a arte de escrever com palavras

a arte de escrever é traduzir sensações em palavras, antes sempre de que estas, percam a esperança!

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promessas, nada.

não faça promessa, nunca. promessa é uma porta aberta, para o resto da vida, até o fim.

uma ponte a meias, levantada sobre o abismo do tempo, prestes a cair.

promessa é um pôr-do-sol nublado, vermelho o céu e os olhos. você de um lado da promessa, distante de tudo e de si.

promessa é uma festa na praça, interrompida subitamente pela chuva geada, e tudo largado ao vento do que está por vir.

promessa estanca as palavras na goela da memória, e aguarda insistente o momento de cuspir. promessa é o tumor do real, escancarando o fim do existir.

promessas ferem a morte, matam.

não prometa nada. pois nada em nós tem certeza de ser.

não, nada prometa, nada.

escrevesse com palavras de gestos

nada acontece no vácuo da vida

ela é mansa,

arredondada nas quinas e fundos

dissimula em fantásticas alucinações

o que seria

se fosse

talvez e impossíveis

ora chove, ora inunda

ora seca, depois floresce

e nos rejuntes do plural cotidiano

vai se tecendo o caminho

os encontros

este agora de ser

este ser

entre tantas e outras maneiras

então faço o risco…

o meu braço esticado à procura do vento

uma perna sustenta o altar de este corpo

uma mão dentre a outra

um sorriso que engulo no úmido da língua

meu reflexo na sombra contra uma parede

sou pouca coisa

apenas um corpo que emergiu deste caos

moléculas que combinaram na alquimia  do humano

esse bicho resiste no silêncio sutil da minha noite

no sonho da alta montanha sem lua

no grito da morte no talo do osso

as garras funestas da sobrevida

que brotam dos dedos da bestia encardida

ou a saliva do sangue nos olhos

o afã de desgarre

desejo da vida após esta vida…

por este, desando as palavras

desgaste banal do que faço (e admiro)

e repito os meus gestos de sombra

as mãos dentre as mãos

sorriso na ponta da língua

meus olhos nos olhos

e mais um fim…

(silêncio)

 

 

vida podre

era o fedor da vida o que interessava

o cheiro podre do que viria morrer

o ralo

os lixão nas esquinas do bairro

o suor melado nas coxas da fêmea no cio

o pelo úmido do meu suvaco na crispa do dia

a batata moribunda na geladeira

o sorvete derretido e as moscas

a mão traíra dos traidores

no instante do contrato justiceiro da escravatura

eu era o hímem

a abertura do mundo

de um lado ou do outro

o podre dos dias

da vida

do humano

que por angariar,

apodrecia

a vida dos outros

na esquina do bairro

do estoque na geladeira

em mão inimiga

o sexo podre

eu era de mim, afã desta cura

mas por humano

também podre

que era o podre o que mais gosto tinha

as coxas duras

a batata mole

o contrato traíra

o perigo na esquina

a dor continua de uma vida

mais crua – ou nua,

ou então desejada

escondida

sem cerne

nem proibida

apenas ao tato

e ao cheiro, percibida

vida podre

que eu bem queria.

ode final para um amor

o amor passional é uma ilusão. o oásis espelhismo do nosso deserto interior. a febre dos olhos. o falso serviço do ser na resistência à solidão.

um pulo confiante de si diante do nada provável de alguém. na fome insaciável da alma a busca pelo alimento final, satisfação divina do eu.

a conjura em promessas do eterno, a sutil esperança de um abraço fugaz que nos salve do morrer. o feliz do encontro, numa certa infalível verdade.

o amor é a mais cruel das mentiras que ansiamos viver, pois o deserto é agreste demais, solitário demais, sem águas demais; e a solidão tem tão poucas palavras, tão poucas ressalvas, tamanha imensidão.

e o salto no abismo é de um oco infindável, sem beiras nem estradas para percorrer, nem a alma – tem calma – sossega ao chegar no silêncio do eu.

e o eterno é tão somente tão pouco, tão vácuo e distante que o fim se finge de cálido amigo, amor ilusório, única maneira de sobreviver, e ainda sorrir.

Espelho de giz na calçada

Fui de uma calçada à outra da Avenida Paulista, subitamente. Olhando de perto, o que do outro lado parecia distante; e agora no longe o que me parecia tão meu. Troquei somente de calçada sem nenhum motivo qualquer. Aliás, aqui entre-nos, faço isso sem pensar, nem predeterminar muitas vezes quando estou nos fluxos pela cidade.

Isso além de ser somente uma escolha fútil, na maioria das vezes não dá em nada especial, apenas o fato de eu mudar de calçada.

Hoje, porém, a calçada estava tomada por fileiras de palavras escritas com gesso. Estas avançavam vindo do asfalto em direção do muro, bem na frente da última casa antiga da avenida, ali na altura do 1909.

De chinelos, de joelhos, de toca até as orelhas, aparentemente bem agasalhado, com a pedra de cal na mão: um homem escrevia. Não me interessei pelo homem: apenas naquelas palavras dele.

Parei para ler desde a primeira linha, e para ler, era necessário ir se deslocando no compasso dos rascunhos brancos, à direita – isso poderia parecer óbvio – por ao menos cinco metros e em algumas frases, um pouco mais.

Eram passagens da vida dele, através do seu filtro filosófico, algumas cenas de violência, sua intuição literária, a experiência lingüística dos seus traços, unido à força da suas mãos, a tristeza eminente de seu passado, as mágoas e os perdões, palavras de ordem e amor, de desapego e altruísmo, de magia e conjuras de outrem, vários desejos devaneios fugazes percursos de o seu acontecer e existir.

O homem permanecia em si, escrevendo, e não se importava comigo, apenas com as palavras dele. Os transeuntes evitavam caminhar sobre os escritos, e menos, não se importavam com nos: um homem escrevia, outro que lia no compasso das letras de gesso.

Eu me vi no espelho de giz no asfalto: as escolhas determinantes, os acasos ocasos do horizonte, minha própria outra calçada, escura e cintilante, com minha pedra de gesso, as minhas palavras dos gestos, eu escrevia de joelhos, outro homem em pé quem me lia.

Chorei paz no silêncio da cidade, dentro do meu abraço e meus pensamentos.

No fim do texto, o homem não estava mais lá. Seu nome assinava o manifesto na calçada, espécie de tag do efêmero sob pisadas e futuras garoas. O enxerguei lá, do outro lado, onde começava o texto – sorte de metáfora da outra calçada – e desta vez por impulso do etéreo, por sede do encontro, e agradecido pelo momento fui até lá.

Apresentamo-nos, de voz e de mãos. Perguntei se ele aceitaria um casaco de lã – algum presente de há anos –, já abrindo a primeira jaqueta que eu levava por cima. Ele a aceitou, e aceitou um caderno de notas novo, e uma caneta preta – havia outra vermelha.

“O caderno eu estava muito precisando” agradeceu e o hálito esfumaçou a voz. Eu lhe agradeci pelas palavras de gesso, uma outra calçada na avenida de mim, e me despedi.

Copiei seu pseudônimo de artes no fim das palavras, outra vez do outro lado deste começo: SANTOLIVE ZIRANCHINHO.

Sobreviventes!

 

História de nos

“Soy un perdedor. I’m a loser baby, so why don’t you kill me?” Beck

Somos o que decidimos ser. Dentre o contexto. Situações e conversões. Caminhos divididos, em fractal.

Somos, e assim deixamos de sermos outros tantos, desconhecidos. Outros dentro de nos, porém preteridos ao invés do que somos.

O caminho às vezes contenta. A história bruscamente tornasse avesso.

No meio do caos de nossos medos e anseios, o sucesso cobra caro do ímpeto e a dedicação. O fracasso faz poesia do triste e a decepção. Assim, é apenas a existência.

Somos, entretanto, também as nuances, e refeitos no espelho dos olhos daqueles. Prefixos do espalhado, dos outros seres ao redor. Entre todos, descobrimos a guerra interminável do dia-a-dia. Cotidianos noturnos de sonhos perdidos.

Desandamos um caminho, agreste e solitário, comum a toda humanidade. Ninguém vive mais do que ninguém.

Somos história apenas de nos.

Milton diz – Eu apenas de mim. Vivendo e narrando: existir.

Somente três anos depois…

No primeiro dia de 2012, ano que se pressentia triste e demorado, eu estava no aeroporto de Brasília. Eu estava regressando de uma dessas semanas de amigos e alegrias. Uma dessas de triste solidão interior.

Começava naquela época me acostumar à ausência do meu filho. Uma ausência pegajosa e perfurante. Pensava nele e uma lágrima despencava pela face. Os dias entardeciam num abismo. Sempre no mesmo abismo sem final: a morte.

Eu não conseguia me acostumar a esse afastamento.

Até esse momento, talvez nunca antes tivesse muito pensado no que seria a vida além de estes sucessivos dias e noites. Havia sido feliz sem me questionar meu futuro. Sem procrastinar o destino. Sem me preocupar com as conseqüências. Eu não sabia, nem queria saber, mas aquele dia começando o ano, era em certa maneira um novo ponto de partida. Talvez menos importante que meu nascimento. Talvez menos significativo que meu primeiro amor. Menos do que aquele adeus a minha família e aquele país. Muito menos que quando nasceu o Benjamín. Mas para mim, diante daquele salão envidraçado e repleto de desconhecidos era como o renascer da minha solidão.

Eu tinha quase todo um dia, esperando um vôo em direção de São Paulo e meu filho. Uma velha lembrança, um quase desejo me inundou. Comprei um caderno e uma caneta. Para mim até a mais simples das compras terminam por me atormentar.

Ali sentado numa mesinha em meio de vários comércios e gente comendo, escrevi uma carta para mim. Uma carta sem envelope nem endereço para entrega, mas uma data marcada para voltar a ler: 20 anos. Sim, vinte anos longos, dolorosos, solitários, estupendos, fantásticos, famintos, necessários, amorosos, rancorosos, esquecidos onde quer que foi.

Vinte anos para fazer e desfazer todas minhas conjuras, meus desejos, promessas e sonhos. Vinte anos para viver estes próximos vinte anos, sem juízos, os desculpas, sem medo, sem revés. Vinte anos somente para esperar ler aquilo que já não lembro mais que escrevi, mas que está ali dentre minhas poucas pertences, sem selo nem cadeado, dentre meus livros e sapatos.

A carta que eu escrevi para mim…

Coisas e assuntos que teimo em desacreditar

Esse sol que amanheceu hoje, não me garante a melanina. Assim, como não garante felicidade o carnaval; nem a fome, um bom prato bem feito. O sono não te leva a novos sonhos, nem os sonhos a uma nova realidade.

Esse anel, moça, não te garante o matrimonio, nem matrimonio garante a esperança.

Esse trabalho, querido, não te garante o fim do mês, como não va garantir aposentadoria; nem viagens ao exterior garante que você conheça seu vizinho. Assim como seu vizinho, não vai garantir uma ajudinha quando você precisar, pois talves seja ele quem esteja no exterior.

Um sorriso não garante o bem-estar. Estar bem é uma atitude, quase um solilóquio com cada um de nossos medos. Assim como o medo não garante a covardia, porque é mais conveniente dar a volta por cima, que cair subitamente nas próprias inseguranças.

Um caminho não conduz a um propósito, mas numa série de acertos e negações. Diga-se de passagem: mais negativas que afirmações.

O retorno não garante a estadia nem o passado, muito menos as memórias. Por isso escreve-se em presente, para poder viver novamente cada dia.

A vida não garante ser vivida, porque dia-a-dia, o mar também vive. E a rocha. As nuvens. E as palavras. Nem a morte te garante teu sossego, gente que é gente, morre ainda em vida, para saber o que é estar morto.

E assim estas letras não garantem meu sustento, mas garantem que eu sobreviva ao meu vazio. Assim como não garanto que isto seja uma verdade: a verdade não garante a sinceridade.

O que garante a verdade não é amor: é o amar.

Crônica da mala pronta

Descobri a vela maior das minhas virtudes. Maestria do que sou, e faço. Não sei se sou tão bom nisto, mas acreditando, me viro. Agora sou o chapeleiro maluco (ouço as palavras do mestre KatigOria), subcomandante jagunço das malas prontas por fazer e sem destino.

Minha primeira mala era de metal metálico: alumínio de chapa prateado. Meu pai que trouxe, minha mãe que colocou o que iria dentro. Num canto tinha comida: goiabada, torradas, essas coisas que duram mais que a fome. Era pesada, e podia pôr nela até dois cadeados. Lembro que tinha uma fenda, ferida de alguma viagem anterior da qual eu nada conhecia.

Mala pronta para o afronto: distante do algo ou alguém. Uma mala bem feita viaja vazia e sem deixar espaço. Qualquer mala leva algo de si e esquece o que não dá para levar.

Eu tive uma mochila verde-oliva. Dentro, quase apenas variações, iam: duas camisas verde-olivas, duas calças verde-olivas, meias manchadas de graxa. Escondia nela minhas primeiras simulações escritas: poesia de formiga, lembranças de disparos, a rotina do tempo perdido, a pele do camaleão acomodado. Mas aquela mochila não era minha, devolvi ao Exército com tudo que havia dentro… dois anos depois.

Mala carrega tempo, emparedado entre silêncios e nostalgias. Apanhado de instantes memoriosos e olvidados. Estilhaços de si próprio – e no espelho, os avessos.

Um dia fiz uma mala por mim mesmo. Dentro votei um país. Empacotei minha família. Dobrei meus amigos. Prensei meus amores num só. Dessertei de um yo. A linha no chão era amarela: a última porta branca: acima havia um vidro mas não dava para ouvir o que gritavam do outro lado. No último aeroporto, a mochila chegou rasgada: nunca mais serviu para viajar.

Uma mala pronta não se entrega em frete, nem se confia ela ao mar. De uma mala pronta não se tem retorno. Não se esperam perdões. Nem precisa desculpar.

Numa manhã de inverno julinho peguei meus cacos e os enfie numa mochila. Acho que estava triste, então não peguei muitos. Demorei em armar toda aquela bagunça de mim. Até hoje ando com essa mochila que um amigo me emprestou (é Fredy, a mochila apareceu).

Agora ela está vazia. Mala pronta para fazer e sem destino.

Eu assino em baixo.

Sub-comandante jagunço samurai do yo.

Sobrevivente.