rascunhos à beira-mar

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

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espirais

Existe uma espiral no peito

destino próprio de si

no caminho crucial dos sentidos

avalanche comum do existir

de palavras que sucumbem na névoa

da singela voz interior

perguntas cotidianas

anseios do imenso

mascaradas do ego-sonhador

fantástica sapiência dos céus

evocados naquele dEUs infeliz

vingativo de rude substância

incapaz de assumir seu devir

a ilusória verdade dos além

d´um futuro sempre mais promissor

de infindáveis luxurias do corpo

nos outros corpos

(cada vez mais belos corpos)

no desejo do alheio

da esperança perdida

d´outros cantos

da mesma velha sereia

que abanica sua cauda infantil

na profunda galaxia

nos confins

do amar.

 

 

 

 

 

Amar: entre sentir e o ego de ser

É sempre bom saber quem somos. Quem sou eu. Quem somos: eu.

 

Amamos-nos – ainda que nos pareça egoísta – primeiro a nos mesmos. O amar nos conecta com o afeto (e efeito) do amor que vem dos outros. Isto é, cada amor nos presenteia com um novo amor de si (nos) próprio(s).

Amar é sempre aquele oceano. Entregue dos pés aos fios do cabelo, inteiro. O corpo naquela sensação de voo cego. Sempre que amamos os olhos brilham no incandescente do escuro. Raios de luz iluminam cada breu numa sorte de sorriso interior que permeia e inunda cada traço e gesto de nos. Quando amamos, cintilamos nas andanças, recriando uma harmonia a todo que nos rodeia.

Então, não é do acaso que no meio de estar amando alguém – e nos mesmos – ; outras pessoas ou recentes paixões se encandeiem com o brio do amor que nos acontece. É o cheiro intenso da flor da sedução espalhando aquele odor irresistível do amar; e logo, o inevitável efeito de sentir um novo amor, em si, na forma de um novo ser.

Aquela sensação que muitos temos: “só basta eu começar namorar, que aparece todo mundo querendo me pegar”.  Coisas de tabela periódica de Química.

Do amor sempre é assim: enquanto mais amais, mais se sente vontade de amar. A flor da sedução exala cada vez mais irresistível o cheiro do amor. Então é sempre inevitável o efeito de sentir a chegada de um novo amor, em nos, na forma de um novo ser: aqueles oceanos. Amando os amores que vivemos, descobrimos cada vez, uma forma diferente do “eu” de ser.

Sempre que amamos, se ama demais. Não é possível medir até onde vai o amor, assim sentimos o amor chegar, em formas de seres distintos dispostos na vontade de amar, e na seqüência da entrega, a paixão, o tesão e o amar, sentimos também todas as inseguranças, temores, e dores que carrega um verdadeiro amor.

O abraço longo do amor, segura a pele e restringe o corpo. A mente mede o medo, resiste-se a dor da possível perda ou compartilhamento do amor. A flor murcha tentando impedir o exala do amor, e incluso o mais provável, até o total extinguir desse amor, na tentativa infeliz de não compartir ou da não perda do amor.

Nessa balança entre o sentir – nativo do ser do interior – e o ego de ser – a constituição social do ser – , trava-se uma batalha final pelo amor de si, de nos; e finalmente quem sempre perde é o amor. O corpo escolhe pela sensação de mais conforto ao amar. Pelo cheiro leve na brisa de nos. Ou até mesmo, pela mais sombria das escolhas: não amar.

Então, definitivamente o amar na sua forma binária e seletiva, contrasta com o amor que exala a flor do amar, que não escolhe até onde vai o cheiro daquela emoção. Escolher a quem amar, é escolher quem de nos queremos ser: aquele eu – nos – que se resume aquele amor e aquele amar.