Seduzindo Milton

Milton garimpava roupas e máscaras para despedir o verão no melhor estilo. Eram tecidos rasgados, todos fora de moda e sem passar. Alguns com mau cheiro de pouco usar. “Falae, ficou bom, não ficou?” ele perguntava enquanto eu queria entender o por qué daquele proceder.

Nos últimos dias havia exagerado no pão com manteiga, nas cervejas, e no pouco dormir. Pendurava olheiras escuras sob o olhar e um sorriso desgastado. O cabelo estava ressecado e desbotado.

Milton me apressava para ficar pronto. Íamos juntos numa festa de uma amiga tal, onde a diversão e a esbórnia eram garantidas, as bebidas e a comida bastas, e até havia uma piscina aquecida. “É hoje que a gente não volta sozinhos…” soltou seguro, ajeitando a gola da camisa, e me olhando fixo através do espelho “… .

Chegamos naquela casa amiga fantasiada de Hollywood; mulheres esbeltas e homens sarados, todos numa finura clássica, com raros sotaques e inusuáis jeitos de vestir. Era a extrema representação da beleza e a sensualidade humana, “coisa estranha essa de se fingir de outro alguém…” martelou Milton ainda abismado com os olhares que recebia ao encontrar de frente com alguém.

Eu o observava distante, meio envergonhado meio desinteressado. De fato quem olhava para ele, também me enxergava a mim.

A música acariciava as salas, e os corpos dançantes se misturavam em gestos e formas de distinto agir. Milton executava seus próprios únicos movimentos, que eu insistia em repetir do lado de fora, perto da piscina aquecida. Era certamente bizarro, sobretudo porque era ele quem mais se divertia, girando no chão, dando pulos sobre as poltronas e sofás, jogando a bebida sobre si.

O resto das pessoas parou para observar, numa sinfonia de estupefata adoração ou de sinuosa inveja. Os mais robustos se acercaram para lhe chamar atenção. As meninas se afastaram. Milton fez-me um sinal “a felicidade é a ponta de uma faca no centro de alheios corações… “ eu lia seus lábios, que sorridentes, no mais intenso tesão, proferiam estas palavras “… e somente quem almeja é quem pode ser feliz”.

Era um absurdo tentar  conte-lo enquanto gargalhava. Eu me vi, dentre dos braços deles, sendo arrastado para fora do evento.

Éramos dois felizes sem causas.

Eu perplexo. Ele alheio.

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À sombra de Milton

 

Milton caminha entre desconhecidos quaisquer. Em silêncio, passa sem chamar a atenção. Ninguém o olha.

Tampouco, ninguém olha para mim.

“Entre os outros…”  e ele aponta ao chão, à sombra amorfa de nós “nem mesmo nosso breu fica parecido”.

Diante daqueles, formávamos incríveis figuras que desenhavam outras distintas maneiras de ser, e nossas linhas, eram inimagináveis e imprevistas.

Milton continuou a brincar de descobrir outras imagens “olh´aqui, não parece muito com um camaleão?” que ele insistia em me fazer ver “veja bem, não é mesmo um deus nórdico?”

Eu assentia ou negava apenas para não deixá-lo falar sozinho.

“Nossa, vendo aquilo que belo…” diz-me surpreso, ao ver minha nova sombra misturada ao corpo singelo de uma moça que atravessou entre nós.

Depois, Milton se afastou. Continuou andar entre outras tantas pessoas que passavam por ali. “Uuuh, agora foi quase…” gritou-me depois de tentar apagar nos outros, o gesto discreto de nós.

A noite, enfim, diluiu a frustrante agonia de uma sombra esticada sobre o concreto vertical de um prédio. Ele firmou o olhar no último laranja acendido no seu rosto.

Eu era a sombra perfeita que ele precisava, e que também, desconhecia.

O novo ano de Milton

Pelas frestas das janelas, o murmúrio de alegrias alheias inundava o neutro sorriso do Milton. Ele degustava um cigarro, um som qualquer na rádio, e no copo esquentava uma cerveja. O olhar fitado numa sombra, avesso impresso da árvore, lá fora no quintal de casa, e agora invadindo a parede de dentro.

“Quer fazer um brinde?” pergunto-lhe a Milton, alçando meu copo gelado, tentando celebrar alguma alegria nossa. Eu sorria da cumplicidade do encontro.

Eu e ele à sombra da árvore: afora, avessa; aqui dentro, escura.

“Um brinde…” cuspe Milton, e engole a cerveja dele, “… nos merece mesmo isso” e levanta o copo em direção de mim, vazio.

“Muita saúde…” eu aproximo o meu, “… para nos” e batendo os copos, fito meu olhar no dele, e no mesmo instante, escutamos a explosão de um fogo de artifício e o copo cai da minha mão, fazendo aquele barulho úmido no chão de vidro quebrado.

“A Terra dando mais um giro entorno do Sol…” Milton murmura enquanto eu cato os cacos; ele dá um gole direto da garrafa de cerveja. “… e nos dando mais uma volta entorno de nos”.

Estouraram mais uns fogos em seqüência. Uns cachorros latiam. A alegria alheia transbordava dentro, as avessas da sombra da gente. Rara essa maneira de comemorar o fim de algo na linha infinita do tempo, nessa rara infinita forma de nos.

Milton e Demian, e um café-da-manhã para três

Poucos antes de acordar ouço os gritos sem eco do Milton “é serio que comeram as bolachas amanteigadas…” era ele longe e dentro de mim ” a goiaba madura e o último pãozinho francês?”. Era dureza essa fome dominical no acalanto do lar de nos três. 

Eram o excedente da festança da nossa solidão: tudo exato, frugal, necessário. Eu comia por ele, só as vezes. Quase sempre Milton que se alimentava de mim. Eu teimava de acreditar naquela fina justeza. Tudo nosso: para nos.

Milton pressentiu uma rara injustiça “alguém vai ter que repôr…” ele vociferava sem ter com quem implicar “… cadê aquele baixinho, é papá?“, procurava nos cantos ocultos, as sombras esconderijas, “eu vou te achar, nené” as pegadas sorrisos ou as mãozinhas delatoras daquele pequeno infrator.

“Foi você, eh malandrinho” Milton descobrira nosso filho sob a cama, preparando o maior banquete: especiais pães na chapa, frutas várias cortadas, leite quente no justo café ou no achocolatado, suco fresco de tangerinas. Eu no mesmo impulso, também vi tudo aquilo. E a ele. Do sorriso dele, escondido sob o grande colchão, um minucioso convite para nossa satisfação.

Demian servia café nas três xícaras. Uma para Milton, sem açúcar. Para mim, somente um pingo de leite. Para ele, basto chocolate no leite sem café.

Em silêncio o domingo avançou sob a nossa cama. Brincamos de comer sem desistir, destino tríplice de sermos feliz.

“E aí papae…” Milton respondeu com o silêncio do seu mastigar “… você gostou do lanchinho que eu fiz para você?” Eu sorria olhando pro Demian, num acerto de perfeito reflexo. Pai e filho: Nos três.

Dei-lhe um beijo e o opaco do Milton também nos beijou.

Pai é filho.

Demian era o sol do domingo, razão de nos: Ser.

 

Milton e seus discípulos

Milton apaga a lousa como quem apaga meu rosto de um espelho, a poesia não tem tempo… no fundo aparece um verde fosco, e ainda os restos mórbidos de outras palavras que ele esboçara com uma certeza vácua … esse é o inimigo maior do poeta.

Do lado oposto da sala, dez ou mais discípulos, se surpreendem com o método. Alguns versos jorrados através das janelas. O grito de outros poetas ecoados na voz dele. Um pulo na parede. Um deitar no chão. Um rasgar de folhas rabiscadas.

“Nada me interessa da poesia alheia…” somente eu não me surpreendo com seus gestos, as mãos avoando, o farelo de papel fantasiado de purpurina branca “… cada um que cuide de sua insólita loucura”.

Os discípulos mascaravam elogios, o orgulho de presenciar tamanha tertúlia do ego em retórica poética do maldito. Eu era o principal refém daquele giz que transmutava sensações em palavras, como se fosse também meu, todo aquele universo egocêntrico que ele praticava.

Mas eu não o negava, essa mesma vaidade agasalhava-me nas geadas das noites solitárias, no exercício cotidiano do ser diante dos outros, no percurso singular daquele nosso existir.

Ali diante daquelas palavras que insistiam em se reescrever e se apagar na esverdeada lousa, eu sentia uma solenidade estupefata, razão do sentir de nossas ambas mãos desenhando as emoções de um fantasma.

“Vocês ai…” Milton gritara no seu afã  de discurso, “ninguém aprenderá nada com suas palavras…”  eu certificava tudo aquilo no gesto frio de um diretor de orquestra de câmera “… e ninguém se importará jamais com o que vocês falam” era triste e sublime o ensinamento no rosto apático dos discípulos, aqueles dez o mais escritores de poucas façanhas.

Eu, que diariamente penava o poeta, confirmava com o giz branco na mão dele, “o que vocês escrevam… “ e na outra mão nossa, aquele gesto altruísta e necessário “… como a mesma dedicação o apagam”.

Milton sem mim

“Quem seria esse bicho andaluz, quando não estava por perto de mim?“ me perguntei ao espelho, me olhando. A voz esfumaçou meu reflexo, e não me vi mais.

Essa era uma dúvida do existir. Um silêncio neuroses. A voz em forma de eco interior. A resposta sem horizontes da explanação.

Quem era esse ser quando sumia na cidade? Como seria entre tantos outros seres com outro existir? Como seria aquela voz sem eu lhe escutar? Como seus passos sem meus pés? Sua silhueta sem minha sombra?

Eu me multiplicava em dez mil eus tentando saber tudo sobre ele. Tudo sobre mim sem ele, e vice-versa.

“Quem é você, Milton?” era o meu amor querendo saber dos opostos. Entender a ausência fugaz. Perceber o eclipse do ser. A lua interior no centro do Sol.

Na ausência dele, faltava-me um infindável eu, um buraco no meio de mim. Eu chamava-o sem ele responder. Eu intuía-lhe sem ele aparecer. Era um fantasma a falta dele em mim.

Então, às vezes Milton aparece nesse justo instante da comoção à beira do abismo “que acontece rapaz?” era a certeira aparição, avalanche do súbito entendimento de que eu era pouquíssimo sem ele, sem mim.

“Medo de ficar sozinho?” ele perguntou e o eco despencou abismo abaixo, eu com ele, na voz dele de mim. No escuro, eu ainda enxergava o rosto irônico dele, o meu medonho, o humano dele dentro do meu: cara ou cruz.

Minha voz não emanava, sumia no vácuo daquele som interior, num silêncio perpetuo: o som da solidão.

“Psiu, psiu…” ele cutucava meu medo num raro jeito dele sobreviver.

Esquece, Milton

Milton caminha na minha frente, um abismo de dois passos. O olhar dependurado na paisagem entre ruas e fios elétricos. As pessoas vivendo suas vidas de passos simultâneos. Um rosto e duas sombras.

“Vê se esquece daquilo” – Milton solta e assinala a torre mais alta.

Aquilo representa o destino de certa verdade. Não há probabilidade. Carece de estatística. Olvidar é reaprender o caminho.

Milton avança agora mais leve, na malandragem acha um atalho ao tumulto. Dois pulos num muro. Uma barra de ferro. Uma corridinha de impulso e com um pique consegue correr entre dois guardas.

Ele era o ápice dos meus opostos. Uma insana corrida entre escadas de mármore, em círculo ascendente. Um cume.

Eu era a calma da espera, no meio do nada e o asfalto. Ele no ponto da haste mais alto.

“Se perdoa Milton” suspiro desse sorriso que ele me manda dos céus. Braços abertos no vento. E vejo que os guardas o prendem e o fazem descer.

Em breve ele aparece e se entrega ao meu abraço. Nos dois abraçamos no meio de todos os outros.

“Você achava que…” Milton sorri no meu ouvido. A haste balança-se detrás de seus ombros, lá na torre mais alta “… não há desejo que valha esta morte”.

Então ele me mostra o revólver. E vejo sua sombra começar a corrida, dois passos à frente. Um abismo. Eu mesmo, duas sombras.

Do nada, Milton

A pesar das insistências do diário cotidiano, Milton não se abalava em sentir as pressões dos seus afazeres e necessidades. “Eu vivo à margem de mim…” e apanhava do ar uma poesia gutural e incompreensível “… e nada sei do que é, ou deve ser feito”.

Eu preparava uma marmita para o almoço no serviço. Pegava um livro qualquer para ler no transporte. Planejava as horas vagas da noite, e até imaginava algum sonho para percorrer na madrugada.

“Dar corda livre à sociedade…” Milton escrevia com o gesto no vidro da janela mofada “é jogar fora tudo o que se é de naturalmente único”.

Ele falava leve, sem questionar ou pesar naquele solilóquio. Eu, daquela tristonha alegria, conhecia apenas os perrengues, as fomes, as dívidas e as noites solitárias. Era como aceitar que para sermos, teriamos que ficar na sombra das felicidades alheias.

Milton preferia ver o sol nascer depois da imensidão da última insônia, e aproveitar para berrar nos nossos cadernos de (des)encontros e (des)tiempos; depois se entregava às vulgares conversas das pessoas nas ruas sem o intuito de entender ou julgar; depois interpretava o vôo das andorinhas na esquizofrenia do entardecer; e na noite, sem qualquer explicação ou objetivo, ficava vendo aparecer as estrelas da noite.

Era uma existência inócua, quase pueril, um tanto inútil.

“E quem disse que a vida faz sentido…” Milton gritava para mim, do outro lado do vidro mofado, como se ele mesmo não acreditasse naquilo.

Eu vi a dor nos olhos secos do seu grito, e do lado oposto do vidro, escrevi no orvalho úmido do nosso encontro “… é viver que faz sentido”.

A morte do Milton

“Milton, cadê você?” pergunto para mim no meu silêncio interior. E o meu silêncio responde…

A última vez que soube dele, alguma triste premonição me cercou. De fato, a vida ficou mais tensa, concreta, dificílima. Nessa correria toda, me esqueci de invoca-lo para sorrirmos juntos. Ele também não me procurou.

“Milton, Miiiiiilton…” nada, ninguém contesta.

O meu malvado favorito esqueceu que minha solidão é péssima companheira.

Esqueceu-se de mim. Esqueceu-se dele.

Eu não consegui escrever seus últimos suspiros. Minhas palavras que eram dele. Perdi seus gestos na nebulosa realidade. Não ouvi a voz de ele me chamar pelo nome num murmulho. Não senti o corpo nosso se roçar na minha pele.

“Cadê…?” era um pranto que fez eco e voltou para mim “… eu?” meu espelho interno devolvia-me um Milton intacto. Quase um eu mesmo, perdido e solitário.

Eu não sabia dele, e desconhecia de mim. Fiquei abismado diante da escandalosa fenda entre eu e eu mesmo. Um buraco fundo sem fim. Poucas palavras, e ainda menos gestos. Quase nenhum ato.

Estava morto, Milton e eu.

 

O destino do Milton

Milton nunca soube o que fazer da vida. Nunca sonhou com castelos de areia, nem com ser herói de princesas prisioneiras. Não quis ser médico nem bombeiro.

“A vida é isto mesmo…” minha parte na história sucumbia, eu preso a tudo que ouvira sobre existência, minguava “não preciso inventar destinos”.

Acordar era divino. Divertir-se com os hinos de pássaros cotidianos. Surpreender-nos com barulhos diferentes dentro de casa ou dentro de nós mesmos. Uma ideia é o começo de uma história infindável, pequena e pessoal, milenária.

Milton era feliz com pouco. E eu feliz com ele.

Tinha dias onde sem nenhum fundamento a “casa” caia. A tristeza invadia cómodos e meditações. Paredes e lágrimas cediam diante de um pensamento. A ideia era de morte, de fim, de vazio.

Milton não sabia o que fazer dos dias compridos, cinzas e rabugentos. Dos instantes sem emenda. Da vida sem destino: A VIDA.

Ele murchava os atos. Mal escrevia os segundos da nossa vida, e ainda menos vivia… vivíamos.

Daí eu largava ele no canto menos preferido, sem livros nem esperanças. Que cada um tem seu destino, mesmo sendo ambos do mesmo corpo, e o único que escreve e vive, esta nossa vida sem caminhos conhecidos.