crescer ou ser outra, e sim para viver aquilo que ela é, em sim própria, por si só, sem por questionamento ou juízo naquilo que somos, e vice-versa à espera de um questionamento ou juízo daquilo que ela é.

O que somos, é constantemente modelado pela presença de outros. O amor então é irremediavelmente modificado pela presença dos nossos amores, mas é o nosso próprio amor, único e individual, que nos acompanha na caminhada. Perceber ele, íntegro e natural, é das maiores empreitadas do humano. Para amar.

Para amarmos.

Gozo

O corpo dela estava jogado debaixo. Nus. O movimento, apenas, era um roce continuo dos umbigos, os peitos e o beijo. Assim se arrochando, entre perna e perna, o pau ereto imbricava na cavidade úmida do seu sexo. Entre ambos, o suor fazia deslizar as peles, num desce e sobe do aperto perfeito.

“Não enfia ainda…” suplicava ela com uma vontade irresistível, com um tesão irremediável.

O corpo era maciço. Difícil de lhe pegar alguma sobra, não fosse aquela bunda desmedida e perigosa, que agora se tornava visível assim que ela girara. Dentro daquelas bochechas exageradas, no fundo do poço à procura dos deuses com a língua, o nariz e até o queixo.

Cheirava à mulher-cavala. A égua da qual todos os Deuses falavam. Era real, o sonho, e tão fantástica a loucura dentre aquelas duas pernas, sob o umbigo, com aquele todo suor.

As mãos delas pressionaram a cabeça, ajustando a engrenagem daquela maquinaria milagrosa dos orgasmos.

“Vá devagar…” outra vez a voz, e os suspiros, e os olhos tortos se virando para sim.

Ela se contorcia, e comprimia com a presença firme da língua direto na pontinha rosa – e a pinta – de seu clitóris. Era fálico, e mole, e suave, e deliciosamente amoldável dentro da boca, e sob a língua e os dedos, e o nariz e o queixo.

“Não para…” mais uma ordem dada, mais um detalhe calculado da mulher-cavala, égua bendita sob o corpo, e a mão prendendo o cabelo, e um controle estrito dos movimentos, e língua, os dedos, a pontinha rosa, a pinta, o suor se escorrendo entre as peles, e os corpos, os beijos entre as pernas e um silêncio magistral de menos de um instante… e o vulcão de dentro, dos olhos tortos e a voz gemendo, a mão prendendo, a língua, cheirando o suor quente de dentro que brota, e brota e brota, brota, brota, brota tanto gozo quente de dentro, e o silêncio é eterno, a mão prendendo, e brota, brota, brota, brota o sêmen dela transparente e aquoso, delicioso mijo fora e dentro que molha tudo que está próximo, pega na língua, os olhos, os dedos dentro e fora, o queixo e os lenções e os travesseiros.

Ela leve, mulher-dos-deuses sob o corpo, tanto gozo que é de agua o corpo maciço esses músculos, e é de gozo que é feito esse sorriso, e o beijo molhado é de gozo, entre as línguas que se encontram no beijo, beijo molhado de seu sexo, da pontinha rosa e a pinta, tudo de feito de gozo, e eu gozado, e molhado de gozo como se fosse dos deuses também filho, e abrindo mais os olhos, olhar úmido e gozado, e ela distante, num silêncio-gozo do qual é prisioneira, e calada ainda, como se com os deuses falasse solta a mão que prende e se liberta num suspiro, e fechando as pernas…

“Me olha aos olhos…”

Em direção do centro

Eu estava indo ao um show. Show de rock. Hardcore. Nessa época, ainda, era difícil eu sair sozinho, sei lá sempre, marcava com alguém antes de sair de casa mas nessa noite arrisquei de ir só. Também não era mais um teenager, então fiquei na minha, numa noite de sábado num ónibus lotado em direção do centro.

A galera essa hora ia para suas festinhas. Meninas arrumadinhas, grupinhos de moleques daqueles bem chatos que cantavam gritando e batiam na estrutura do ónibus que faziam um barulho muito forte. Eu fui ganhando espaço até o final do corredor, e me posicionei na escada da porta, em silêncio e pensativo.

Mas em La Habana os ónibus lotam demais, lotam mesmo até na chamada confronta que são as linhas de ónibus que funcionam durante a madrugada. Então o “busão” ficou impossível, eu fiquei de bailarina num dos degraus, esmagado entre as pessoas e o abre-cierra ­da porta.

Num dos pontos, o motorista deixou entrar gente pela porta onde eu estava, e apareceram mais uma turma de meninos e meninas um pouco mais novos do que eu. Falavam besteira e zombavam um dos outros.

Eu não percebi nada até que numa dessas a namoradinha do menininho xis, ficou parada bem na frente de mim, eu fechado, serio, sem trocar ideia com ninguém, de roupa preta, careca e piercings nem imaginei que ela se aproveitava da situação. Ela sorriu, não sei se para mim ou imaginei, mas não pude evitar…

O calor daquela muvuca toda aumentou. A morena se esmagava toda sobre mim, e beijava o namorado acompanhando o rebolar do ónibus, olhava para trás, ria, cantava. A posição não mudava muito, só quando abria a porta para alguém descer e ela, mocinha bonita do meu coração, abria as pernas para eu ficar ali.

A coisa ficou tensa. Galera berrando músicas. Moleques batendo no ónibus. Tudo fechado, lotado. Ela ali, diante de mim. Eu ali quieto, tenso, duro. Ela o beijava e eu olhava o beijo deles. Ela sorria e eu seríssimo, perto dela, quase dentro dela, em silêncio, sozinho, feito bailarina no último degrau no ónibus em direção do centro.

Cheiro

Espreguiço-me na cama gigante da solidão.

Estico meus pés ao máximo………………. Alargo meu abraço………………. Sinto a extensão consistente do meu corpo desnudo……………………É quente por dentro e por fora, e ainda não suo, mas sinto a pele deliciosamente pegajosa de tanto que andei.

Agora arrepio os olhos fechados, que se abrem num palpitar delirante: estou só………… EU SOU SÓ.

Lembro-me das ausências. Isso por demais, não interessa. Dentre estas quatro paredes, sob a fé da epide(r)mis e C(r)onos, cabe a vida que já vivi: não há fantasmas.

Cheiro meu cheiro. “É esse meu odor de mim?” (re)cheiro!

Cheiro-me novamente: agora é o que posso fazer, e me toco lentamente. Dos cheiros nasce todo desejo que há em mim. Surge abrupto e necessário. Inevitável. Indispensável. Agarra-me solitário, e me embebesse, me domina, me vicia.

Contamino-me do vício de ser eu… cheiro-me sem fim, sem fins.

Cheiro a saudade de mim. “Onde você estava?” Inundo-me de mim mesmo. Esse acaso egoísmo é de se permitir: vou-me aproveitar.

Cheiro-me sem ressalva. Não temo me apaixonar do fundo cheiroso de mim mesmo, porque a felicidade tem aroma do que te faz feliz e o medo………… é baunilha com chips de café.

Estou feliz. Só.